quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Deus: Pai maternal e Mãe paternal

Existencialmente falando. Deus é o nome que simboliza aquela terníssima Realidade e aquele Sentido amoroso, capaz de preencher a incompletude do ser humano. Deus só tem sentido se irromper do nosso radical desejo que para Aristóteles e Freud é infinito.
 
Essa Suprema Realidade (o Reale realissimum dos pensadores medievais) foi expressa no contexto da cultura do patriarcado: Deus comparece como masculino. Em consequência, todas as grandes religiões históricas se estruturaram ao redor no código patriarcal. Por isso, tais linguagens precisam ser hoje despatriarcalizadas se quisermos ter uma experiência totalizante do Sagrado. Nisso as mulheres podem ser nossas mestras e doutoras.
 
Fomos todos ajudados pela descoberta da existência, antes posta em dúvida, de uma fase matriarcal da humanidade, ocorrida há cerca de 20 mil anos. As divindades eram todas femininas. Isto significou uma virada na reflexão teológica. Hoje só fazemos justiça à nossa experiência do Divino se a traduzirmos em termos masculinos e simultaneamente femininos. Deus emerge numa linguagem inclusiva   como Pai maternal e como Mãe paternal. Como Deus-Ele e de Deus-Ela no dizer de muitas feministas.       Obviamente “Deus” ultrapassa as determinações sexuais, no entanto, vigoram valores positivos presentes nesta forma de nomear Deus. Masculino (animus) e feminino (anima) são princípios estruturadores de nossa identidade.
 
Todas as palavras do dicionário não conseguem definir Deus, pois Ele ultrapassa a todas. Vive na dimensão do inefável. Diante dele mais vale calar que falar; cabe viver uma atitude de respeito e de devoção.
 
Estimo, no entanto, que não podemos renunciar à palavra “Deus”em razão do rico significado semântico de sua origem sânscrita (di) e do grego (theós): a luminosidade que se irradia em nossa vida (o significado de di em sânscrito) ou a solicitude para com todos os seres, queimando com sua bondade toda malícia qual fogo purificador (o sentido originário do theós grego).
 
As mulheres se impuseram a si mesmas a tarefa: como pensar o Divino, a revelação, a salvação, a graça, o pecado, partir da experiência das mulheres mesmas, vale dizer, a partir do feminino. No contexto da teologia da libertação, a questão é: como pensar Deus a partir da mulher pobre, negra e oprimida ?
 
Nesse campo houve contribuições notáveis. Antes de mais nada, as mulheres mostraram quão patriarcal e masculinista é o discurso dito normal e oficial que penetrou na catequese, nos discursos oficiais até na teologia erudita. Raramente os teólogos-homens conscientizaram seu lugar social-sexual-patriarcal.
 
A teologia ainda dominante constitui uma elaboração que os homens, como homens, fazem do Divino. Normalmente a teologia masculina é racional e busca o sistema. Ela é pouco espiritual, em distinção da teologia feminina que é mais narrativa, marcada pela inteligência cordial e pela espiritualidade.
A partir da experiência do feminino, o discurso teológico ficou mais existencial, inclusivo e integrador do cotidiano. Uma coisa é dizer Deus-Pai. Nessa palavra ressoam ancestrais arquétipos ligados à ordem, ao poder, à justiça, a um plano divino. Outra coisa é dizer Deus-Mãe. Nessa invocação emergem experiências originárias e desejos arcaicos de aconchego, de útero acolhedor, de misericórdia e de amor incondicional.
 
Onde a religião do Pai introduz o inferno, a religião da Mãe faz prevalecer a misericórdia e o perdão .
Por fim, cabe perguntar: em que medida o feminino/masculino são caminhos da humanidade para Deus? E em que medida o feminino/masculino são caminhos de Deus para a humanidade? Só temos um acesso integral a Deus mediante o feminino e o masculino, pois “são à sua imagem e semelhança”.
 
Já C. G. Jung e Paul Ricoeur observaram que o masculino e feminino ultrapassam o âmbito da razão. Entram na dimensão do Profundo, incognoscível, vale dizer, do mistério. Há, portanto, certa afinidade entre a realidade Deus e a realidade feminino/masculino, porque ambos são mistério, embora Deus é sempre maior (semper maior).
 
Se o feminino/masculino representam perfeições, então se ancoram em Deus. Se assim é, o feminino/masculino adquirem dimensões divinas.
 
A teologia planteia ainda uma questão radical: a que são chamados, no plano último de Deus, o feminino e masculino? Esta questão é irrenunciável.
 
Numa formulação extremamente abstrata e generalista, mas verdadeira, podemos dizer: todas as religiões, por caminhos, os mais diversos, prometem uma plenitude e uma eternização da existência humana, masculino/feminina. Serão Deus por participação, no dizer do místico São João da Cruz. Será uma fusão com a Suprema Realidade que é amor e jogo de relações recíprocas. O Crisitianismo se soma a esta compreensão benaventurada chamando-a o Reino da Trindade.
 
 
 
Leonardo Boff escreveu O rosto materno de Deus,Vozes, 2012.
 

Polícia investiga Terry Richardson por denúncia de abuso sexual

O renomado fotógrafo americano está sendo investigado pela polícia de Nova York, informou na terça-feira (2) o jornal "Daily News". Nova York – O renomado fotógrafo americano Terry Richardson está sendo investigado pela polícia de Nova York por denúncias de abusos sexuais, informou na terça-feira o jornal “Daily News”.
 
Fotografia de Terry Richardson: Anúncio com a modelo Josie Maran tomando leite direto de uma vaca foi banido (Terry Richardson/Reprodução)
 
De acordo com o jornal, as investigações surgiram na sequência que nas últimas semanas foram solicitadas por agentes da polícia de uma unidade especial a um número indeterminado de mulheres.
 
O mesmo jornal publicou, no último dia 15 de dezembro, uma informação onde relatava casos concretos de abusos sexuais que supostamente afetam o fotógrafo, de 52 anos.
 
Uma delas foi da ex-modelo Caron Berstein, afirmando que Richardson supostamente a abusou sexualmente em seu estudo, em Manhattan, no ano de 2003.
 
Ela confirmou que um detetive de um esquadrão especial da Polícia de Nova York a chamou no mês passado para marcar uma entrevista nesta semana, algo que também foi confirmada pela ex-modelo Linsday Jones.
 
Segundo o “Daily News”, Richardson assegurou que as denúncias contra ele foram na realidade casos de sexo consensual.
 
Richardson, lembra o jornal, retratou figuras artísticas como Beyoncé e Miley Cyrus, assim como também o ex-presidente americano Barack Obama.
 

Em 4 anos, família de Schumacher gastou mais de R$110 milhões

Após um grave acidente, o heptacampeão de Fórmula 1 recebe tratamento em casa, que gera grandes gastos semanais com toda a estrutura médica necessária. Desde que sofreu um grave acidente de esqui na França há quatro anos, pouco se sabe sobre o tratamento de Michael Schumacher.

Michael Schumacher: ex-piloto recebeu alta do hospital em setembro de 2014 e desde então vem sendo tratado sob muito segredo na residência da família (Alessandro Bianchi/Reuters)
 
Mas, de acordo com o jornal espanhol “As”, os gastos da família do ex-piloto alemão com cuidados médicos chegaram a mais de 28 milhões de euros (cerca de R$ 110 milhões).
 
Segundo a publicação divulgada nesta terça-feira (2), o heptacampeão de Fórmula 1 recebe tratamento em casa, com isso, a família Schumacher precisa gastar 140 mil euros (cerca de R$ 549 mil) por semana com toda a estrutura médica necessária.
 
O ex-piloto recebeu alta do hospital em setembro de 2014 e desde então vem sendo tratado sob muito segredo na residência da família Schumacher. Até hoje, nenhuma imagem do alemão após o acidente foi divulgada.
 
Em dezembro de 2013, enquanto Schumacher curtia suas férias nos Alpes suíços, a vida do ex-piloto mudou ao colidir com uma rocha em uma volta de esqui. O alemão ficou seis meses em coma e seu verdadeiro estado de saúde ainda é um grande mistério.
 
Os supostos 28 milhões de euros gastos nestes quatro anos com Schumacher, representam 3% da fortuna do heptacampeão de F1. Segundo a revista “Forbes”, o ex-piloto ganhou 840 milhões de euros (cerca de R$ 3,3 bilhões) em toda a carreira.
 
 

Papa critica quem “fofoca” na missa e não escuta em silêncio

Papa Francisco: "quantas vezes, enquanto se lê a palavra de Deus, se comenta 'olha isto, olha aquilo'. Devemos fazer comentários quando se lê a palavra de Deus? Não" (Franco Origlia/Getty Images)
 
Cidade do Vaticano –
 
O papa Francisco criticou nesta quarta-feira quem aproveita quando está na missa para “fofocar” no momento das leituras e afirmou que é necessário estar em silêncio para “escutar a palavra de Deus”.
 
“Quantas vezes, enquanto se lê a palavra de Deus, se comenta ‘olha isto, olha aquilo’. Devemos fazer comentários quando se lê a palavra de Deus?
 
Não. Há que deixar as fofocas e escutar em silêncio”, disse Francisco, de forma espontânea e deixando de lado momentaneamente a homilia que tinha preparado para a audiência geral desta quarta-feira.
 
O pontífice ressaltou que “para escutar a palavra de Deus é necessário ter também o coração aberto” porque esta “entra pelos ouvidos, passa ao coração e daí às mãos”.
 
Além disso, Francisco criticou que para as leituras de missa se utilizem em algumas ocasiões “escolhas subjetivas”, como “a omissão de leituras ou a substituição com textos não bíblicos”.
 
“Isto está proibido. Empobrece e compromete o diálogo entre Deus e seu povo na oração”, concluiu.
 

A Igreja Católica e o mundo atual

Não é a primeira vez, nestes 20 séculos, que a Igreja Católica parece perder relevância, fiéis e atualidade na mensagem. Isso aconteceu na queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C) e do Oriente (1453 d.C.), na invasão da Europa pelos mouros (711 d.C), na invasão dos povos bárbaros, na crise da Renascença, com o aparecimento dos diversos ramos do protestantismo (Lutero, Calvino, Zwinglio), no Iluminismo, nas Revoluções Francesa, Mexicana ou Espanhola, na perda dos Estados Pontifícios e mesmo durante a 21 Guerra. Voltaire tinha certeza de que acabaria com a religião católica e Nietzsche proclamava que Deus morrera.
 
Tem, porém, sempre ressurgido, com força maior e santos renovadores, como São Francisco de Assis, São Bernardo, Santo Inácio de Loyola, São José Maria Escrivã, mostrando a permanência de uma mensagem que não necessita de marketing, pois penetra no íntimo dos homens de boa vontade, dispostos a viver valores familiares, profissionais e sociais.

Mesmo a grande crítica que se fez à Idade Média não se sustenta, se tivermos presente que graças à Igreja Católica, criou-se o maior instrumento de cultura da civilização ocidental, que é a Universidade. Quase todas as ciências evoluíram a partir de cientistas sacerdotes, desde a astronomia à física, matemática ou genética.
 
O próprio processo de Inquisição – a história demonstra que o número de condenados, em séculos de Inquisição, foi muito menor do que os mortos em qualquer batalha sem expressão daquela época – permitiu a evolução do direito processual moderno, com a eliminação das ordálias, substituídas pelo contraditório. O certo é que a Igreja Católica tem conhecido um renascer fantástico, como as últimas jornadas da juventude em Madrid demonstraram.

Por outro lado, as figuras dos dois últimos Papas (João Paulo II e Bento XVI), quando se pensava que a Igreja Católica estaria desaparecendo, levaram e levam multidões, que acolhem com entusiasmo a figura de Sua Santidade por onde passa.

É bem verdade que vivemos período de múltiplos choques, que procurei retratar no meu livro A era das contradições. Hoje, o egoísmo e a autorrealização, alimentados por uma expansão da desfiguração familiar, do avanço das drogas, da corrupção e da falta de fidelidade, tanto na família quanto nos negócios, fizeram com que muitos se afastassem da religião católica, que não transige no que há de permanente em seus valores.
 
O homem tem, todavia, uma necessidade fantástica de Deus e, quando não busca o verdadeiro, elege outros deuses, como ocorreu com o nacional socialismo ou os deuses do cotidiano (dinheiro, sexo, poder, drogas etc.).

Tal choque entre o mundo das virtudes e o mundo do egocentrismo é algo que permanecerá até o fim dos séculos. Mas, como as estações se renovam, renova-se, de igual forma, a mensagem de Cristo, que se torna sempre nova, apesar de seus 2.000 anos. Essa é a razão pela qual, nada obstante as críticas e ataques que recebe de todos os lados, a nave da Igreja singra buscando os homens, não como uma empresa busca clientes, mas, desinteressadamente, para que encontrem um sentido de vida que Ihes dê a verdadeira dimensão da existência.
 

Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
 

CARTA DOS BISPOS PRESENTES NO 14º INTERECLESIAL DAS CEBS


 
CARTA DOS BISPOS PRESENTES NO 14º INTERECLESIALDAS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE
 
Nós, 60 bispos presentes no 14º Intereclesial das CEBs, em Londrina – PR, de 23 a 27 de janeiro de 2018, dirigimo-nos a nossos irmãos e irmãs de fé, para testemunhar a alegria que brota de nossos corações de pastores, por esse encontro que congregou 3.300 delegados e delegadas de Arquidioceses, Dioceses e Prelazias do Brasil, bem como convidados de outras igrejas, religiões e entidades, inclusive de outros países.
 
O tema desse Intereclesial, “CEBs e os desafios no Mundo Urbano”, e seu lema, “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3,7), na forma que foram tratados, expressam sintonia com as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil e com a mensagem do Papa Francisco dirigida a esse encontro, desejando “que as Comunidades Eclesiais de Base possam ser, na sociedade e Nação brasileira, um instrumento de evangelização e de promoção da pessoa humana”.
 
Nesse encontro, conduzido com zelo pastoral pela Ampliada Nacional das CEBs e pela Arquidiocese de Londrina que, cordialmente, o acolheu, testemunhamos a espiritualidade e a vitalidade das CEBs, manifestadas nos momentos vibrantes de oração e celebração. Sentimos pulsar muito forte em nossos corações o apelo de Deus para continuarmos acompanhando, avaliando e apoiando o desenvolvimento das CEBs, com o compromisso de sermos, em comunhão com Cristo, uma Igreja misericordiosa, profética e missionária, dedicada à formação, especialmente de cristãos leigos e leigas, como sujeitos na vida eclesial e social (cf. Doc. 105 da CNBB).
 
Louvamos e bendizemos a Deus pelos testemunhos de vida cristã partilhados no 14º Intereclesial, que sinalizam a força do seu Reino em meio à crise profunda da sociedade brasileira. No espírito do Ano Nacional do Laicato que estamos realizando, suplicamos a Deus que o protagonismo laical vivenciado no processo desse encontro, possa se manifestar ainda mais intenso em todas as situações desafiadoras de nosso país, especialmente do mundo urbano, nas quais as CEBs se fazem presentes e atuam, anunciando a “alegria do Evangelho”.
 
Encorajamos os participantes do Intereclesial, com o apoio, sobretudo de ministros ordenados e membros da vida religiosa, a difundirem amplamente as ações sinalizadas por esse encontro e a “grande esperança”, por ele revitalizada de tornar nossa sociedade mais solidária, justa e saudável, contando com a bênção de Deus e a proteção de nossa mãe, Maria.
Londrina, 27 de janeiro de 2018.
Em nome de todos os bispos presentes:
Dom Severino Clasen, OFM
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato
Dom Guilherme Antônio Werlang, MSF
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora
Dom Geremias Steinmetz
Arcebispo da Arquidiocese de Londrina – PR
 
 
 

“No Brasil, há corpo mole em relação ao Papa Francisco, mas não discordância pública”

Desde o momento em que Jose Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco para seu papado, em 2013, mandou um recado ao mundo. A Igreja Católica, que nos últimos anos havia sido comandada por João Paulo II e Bento XVI, sairia de dentro de si mesma e se abriria para o mundo. Concretamente, isso tem significado ter um Papa que sorri, faz piadas, carrega seus próprios pertences, veste o que há de mais simples – um verdadeiro desafio, quando falamos de um armário recheado de coroas e panos suntuosos –, mas também negocia acordos de paz, como no caso da intermediação que fez entre as Farc e Governo colombiano, e não foge de temas delicados para a Igreja, como divórcio, homossexualidade e machismo.
 
Nesta terça-feira, 16, inicia mais uma de suas viagens internacionais, desta vez ao Chile e Peru, onde não deve se furtar a entrar em questões delicadas, como a defesa do meio ambiente e dos índios mapuche. Tanta movimentação, contudo, tem causado divergências dentro da Igreja e já há setores abertamente contrários ao papado atual. Para o padre e historiador brasileiro José Oscar Beozzo, coordenador geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Ceseep), grande parte deste descontentamento parte de grupos que ainda não digeriram o Concílico Vaticano II, que nos anos 1960 reformou uma série de diretrizes e instituições católicas.
 
Na entrevista abaixo, Beozzo fala sobre o legado, do qual se sente próximo, que o Papa Francisco está construindo, comenta as divisões da Igreja e como elas se refletem no Brasil.
 
Pergunta. O Papa Francisco tem encontrado resistência constante de certo grupos dentro da Igreja Católica. O seu papado está tão fora do script assim?
 
Resposta. Não. Depois da aposentadoria do Bento XVI, nos nove dias em que os cardeais se reúnem para fazer um balanço da Igreja e traçar o perfil do novo Papa, o então cardeal Bergoglio apresentou uma Igreja extrovertida, que deixava de lado o ensimesmamento dos dois últimos papados para abraçar o grito dos pobres. Logo de saída, ele escolheu o nome Francisco, o que nunca ninguém havia ousado, também é significativo. Francisco é um ícone de importância imensa na Igreja católica e nas outras Igrejas também. Quando o Papa estava pregando cruzadas, Francisco foi ver o sultão do Egito e dizer que tinha que haver uma agenda de paz entre muçulmanos e cristãos. Não à toa, ao longo dos 700 anos em que a história da Palestina foi revirada de todas as formas possíveis, os franciscanos continuam lá. Nunca foram expulsos. Essa sempre foi a agenda do Papa Francisco, uma agenda de paz, perdão, reconciliação, misericórdia. Só assumir o nome Francisco já é todo um programa. Quando se apresentou ao mundo, ele abençoou o povo e pediu para que o povo também o abençoasse e rezasse por ele.
 
P. Mesmo assim, ele tem sido descrito como um outsider em reportagens que tratam das dissidências internas da Igreja.
 
R. Ele é um outsider? O João Paulo II também era um outsider. Ele foi o primeiro papa não italiano depois de quatro séculos. O último havia sido Adriano VI, que era holandês, durante o tempo de Carlos V [Adriano XVI morreu em setembro de 1523]. A eleição de João Paulo II já quebrou uma tradição que refletia, um pouco, esse processo de internacionalização da Igreja, que começou com o Papa João XXIII na época do Concílio Vaticano II. De repente, ficou claro que a Igreja não era uma cozinha italiana, mas que estava implantada nos vários continentes com um profundo deslocamento de fiéis. A África, por exemplo, significava apenas 1% dos católicos no começo do século XX, hoje representa 18%. A Europa tinha 75% dos católicos do mundo no começo do século XIX, hoje tem 23%. A Europa representava três quartos da Igreja e hoje é menos de um quarto. Só que esse deslocamento da Igreja, representado pela figura do Papa polonês João Paulo II, não se converteu em um deslocamento da agenda. E, durante o papado de Bento XVI, houve até uma exasperação no sentido de construir uma agenda nitidamente europeia.
 
P. E essa mudança de agenda era algo ansiado?
 
R. Depois do João Paulo II, havia um movimento da Igreja que pedia que ela fosse mais aberta e muitos dos votos começaram a ir para o cardeal Martini, de Milão, que é um biblista e jesuíta. Mas ele logo disse que tinha saúde frágil e que era melhor que a Igreja não dependesse de um Papa com problemas de saúde. Nesse momento, Bergoglio teve 45 votos. Pouca gente fala disso, mas lá atrás, no momento final do conclave de 2005, os votos ficaram divididos entre Bergoglio e Ratzinger. Só que, na época, Ratzinger tinha muito mais poder e visibilidade.
Hoje ele tem mais resistência de certos setores de dentro da Igreja, que foram educados em um espírito de muita liturgia, muito canônico, do que no mundo 
P. Há um movimento contrário ao dos dois últimos papados, então?
 
R. Sim. Um exemplo é que logo no início, o Papa Francisco disse que antes de Papa, era bispo de Roma. Como bispo, a obrigação dele é visitar as prisões, os doentes nos hospitais, as escolas, as paróquias da cidade. Isso já tinha começado a mudar, mas foi o Papa Francisco quem falou explicitamente isso na sua apresentação. Ele recoloca a ordem das coisas. Essa agenda havia sido interrompida. No Concílio Vaticano II, há afirmação de que a Igreja são as dioceses e que ali está a totalidade da Igreja. Uma Igreja Universal, então, não é uma coisa abstrata, mas a comunhão dessas igrejas locais. Ele tem feito muitos gestos nessa direção. E isso acaba sendo conflitivo, pois toda a agenda de João Paulo II e Bento XVI foi no sentido de retomar a centralização do poder em Roma. Ele quebra isso e gera insatisfação.
 
P. O papado de Francisco representa retorno ao Concílio?
 
R. Sim, e muito da insatisfação que tem aparecido dentro da Igreja é por isso. Uma ideia que o Papa Francisco retoma é a do discurso de abertura do Concílio, quando o Papa João XXIII dizia que a Igreja nunca tinha deixado de apresentar sua doutrina, mas que uma coisa é a doutrina e outra é sua apresentação. Em cada momento da história, segundo ele, essa doutrina precisava ser repensada para que fosse encontrada a maneira adequada e as melhores palavras para torná-la compreensível. Para Bento XVI, a última palavra sempre foi a doutrina e, por isso, ela não precisava ser repensada. Para o Papa Francisco, a última palavra é da pastoral, ou seja, a doutrina pensada em relação às pessoas, o cuidado para que a pessoa possa viver e encontrar luz e caminho. Lembro dessa velha máxima da teologia: Salus Animarum Suprema Lex, ou seja, a salvação das almas é a suprema lei da Igreja. Para os opositores do Papa, como o bispo norte-americano Burke, isso é relativismo, pois a doutrina é a última palavra.
 
P. E por que nos dois últimos papados ocorreu esse movimento de afastamento do Concílio?
R. Não foi apenas na Igreja Católica, mas em todas as outras. Houve uma volta para dentro de si mesma, para a liturgia, para o fechamento confessional. Hoje, o Papa faz um movimento inverso a esse, mas ele está na contramão do mundo atual também. Falando contra o neoliberalismo e lavando os pés, em seu primeiro lava-pés, na quinta-feira santa, não dos cônegos da Basília de São João de Latrão, mas de rapazes e moças presos, inclusive de uma muçulmana. Isso gera perplexidade, mas também gera aplauso. Hoje ele tem mais resistência de certos setores de dentro da Igreja, que foram educados em um espírito de muita liturgia, muito canônico, do que no próprio mundo.
 
P. E dentro do Brasil, como estão essas divisões?
 
R. Há um setor pequeno na Igreja brasileira que não aceitou as mudanças do Vaticano II. Durante o Concílio, havia em Roma uma articulação conservadora e o secretário desse grupo era o brasileiro Dom Geraldo de Proença Sigaud, arcebispo de Diamantina. Além dele, havia Dom Antonio Castro Maia, bispo de Campos dos Goytacazes, que fez 34 intervenções durante o Concílio. Eles eram lideranças episcopais do movimento Tradição, Família e Propriedade [organização civil que apoio a ditadura militar no Brasil]. Havia outros que não concordavam com as mudanças, mas que depois acabaram aceitando, entre outras coisas estabelecidas, que deveriam, por exemplo, rezar a missa em português e não mais em latim. Castro Maia não aceitou a liturgia do Vaticano II e acabou se separando da Igreja e passou para a Fraternidade Pio X, que reúne os integristas que não aceitaram o Concílio. Desse grupo, que durante o papado de Bento XVI, foi reintegrado à Igreja, há uma ala que entrou em conflito aberto com o Papa Francisco. Mas é algo pequeno e localizado.
Eu tenho impressão que a tendência, é que depois do Francisco, depois desse terremoto, o plano seja colocar alguém mais moderado, mas acho impossível uma volta à linha do Bento XVI
 
P. E as dissidências se limitam a isso?
 
R. O Papa é o Papa e, por mais que haja discordâncias, não há no Brasil um bispo que levantou bandeira contra o Francisco. Há nos Estados Unidos, na Itália, na França, mas aqui não. O que há, acredito, é certo corpo mole: deixa passar, dizem, pois este papado não vai durar para sempre. É claro que há dissidências, mas elas não são ditas publicamente. Se você pegar todos os bispos do Brasil, que são 485 entre os eméritos e os que estão na ativa, os nomeados pelo Papa Francisco são 16%. 84% ainda são bispos da época do Bento XVI e João Paulo II. Se você pega só os que estão em exercício, porque há uns 140 que são eméritos, um quarto, ou 25% são bispos nomeados por Francisco. 75% são formados em outro tempo e foram escolhidos para implementar uma determinada linha teológico pastoral diferente da atual.
 
P. E como você interpreta o fato de ele não ter voltado ao Brasil para os 300 anos de Nossa Senhora de Aparecida quando, em 2013, disse que viria?
 
R. Há duas coisas. Primeiro, ele não costuma repetir visitas e o Brasil foi o primeiro país que ele visitou. Em 14 de março de 2013 foi escolhido Papa e, em julho, já estava aqui para a Jornada Internacional da Juventude. Tem isso, mas acredito que ele não veio por causa do impeachment, ou melhor dizendo, do golpe parlamentar, e da situação política brasileira. Ele tomou muita distância disso. Do mesmo modo que não foi ainda à Argentina, apesar de ser argentino. O presidente Macri tem uma agenda neoliberal com a qual o Papa Francisco não concorda. Não dá para excluir essas hipóteses na interpretação de sua ausência nos 300 anos de Aparecida.
 
P. Se ele puxou a Igreja para outro lado tanto, não é de esperar que o próximo Papa seja alguém de linha completamente oposta?
 
R. Quanto tempo seu papado vai durar? Ele pode ter mais um, dois anos de papado, porque é bem provável que ele renuncie, já que deixou claro, algumas vezes, que o Bento XVI abriu um caminho institucional possível. Que ele prefere a renúncia do que definhar na cadeira de Papa, sem poder prestar o serviço a que foi chamado E o que virá depois? Eu tenho impressão que a tendência, é que depois do Francisco, depois desse terremoto, o desejo seja colocar alguém mais moderado, mas acho improvável uma volta à linha do Bento XVI. Seria um trauma muito grande dentro da Igreja. Provavelmente será escolhido um Papa de centro, porque os consensos também precisam ser encontrados. De qualquer jeito, marcas estão sendo deixadas. Um dos casos mais conhecidos é o do Haiti. O país nunca teve cardeal e, no lugar do arcebispo de Porto Príncipe, o Papa Francisco nomeou como cardeal um bispo lá do interior. É como se você pegasse o bispo de Registro e transformasse em cardeal. Ele é do interior? É. Mas se bateu contra a discriminação dos haitianos na República Dominicana. E é isso que importa para o Para Francisco.
 
 
Historiador Jose Oscar Beozzo fala sobre o papado de Francisco CESEEP