quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Eleições: qual é a importância de um prefeito na nossa vida?

PONTOS-CHAVE
  • O prefeito é o chefe do poder Executivo municipal. Cabe a ele administrar e planejar a cidade e manter em bom funcionamento os serviços públicos essenciais à população local.
     
  • Ele também decide onde serão aplicados os recursos provenientes dos impostos, quais obras devem ser executadas e programas sociais, culturais e de desenvolvimento a serem implantados.
     
  • Ao viver em uma cidade, somos beneficiados por diversos serviços públicos. Decidir onde e como vai ser aplicado o dinheiro arrecadado é uma tarefa do prefeito.
 
Cerca de 160 milhões de brasileiros estão vivendo nas cidades. De acordo com o Censo de 2010, 84 de cada 100 habitantes moram em área urbana no país. São lugares com populações que variam de 800 habitantes até mais de 11 milhões, com características e desafios muito diferentes entre si.

Em outubro deste ano, os brasileiros terão eleições para definir os próximos prefeitos e vereadores das 5.570 cidades do país (apenas Brasília e Fernando de Noronha não votam no cargo).

Mas você sabe o que faz um prefeito? A palavra “prefeito” deriva do latim praefectus, que significa "homem que está à frente de qualquer coisa; governador, intendente, administrador, chefe”. A pessoa que recebia este cargo na Roma Antiga era “colocada à frente” do comando de certas instituições ou grupos.

O prefeito é o chefe do poder Executivo municipal. Cabe a ele administrar e planejar a cidade e manter em bom funcionamento os serviços públicos essenciais à população local. Ele também decide onde serão aplicados os recursos provenientes dos impostos, quais obras devem ser executadas e programas sociais, culturais e de desenvolvimento a serem implantados.

O mandato de um prefeito é de quatro anos e ele pode ser reeleger, mas apenas uma única vez. Seu salário é definido pela Câmara Municipal e a única regra é que ele não pode ser maior do que ganha um ministro do Supremo Tribunal Federal  (STF).

O desenvolvimento local é um processo gradual de melhoria de qualidade de vida de um território. A função social da cidade está prevista no artigo 182 da Constituição Federal, que entende que a cidade é um bem comum que pertence ao conjunto de sua população. Ela deve oferecer qualidade de vida de forma equilibrada a todas e todos, com oportunidades em variadas dimensões: cultura, lazer, saúde, educação, assistência e inclusão social, transporte, trabalho e renda, moradia, infraestrutura, entre outros.

Ao viver em uma cidade, somos beneficiados por diversos serviços públicos: escolas e creches, habitação, o recolhimento do lixo e construção de aterros sanitários, o fornecimento de água e esgoto, a organização do trânsito, a limpeza das ruas, energia elétrica nas vias públicas, transporte coletivo (ônibus, metrô e trens), postos de saúde e hospitais, segurança pública e defesa civil.

Além disso, a prefeitura define como será realizado o planejamento do uso do solo e do território urbano, as obras de infraestrutura, a concessão de licença para localização e funcionamento de estabelecimentos industriais, comerciais e prestadores de serviços, políticas de preservação ambiental e uso racional dos recursos naturais, entre outros.

Decidir onde e como vai ser aplicado o dinheiro arrecadado é uma tarefa do prefeito. Ele deve entender os principais problemas das comunidades para fazer um planejamento eficiente. Como líder político, eleito pelo povo, ele precisa dialogar com a população, conhecer suas necessidades, mobilizar recursos e negociar conflitos de interesse.


 O prefeito dirige toda a máquina da Prefeitura, com o auxílio de uma equipe de secretários e dos responsáveis por diversos setores. Ele e sua equipe montam uma proposta de orçamento, que precisa ser aprovada pela Câmara de Vereadores. Em algumas cidades, a definição do orçamento também conta com a participação da população (o chamado orçamento participativo).

Existe ainda o planejamento participativo, que conta com a participação de grupos e representantes da sociedade civil e a realização de audiências para toda a população interessada. Nesse caso, é desenhado coletivamente um Plano Diretor da cidade, que tem como objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.

Para realizar todas as tarefas essenciais à população, as prefeituras contam principalmente com o dinheiro arrecadado pelo IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e ISS (Imposto Sobre Serviços). Na grande maioria das cidades essa verba não é suficiente, por isso, elas contam com um repasse de recursos do Governo Federal e do Governo Estadual.

Realizar uma boa gestão financeira tem sido o principal desafio dos prefeitos do Brasil hoje.  Em 2016, 80% do dinheiro gasto por mais de dois terços das prefeituras vêm de transferências e fontes externas à sua arrecadação. Dessas fontes de recursos, a maior parte tem origem no Fundo de Participação dos Municípios (FPM), mantido pelo Governo Federal.

O município é regido pela lei orgânica elaborada por sua câmara municipal, que permite autonomia jurídica para legislar sobre assuntos de interesse local. Além da Constituição Federal, a lei orgânica deve respeitar as normas da constituição estadual.

Os vereadores discutem e votam projetos na Câmara Municipal que podem ser transformados em leis. As propostas aprovadas pelos vereadores são enviadas ao prefeito, que tem o poder de sancionar (aceitar) ou vetar essas leis, ou ainda, apresentar novas propostas. O prefeito também precisa do apoio da maioria na Câmara Municipal, para conseguir aprovar os projetos de que necessita.

E como saber ser a gestão da prefeitura está sendo realizada do jeito correto? Todo ano o prefeito precisa prestar contas de sua gestão em um relatório geral. Esse documento precisa ser aprovado pela Câmara Municipal e pelo Tribunal de Contas municipal. Se essa prestação tiver alguma irregularidade e for rejeitada por 2/3 da Câmara, ele pode perder o mandato e ficar proibido de se candidatar de novo.

O trabalho também pode ser fiscalizado pela população. A Lei Complementar 131/2009, conhecida como a “Lei da Transparência”, determina a disponibilização, em tempo real, de informações sobre a execução orçamentária de cada Ente da Federação. Já a Lei 12.527/2011 – “Lei de Acesso à Informação” – permite ao cidadão ter informações dos órgãos públicos que sejam de seu interesse particular ou coletivo.

Um bom jeito de acompanhar os dados da sua cidade é acessar os chamados “Portais da Transparência”, sites que disponibilizam na internet informações sobre a execução orçamentária e financeira de um município. Outra opção para acompanhar a gestão da prefeitura é ler a publicação do Diário Oficial da sua cidade, um jornal criado e mantido pelo governo local para publicar todos os atos oficiais e ações da administração pública executiva, legislativa e judiciária. 
 
Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação
 

Tarifa zero: Desafio é levar modelo de cidades pequenas para metrópoles

29.out.201 5- Manifestantes do Movimento Passe Livre queimam catracas simbólicas durante protesto a favor da tarifa zero, na região central de São Paulo
 
Em junho de 2013, as manifestações que tomaram as ruas do Brasil no mês de junho foram começaram com o Movimento Passe Livre, que protestava contra o aumento da tarifa do transporte público e a favor da tarifa zero. No início de 2016, com outro reajuste, novos protestos voltaram às ruas para pedir o transporte público gratuito. Mas a pergunta é: seria essa uma ideia viável?
 
Em algumas cidades do Brasil e do mundo essa é uma realidade viável. Agudos, no interior de São Paulo, e Maricá, no litoral do Rio de Janeiro, são dois exemplos nacionais. Na primeira, uma cidade de 40 mil habitantes, a gratuidade funciona desde 2003. Todos os funcionários da rede de transporte são concursados pela prefeitura. Já no exemplo fluminense, uma cidade de 150 mil habitantes, o benefício começou em 2013.
 
No mundo, são 86 cidades, em 24 países, que não cobram tarifa para que a população acesse o transporte público. A cidade de Colomiers, na França, é uma das mais antigas nesse quesito. Oferece um sistema de transporte gratuito desde a década de 1970 aos seus 33.000 habitantes. Nos Estados Unidos a maior parte está em áreas rurais ou cidades mais afastadas.
 
Todos os exemplos onde o transporte gratuito foi implantado acontecem em cidades de pequeno porte. Cada uma recorre a um modelo de gestão: a prefeitura assume os custos (o que funciona para cidades pequenas, onde manter uma estrutura de cobrança não compensa), elevar o imposto territorial para pessoas de maior renda, cobrança de uma taxa anual da população para o transporte e parcerias com empresas (algumas poderiam ser beneficiadas ao reduzirem gastos com transporte de funcionários e que poderiam destinar um valor menor ao setor), oferecer o benefício a um grupo específico da população, entre outros.
 
A grande questão é adaptar a prática às grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, com milhões de habitantes e uso intenso da rede de transportes. É possível? Teriam os governos e prefeituras condições de custear esse sistema?
 
Para quem defende a ideia, o transporte deveria entrar na lista de serviços já gratuitos como educação, saúde e segurança. 
 
O direito à cidade está diretamente ligado à possibilidade que os diversos grupos sociais têm de se deslocarem pelos centros urbanos. Por exemplo: saúde e educação são serviços gratuitos garantidos pela Constituição. Mas a população só tem acesso a eles através do transporte. Ou seja, o acesso a esses serviços está relacionado à possibilidade da população de acessá-los. 
 
Na cidade de São Paulo, a gestão Luiza Erundina em 1990 chegou a apresentar um projeto sobre o tema. Para custear o sistema, seria implantado o Fundo de Transporte, que reservaria parte do dinheiro coletado no IPTU. Dessa forma, o custo do transporte coletivo para os cidadãos seriam proporcionais a seus ganhos salariais. Como a proposta elevaria o IPTU acabou não aprovada.
 
Dificuldades existem. Para tornar essa ideia viável, as administrações precisam se reorganizar e rever como gastam seu orçamento. Citando um exemplo: se por um lado a gratuidade reduz o gasto com sistemas de cobranças, aumentar a frota de ônibus para uma demanda maior de usuários faz a conta subir de outro. 
 
O atual prefeito da capital paulista, Fernando Haddad, declarou ao jornal Valor Econômico que, para custear um sistema de transporte gratuito, seria necessário investir os R$ 8 bilhões que a prefeitura arrecada com o IPTU local. 
 
Para ele, a ideia de um transporte gratuito para toda a população é inviável financeiramente. Mas a população poderia optar se concorda ou não em direcionar todo o valor da taxa para o setor. Em São Paulo a gratuidade é concedida para aposentados, deficientes e estudantes do ensino médio e fundamental da rede pública.
 

Exemplos pelo mundo

 
Num debate sobre mobilidade urbana hoje, o apego a modelos antigos será sempre um obstáculo a ser ultrapassado. Isso ocorre devido à valorização do veículo individual, reflexo das facilidades concedidas por diversos governos, inclusive o brasileiro, à indústria automobilística, e a toda uma indústria que lucra e emprega no atual sistema de transporte público e não sabe como operar em um formato diferente. 
 
No entanto, há outras possibilidades de se adotar ou testar a gratuidade do transporte público. O governo de Bogotá, por exemplo, em vez de tornar todo o transporte gratuito subsidia passagens para os mais pobres. Já Perth, na Austrália, cidade com quase dois milhões de habitantes, instituiu ônibus gratuitos apenas em seu centro comercial.
 
A maior cidade a investir no transporte coletivo gratuito no mundo foi Tallinn, capital da Estônia, na Europa. Com pouco mais de 400 mil habitantes, a administração local decidiu cadastrar todos os moradores da cidade para que apenas eles utilizassem o transporte gratuito. 
 
Lá, todos os impostos dos moradores são recolhidos e, entre outros serviços, parte da arrecadação é destinada ao sistema. Dessa forma, quem é de fora, como turista, não é beneficiado. Tallinn também possui estacionamentos públicos para carros, o que ajuda a aumentar o orçamento para o setor de transporte.
 
A gratuidade trouxe alguns problemas. Há ônibus mais cheios e uma parte dos usuários reclama do aumento de moradores de rua nos coletivos. Após quatro meses de implantação do sistema, o uso de ônibus subiu 12,6%, e o de carros caiu 9%.
 
Além de estimular o uso mais democrático do espaço da cidade, a gratuidade no transporte público aumenta o acesso a ele levando à redução do uso de carros e, consequentemente, da poluição e do trânsito.
 
No momento em que o debate é cada vez mais acalorado, vale acompanhar o desdobramento do que vem sendo feito nessas cidades menores. As experiências podem até se mostrar equivocadas, mas podem abrir caminho para um novo jeito de pensar o transporte público nas grandes metrópoles.

BIBLIOGRAFIA

 
Carolina Cunha
 

400 anos sem Shakespeare: autor revolucionou o teatro, a linguagem e a literatura

“Ser ou não ser. Eis a questão”. “O amor é cego” - “Até tu, Brutus” - “Meu reino por um cavalo” - “Há algo de podre no reino da Dinamarca” - “Isso parece grego pra mim” - “Nem tudo o que reluz é ouro” - “O que não tem remédio, remediado está” - “Mais pra lá do que pra cá” - “Sem pregar o olho” - “Dias melhores virão”.
 
Você sabe quem criou essas frases e expressões tão populares?
 
Todas nasceram da cabeça de William Shakespeare (1565-1616) e fazem parte de diálogos de suas peças. Ele foi autor de 38 peças (entre históricas, comédias e tragédias), como Hamlet, Romeu e Julieta, Otelo, Macbeth, Sonho de Uma Noite de Verão, Ricardo III, Rei Lear, A Megera Domada, A Tempestade, entre outras. Fora dos palcos, escreveu 154 sonetos e uma variedade de outros poemas. Apesar de essas histórias terem sido escritas há séculos atrás, elas ainda são atuais e trazem temas que nos preocupam até hoje.
 
Shakespeare escreveu os maiores clássicos do teatro se tornou o dramaturgo mais conhecido de todos os tempos, tendo influenciado toda a produção teatral e literária que viria depois. Também é o mais encenado do mundo. Em 2016 comemoram-se os 400 anos do nascimento do bardo inglês, que morreu aos 52 anos de idade.
 
Mas em que contexto surgiu o dramaturgo e qual foi o seu legado?
 
O mundo de Shakespeare era um mundo em transição, transformado pelo Renascimento, pelas Grandes Navegações que descobriram o Novo Mundo, pelo iluminismo heliocentrismo de Copérnico (que provou que a Terra girava em torno do Sol). Novas tecnologias apareceram e mudaram tudo, como a invenção da prensa de Gutenberg, que permitia a cópia de livros e impressos. As cidades começaram a crescer e a burguesia a florescer, resultado das atividades mercantis. Um mundo com maior presença da razão começava a ganhar força e a moldar as raízes do homem contemporâneo. Apesar disso, guerras e violência também se alastravam pela Europa, principalmente para a formação de Estados.
 
O período que compreende o reinado da rainha Elizabeth I (1558-1603) é considerado o auge do renascimento naquele país, com os maiores destaques para a literatura e a poesia. Nessa época, um grupo de jovens escritores começou a escrever peças e deu início ao chamado teatro elisabetano, que se tornou o principal meio de entretenimento de massa da época. Entre 1560 e 1642, mais de 50 milhões de pessoas passaram por casas de espetáculos, um número soberbo se pensarmos que a Inglaterra tinha 4,8 milhões de habitantes em 1600.
 
Os teatros, na época, eram amplos prédios de madeira, abertos no teto e geralmente circulares. Eles atraiam um grande público, que se distribuía em bancos ao redor do palco. No teatro elizabetano, os autores exploraram novos gêneros como as comédias românticas e as tragicomédias. O teatro começou a disseminar a mudanças de costumes. Algumas companhias realizavam turnês pelo interior, levando os espetáculos, recheados de críticas sociais, para públicos que viviam longe das grandes cidades, divulgando novas ideias e aumentando o interesse popular pela arte.
 
 
Filho de um rico comerciante, em 1591, o jovem William Shakespeare decidiu sair da cidadezinha de Stratford-upon-Avon e se mudou para Londres. Não se sabe ao certo como começou a carreira. Tornou-se ator, escreveu peças e virou diretor do Teatro Globe, o mais prestigiado da capital. Sua trupe era considerada a número 1 da cidade e se apresentava para todo tipo de plateia, conseguindo entreter ao mesmo tempo os nobres e o povo. O dramaturgo assimilou o que já havia sido feito e impulsionou sua criação em uma grande variedade de gêneros, como o drama histórico e a comédia romântica.
 
A Idade Moderna tirou Deus do centro do universo e colocou o homem em seu lugar. Uma das características do Renascimento é o individualismo, que se transformou em otimismo, na medida em que ampliou a crença nas próprias potencialidades do homem e em um espírito de aventura intelectual e artística.
 
Segundo o crítico literário Harold Bloom, as criações do dramaturgo expressaram o conhecimento e o espírito da época moderna, que definiu a condição humana como entendemos hoje. Em Shakespeare, o homem é o responsável pela construção do próprio destino. Os personagens deixam de ser guiados pelo sobrenatural e assumem uma atitude crítica diante de suas vidas.
 
Bloom escreve: “Antes de Shakespeare, os personagens literários são, relativamente, imutáveis. Homens e mulheres são representados, envelhecendo e morrendo, mas não se desenvolvem a partir de alterações interiores, e sim em decorrência de seu relacionamento com os deuses. Em Shakespeare, os personagens não se revelam, mas se desenvolvem, e o fazem porque têm a capacidade de se autorrecriarem. Às vezes, isso ocorre porque, involuntariamente, escutam a própria voz, falando consigo mesmos ou com terceiros”.
 
A dramaturgia shakespeariana é conhecida por sua extensa galeria de personagens emblemáticos e todas as idades como Hamlet, Ofélia, Otelo, Iago, Cleópatra, Rei Lear, Macbeth, Desdêmona, Rosalinda, entre outros. Shakespeare criou mais de mil personagens, muitos são dotados de uma dimensão interior nunca vista antes nas histórias. Suas peças destacam-se pela profundidade filosófica e metafísica e pela complexa caracterização dos personagens. Segundo Bloom, esses fortes personagens são exemplos extraordinários não apenas de geração de significado, em lugar de sua mera repetição, como, também, de criação de novas formas de consciência.
 
A paixão mortal de Romeu e Julieta, que queriam se casar por amor e não por interesses (diferente dos costumes da Idade Média), o ciúme cego do mouro Otelo, que acaba destruído por esse sentimento doentio, a ambição de Macbeth, que assassina o rei para assumir o trono e a tragédia de Rei Lear, monarca que acaba por perceber que o poder é transitório. Esses conflitos podem ser encontrados em filmes e novelas da atualidade.
 
Seus personagens vão do desespero à felicidade, em tramas que falam de amor, loucura, guerra, disputa pelo poder, política, liberdade, amizade e paixão. "As coisas em si mesmas não são nem boas nem más. É o pensamento que as torna desse ou daquele jeito”, escreve Shakespeare.
 
Ele criou alguns dos primeiros anti-heróis da literatura, protagonistas que não possuem vocação heroica, tem um quê de malvado, podendo realizar a justiça por motivações egoístas, mas que contam com a empatia do público.
 
Uma das obras mais estudadas é Hamlet. Na trama, o príncipe da Dinamarca vive feliz, bajulado pelos amigos e pela corte. Quando recebe a visita do fantasma de seu pai, morto poucos dias antes, descobre que o tio – agora casado com sua mãe e dono do trono – é o assassino. A traição o deixa atormentado e Hamlet passa a questionar o valor da vida e questiona o dilema de vingar ou não o pai. Mas ele ficou paralisado pelo conhecimento de uma verdade profunda. A reflexão sobrepõe à ação, algo impensável na literatura até então.
 
“Ser ou não ser, eis a questão”, diz Hamlet, no ponto alto da peça. Muitos críticos entendem que essa frase simboliza o espírito existencialista do homem. Hamlet também provocou o interesse de Sigmund Freud, que o estudou sob a luz da psicanálise. “O conflito em Hamlet está tão eficazmente oculto que coube a mim desenterrá-lo”, escreve Freud em uma carta a um amigo.
 
Em se tratando de invenção, Shakespeare também foi um grande inventor de palavras. Ele inovou na linguagem ao introduzir palavras novas na língua inglesa, adaptar palavras de dialetos locais e usar várias formas da linguagem popular. Shakespeare usava um vocabulário muito vasto.
 
Naquele tempo, a língua inglesa ainda estava em formação e contava com cerca de 150 mil palavras. Em 1605, na Biblioteca de Oxford, entre os 6 mil volumes apenas 36 livros eram inglês. O dramaturgo usou em seus textos quase 20 mil palavras e criou mais de três mil novas termos. A linguagem estava sendo cunhada dentro do teatro. Hoje Shakespeare é considerado o maior escritor da língua inglesa.
 
BIBLIOGRAFIA
Shakespeare: A Invenção do Humano, de Harold Bloom (Editora Objetiva)
Shakespeare de A a Z. Frases selecionadas por Sergio Faraco (L&PM)
Como Shakespeare se tornou Shakespeare, de Stephen Greenblatt (Companhia das Letras)
 
Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação
 

Física: Previstas por Einstein há 100 anos, ondas gravitacionais são detectadas pela primeira vez

Uma poderosa colisão entre dois buracos negros foi registrada pela primeira vez em fevereiro. É a primeira vez que pesquisadores confirmam diretamente a existência das ondas gravitacionais
 
Ondas são vibrações propagando-se pelo espaço, transmitem energia, e, portanto, podem ser detectadas. Entre os séculos 19 e 20 foi decifrada a onda eletromagnética. Muitas tecnologias foram possíveis por causa dessa descoberta, como a televisão, o micro-ondas e a internet. No século 21, a ciência buscou provar a existência da onda gravitacional, prevista por Albert Einstein há 100 anos.
 
Em fevereiro de 2016 um consórcio de cientistas do Observatório de Interferometria a Laser de Ondas Gravitacionais (LIGO), nos EUA, capturou o som de ondas produzidas pela fusão de dois buracos negros. A descoberta causou sensação no mundo todo. É a primeira vez que pesquisadores confirmam diretamente a existência das ondas gravitacionais.
 
Em 1916, Albert Einstein havia previsto a existência desse fenômeno como consequência de sua teoria da Relatividade Geral, que explica a força gravitacional (gravidade) como uma distorção do espaço e do tempo. Os corpos celestes em movimento acelerado liberam parte da sua massa em forma de energia através dessas ondas de gravidade, que se propagam com a velocidade da luz. Mas o físico imaginou que não seria possível detectá-las porque a amplitude dessas ondas é pequena e seu sinal seria muito fraco ao passarem pela Terra.
 
Uma onda gravitacional é uma onda no tecido do espaço-tempo (conjunto de quatro dimensões formado por espaço tridimensional e o tempo). As ondas eletromagnéticas podem ser vistas como bolas de bilhar que se deslocam na superfície plana da mesa, representando as dimensões que conhecemos enquanto as ondas gravitacionais teriam a liberdade de perfurar o plano da mesa, para cima e para baixo. Elas atravessam tudo e poderiam até viajar para outras dimensões.
 
Imagine que o espaço inteiro seja uma folha de borracha gigantesca. A forte colisão entre objetos muito maciços e em movimento libera energia em forma de ondas, que deformam a folha da borracha, ou seja, a colisão gera uma distorção do “tecido” do espaço-tempo à sua volta. Isso faz com que as ondas possam mudar levemente a órbita de um planeta, por exemplo.
 
As ondas gravitacionais se propagam como um eco constante através do espaço. Viajam à velocidade da luz e nada pode detê-las. Elas são comparáveis às ondas que se deslocam na superfície de um lago ou com o som no ar. Em cada ponto da superfície temos uma oscilação, com a superfície subindo e descendo ritmicamente. As frequências de algumas ondas coincidem com as do som, por isso podem ser traduzidas para serem escutadas em forma de suaves assovios.
 
Quais são as fontes das ondas gravitacionais? Apenas grandes massas, movendo-se sob fortes acelerações, podem produzir essas ondulações em um grau razoável. É possível emitir ondas gravitacionais a partir de buracos negros e estrelas compactas muito densas e em rotação, como os pulsares.
 
Quando uma onda gravitacional se move, ela vai esticar, comprimir ou enrugar qualquer coisa em seu caminho, da mesma forma que uma pessoa distorce o colchão ao dormir. Mas a compressão seria minúscula, uma mera fração do diâmetro do átomo, o que torna a onda muito difícil de ser detectada quando ela passar pela Terra.
 
As ondas detectadas pelo LIGO são distorções do espaço-tempo produzidas pelos momentos finais de uma colisão entre dois buracos negros que tinham 29 vezes e 36 vezes a massa do nosso Sol. Em cerca de 0,45 segundo, o par de buracos negros espiralou e colidiu. Da fusão dos dois, surgiu um outro com massa muito mais elevada (62 vezes a do Sol).
 
O evento aconteceu há 1 bilhão de anos-luz do planeta Terra. Ao chegarem na Terra, depois de 1 bilhão de anos de viagem, porém, a energia e a amplitude dessas ondas estavam tão diluídas que apenas os instrumentos supersensíveis como os do LIGO foram capazes de percebê-las.
 
O estudo das ondas gravitacionais abre um novo campo de pesquisa na astronomia sobre a compreensão de como o Cosmos nasceu e está estruturado. A descoberta abre a porta para uma nova maneira de observar o Cosmos e pode ajudar a compreender alguns de seus enigmas.
 
A possibilidade de observar o universo em ondas gravitacionais e não apenas em ondas eletromagnéticas, como a luz, abre a perspectiva de descoberta de fenômenos antes invisíveis para os astrônomos. Apenas 4,9% da composição do universo é considerada matéria visível. Agora os físicos poderão olhar os objetos com as ondas eletromagnéticas e escutá-los com as gravitacionais.
 
Uma aplicação prática é no campo de estudos sobre os buracos negros, porque eles sugam tudo o que está à volta, não deixando escapar nem matéria nem luz. Até hoje, o único jeito de examinar esses corpos celestes era de forma indireta, pelos rastros de energia eletromagnética que outros corpos expelem quando estão prestes a ser engolidos. Ou seja, o experimento já resultou na primeira prova direta de que os buracos negros realmente existem.
 
Os cientistas também poderão estudar sobre o Big Bang, o evento que ocorreu há quase 14 bilhões de anos. A Teoria da Relatividade Geral diz que, pouco depois do início do universo, criado pelo Big Bang, a sua expansão abrupta produziu ondulações no espaço-tempo – as chamadas "ondas gravitacionais". É possível que essas ondas estejam “navegando” pelo Cosmos e estudá-las seria como entender a origem de tudo.
 
A confirmação da existência das ondas gravitacionais também mexe com a imaginação. Alguns físicos afirmam que futuramente, seria possível viajar no tempo ou no espaço. Einstein descreveu que o tempo é um conceito relativo. Ele pode ser distorcido pela gravidade e pela velocidade. Com base em cálculos, seria possível fazer um “atalho” entre dois pontos distantes e pular de um ponto do espaço e do tempo para outro. Será que os filmes de ficção científica se tornarão realidade num futuro próximo?
 
Carolina Cunha
 

Poluição: Superfície da Terra está dominada por partículas de plástico 9

Concentração de plástico e materiais descartados é vista flutuando no Oceano Pacífico
 
A Terra é uma grande superfície de plástico. Restos de embalagens, sacolinhas de supermercado, garrafas pet, celulares, computadores, baldes, brinquedos, material de construção civil e outros produtos estão em todos os cantos do planeta, incluindo as profundezas dos oceanos e dos rios.
 
Uma pesquisa da Universidade de Leicester publicada em janeiro deste ano pela revista científica Anthropocene mostrou que desde a Segunda Guerra Mundial a humanidade já produziu plástico suficiente para revestir toda a Terra.
 
Ao ar livre, o sol se encarrega de quebrar os fragmentos de plástico em pedaços cada vez menores. No entanto, os polímeros que os compõem ficam na atmosfera. Segundo a pesquisa, boa parte dessa poluição está se espalhando pelo solo, ar e água em formato de grãos microscópicos altamente nocivos e que percorrem distâncias surpreendentes na superfície do planeta. Os grãos são encontrados nas cidades, na zona rural, nos oceanos, nas camadas polares e até em lugares remotos de todos os continentes.
 
O plástico tradicional é produzido a partir do petróleo. Nos últimos 50 anos, o consumo do material no mundo aumentou em 20 vezes. Cerca de 311 milhões de toneladas são produzidas a cada ano. Até o final deste século, a estimativa é que o planeta receba 30 bilhões de toneladas de plástico. O impacto no planeta será colossal, segundo os cientistas.
 
A capacidade de reciclagem do plástico é muito baixa se comparada a outros materiais como o vidro e o papel. Uma sacola plástica, por exemplo, pode demorar até 500 anos para se decompor na natureza. Já a garrafa pet pode demorar até 200 anos. Alguns polímeros são considerados praticamente indestrutíveis.
 
O estudo da Universidade de Leicester conclui que a presença dessas moléculas representa o marco de uma nova era geológica. A confirmação dessa tese poderá pôr fim ao período do Holoceno, que teve início há 12 mil anos, e marcar o início do Antropoceno.
 
A tese estudada por geólogos avalia se as atividades humanas estão alterando a geologia do planeta, como a radiação e as emissões de gases de efeito estufa. Segundo eles, o período Antropoceno já começou. E a presença de plásticos que alteraria o equilíbrio do planeta seria um dos motivos.
 
Quando muitos animais e plantas são extintos em pouco tempo, a geologia considera que o fenômeno significa o início de outra era. O termo “Antropoceno” foi criado em 2000 por Paul Crutzen, químico atmosférico ganhador do Prêmio Nobel. Ele significa que as mudanças que estão acontecendo na atmosfera são movidas pela ação humana.
 

As ilhas de plástico nos oceanos

 
No meio do Oceano Pacífico, entre a Califórnia e o Havaí, existe uma gigantesca ilha feita inteiramente de lixo. Seu nome é popularmente conhecido como o “Grande Depósito de Lixo do Pacífico”.
 
Com aproximadamente o tamanho da Inglaterra, a ilha é formada por pedaços minúsculos de plástico que foram arrastados para um ponto de convergência de diversas correntes marinhas. Grande parte dos resíduos do Atlântico e do Índico também acaba se dirigindo para o Pacífico.
 
Por causa das correntes e dos ventos, o lixo fica encurralado girando em uma espiral gigantesca. Além do lixo que boia na superfície, as manchas têm camadas de resíduos com até 10 metros de profundidade.
 
A China, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietnã são os países que contribuem com mais da metade da quantidade de lixo plástico no oceano Pacífico. Um dos motivos é a falta de gestão de resíduos nesses países em desenvolvimento. Além da poluição e do descarte de resíduos em cidades nas costas, os rios também carregam o material para o mar.
 
Mas essa ilha de lixo não é a única. Existem pelo menos outros quatro lixões oceânicos similares, além de algumas formações menores nos dois extremos dos polos do planeta. Há estimativas de que 10% de todo o lixo plástico – algo como 91 milhões de toneladas anuais – acaba nos oceanos. Ao chegar aos mares, a maior parte do material acaba afundando, mas cerca de um terço do total é arrastado para essas zonas de atração.
 
Se o consumo continuar em 2050, estudiosos acreditam que haverá mais plástico nos oceanos do que peixes. A consequência para a fauna é desastrosa. Uma vez que o plástico entra na água, aves, peixes tartarugas, baleias, focas e outros seres podem confundir o material com comida. Muitos deles podem morrer sufocados.
 
Os plásticos menores são facilmente ingeridos por esses animais que se encarregam de disseminar a contaminação via cadeia alimentar. Como as ilhas de plástico têm alta concentração de poluentes orgânicos persistentes, com o pesticida DDT e dioxinas, a sua toxicidade é bastante alta. Até mesmo os plânctons comem as micropartículas e absorvem suas toxinas. Ao comer peixes que passaram por essas regiões, o ser humano ingere também os produtos tóxicos absorvidos pelos animais.
 
Como combater esse problema ambiental? Limpar a área completamente seria muito difícil. O ideal seria que países cuidassem do descarte de forma responsável. Para complicar, ainda não existe um acordo global ou uma negociação internacional para reduzir o problema. Um dos entraves é a discussão sobre de quem é a responsabilidade.
 
Por enquanto, o jeito mais fácil é reduzir o consumo de plástico. Por exemplo, não usar sacolinhas plásticas no supermercado ou evitar o uso de canudinhos e bebidas engarrafadas. Outras medidas seriam empresas inovarem em tecnologia e mudarem suas matérias-primas para materiais recicláveis.
 
BIBLIOGRAFIA
Plástico Bem Supérfluo ou Mal Necessário?, de Eduardo Leite do Canto (Moderna)
Artigo O futuro dos plásticos: biodegradáveis e fotodegradáveis, de Alessandra Luzia Da Róz (Ufscar; 2003).
 
Disponível online
Carolina Cunha
 
 

Geografia: a economia brasileira passa por um processo de desindustrialização?


Pontos-chave
  •  A participação da indústria na economia brasileira é cada vez menor. Dados recentes sugerem que o Brasil passa por um processo de desindustrialização, fenômeno que se refere à perda acentuada da atividade industrial.
     
  • Em 1985, a indústria de transformação respondia por 25% do PIB brasileiro. Desde então, foi perdendo substância e hoje em dia responde por menos do que 15% do PIB do país.
     
  •  Nos países desenvolvidos, a desindustrialização é um processo natural. Com o desenvolvimento econômico, a participação dos serviços sofisticados aumenta, e, em consequência, a participação da indústria de transformação cai. Mas não é o caso do Brasil.
     
  • Esse processo foi causado por uma série de fatores como a competição com a economia chinesa, o câmbio sobrevalorizado (valorização da moeda), a falta de inovação, os juros elevados e os custos implícitos do sistema produtivo nacional.
Quando foi a última vez que você comprou um produto fabricado no Brasil? É provável que a maior parte dos produtos que você use seja importada. Não por acaso. A participação da indústria na economia brasileira é cada vez menor. Dados recentes sugerem que o Brasil passa por um processo de desindustrialização, fenômeno que se refere à perda acelerada da atividade industrial.
 
O principal problema está no setor de manufaturados. É ele que abrange a produção de bens com maior complexidade. Em 1985, a indústria de transformação, aquela que converte matérias-primas em produtos, respondia por 25% do PIB brasileiro. Desde então, foi perdendo substância e hoje em dia responde por menos do que 15% do PIB do país. Em 2014, o setor chegou a 10,9%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
 
A indústria tem por finalidade transformar matéria-prima em produtos que possam ser vendidos. Ela é uma das três atividades econômicas (ao lado dos serviços e da agropecuária) e possui grande importância para o Produto Interno Bruto (PIB) de um país. Desde que a indústria surgiu na Revolução Industrial, no fim do século 18, ela tem sido o motor de crescimento do capitalismo.
 

A globalização e a tecnologia

 
Após a Guerra Fria, o mundo sofreu um processo de globalização que trouxe a integração econômica dos continentes e o aumento dos fluxos internacionais de mercadorias. O capitalismo global é caracterizado por forte competição econômica, não apenas entre as empresas, mas entre os países. Um dos efeitos da globalização é a dispersão espacial da indústria. Ao invés de produzir em seu país de origem, empresas transnacionais montam unidades industriais em países que oferecem custos mais baratos. 
 
Nos anos 1990, países que até então eram considerados menos desenvolvidos entraram na rota da internacionalização da produção industrial como China, Singapura, Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia e Índia. As economias emergentes conquistaram seu espaço no mercado mundial ao oferecer abundância de matéria-prima e baixos salários.
 
Os países asiáticos foram os que alcançaram o maior crescimento, com destaque para a China. A partir de 1990, os chineses se tornaram gigantes do setor industrial, com uma política orientada para a exportação e investimento em infraestrutura. O país elevou a marca de 3% da produção global de manufaturados em 1990 para aproximadamente 20% em 2010, superando os Estados Unidos. Em três décadas, a China multiplicou o PIB em 17 vezes.
 
A globalização também trouxe a inovação como um fator-chave de uma economia dinâmica. Novas tecnologias revolucionaram o modo como as pessoas se relacionam com o mundo. A produção de tecnologia de ponta se tornou um importante vetor de mudanças, em um ritmo cada vez mais acelerado.
 
A inovação introduz novos produtos, processos e modelos de negócios. Isso não quer dizer que países em desenvolvimento não possam ter tecnologias inovadoras, como a indústria aeronáutica do Brasil e a eletrônica da China.

 
Os serviços também ganharam cada vez mais importância na estrutura econômica. Nos países industrializados mais avançados a maior contribuição para o PIB vem atualmente do setor de serviços, não do industrial. Isso significa que a estrutura econômica está mais concentrada em itens de maior valor agregado.
 
Até mesmo na indústria. A indústria é, hoje, uma grande consumidora de serviços que agregam valor: marketing, planejamento, logística, serviços financeiros e assistência técnica. Quanto mais complexa a estrutura industrial de um país, mais sofisticada é a rede fornecimento de serviços. 
 
O fenômeno da desindustrialização pode ser observado em cidades e em países industrializados. Seria um processo natural em locais que tiveram grande crescimento industrial e que atingiram seu pico de desenvolvimento, possuem uma estrutura industrial de ponta ou foram impactados por mudanças no mercado.
 
Se nos países asiáticos o estímulo do desenvolvimento foram os baixos custos de produção, nos países desenvolvidos a inovação e o conhecimento se transformaram nos motores da economia. Com investimento em pesquisa e desenvolvimento, cada vez mais a vantagem competitiva dos países desenvolvidos não está na produção e exportação de manufaturas em si, mas no uso de tecnologia exclusiva, das atividades criativas, na força da marca e na criação de produtos diferenciados.
 
Enquanto a montagem de um produto foi terceirizada para os países emergentes, os países ricos passaram a investir mais em educação. Novos polos industriais de tecnologia surgiram em diversos países, como o Vale do Silício, na Califórnia (EUA), que oferece um grande cenário de investimentos. São lugares que não se localizam mais nas áreas onde existe abundância de matérias-primas, mas próximos a importantes centros de pesquisa e de ensino universitário.
 
Em países em desenvolvimento, a desindustrialização está muito mais ligada aos processos de substituição de importações. Esse pode ser o caso do Brasil. Aqui o setor de serviços já responde por 71% do PIB brasileiro. Mas não porque temos uma indústria de ponta. Segundo economistas, a desindustrialização no Brasil seria um processo precoce (a indústria ainda não teria atingido o seu potencial máximo) e se deve a deficiências internas, principalmente à perda da competitividade das empresas brasileiras, impactada com a falta de inovação local e a entrada maciça de produtos asiáticos no mercado doméstico.
 

A industrialização brasileira e gargalos

 
A industrialização no Brasil começou tardia, no início do século XX. Em 1920, o Brasil já possuía 200 mil operários nas indústrias. Durante o Estado Novo (1937-1945) a economia brasileira se caracterizou pela forte intervenção estatal do governo de Getúlio Vargas. Até 1950 foram criadas importantes companhias estatais no setor de base que foram fundamentais para o processo de desenvolvimento industrial, como a Companhia do Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional e a Petrobras.
 
Na década de 1940 a atividade industrial teve um impressionante crescimento de 11,25% ao ano. Nas décadas seguintes houve um grande investimento em infraestrutura (portos, ferrovias, estradas, energia elétrica, etc.) e a indústria continuou a crescer, impulsionada pelo forte mercado consumidor interno. O processo se consolida até o final da década de 1970, período em que o Brasil possuía uma estrutura industrial diversificada e integrada. 
 
A partir de 1980, a indústria brasileira começa um período de declínio e estagnação e o país viveu um período de inflação alta. Nos anos 1990, o país fez uma abertura comercial e diminuiu as tarifas de importações, o que abriu o mercado para novos concorrentes. O mercado interno foi inundado por bens importados.
 
A partir dos anos 2000, a inflação foi controlada (gerando estabilidade de preços) e houve o crescimento do consumo no Brasil, impulsionado por políticas públicas. Apesar desse cenário, os produtos manufaturados brasileiros perderam competitividade e espaço no mercado interno e global. O governo estimulou o consumo da população, mas a indústria não conseguiu melhorar a capacidade produtiva e crescer.
 
Um dos principais problemas é que o custo de se produzir aqui é maior em relação aos asiáticos. Segundo dados de 2013 da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o produto nacional é em média 34% mais caro do que um similar importado. Esse processo foi causado por uma série de fatores como a competição com a economia chinesa, o câmbio sobrevalorizado (valorização da moeda), a falta de inovação, os juros elevados (que dificultam financiamento e diminuem o consumo interno) e os custos implícitos do sistema produtivo nacional.
 
Com os preços baixos praticados por países como a China, alguns setores da indústria brasileira não conseguiram suportar a entrada de produtos importados. É o caso do setor têxtil, que desde 1990 sofre problemas com a concorrência com produtos asiáticos. Para uma marca de roupas brasileira, compensa mais importar tecidos de outro país e focar apenas na criação da marca. Com baixa competitividade, muitas fábricas de tecido e confecções brasileiras fecharam.
 
Em relação ao câmbio, uma taxa de câmbio competitiva influencia no preço da importação de insumos e nas exportações de produtos manufaturados. Se a moeda brasileira está muito forte, a indústria precisa aumentar os preços dos produtos que serão exportados e perde competitividade. Se a taxa está em equilíbrio, estimula os investimentos orientados para a exportação. Ela também influencia em decisões de investimentos de um empresário. 
 
Outro problema a ser enfrentado é o chamado “Custo Brasil”, uma expressão que se refere aos custos de produção e do ambiente de negócios do país, influenciando as condições de oferta: a tributação, acesso e tipos de financiamento, as relações do trabalho (custos para manter um trabalhador), a qualidade das estradas e portos e a infraestrutura.
 
Segundo a Fiesp, o Brasil possui alta carga tributária, há um gargalo no sistema de escoamento da produção nacional (o que encarece o preço final de um produto) e a contratação de funcionários seria mais cara do que em outros lugares.
 
Se o Brasil não consegue vender produtos a preços baixos, o caminho poderia ser a inovação e a modernização das empresas para agregar valor aos produtos. Mas seria necessário um investimento em novas máquinas, tecnologias, educação, modelos de gestão inovadores e pesquisa. 
 
A baixa qualidade da educação brasileira e as deficiências no ensino superior limitam a capacidade de inovar das empresas. Em termos de disponibilidade de engenheiros e cientistas, por exemplo, o relatório Global Competitiveness Report 2012-2013 avalia que o Brasil está na 113ª posição entre 144 países. A possibilidade do Brasil se tornar uma potência de inovação parece estar em um cenário ainda distante.
 
Outras saídas para a recuperação da indústria seriam o investimento em novos mercados que o Brasil teria um potencial natural, como tecnologias e projetos de sustentabilidade ambiental, ou ainda, agregar valor em setores como a agricultura, pecuária e o extrativismo. Por exemplo, não exportar apenas a laranja, mas o suco já processado (uma manufatura).
 

A ascensão das commodities

 
Enquanto a indústria brasileira está estagnada, as commodities ganham cada vez mais espaço na atividade econômica do país. Commodities são matérias-primas negociadas nos mercados internacionais e consideradas produtos de baixo valor agregado. São esses produtos que seguram a atual balança comercial brasileira.
 
Em 2001, commodities agrícolas, combustíveis e minerais respondiam por menos da metade das exportações brasileiras. Dez anos depois, esse valor subiu para 70% e o setor continua aumentando suas exportações e sua relevância no comércio internacional. Os principais produtos que o Brasil exporta são grãos como a soja, milho e algodão, metais como o minério de ferro e riquezas como o petróleo. Nos últimos anos, o Brasil exporta matéria-prima para países como a China, que vende ao Brasil produtos industrializados.
 
O aumento da população mundial e o crescimento de outros países geram uma maior demanda por recursos naturais e alimentos. Isso faz com que a comercialização de commodities continue a ganhar escala no Brasil.
 
No entanto, a forte dependência das commodities na balança comercial pode gerar um risco em caso de queda nos preços desses produtos e por isso revitalizar a indústria nacional geraria um maior equilíbrio.

BIBLIOGRAFIA

  • O Futuro da Indústria No Brasil - Desindustrialização Em Debate, de Edmar Bacha (Civilização Brasileira)
  • Globalização e Competição, de Luiz Carlos Bresser-Pereira (Editora Elsevier).
Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação
 

“Dez Mandamentos do Professor”, por Leandro Karnal

A sabedoria do mais influente legislador do Ocidente, Moisés, sintetizou uma concepção de mundo em Dez Mandamentos. Como bom educador, o ex-príncipe do Egito sabia que longos códigos são de difícil acesso. Curioso notar que constituições muito breves, como a norte-americana, passam dos dois séculos e constituições prolixas, como todas as brasileiras , caducam em prazos muito curtos.
 
Por Leandro Karnal, do Revista Pazes
 
Inspirados neste exemplo, elaboramos os Dez Mandamentos do Professor. Estes dez mandamentos são fruto de uma experiência particular e não se pretendem eternos ou válidos em qualquer ocasião. Gostaria apenas de fornecer a colegas, como você leitor, uma reflexão particular, que possa ser aprofundada, reinterpretada ou rejeitada de acordo com a sua experiência.
 
O que me levou a pensar nestes princípios é a mesma angústia que assola qualquer educador: como ser um bom profissional, ensinar, transformar meu aluno e fazer parte desta transformação? Como superar o tédio dos meus alunos, a indisciplina, a irrelevância de algumas coisas que faço e meu próprio cansaço? Como não considerar a sala um fardo e o relógio um inimigo? Como parar de achar que só vivo a partir do fim-de-semana? A partir destes questionamentos, você está permanentemente convidado a adensar ou criticar, fazer seus outros dez ou sintetizar a dois ou três, pois, quem acha que pode melhorar a aula que dá , já começou a viver educação. E quem não acha que pode? Bem, deixa para lá! Ensinar não é a única profissão do mundo…
 
-PRIMEIRO MANDAMENTO: CORTAR O PROGRAMA!
 
Quase todas as disciplinas foram perdendo aulas ao longo das décadas anteriores. Não obstante, os programas nem sempre acompanharam estes cortes. Pergunte-se: isto é realmente importante? Este conteúdo é essencial? Não seria melhor aprofundar mais tais tópicos e menos outros? Se a justificativa é a pressão do vestibular, ela não pode ocupar 11 anos de Ensino Médio e Fundamental. Se a justificativa é uma regra da escola ou um coordenador obsessivo, lembre-se: o Diário de Classe sempre foi o documento por excelência do estelionato. A coragem da grande tesoura é essencial. Dar tudo equivale a dar nada. Ensinar a pensar não implica esgotar o conhecimento humano.
 
-SEGUNDO MANDAMENTO: SEMPRE PARTIR DO ALUNO!
 
Chega de lamentar o aluno que não temos! Chega de lamentar que eles não lêem, a partir de uma nebulosa memória do aluno perfeito que teríamos sido (nebulosa e duvidosa). Este é o meu aluno real. Se, para ele, Paulo Coelho é superior a Machado de Assis e baile Funk é superior a Mozart, eu preciso saber desta realidade para transformá-la. Se ele é analfabeto devo começar a alfabetizá-lo. Se ele está no Ensino Médio e ainda não domina soma de frações de denominadores diferentes devo estar atento: esta é minha realidade. A partir do zero eu posso sonhar com o cinco ou seis. A partir do imaginário da perfeição é difícil produzir algo. A Utopia, desde Platão e Thomas Morus, tem a finalidade de transformar o real, nunca de impossibilitá-lo.
 
-TERCEIRO MANDAMENTO: PERDER O FETICHE DO TEXTO!
 
Em todas as áreas, em especial nas humanas, os alunos são instigados quase que exclusivamente ao texto. Num mundo imerso na imagem e dominado por sons e cores, tornamos o texto central na sala de aula. Devemos estar atentos ao uso de imagens, música, sensorialidades variadas. O texto é muito importante, nunca deve ser abandonado. Porém, se o objetivo é fazer pensar, o texto é apenas um instrumento deste objetivo maior. Há pessoas que pensam e nunca leram Camões e há quem saiba Os Lusíadas de cor e não pense…Lembre-se de que há outros instrumentos. A sedução das imagens deve ser uma alavanca a nosso favor, nunca contra. Usar filmes, propagandas, caricaturas, desenhos, mapas: tudo pode servir ao único grande objetivo da escola: ajudar a ler o mundo, não apenas a ler letras.
 
-QUARTO MANDAMENTO: POSSIBILITAR O CAOS CRIATIVO.
 
Fomos educados a um ideal de ordem com carteiras emparelhadas e, mesmo no fundo do nosso inconsciente, este ideal persiste. Qual professor já não teve o pesadelo de perder o controle total de uma sala, especialmente na noite mal dormida que antecede o primeiro dia de aula? Devemos estar preparados para o caos criador e para o lúdico. Alunos andando pela sala, trocando fragmentos de textos ou imagens dados pelo professor, discussões, encenações, o professor recitando uma poesia ou mandando realizar um desenho: tudo pode ser canal deste lúdico que detona o caos criativo. Surpreenda seus alunos com uma encenação, com um silêncio, com um grito, com uma máscara. Uma sala pode estar em ordem e ninguém aprendendo e pode estar com muitas vozes e criando ambiente de aprendizado. Lembre-se o silêncio absoluto é mais importante para nós do que para os alunos. É difícil vencer a resistência dos colegas e da própria escola a isto. Lógico que o silêncio também deve ser um espaço de reflexão, mas é possível pensar que há valor num solo gentil de flauta, numa pausa ou num toque retumbante de 200 instrumentos.
 
-QUINTO MANDAMENTO: INTERDISCIPLINAR!
 
Assim mesmo, entendido o princípio como um verbo, como uma ação deliberada. É fundamental fazer trabalhos com todas as áreas. Elaborar temas transversais como o MEC pede e, ao mesmo tempo, libertar o aluno da idéia didática das gavetas de conhecimento. Não apenas áreas afins (como História e Geografia) mas também Literatura e Educação Física, Matemática e Artes, Química e Filosofia. É preciso restaurar o sentido original de conhecimento, que nasceu único e foi sendo fragmentado até perder a noção de todo. O profissional do futuro é muito mais holístico do que nós temos sido até hoje.
 
-SEXTO MANDAMENTO: PROBLEMATIZAR O CONHECIMENTO.
 
Oferecer ao aluno o cerne da ciência e da arte: o problema. Não o problema artificial clássico na área de exatas, mas os problemas que geraram a inquietude que produziu este mesmo conhecimento A chama que vivou os cientistas e artistas é transmitida como um monumento inerte e petrificado. Mostrem as incoerências, as dúvidas, as questões estruturais de cada matéria. Mostrem textos opostos, visões distintas, críticas de um autor ao outro. Nunca fazer um trabalho como: “O Feudalismo” ou “O Relevo do Amapá”; mas problemas para serem resolvidos. Todo animal (e, por extensão, o aluno) é curioso. Porém, é difícil ser curioso com o que está pronto. Sejamos francos: se é tedioso ler um trabalho destes, qual terá sido o tédio em fazê-lo?
 
-SÉTIMO MANDAMENTO: VARIAR AVALIAÇÕES.
 
Provas escritas são válidas, como a vitamina A é válida para o corpo humano. Porém, avaliações variadas ampliam a chance de explorar outros tipos de inteligência na sala. As outras avaliações não devem ser vistas como um trabalhinho para dar nota e ajudar na prova, mas como um processo orgânico de diminuir um pouco a eterna subjetividade da avaliação.
 
-OITAVO MANDAMENTO: USAR O MUNDO NA SALA DE AULA!
 
O mundo está permeado pela televisão, pela Internet, pelos jornais, pelas revistas, pelas músicas de sucesso. A escola e a sala de aula precisam dialogar com este mundo. Os alunos em geral não gostam do espaço da sala porque ele tem muito de artificial, de deslocado, de fora do seu interesse. Usar o mundo da comunicação contemporânea não significa repetir o mundo da comunicação contemporânea; mas estabelecer um gancho com a percepção do meu aluno.
 
-NONO MANDAMENTO: ANALISAR-SE PESSOALMENTE!
 
A primeira pessoa que deve responder aos questionamentos da educação é o professor. Somos nós que devemos saber qual o motivo de dar tal coisa, qual a relevância, qual a utilidade de tal leitura. O professor é o primeiro que deve saber como tal ciência transformou a sua vida. Isto implica fazer toda espécie de questão, mesmo as incômodas. Se eu não fico lendo tal autor por prazer e nem o levo aos meus passeios como posso exigir que um jovem ou uma criança o façam? Qual a coerência do meu trabalho? Minha irritação com a turma indisciplinada é uma espécie de raiva por saber que eles estão certos? Minha formação permanente me indica novos caminhos? Estou repetindo fórmulas que deram certo quando eu era aluno há 20 ou mais anos? É necessário um exercício analítico-crítico muito denso para que eu enfrente o mais duro olhar do planeta: o do meu aluno.
 
-DÉCIMO MANDAMENTO: SER PACIENTE!
 
Hoje eu acho que ser paciente é a maior virtude do professor. Não a clássica paciência de não esganar um adolescente numa última aula de sexta-feira, mas a paciência de saber que, como dizia Rubem Alves, plantamos carvalhos e não eucaliptos. Nossa tarefa é constante, difícil, com resultados pouco visíveis a médio prazo. Porém, se você está lendo este texto, lembre-se: houve uma professora ou um professor que o alfabetizou, que pegou na sua mão e ensinou, dezenas de vezes, a fazer a simples curva da letra O. Graças a estas paciências, somos o que somos. O modelo da paciência pedagógica é a recomendação materna para escovar os dentes: foi repetida quatro vezes ao dia, durante mais de uma década, com erros diários e recaídas diárias. As mães poderiam dizer: já que vocês não querem nada com o que é melhor para vocês, permaneçam do jeito que estão que eu não vou mais gritar sobre isto (típica frase de sala de aula…) . Sem estas paciências, seríamos analfabetos e banguelas. Não devamos oferecer menos ao nosso aluno, especialmente ao aluno que não merece nem quer esta paciência este é o que necessita urgentemente dela. O doente precisa do médico, não o sadio. O aluno-problema precisa de nós, não o brilhante e limpo discípulo da primeira carteira.
 
Há alguns anos eu falava de alguns destes princípios e uma senhora redargüiu dizendo que ela fazia tudo isto e muito mais e, mesmo assim, os alunos estavam cada vez piores e com menos resultados. Olhei para esta professora e senti nela o reflexo de meus cansaços também. A única coisa que me ocorreu lembrar é uma alegoria, com a qual encerro este texto:
 
Na nossa cultura há um modelo de professor: Jesus. A maioria absoluta das pessoas no Brasil é cristã, mas a alegoria serve também para os que não são. Tomemos a história de Jesus independente da nossa orientação religiosa. Comparemos: Jesus teve 12 alunos escolhidos por ele! Eu tenho 30, 60, 100, escolhidos por um rigoroso processo de seleção: inscreveu, pagou, entrou. Jesus teve alunos em tempo integral por três anos: eu tenho por duas ou quatro aulas semanais, por um período mais curto. Os alunos de Jesus deixaram tudo para segui-lo, o meu não deixa quase nada e não quer acompanhar nem meu pensamento, quanto mais minhas propostas existenciais. Fiel aos novo ditames do MEC, Jesus deu um curso superior em três anos. Para quem acredita, Ele fazia milagres, coisa que nós certamente não fazemos naquele sentido. A aula, de Jesus, assim, era reforçada por work-shops. A auto estima e a confiança de Jesus era enorme: o cara simplesmente dizia que era o Filho de Deus, que ressuscitava mortos, andava sobre as águas, passava quarenta dias sem comer e não tinha medo de ninguém. Eu não tenho esta convicção. Melhor: as aulas eram ao ar livre, sem coordenação, sem direção, sem colegas e os pais dos alunos não apareciam para reclamar! Bem, após 3 anos de curso intenso com todos estes reforços, chegou a prova final. Na agonia do Horto os três melhores alunos dormiram, quando o Mestre estava chorando sangue. O tesoureiro da turma denunciou o professor à Delegacia de Educação por 30 moedas. O líder da classe, Pedro, negou que tivesse tido aula por três vezes diante da supervisora de ensino: nunca vi este cara antes… Outros nove fugiram sem dar notícia e não compareceram à prova final: o Calvário. O mais novo e bobinho, João, foi até lá, mas não fez nada para impedir que os guardas matassem o professor. Se considerarmos João , com boa vontade, o único aprovado, teremos uma média de êxito de 8.33%, baixa demais para os padrões das Delegacias de Ensino e alvo de demissão sumária por justa causa. O professor morreu e, para quem acredita, voltou para uma recuperação de férias. Reuniu os reprovados e disse: mais uma chance. Um dos alunos , Tomé, pediu para colocar o dedo no diploma do professor para ver se era de verdade. Primeira pergunta do líder da turma, Pedro: “Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?” Ou seja, o melhor aluno não aprendeu nada! Esta pergunta mostra o oposto da aula dada, pois ele achou que o curso tinha sido sobre política e, na verdade, tinha sido sobre Teologia… Objetivos não atingidos: 100% ! Novos milagres, mais 40 dias defeedback, apostilas, recuperação, reforço de férias. Final de curso pirotécnico: subiu ao céu entre nuvens e anjos assistentes-pedagógicos disseram que o mestre tinha ido para a sala dos professores eterna e não mais voltaria. O curso estava encerrado, todas as lições tinham sido dadas para aquela nata de 11 homens. O que eles fizeram? Foram se esconder numa casa, todos apavorados. O mestre mandou um módulo auto-instrucional de reforço, o Espírito Santo, um anabolizante. Só então, com uma força externa, eles começaram a entender, e finalmente tiveram aquela famosa reação bovina: HUMMMM…
 
Bem, eu disse à professora que me questionava: se Jesus teve tantos insucessos apesar de condições tão boas, a senhora quer ser mais do que Ele? Hoje eu diria para qualquer profissional: faça o máximo, mas apenas o máximo, e deixem o resto por conta do resto. A frase parece autista, mas é muito importante. Nós temos um limite: a vontade do aluno, da instituição e da sociedade como um todo. Não transformamos nada sozinhos, mas transformamos. O primeiro passo é a vontade. O segundo começa daqui a pouco, naquela sala difícil, com aquela turma sentada no fundo e naqueles angustiantes dez minutos que você vai levar para conseguir fazer a chamada… Vamos lá?