segunda-feira, 31 de julho de 2017

Procurador-geral da República pede novamente prisão de Aécio Neves

Rodrigo Janot recorreu contra decisão do ministro Marco Aurélio Mello, que havia negado pedido em junho. Novo pedido de prisão deve ser analisado pela Primeira Turma do STF.
 
   O senador Aécio Neves (PSDB-MG) (Foto: Eraldo Peres/AP)
 
 
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu novamente, nesta segunda-feira (31), a prisão do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e seu afastamento do mandato.
 
A prisão já havia sido negada no final de junho, individualmente, pelo ministro Marco Aurélio Mello, relator do caso no STF.
 
Na mesma ocasião, o magistrado permitiu o retorno do tucano ao mandato, do qual estava afastado desde maio, quando estourou a Operação Patmos, baseada em delação da JBS.
 
Em nota, o advogado Alberto Toron, que defende Aécio, afirmou que não teve acesso ao novo pedido da PGR, mas que segue tranquilo quanto à manuteção da decisão de Marco Aurélio Mello.
"A renovação de pedido de prisão contra o senador Aecio representa clara e reprovável tentativa de burla ao texto expresso da Constituição Federal, como já afirmou o ministro", afirmou o advogado.
 
O novo pedido de Janot é um recurso à decisão de Marco Aurélio. Ele poderá rever sua decisão individualmente, determinando a prisão e o afastamento; caso contrário, leva o recurso à Primeira Turma da Corte, formada também pelos ministros Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux e Alexandre de Moraes.
 
Caso o novo pedido de prisão seja negado, Janot pede ao STF para aplicar medidas alternativas, como monitoramento com tornozeleira eletrônica; proibição de contato “de qualquer espécie” com investigados na Lava Jato; impedimento de entrar no Congresso ou outra repartição pública; e entrega do passaporte, para não deixar o Brasil.
 
Para Janot, mesmo após o afastamento, Aécio continuou sua articulação política no Congresso, desobedecendo a ordem do STF.
 
"Há, em verdade, prova cabal da personalidade audaciosa do agravado e de seu notório desprezo pelas decisões judiciais. Verdadeiro atestado de ineficiência das medidas cautelares diversas à prisão que vigoraram até o advento da decisão agravada, em 30/6/2017 [que derrubou o afastamento]”, escreveu o procurador.
 
Em post no dia 30 de maio, Aécio Neves diz que se reuniu com senadores do PSDB para tratar de votações no Congresso. Para Janot, encontro demonstra desrespeito à decisão que o afastou (Foto: Reprodução/Facebook)

Pedido de prisão

Aécio é acusado de corrupção passiva e obstrução da Justiça. Segundo as investigações, ele teria pedido e recebido R$ 2 milhões da JBS e atuado no Senado e junto ao Executivo para embaraçar as investigações da Lava Jato.
 
Desde maio, a PGR sustenta que Aécio usa o poder de senador para interferir nas investigações. O órgão aponta conversas do senador sobre críticas ao ex-ministro da Justiça Osmar Serraglio e tentativas de aprovar projetos de lei que anistiavam o caixa 2 e endureciam punições a juízes e procuradores por abuso de autoridade.
 
Para o procurador-geral da República, o afastamento de Aécio do parlamento, em maio, não foi suficiente para aplacar o risco de novos delitos e de prejuízo às investigações.
 
No processo, Janot anexou uma foto postada pelo senador no Facebook, no dia 30 de maio, na qual aparece em conversas com os também senadores do PSDB Tasso Jereissati (CE), Antonio Anastasia (MG), José Serra (SP) e Cássio Cunha Lima (PB).
 
Em sua defesa, Aécio alega que foi alvo de uma “armação” do dono da JBS Joesley Batista, que o gravou pedindo os R$ 2 milhões para ajudá-lo a pagar advogado.
 
O senador nega qualquer contrapartida ao empresário e diz que sua atuação no Legislativo é legítima – o senador foi gravado apoiando, por exemplo, anistia ao caixa 2.
 

Putin pode ser mais rico que Bill Gates e dono da Amazon juntos

Responsável pela lista Magnitsky diz que presidente russo tem uma fortuna avaliada em US$ 200 bilhões – e que parte do dinheiro está nos EUA; entenda.

Reprodução/The Independent
Vladimir Putin é mais rico que Bill Gates e o dono da Amazon juntos, diz investidor ao Senado dos EUA
 
Enquanto o fundador e presidente da Amazon, Jeff Bezos, e Bill Gates, da Microsoft, disputam o título de homem mais rico do mundo, alguém pode estar bem a frente nessa competição: o presidente russo, Vladimir Putin.
 
O nome de Vladimir Putin foi colocado 'na roda' por Bill Browder, CEO da Hermitage Capital Management, uma companhia norte-americana de investimentos, especializada no mercado russo. Sua declaração foi feita peranto o Senado norte-americano.
 
Segundo Browder, enquanto Gates e Bezos acumulam cerca de US$ 90 bilhões (equivalente a aproximadamente R$ 282 bilhões), Putin tem uma riqueza avaliada em cerca de US$ 200 bilhões (aproximadamente R$ 628 bilhões).
 
Ou seja, segundo o norte-americano, Putin é mais rico que Bill Gates e o dono da Amazon juntos.
"Estimo que [Putin] tenha acumulado US$ 200 bilhões em ganhos obtidos indevidamente durante os seus 17 anos no poder", afirmou Browder, ao site Fortune.
 
"Ele mantém o seu dinheiro no Ocidente e tudo está potencialmente sujeito ao congelamento e ao confisco", revela o especialista.

Lista Magnitsky

Em 2012, o Congresso norte-americano aprovou uma lei chamada "lista Magnitsky", responsável por castigar russos que supostamente estiveram relacionados com a detenção, maus-tratos e morte de um advogado também russo chamado Sergei Magnitsky.
                
Sergei foi detido e morreu na prisão em 2009, depois de investigar supostas fraudes cometidas pelo governo da Rússia.
 
As sanções incluem a proibição de vistos para viajar aos Estados Unidos e o congelamento dos ativos que possam ter sob a jurisdição americana.

É aí que entra a fortuna de Putin

Segundo Browder, o presidente russo seria um possível alvo da lei e, como tal, tem um "interesse muito significativo e pessoal em descobrir uma forma de se livrar das sanções Magnitsky".
 
Tais afirmações surgem no contexto da interferência direta de Vladimir Putin nas eleições presidenciais americanas do ano passado, confirmada pelos serviços secretos dos Estados Unidos. De acordo com a hipótese, Putin teria permitido a interferência russa com a intenção de recuperar sua fortuna, que está em bancos norte-americanos.
 
 

Hackers atacam HBO e dizem ter todos os episódios inéditos de "Game of Thrones"

Grupo atacou a HBO e vazou o script do quarto episódio da sétima temporada de "Game of Thrones"; outras séries também foram afetadas

Recentemente, a HBO se juntou ao grupo de empresas que experimentaram um ataque cibernético com vazamento de informações confidenciais - que geram a perda de milhares de dólares. O alvo da vez foi a aclamada série "Game of Thrones", que teve um script vazado e disponibilizado online após um ataque de um grupo de hackers .

Divulgação"Game of Thrones" tem script do quarto episódio vazado na web após ação de grupo hacker
 
Após o ocorrido com as informações confidenciais de " Game of Thrones ", a HBO afirmou, em nota, que está investigando o caso. "Nós imediatamente começamos a investigar o incidente e estamos trabalhando com empresas de segurança pública e de segurança cibernética. A proteção de dados é uma prioridade máxima na HBO, e levamos a sério nossa responsabilidade de proteger os dados que possuímos", diz o documento, em tradução livre.               

Ataque

Os hackers alegaram ter obtido acesso a mais de 1,5 terabyte de dados confidenciais da empresa, entre eles, todos os episódios da série - e que eles seriam disponibilizados aos internautas em breve. A companhia, no entanto, não confirmou quais seriam os títulos que foram roubados, ou mesmo a quantidade de dados a que os hackers tiveram acesso.
 
Segundo o portal EW ,  o presidente da HBO, Richard Plepler, enviou um email a todos os funcionários alertando-os sobre essa violação de conteúdos confidenciais. Na mensagem, ele escreveu que "qualquer intrusão desta natureza é obviamente perturbadora, inquietante e perturbadora para todos nós".
               
O grupo de hackers que supostamente teve acesso ao contéudo inédito da série enviou um email para diversos jornalistas dos Estados Unidos, convidando-os a conferir os episódios e afirmando que estavam acabando com o império construído pela HBO. No entanto, ainda não ficou claro se os episódios realmente foram vazados.
 
"Game of Thrones" está no ar em sua sétima temporada. No Brasil, os episódios são transmitidos pelo canal por assinatura HBO, nas noites de domingo.
 

Ator de "Cidade de Deus" suspeito de matar sargento se entrega à polícia

Ivan da Silva Martins atuou em "Cidade de Deus" e entrou para o mundo do crime; agora o jovem está sendo acusado de assassinar um sargento.

Ivan da Silva Martins , que participou do filme "Cidade de Deus" e, mais tarde, entrou para o mundo do crime, ficando conhecido como Ivan da Rocinha ou Ivan, o Terrível, entregou-se para a polícia do Rio de Janeiro, na Delegacia de Combate às Drogas , nesta segunda-feira (31). O jovem é suspeito de ter participado da morte do sargento da Polícia Militar , Hudson Silva de Araújo, de 46 anos.               
Jovem ator de
Reprodução
Jovem ator de "Cidade de Deus" é acusado de participar de assassinato de sargento da Polícia Militar
O crime ocorreu na madrugada do dia 23 deste mês, no morro do Vidigal, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. O ator de "Cidade de Deus" teve a prisão preventiva decreta dias após o ocorrido, e decidiu se apresentar voluntariamente à polícia, após algumas negociações com a polícia.  Ivan Martins chegou acompanhado à Cidade da Polícia pelo fundador da ONG AfroReggae , José Junior, que intermediou a apresentação do acusado.
               
O jovem é apontado pela polícia como um dos principais suspeitos de ter participado da morte do Sargento. Ele também é apontado como o responsável por xtorquir dinheiro de motoristas de transporte alternativo que circulam pela favela da Rocinha, que fica ali perto e é comandada pela mesma facção criminosa a qual o jovem faz parte. Contudo, Ivan Martins nega as acusações e diz não estar envolvido no assassinato.

Relembre o caso

Na madrugada do dia 23 de julho deste ano, o Sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Hudson Silva de Araújo foi assassinado em um confronto com bandidos no Morro do Vidigal, na zona Sul do Rio de Janeiro.
 
Hudson foi o primeiro PM a ser morto na comunidade após a implantação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no local - que ocorreu em 2012. Ferido com um tiro na cabeça, o policial chegou a ser levado para o hospital Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, mas já chegou ao local sem vida. 
 

"O Brasil é o país mais racista do mundo"

A ex-consulesa francesa Alexandra Loras sofreu com o preconceito racial no Brasil desde que se mudou para cá, em 2012, mas se encantou com os brasileiros e decidiu ficar.
 
 
A francesa Alexandra Loras mudou-se para São Paulo quando seu marido Damien tornou-se cônsul francês no Brasil. No início de setembro, ele deixou o cargo, mas a família decidiu permanecer no país. Aos 39 anos, a jornalista, professora e ativista faz duras críticas ao preconceito racial no Brasil, que ela considera o país mais racista do mundo, mas é otimista: "O Brasil tem meios para se transformar na maior potência mundial." Em entrevista a VEJA, Alexandra falou sobre cotas raciais, sobre as diferenças culturais com a França e sobre como é ser uma estrangeira negra em meio à elite brasileira.
 
Existe raça? É possível classificar seres humano por raça? No sentido biológico não, somos todos humanos. Mas no sentido social há sim. Estamos presos nessa imagem de democracia racial e da mestiçagem, mas ao mesmo tempo reconhecemos que o preconceito por causa da cor da pele existe. O racismo é real e é um problema, então parece evidente que há um conceito de raça disseminado na sociedade.
 
Você é a favor das cotas? É muito confortável para o branco falar em meritocracia, dizer que somos todos iguais e ser contra as cotas. Mas em 127 anos após a fim da escravidão, a sociedade brasileira ainda não resolveu seus problemas de forma orgânica, natural. As cotas são humilhantes, mas são necessárias. É uma etapa para reequilibrar a sociedade.
 
Você acredita que a política de cotas brasileira está no caminho certo? Tanto as cotas raciais como as sociais no Brasil são tímidas, baseadas em porcentagens estatísticas. Se tivesse uma lei de cotas de verdade, teriam de ter 50% de alunos pobres, pardos e negros nas universidades e escolas particulares, boards executivos de empresas, na escola Saint Paul, no Liceu Pasteur, não só nas universidades.
 
Mas como aplicar as cotas em um país mestiço como o Brasil? Eu entendo que a autodeclaração é um assunto complexo, com margens para muitos questionamentos, mas é ainda a melhor forma para as pessoas se assumirem negras, pardas, brancas. No resto do mundo, pardos são vistos como negros. Nos EUA e na França, quem tem uma gota de sague negro é considerado negro, o que é uma bobagem. Aqui o conceito é mais difuso, conheço pessoas que são filhos pais negros e não se consideram negros. Eu mesmo, aqui no Brasil, sou muitas vezes chamada de morena. No resto do mundo, pardos são vistos como negros. Ser negro ou pardo não é apenas uma questão de cor da pele, é uma consciência. E isso deve ser respeitado.
 
Poderia se explicar melhor, dar um exemplo? Tenho uma amiga negra que teve uma filha e no hospital escreveram no registro que a bebê era branca. Minha amiga questionou, falou que sua filha era negra como ela. A funcionária do hospital disse que escreveu branca porque ‘queria fazer um favor’. A autodeclaração e a consciência têm de ser respeitadas. Meu filho tem a pele clara e ainda não sei como ele vai se definir na sociedade, se vai se declarar negro, branco ou pardo. É um assunto que precisa ser abordado com cautela, pois entra muito na vida íntima das pessoas, na identidade. Mas sabemos também que autodeclaração pode ser uma defesa. Há pessoas negras que se declaram como pardas e há pardos que se declaram como brancos. Alguns creem que assim, embranquecendo sua identidade, serão mais respeitados.
 
Num país miscigenado com a tradição de autodeclaração racial, são seria melhor fazer cotas por critério econômico? Ser pobre no Brasil é muito difícil, mas ser pobre e negro é muito, muito, muito mais difícil. As cotas têm de ser econômicas e raciais. Esse discurso da democracia racial brasileira é bonito, mas não é real. Não há 50% de negros ou pardos protagonistas em nenhuma área da sociedade, na política, na televisão, na direção das empresas. Não vamos conseguir superar os quase 400 anos de escravidão sem políticas de inserção de negros e pardos pobres em todos os setores da sociedade. É uma reparação para equilibrar a sociedade. Basta olhar a sociedade brasileira, que 128 anos depois da abolição ainda é extremamente desigual.
 
Há relatos da dificuldade de alunos cotistas acompanharem o nível dos estudos. Não é o caso resolver primeiro o problema da educação básica para que as diferenças de formação entre negros, pardos, brancos, amarelos e índios desapareçam? Creio que os dois têm de caminhar juntos, a melhoria na educação e as cotas. Pois não é só um problema de qualidade de educação. Na França, os negros e árabes estudam nas mesmas escolas dos brancos e lá eles também sofrem preconceito por seu tom de pele. O racismo é algo que está entranhado na sociedade, que se reproduz em diferentes locais, aspectos e escalas.
 
Por que para combater o preconceito, é preciso estimular uma consciência racial? O orgulho pela miscigenação nacional passe a ser um empecilho nesse objetivo? Não é preciso, mas sei que muito pensam assim. Muitos ativistas negros não querem nem se relacionar com brancos; e essa postura é errada. O branco de hoje não é responsável pela escravidão, mas tem responsabilidade em equilibrar a sociedade em que vive. Esse orgulho é relativo, pois ao mesmo tempo em que o brasileiro gaba-se da miscigenação e da suposta democracia racial, não há 50% de negros ou pardos protagonistas em nenhuma área da sociedade, na política, na televisão, na direção das empresas.
Você já disse em outras oportunidades que considera o Brasil o país mais racista do mundo. Continua pensando assim? Sei que essa colocação é um pouco violenta para os brasileiros que gostam de se ver morando em um país onde a democracia racial deu certo. Mas o Brasil é o mais racista porque tem a segunda maior população negra do mundo e isso não é refletido na sociedade. Nos EUA têm quase 13% de negros e muitos dizem que é o mais racista do mundo, mas lá eles têm um presidente negro e muitos negros na mídia, no show business, no Congresso, médicos, advogados, executivos. Morei quase quatro anos nos EUA e em três cidades americanas, Washington, El Paso e Los Angeles, e nunca me senti discriminada lá. Aqui eu me sinto todos os dias, basta eu andar umas quadras e ir ao shopping.
"As cotas são humilhantes, mas necessárias. É uma etapa para reequilibrar a sociedade"
Poderia dar exemplos de situações em que se sentiu discriminada? Já passei por muitas situações. Fui barrada em um hotel cinco estrelas de Salvador por ser negra, minhas bagagens sempre são revistadas nos aeroportos, também sou questionada por não estar de branco em shoppings aqui em São Paulo e isso é frequente. Meu filho tem a pele clara e muitas vezes já fui tratada como a babá dele. Já fui barrada no clube Pinheiros em São Paulo porque levei a carteirinha do meu filho e esqueci a minha. Aí a funcionária ficou procurando meu nome no cadastro das babás e não dos sócios. Falo com sotaque e uso roupas de grife, mas muitas pessoas só olham para a cor da minha pele.
 
E na França? Também sou discriminada lá. Uma das perguntas que mais escuto lá é: “Você é ‘francesa-francesa’ mesmo?” Como assim? ‘Francês-francês’ é branco e francês-sei-lá-o-que’ é negro? Por eu ser negra não sou francesa? Já passei por isso muitas vezes, com funcionários públicos, resolvendo burocracias administrativas, nas ruas. Não sou reconhecida como francesa por ser negra e isso me incomoda demais, mexe com minha identidade. Sou francesa e negra. Lá, por lei, não há estatísticas raciais para saber a porcentagem de brancos, negros, pardos e asiáticos na sociedade. Isso é um erro isso, deseduca a população. A França tem territórios ultramarinos, Guiana Francesa e Martinica, por exemplo, que são majoritariamente negros. Assim como Portugal e Inglaterra, por causa do passado colonizador, a França também tem famílias negras que já moram há muitas gerações no país.
 
Mesmo com o racismo presente na sociedade brasileira você decidiu ficar. Por quê? O racismo nunca foi protagonista da minha experiência, senão não teríamos ficado aqui. Meu título de consulesa me deu um palco que nunca tive em outros países em que eu morei. Talvez parte da sociedade e da imprensa tenham se interessado por mim porque uso os mesmos códigos da elite. Mas eu poderia ter usado esse espaço e sido convidada a falar de gastronomia francesa, moda, arte contemporânea, turismo, vinhos, podia ter seguido essa linha, mas me deram espaço para falar de racismo, de identidade. Para mim foi uma justiça restaurativa. Se eu fui inferiorizada toda minha vida, o Brasil me deu uma voz que tem ressonância e pode fazer alguma diferença.
 
Além desse espaço que você conquistou, o que mais a atraiu? O Brasil mexeu muito comigo. Comecei a estudar e descobri muitas figuras negras brasileiras fantásticas, o Machado de Assis, o André Rebouças, o Theodoro Sampaio. O país me deu uma dignidade para eu me assumir como mulher negra em uma sociedade desigual, e isso é importante. Na França, eu apresentava um programa de TV, mas só falava de assuntos que tinham a ver com a pauta do meu show, não expressava tudo o que queria. Nunca me convidaram para falar sobre identidade, então fiz um mestrado sobre a falta de representação dos negros na mídia francesa no Institut d'Études Politiques de Paris, [o Sciences Po, uma das faculdades de política mais respeitadas do mundo]. Lá eu estudei o assunto e aqui eu posso falar sobre e fazer algo para mudar isso.
 
Você é famosa por ter um discurso conciliador e otimista... Não bato de frente, uso um pouco de diplomacia, de dança, para me livrar de situações embaraçosas e criar pontes, abrir portas. Meu discurso é mais digerível que o de muitos militantes negros radicais. Mas claro que não posso me expressar em nome das mulheres negras brasileiras. Só posso me expressar em meu nome, Alexandra Loras, negra francesa.
 
Você não tem medo de virar um clichê? Tipo a gringa que veio visitar e não quis mais sair do Brasil? Cair no cliché não me importa porque como estrangeira eu enxergo coisas nos brasileiros que muitas vezes eles não conseguem ver. Uma das coisas que mais me chama a atenção na cultura brasileira é o chamado complexo de vira-latas, que faz com que o brasileiro precise ir morar fora para se dar conta do quanto ele tem empatia, orgulho, compaixão e conexões com o Brasil. É algo que está no ser, na alma. Isso faz com que o brasileiro seja muito sensível.
 
Essa sensibilidade é a característica que você mais admira nos brasileiros? A sensibilidade e a alegria. Olhe o meu país, a França, onde a infraestrutura é maravilhosa e tudo funciona. Mas nós estamos sempre reclamando. Os brasileiros estão passando por uma crise política e econômica difícil, têm buracos nas ruas, um sistema educacional que pode ser melhorado e muitas outras deficiências, mas estão ligados ao presente, ao que têm agora, e ficam felizes com pouco. E os brasileiros não enxergam esse otimismo e essa alegria como algo fantástico. Eu acho mais importante crescer num país com problemas, mas com uma sociedade mais alegre e mais informal, do que crescer num país rico com uma população que toma antidepressivos. A França é o segundo país que mais consome antidepressivos do mundo. Uma pesquisa identificou que nosso nível de felicidade é igual ao do Afeganistão.
 
Falando em clichês, você acredita que o Brasil é o país do futuro? Sim, o Brasil é o país do futuro. E creio que será o primeiro, na frente de todos os outros. As pessoas têm ainda certa arrogância e olham o Brasil como um país de terceiro mundo, mas para mim, o país tem meios para se transformar na maior potência mundial. É uma das dez maiores economias do mundo, isso pelas fontes oficiais, sem contar o dinheiro da corrupção. Para mim, o maior problema do Brasil é não enxergar e valorizar seu próprio potencial. O Brasil tem uma quantidade enorme de talento e capital humano que não é usado. Há falta de planejamento econômico, faltam projetos sérios para o país.
 
Poderia dar um exemplo concreto desse seu otimismo com o Brasil? Os brasileiros são muito flexíveis e adaptáveis, estão muito mais preparados para questionar, criticar e evoluir como sociedade. E creio que aqui o povo está quase pronto para entrar e abraçar uma nova era, mais humana e justa. Vejam a preparação do Carnaval carioca. Acontece tudo na hora, é super organizado. É a maior e mais bela produção criativa mundial e é feito por quem? Por famílias que chamamos de carentes, que moram em comunidades pobres. Eles têm um talento, um potencial que não é plenamente usado. Quantos Beethovens brasileiros nunca foram apresentados a um piano?
 

Reaproximação de Cuba e Estados Unidos

 
No final de 2015, a decisão dos presidentes Barack Obama e Raúl Castro de retomar as conversas entre Cuba e Estados Unidos para que os laços diplomáticos fossem reatados foi histórica. Desde então, a relação entre os dois países vem aos poucos se estreitando em direção ao que parece ser o fim de um dos mais conhecidos conflitos geopolíticos. Entenda como esse conflito começou e o que a reaproximação significa para a política mundial.

Como surgiu o conflito?

Até a década de 1950, Cuba e Estados Unidos eram grandes aliados. Cuba era governada por uma ditadura militar chefiada por Fulgêncio Batista, aliado dos EUA. A economia do país era baseada na exportação de tabaco e açúcar e a ilha sofria graves problemas sociais, como concentração fundiária e miséria da população rural. As indústrias de açúcar e muitos hotéis eram dominados por grandes empresários norte-americanos e, ao mesmo tempo, a capital Havana possuía cassinos e festas para os americanos, que usavam Cuba como uma espécie de colônia de férias.
 
Esse cenário de desigualdade, dependência econômica e forte influência dos EUA na política cubana levou à formação de uma guerrilha camponesa liderada por Fidel Castro e Ernesto Che Guevara. Em 1959 os revolucionários depuseram Fulgencio Batista e o episódio ficou conhecido como Revolução Cubana.
 
O grupo de Fidel era nacionalista e, pela dinâmica da revolução, nacionalizou bancos e empresas estrangeiras, desapropriou as grandes propriedades de monocultura e realizou uma reforma agrária, o que provocou vários conflitos com os norte-americanos, donos de empresas e de grandes extensões de terra.
 
O governo estadunidense buscou todas as formas de conter a consolidação do Estado revolucionário cubano. Em 1961 o presidente John F. Kennedy articulou uma invasão militar em Cuba, no fracassado desembarque na Baía dos Porcos. No ano seguinte, Cuba estabeleceu aliança com a então União Soviética e aderiu ao modelo socialista. No mesmo ano, a possível instalação de mísseis soviéticos na ilha levou à grave “Crise dos Mísseis”.
 
O relacionamento entre Cuba e Estados Unidos se rompeu quase completamente depois de 1962. No mesmo ano, os EUA impuseram um severo embargo econômico à Cuba, ou seja, uma interdição proibindo qualquer tipo de relação comercial, financeira ou econômica com a ilha. O objetivo era tentar fazer com que a população, privada do acesso a bens de consumo, e empresas, impedidas de realizarem negociações comerciais com as companhias norte-americanas, forçassem a queda de Fidel Castro. A situação econômica de Cuba se precarizou após a queda da União Soviética, que financiava quase todas as atividades da ilha durante a Guerra Fria.
 
Desde que assumiu o governo, Raúl Castro tem realizado reformas para diminuir o controle do Estado sobre a economia, ao mesmo tempo em que procura novos  investimentos e tenta se aproximar de países como Rússia e China. Ele também abriu a economia para o turismo e para captação de investimentos externos. Depois desse “relaxamento” do governo cubano, os Estados Unidos começaram a rever algumas sanções, mas sem derrubar o embargo completamente.
 
 
 

Como começou a reaproximação entre os dois países?

As conversas entre o governo de Cuba e Estados Unidos começaram em junho de 2013. Foram realizados diversos encontros entre os representantes dos dois lados no Vaticano e no Canadá. Segundo a Casa Branca, o Papa Francisco teve papel crucial na reaproximação. Em pronunciamento naquele ano, Barack Obama lembrou que os EUA já possuíam relações econômicas com a China há 35 anos, um país comunista de longe muito maior do que Cuba, assim como também também reatou relações com o Vietnã alguns anos antes.
 
O anúncio da retomada das relações foi feito oficialmente em 17 de dezembro de 2014. Após a troca de prisioneiros entre os dois países, o presidente Obama declarou que estava pronto para negociar os termos da reaproximação.
 
Em junho de 2015, os Estados Unidos retiraram Cuba da lista dos países patrocinadores do terrorismo. O país havia entrado na lista após oferecer exílio a fugitivos procurados nos EUA e acolher membros de grupos terroristas como do basco ETA e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). A retirada de Cuba da lista era uma reivindicação do governo cubano para o pleno restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países.
 
A lista dos países que contribuem com o terrorismo global tinha quatro países: Cuba, Irã, Sudão e Síria. A retirada de Cuba foi importante para o restabelecimento das relações políticas e diplomáticas e também por representar uma mudança de percepção clara do governo norte-americano com a ilha.
Em 20 de julho de 2015 a embaixada de Cuba foi reaberta oficialmente em Washington, nos Estados Unidos, após 54 anos do rompimento das relações entre os dois países. Em março de 2016, o presidente Barack Obama fez uma visita a Cuba para participar da cerimônia de reabertura da embaixada estadunidense em Havana.
 
Apesar dos esforços de Barack Obama em reaproximar as duas nações, logo após assumir a presidência dos Estados Unidos no início de 2017, o governo Donald Trump anunciou uma revisão completa das políticas do país em relação a Cuba. Segundo o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, o foco da revisão está nas políticas de direitos humanos, já que Cuba é acusada pelos norte-americanos de violar estes princípios ao perseguir opositores políticos.

Apesar da visita ter sido um marco histórico, ela representa poucas mudanças na relação econômica entre Cuba e Estados Unidos, visto que o embargo não deixou de existir. Isto porque para pôr fim ao embargo os Estados Unidos precisam da aprovação do Congresso. Obama faz parte do partido Democrata e o Congresso do país é composto em maioria por membros do partido Republicano, fortes opositores do atual presidente. Por isso, a situação do embargo continua indefinida, e sua resolução vai depender dos resultados da próxima eleição, que acontece em novembro deste ano.

Para Cuba, a retomada das relações econômicas com os Estados Unidos representa também uma nova relação com o restante do mundo. Visto que o embargo proibia todos os países parceiros dos EUA de comercializarem com o país cubano, o fim da barreira significa o estabelecimento de novas relações econômicas de comércio e abertura de empresas estrangeiras no país. Para Obama, tudo isso contribuirá para a modernização da ilha socialista e sua retomada ao século 21.or que o embargo econômico ainda continua?

Publicado em 25 de outubro de 2016. Atualizado em 3 de fevereiro de 2017.

Isabela Souza

Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e assessora de conteúdo do Politize!.
 

Brasil vive a maior crise econômica da história, aponta estudo da Unicamp

O Brasil está vivendo a maior crise econômica de sua história, segundo estudo realizado pelo Cecon (Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp) e publicado agora em maio de 2017.
O estudo, denominado, “Choque recessivo e a maior crise da história: A economia brasileira em marcha ré”, é de autoria dos economistas Pedro Rossi (foto) e Guilherme Mello.
De acordo com o estudo, a crise atual que provocou queda de 7% no PIB é a maior de todas, incluindo a crise de 1929, há quase 90 anos. Para os economistas, a Operação Lava Jato também contribuiu para a crise.
E com as medidas recessivas de longo prazo estabelecidas pelo governo do vice-presidente, Michel Temer (PMDB), a crise deve ser também a mais longa da história e se prolongar até 2020.

 
O choque recessivo iniciado ainda no governo Dilma Rousseff (PT), em 2015 (durante a passagem de Joaquim Levy como ministro da Fazenda), lançou mão de um conjunto de políticas de austeridade econômica. “Esse choque recessivo foi composto de: i) um choque fiscal (com a queda das despesas públicas em termos reais), ii) um choque de preços administrados (em especial combustíveis e energia),  iii) um choque cambial (com desvalorização de 50% da moeda brasileira em relação ao dólar ao longo de 2015) e iv) um choque monetário, com o aumento da taxas de juros para operações de crédito”, anotam os economistas.


Para Rossi e Mello, o consumo das famílias, que foi símbolo do padrão de crescimento dos governos Lula, no qual o dinamismo do mercado interno tinha um importante papel indutor do investimento e do crescimento, foi abaixo com as políticas implantadas por Dilma. Um gráfico mostra a importância do consumo das famílias para o PIB, entre 2004 e 2010, quando cresceu em média 5,3% ao ano. No primeiro governo Dilma, anotam, o consumo das famílias cresce em média 3,5%, o que já mostra um claro movimento de desaceleração.

 
“Em 2016, com a mudança de governo, ocorre também uma mudança na estratégia econômica, que passa a privilegiar as reformas estruturais liberalizantes em detrimento do ajuste de curto prazo. As expectativas de retomada do crescimento com a adoção do ajuste recessivo e a implementação de reformas têm se provado frustradas, fazendo com que a economia brasileira ande por mais de dois anos em marcha à ré”, anotam em artigo no Brasil Debate. (Glauco Cortez)