terça-feira, 2 de maio de 2017

Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico

Queridos irmãos e irmãs:
 
Após algumas catequeses sobre o sacerdócio e minhas últimas viagens, voltamos hoje ao nosso tema principal, isto é, para a meditação sobre alguns grandes pensadores da Idade Média. Havíamos visto a grande figura de São Boaventura, franciscano, e hoje gostaria de falar daquele que a Igreja chama o Doctor communis: São Tomás de Aquino. Meu adorado antecessor, o Papa João Paulo II, em sua encíclica Fides et ratio, lembrou que São Tomás “sempre foi proposto pela Igreja como mestre do pensamento e modelo do modo certo de fazer teologia” (n. 43). Não surpreende que, depois de Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, São Tomás seja citado mais que qualquer outro, até 61 vezes! Foi chamado também Doctor Angelicus, talvez por suas virtudes, em particular a sublimidade de seu pensamento e a pureza de sua vida.
 
Santo Tomás de Aquino ou Doutor Angélico
 
Tomás nasceu entre 1224 e 1225, no castelo que sua família, nobre e rica, possuía em Roccasecca, nas proximidades de Aquino, perto da célebre abadia de Monte Cassino, onde foi enviado por seus pais para receber os primeiros elementos de sua instrução. Um ano depois, mudou-se para a capital do Reino de Sicília, Nápoles, onde Federico II havia fundado uma prestigiosa Universidade. Nela era ensinado, sem as limitações existentes em outros lugares, o pensamento do filósofo grego Aristóteles, a quem o jovem Tomás foi apresentado e de quem intuiu grande valor imediatamente. Mas, sobretudo naqueles anos transcorridos em Nápoles, nasceu sua vocação dominicana. Tomás foi, de fato, atraído pelo ideal da ordem fundada não muitos anos antes por São Domingos. Contudo, quando revestiu o hábito dominicano, sua família opôs-se a esta escolha, obrigando-o a deixar o convento e a passar algum tempo em família.
 
Em 1245, já maior de idade, pôde retomar seu caminho de resposta ao chamado de Deus. Foi enviado a Paris para estudar teologia, sob a orientação de outro santo, Alberto Magno, sobre o qual falei recentemente. Alberto e Tomás estreitaram uma verdadeira e profunda amizade e aprenderam a estimar-se e a apreciar-se, até o ponto que Alberto quis que seu discípulo o acompanhasse, também, a Colônia, aonde ele havia sido enviado pelos superiores da ordem para fundar um estudo teológico. Tomás manteve, então, contato com todas as obras de Aristóteles e de seus comentaristas árabes, que Alberto ilustrava e explicava.
 
Naquele período, a cultura do mundo latino estava profundamente estimulada pelo encontro com as obras de Aristóteles, que haviam sido ignoradas por muito tempo. Tratava-se de textos sobre a natureza do conhecimento, sobre ciências naturais, sobre metafísica, sobre a alma e sobre a ética, repletos de informações e instruções que pareciam válidas e convincentes. Era toda uma visão completa do mundo elaborada sem e antes de Cristo, com a pura razão, e parecia impor-se à razão como “a” própria visão; era, portanto, uma fascinação incrível para os jovens verem e conhecerem esta filosofia. Muitos acolheram com entusiasmo, até mesmo com entusiasmo acrítico, esta enorme bagagem do antigo conhecimento, que parecia poder renovar vantajosamente a cultura, abrir totalmente novos horizontes. Outros, porém, temiam que o pensamento pagão de Aristóteles estivesse em oposição à fé cristã e recusavam estudá-lo.
 
Encontraram-se duas culturas: a cultura pré-cristã de Aristóteles, com sua racionalidade radical, e a cultura clássica cristã. Certos ambientes eram levados à rejeição de Aristóteles, também pela apresentação que deste filósofo faziam os comentaristas árabes Avicena e Averróis. Na realidade, foram eles que transmitiram para o mundo latino a filosofia aristotélica. Por exemplo, estes comentaristas tinham ensinado que os homens não têm uma inteligência pessoal, mas que há um único intelecto universal, uma substância espiritual comum a todos, que opera em todos como “única”: portanto, uma despersonalização do homem. Outro ponto discutível transmitido pelos comentaristas árabes era aquele segundo o qual o mundo é eterno como Deus. Desencadearam-se, compreensivelmente, disputas sem fim no mundo universitário e no eclesiástico. A filosofia aristotélica ia se difundindo, inclusive pelas pessoas simples.
 
Tomás de Aquino, na escola de Alberto Magno, realizou uma operação de fundamental importância para a história da filosofia e da teologia, diria que para a história da cultura: estudou a fundo Aristóteles e seus intérpretes, procurando novas traduções latinas dos textos originais em grego. Assim, não se apoiava apenas nos comentaristas árabes, sendo que podia ler pessoalmente os textos originais, e comentou grande parte dos trabalhos aristotélicos, distinguindo neles o que era válido do que era duvidoso ou completamente rejeitável, mostrando a concordância com os dados da Revelação cristã e utilizando ampla e intensamente o pensamento aristotélico na exposição dos manuscritos teológicos que compôs. Em definitivo, Tomás de Aquino mostrou que entre a fé cristã e a razão subsiste uma harmonia natural. E esta é a grande obra de Tomás, que, naquele momento de confrontação entre duas culturas – momento em que parecia que a fé teria que render-se à razão -, mostrou que ambas caminham juntas; que, quando a razão parecia incompatível com a fé, não era razão, e quando a fé parecia opor-se à verdadeira racionalidade, não era fé; assim, criou uma nova síntese, que formou a cultura dos séculos seguintes.
 
Por seus excelentes dotes intelectuais, Tomás foi chamado a Paris como professor de teologia na cátedra dominicana. Aqui começou também sua produção literária, que prosseguiu até sua morte e que tem algo de prodigioso: comentários à Sagrada Escritura, porque o professor de teologia era, sobretudo, intérprete da Escrituras, comentários aos manuscritos de Aristóteles, obras sistemáticas poderosas, entre as quais sobressai a Summa Theologiae, tratados e discursos sobre argumentos diversos. Para a composição de seus textos, era ajudado por alguns secretários, entre eles seu irmão Reginaldo de Piperno, que o seguiu fielmente e ao qual esteve ligado por uma amizade sincera e fraterna, caracterizada por uma grande confiança. Esta é uma característica dos santos: eles cultivavam a amizade, porque esta é uma das manifestações mais nobres do coração humano e tem em si algo de divino, como Tomás mesmo explicou em algumas quaestiones da Summa Theologia, na qual escreve: “A caridade é a amizade do homem com Deus principalmente, e com os seres que Lhe pertencem (II, q. 23, a.1)”.
 
Não permaneceu durante muito tempo e de um modo estável em Paris. Em 1259 participou do Capítulo Geral dos Dominicanos para Valenciennes, onde foi membro de uma comissão que estabeleceu o programa de estudos da ordem. De 1261 a 1265, depois, Tomás esteve em Orvieto. O Pontífice Urbano IV, que sentia por ele uma grande estima, o encarregou da composição dos textos litúrgicos para a festa de Corpus Domini, que celebramos amanhã, instituída depois do milagre eucarístico de Bolsena. Tomás teve uma alma perfeitamente eucarística. Os belíssimos hinos que a liturgia da Igreja canta para celebrar o mistério da presença real do Corpo e do Sangue do Senhor, na Eucaristia são atribuídos à sua fé e à sua sabedoria teológica. Entre 1265 e 1268, Tomás residiu em Roma, onde, provavelmente, dirigia um Studium, quer dizer, uma Casa de Estudos da Ordem, e onde começou a escrever sua Summa Theologiae (cf. Jean-Pierre Torrell, Tommaso d’Aquino. L’uomo e il teologo, Casale Monf., 1994, pp. 118-184).
 
Em 1269, foi chamado novamente a Paris para um segundo ciclo de ensinos. Os estudantes – compreende-se – estavam encantados com suas lições. Um ex-aluno seu declarou que uma enorme multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, tanto que as salas de aula não conseguiam comportar-lhes, e acrescentou, com uma anotação pessoal que “escutá-lo era para ele uma felicidade profunda”. A interpretação de Aristóteles dada por Tomás não era aceita por todos, mas até mesmo seus adversários no campo acadêmico, como Godofredo de Fontaines, por exemplo, admitiam que a doutrina de Tomás era superior a outras por sua utilidade e valor e servia a todos os demais doutores. Talvez também para subtraí-lo das vivazes discussões em curso, os superiores enviaram-no mais uma vez a Nápoles, para colocar-se à disposição do rei Carlos I, que queria organizar os estudos universitários.
 
Além do estudo e do ensino, Tomás dedicou-se também à pregação ao povo. E também o povo ia de bom grado escutá-lo. Diria que é verdadeiramente uma graça grande quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. Por outro lado, o ministério da pregação ajuda os próprios especialistas em teologia, num saudável realismo pastoral, e enriquece de estímulos vivazes sua investigação.
 
Os últimos meses da vida terrena de Tomás permanecem rodeados de uma atmosfera particular, diria misteriosa. Em dezembro de 1273, chamou seu amigo e secretário Reginaldo para comunicar-lhe sua decisão de interromper todo o trabalho, porque durante a celebração da Missa havia compreendido, a partir de uma revelação sobrenatural, que tudo que ele tinha escrito até então era apenas “um montão de palha”. É um episódio misterioso que nos ajuda compreender não apenas a humildade pessoal de Tomás, mas também o fato de que tudo aquilo que chegamos a pensar e a dizer sobre a fé, por mais elevado e puro que seja, é infinitamente superado pela grandeza e pela beleza de Deus, que nos será revelada em plenitude no Paraíso. Um mês depois, cada vez mais absorto em uma meditação pensativa, Tomás morreu enquanto estava de viagem para Lyon, aonde ia para participar do Concílio Ecumênico proclamado pelo Papa Gregório X. Apagou-se na Abadia Cisterciense de Fossanova, após ter recebido o Viático com sentimentos de grande piedade.
 
A vida e o ensinamento de São Tomás de Aquino poderia se resumir em um episódio apanhado pelos biógrafos antigos. Enquanto o santo, como era seu costume, estava em oração perante o crucifixo, pelo início da manhã na Capela de São Nicolau, em Nápoles, Domingo de Caserta, o sacristão da igreja, sentiu desenvolver-se um diálogo. Tomás perguntava, preocupado, se o que havia escrito sobre os mistérios da fé cristã estava correto. E o Crucifixo respondeu: “Tu tens falado bem de mim, Tomás. Qual será tua recompensa?”. E a resposta que Tomás deu é a que nós também, amigos e discípulos de Jesus, sempre quisemos dizer: “Nada mais que Tu, Senhor” (Ibidem, p. 320).
 
Fonte: Zenit

http://www.presbiteros.com.br/site/santo-tomas-de-aquino-o-doutor-angelico/

Especialistas dizem que Darcy Ribeiro estava certo: educação é o caminho para reduzir a criminalidade

Educadores e juristas ouvidos pelo Estado de Minas são unânimes: inchaço do sistema carcerário brasileiro seria evitado com melhorias no ensino. No Brasil, presos custam 13 vezes mais que estudante.
 
Desde o agravamento da crise do sistema prisional brasileiro – que teve seu estopim com o derramamento de sangue nos presídios de Manaus e Boa Vista, no início do mês –, uma frase do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) tem sido constantemente repetida em discursos e nas redes sociais na internet. “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”, disse o mineiro, em uma conferência, em 1982. O Estado de Minas conversou com sociólogos, psicólogos e criminalistas para saber até que ponto o incentivo em educação – sobretudo no ensino básico – é um fator preponderante para diminuir a inserção no mundo do crime. A resposta: sim, a profecia feita em 1982 se concretizou e Darcy Ribeiro não só tinha razão, como o país atravessa uma crise no sistema prisional sem precedentes, com 622 mil presos, – sendo quase a metade de temporários, aguardando julgamento – e um déficit de 250 mil vagas no sistema prisional. 
  
Os dados são do último Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), do Ministério da Justiça. A previsão, se o crescimento da população carcerária mantiver o ritmo, é de que o Brasil supere a marca de 1 milhão de detentos em 2022. Segundo a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, também presidente do Conselho Nacional de Justiça, um preso custa ao estado 13 vezes mais que um estudante: em média, R$ 2,4 mil por mês (R$ 28,8 mil por ano), enquanto um estudante de ensino médio custa atualmente R$ 2,2 mil por ano.
 
"Fracassei em tudo o que tentei na vida.Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu." Darcy Ribeiro (1922-1997) (foto: Arquivo/EM)

“Investimento em educação, de fato, reduz a vulnerabilidade das pessoas, que ficam menos expostas ao crime. É pacificado na literatura, um fato científico”, afirma o pesquisador Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getulio Vargas e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Mas precisamos ir além desse mantra: temos que exigir qualidade no ensino e menos desigualdade. Países com menos desigualdade geram um povo educado e, consequentemente, menos violento.”


ESCOLA DE QUALIDADE
 
 
Em 2013, um estudo do departamento de Economia, Administração e Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que para cada investimento de 1% em educação, 0,1% do índice de criminalidade era reduzido. Para obter esse número, a pesquisa analisou o gasto público em educação entre 2000 e 2009, e como o investimento impactou na redução da taxa de homicídios. Depois, observou como uma escola voltada para o desenvolvimento de conhecimento tem menos chance de desenvolver alunos violentos do que escolas com traços como depredação do patrimônio, atuação de gangues e tráficos de drogas.

“A escola, como sempre, é um meio de transformação. Mas estamos falando de uma boa escola: com professores valorizados, bem formados, para que crianças possam sonhar com um futuro que não seja miserável”, afirma Vanessa Barros, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais e integrante do Observatório Nacional do Sistema Prisional. “Estamos falando de adolescentes e jovens que moram nas periferias, lugares mais vulneráveis. Os dados mostram que a escolaridade na população carcerária é baixa e a realidade nos mostra que se houvesse escolas de qualidade, de fato, eles poderiam ter um futuro diferente”, garante a psicóloga.
 
 
DEDICAÇÃO AO CONHECIMENTO
 
 
 Um dos principais pensadores da história do Brasil, Darcy Ribeiro deixou uma obra que extrapola os limites de sua principal devoção: a educação. Em mais de meio século de produção intelectual, o mineiro nascido em Montes Claros, em 26 de outubro de 1922, e formado em antropologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1946, deixou como legado um extenso trabalho etnográfico e de defesa da causa indígena, foi ministro de Estado, escreveu obras políticas e se debruçou sobre o Brasil para descobrir as raízes de seus diversos problemas.
As primeiras incursões na vida pública foram ainda na década de 1950, na pasta da Educação, logo depois de criar a Universidade de Brasília (UnB). Nos anos 1960, foi ministro-chefe do governo João Goulart, antes de partir para o exílio, que durou até 1976. Ainda na política, foi vice-governador de Leonel Brizola no Rio Janeiro (1982) e eleito senador pelo mesmo estado em 1991, cargo que ocupou até a morte, em 17 de fevereiro de 1997, aos 74 anos. Entre suas obras mais aclamadas estão o romance Maíra (1976) e O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil (1995).


http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2017/01/15/interna_politica,839547/educacao-e-o-caminho-para-reduzir-a-criminalidade.shtml
 

Construir mais prisões ou prender menos? As duas coisas.

 
Em 68% das prisões brasileiras há mais do que nove presos por vaga. Em números absolutos, os maiores déficits estão no estado de São Paulo, que tem 62.572 mil presos a mais do que o número de vagas; Minas Gerais, com 13.515; e Pernambuco, com 15.194. Ao todo, o Brasil tem um déficit de aproximadamente 170 mil vagas. Os dados são do sistema Geopresídios, do Conselho Nacional de Justiça.
 
Dessa forma, os presídios ficam superlotados, sem higiene e com ambientes fétidos e insalubres. Locais onde o homem e a mulher estão devidamente abandonados pelo Estado. Hoje, no Brasil, a população carcerária se aproxima dos 550 mil presos, número sufi ciente para lotar seis Maracanãs e meio.
 
De acordo com o levantamento feito pela equipe Direito Direito, apenas nove crimes são responsáveis por 94% dos aprisionamentos no Brasil. Entre eles o tráfico de drogas, com 125 mil presos, e os crimes patrimoniais – furto, roubo e estelionato - com 240 mil.
 
Mais penitenciárias?
 
Para o juiz de direito titular da Vara de Execuções Penais do Amazonas, Luís Carlos Valois, só há duas formas de resolver o problema da superlotação: construindo mais penitenciárias ou prendendo menos. Ele explica, entretanto, que nem toda conduta deve ser criminalizada.
 
“A questão das drogas é um grande exemplo. Misturam-se pequenos traficantes com homicidas, latrocidas e estupradores em razão dessa superlotação e em prejuízo da sociedade. Eu entendo que a prisão deveria ficar somente para os casos mais graves, de crimes cometidos com violência contra a pessoa. Esse sim seria um bom começo”, comenta.
 
Fonte: Brasil de Fato, em 01/03/2013.
 

“Os Pensamentos” de Blaise Pascal

Um gênio assustador! Precoce, Pascal demonstrou suas habilidades quando, aos 18 anos de idade, inventou a calculadora. Como matemático e físico, ele se converteu ao Jansenismo e se retirou para Port-Royal. Denunciou em “Les Provinciales” a moral liberal dos Jesuítas.
 
Mas foi em “Os Pensamentos” que fez sua defesa da religião cristã, destinada a tocar os libertinos (pessoas que negam toda religião revelada, a qual se deve demonstrar) e os céticos (que colocam tudo em dúvida). Segundo Pascal, o homem é um ser miserável, um “nada do ponto de vista do infinito universo, um tudo do ponto de vista do nada, isto é, um meio-termo entre o nada e o tudo”. Ele é incapaz de atingir a verdade, pois a razão humana é constantemente enganada pela imaginação ou outras “potências enganadoras”. Sua única esperança é Deus: ele tem tudo a ganhar apostando na existência Dele. É o famoso argumento da aposta.
 
Blaise Pascal, um gênio assustador
 
Tocado pela cura miraculosa de sua sobrinha, em 24 de março de 1656, Pascal engajou-se em uma reflexão sobre a significação dos milagres, iniciando pela luta dos jansenistas contra os jesuítas e, em seguida, no debate entre cristãos e ateus. Pouco a pouco, formou-se o projeto de uma apologia da religião cristã que, em seu primeiro momento, visava apresentar os milagres como fundamento da religião. O filósofo renuncia, pois, esta argumentação no ano seguinte para trabalhar em um projeto que funda a religião sobre a Sagrada Escritura e sua interpretação simbólica. As grandes linhas desse projeto são apresentadas em uma conferência em Port-Royal em 1658. Nessa data, numerosos fragmentos foram já redigidos. Gravemente doente a partir de 1659, Pascal retomou seu trabalho apenas no outono de 1660.
Basta abrir os olhos para constatar que o comportamento dos homens é quase sempre incoerente. Nosso julgamento é inconstante, o exercício de nossa razão é perturbado pela imaginação, nós vivemos no passado e no futuro, jamais no presente e nossas mais belas ações têm por causa motivos irrisórios. O mais espantoso dessa constatação é que ela seja realizada por tão poucas pessoas. Há incoerência em nossos desejos e em nossa forma de julgar o que é o bom ou o mau para nós. Não podemos gozar de um bem até que sua perda nos torne infelizes. Nós buscamos a satisfação por meios falsos, por exemplo, querendo ser obedecidos porque nós somos belos (vaidade)! Nós somos tão incapazes de determinar o justo e o injusto que nossa sabedoria aceita a lei e os costumes de um país, em tudo o que ela tem de arbitrário.
 
A ideia geral do Jansenismo é a de que o homem não pode salvar a si próprio. Após o pecado original, ele pode somente esperar a graça de Deus, concedida a um pequeno número de eleitos, dom absolutamente gratuito como prova da soberana liberdade divina. Ela se opõe, assim, às ideias desenvolvidas pela Companhia de Jesus, inspiradas no teólogo espanhol Molina, segundo as quais o homem poderia realizar sua salvação no mundo, pois a assistência de Deus é concedida a cada um no momento da tentação. Essa concepção teológica permitiria, na vida moral, numerosos acomodamentos com os preceitos religiosos. Ela conciliaria, em todo caso, vida profana e vida religiosa. Ao contrário, os jansenistas são partidários do rigor, da austeridade, da retirada das armadilhas ilusórias e dos falsos pretextos do século.
 
Dessa forma, conforme Pascal, os filósofos que se contentam em denunciar a miséria do homem – os céticos ou pirrônicos – estão enganados; o homem possui também uma grandeza, e seria somente por isso que ele reconheceria a sua miséria e que há uma ideia de verdade. Se nossa razão é impotente para compreender os dois extremos (tudo ou nada) ela pode conhecer o meio, algumas verdades no domínio científico; nisto ela é ajudada pelo coração, que nos dá as intuições fundamentais sobre as quais ela constrói, em seguida, suas demonstrações. Não se trata de certezas inabaláveis. Também só ela não pode nos dar a fé em Deus. Somente aqueles a quem Deus deu a religião por sentimento do coração que são bem-aventurados e legitimamente persuadidos, mas aqueles que não o têm, nós não podemos dá-lo, senão pela razão. O que significa dar a fé pela razão? Conduzir o homem a tomar consciência de sua contradição e da impotência das filosofias, já que nelas se afirma e se nega de tudo, e admitir que somente a religião pode fornecer respostas satisfatórias para nossos anseios. Mas o princípio sobre o qual repousa estas respostas – o pecado original – é incompreensível pela razão. É preciso aceitar como um mistério inacessível. “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
 
Por João Francisco P. Cabral
Colaborador Brasil Escola
Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP
 

Islamismo é a religião que mais deve crescer nas próximas décadas

Pesquisa divulgada pelo Centro Pew afirma que se a tendência atual seguir, logo o islamismo deve alcançar o cristianismo em número absoluto de fiéis no mundo.
 
Em 2010, havia 13 milhões de imigrantes muçulmanos nos países da União Europeia...
 
O islamismo será a religião com o maior crescimento mundial nas próximas quatro décadas e, se a atual tendência se mantiver, se aproximará muito do cristianismo em número de fiéis em 2050. A informação foi revelada pelo Centro Pew em um novo estudo publicado sobre as projeções para o crescimento das populações religiosas nas próximas quatro décadas.
 
O relatório intitulado “O futuro das religiões do mundo: População e Projeções de Crescimento 2010-2050” constatou que em 2050 o número de cristãos irá girar em torno de 2,9 bilhões de pessoas, enquanto os muçulmanos, com um aumento percentual muito maior, chegarão a 2,8 bilhões. Atualmente existem 1,6 bilhão de muçulmanos em todo o planeta, enquanto os cristãos somam 2,17 bilhões de seguidores.
 
Segundo estas projeções, o islamismo será praticado então por 29,7% da população mundial, enquanto o cristianismo será a religião de 31,4%. O destaque no crescimento ficou para a Europa, onde o número de fiéis muçulmanos chegará a 10% da população. Com a exceção dos budistas, todos os principais grupos religiosos crescerão em número para 2050, mas alguns deles em velocidade menor do que o próprio crescimento populacional do planeta.
 
Na América Latina, a pesquisa prevê que os cristãos seguirão sendo o maior grupo religioso nas próximas décadas, inclusive com um crescimento de 25% entre 2010 e 2050. No entanto, indica que na região o maior aumento será entre aqueles que dizem não ter uma crença, de 45 milhões em 2010 para 65 milhões em 2050. Para os Estados Unidos, o estudo calcula que em 2050 a população de muçulmanos irá ultrapassar a de judeus, embora os cristãos ainda apareçam como maioria.
 
O estudo, baseado principalmente em censos e coleta de dados, levou em consideração o efeito das migrações, as conversões e a idade e o índice de fertilidade das populações religiosas. Em média, as muçulmanas têm 3.1 filhos, a taxa mais alta entre os grupos religiosos. As mulheres cristãs têm 2.7 filhos, as hindus 2.4 e as judias 2.3.
 
Durante o estudo o Centro Pew não considerou a profundidade com que as religiões estão inseridas nas populações, nem as subdivisões internas de cada uma delas. O projeto, que exigiu um grande esforço do Pew, é um dos primeiros a fazer uma análise demográfica do tipo e expõem um amplo e interessante quadro sobre um futuro próximo.
 

Justiça: foro privilegiado é porta aberta para a impunidade

“Todos são iguais perante a lei”. A Constituição Brasileira estabelece que todos os brasileiros e estrangeiros residentes no país são iguais perante a lei, mas o foro por prerrogativa de função, mais conhecido como foro privilegiado, pode ser considerado uma exceção a essa regra.
 
O foro privilegiado se refere a como as autoridades são julgadas. Ele garante tratamentos diferentes aos réus de processos, a depender da importância do cargo da pessoa. Esse direito determina que algumas autoridades são julgadas apenas em cortes superiores (especiais), ao contrário do cidadão comum, que é julgado pelo Poder Judiciário comum.
 
 
Foro privilegiado não é um privilégio de uma pessoa, mas do cargo público que ela ocupa. Ou seja, assim que as pessoas deixam o cargo, elas perdem esse direito.
 
Esse mecanismo jurídico foi criado com a ideia de proteger o exercício de determinada função ou mandato. Foi na Constituição de 1988 que o sistema de atribuição de foros privilegiados incluiu uma ampla gama de autoridades. No contexto da época, ele foi reforçado sob o argumento de preservar a democracia e impedir a volta de práticas da ditadura militar, como eventuais perseguições políticas.
A premissa fundamental desse direito é a garantia da estabilidade necessária ao exercício das funções públicas ao assegurar o máximo de imparcialidade nos julgamentos.
Caso não existisse o foro privilegiado, um acusado de cometer um crime deveria ser julgado pelo juiz do local onde o fato ocorreu, independentemente do cargo que ele exerça. Com o foro privilegiado, evita-se que o alvo da investigação não seja pressionado por quem queira prejudicá-lo ou, ainda, evita que a decisão de um juiz seja fruto de uma pressão de um determinado político local. Desta forma, no entendimento da lei, pode-se manter a estabilidade do país, garantindo um julgamento justo e imparcial.
 
Possuem esse direito o Presidente da República, os ministros (civis e militares), todos os parlamentares do Congresso Nacional, prefeitos, governadores dos Estados e do Distrito Federal, chefes de missão diplomática (embaixadores), integrantes do Poder Judiciário, do Tribunal de Contas da União (TCU) e todos os membros do Ministério Público.
 
A análise de processos envolvendo pessoas que gozam de foro privilegiado é designada a órgãos superiores, como o Supremo Tribunal Federal (STF), o Senado ou as Câmaras Legislativas.
O STF é responsável por julgar presidentes, ministros e parlamentares. Ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), cabem os casos que envolvem governadores, membros de tribunais de contas e desembargadores dos Tribunais de Justiça. Os prefeitos são julgados pelos Tribunais de Justiça estaduais. Já os tribunais regionais federais julgam os membros do Ministério Público Federal e os juízes federais de primeira instância.

Foro privilegiado e impunidade

O Brasil é considerado por especialistas como o país com mais autoridades resguardadas pelo foro especial no mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, nem o presidente tem direito a esse benefício.
O levantamento mais recente feito pela Associação dos Juízes Federais (Ajufe) mostrou que mais 45 mil pessoas são beneficiadas pelo foro especial nas diversas instâncias do Poder Judiciário. A estimativa feita pela força-tarefa da Operação Lava-Jato em 2015 chegou ao número de 22 mil pessoas.
 
O foro especial é alvo de crítica de muitos juristas. A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) defende o fim total do foro privilegiado. Para Roberto Veloso, presidente da Ajufe, “todos devem ter foro na primeira instância a partir da competência dos crimes cometidos”. Outros juristas defendem um “enxugamento” dos beneficiados, de forma que o mecanismo seja concebido apenas a poucas autoridades.

Um dos argumentos contra o mecanismo é que ele seria um privilégio que fere o princípio de igualdade da Carta Magna, que garante que todos os cidadãos brasileiros são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza ou regalias. Os defensores do foro privilegiado entendem que a regra não é concedida à pessoa, mas ao cargo que ela exerce.
 
Outra questão é que o foro privilegiado estimularia a impunidade e a condenação de políticos pela Justiça. Isso porque os tribunais de instâncias superiores não teriam estrutura para julgar o imenso número de processos relacionados a agentes públicos com foro privilegiado.
O prazo médio para recebimento de uma denúncia no STF é de 617 dias. Ao contar com a morosidade do sistema, o julgado poderia “fugir da justiça” até o crime prescrever e ser arquivado por excesso de tempo. Ou seja, o Estado perde o prazo para julgá-lo e com isso provocaria a impunidade.
 
A taxa de processos que o Supremo não consegue julgar é muito alta. Uma recente pesquisa da FGV mostra que 68% das ações penais concluídas no STF entre 2011 e 2016 prescreveram ou foram repassadas para instâncias inferiores porque a autoridade em questão deixou o cargo.
No entanto, o julgamento em instâncias inferiores não significa a garantia de um julgamento rápido. Quando ele começa na primeira instância, há uma maior possibilidade de recursos. Já a pessoa condenada pelo STF não tem mais a quem recorrer, uma vez que ele é a última instância da Justiça Federal.

No caso do escândalo de corrupção do “mensalão", por exemplo, 25 autoridades foram punidas pelo Supremo em 2012, enquanto alguns casos do mesmo escândalo que ficaram em instâncias inferiores até hoje não foram adiante.

Operação Lava Jato

A Operação Lava Jato reacendeu o debate sobre o fim do foro privilegiado por colocar em xeque a capacidade do STF de analisar um volume tão expressivo de investigações criminais por corrupção. A investigação policial envolve dezenas de parlamentares com foro especial em denúncias de recebimento de propinas e lavagem de dinheiro.
 
Dois fatos recentes também colocaram em pauta a questão do foro.
Em 2015, quando a então presidenta Dilma Rousseff indicou o ex-presidente Lula para substituir Jaques Wagner como ministro na Casa Civil, ela foi acusada de tentar proteger seu antecessor, usando o foro especial. Isso porque Lula era alvo da Operação Lava Jato e poderia ser julgado pelo juiz Sergio Moro. Em decisão do Supremo Tribunal Federal, o ex-presidente foi afastado do cargo.
Em fevereiro de 2017, Moreira Franco foi nomeado ministro da Secretaria Geral da Presidência. A medida foi anunciada pelo presidente Michel Temer na mesma semana em que o STF homologou as delações premiadas de executivos da empreiteira Odebrecht, em que Moreira Franco é mencionado como operador de propinas. O STF validou a posse alegando que a nomeação por si só não indicava desvio de finalidade.
 
Recentemente, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, fez uma lista de abertura de investigação contra parlamentares no âmbito da Operação Lava Jato, com base nos acordos de delação premiada de executivos da Odebrecht. São 83 pedidos de investigação contra políticos com foro no STF, como deputados e senadores. A lista reúne nomes de cinco partidos: PMDB, PP, PT, PTB e PSDB.
 
Para procuradores e delegados da Lava Jato, o excesso de processos pode inviabilizar os resultados da operação, em decorrência da demora no julgamento. A avaliação é de que, sem alterações legais para que o rito do processo seja mais rápido, a estrutura do Supremo não dará conta de julgar os processos de combate à corrupção.
 
Em entrevista ao Correio Braziliense, o delegado Adriano Anselmo afirmou que “o foro privilegiado é um salvo conduto para a impunidade. É inaceitável que no Brasil tantas castas se perpetuem com esse privilégio, incompatível com o princípio republicano. O cenário que se vê no país hoje é, em grande parte, fruto do foro privilegiado. Após três anos de operação, não temos perspectiva, por menor que seja, de casos concluídos a curto prazo envolvendo essas autoridades”.

Projetos de lei

Ao todo, 11 propostas de emendas à Constituição (PECs) estão tramitando na Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania (CCJ).
 
O debate sobre o foro foi reaberto no Senado em fevereiro deste ano, depois da apresentação, pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR), de uma proposta de PEC que visava dar imunidade aos ocupantes de cargos na linha sucessória presidencial, mesmo para atos cometidos antes da vigência do mandato. Pela Constituição, apenas o presidente da República tem esse benefício atualmente.
 
Para Jucá, seria legítimo dar o mesmo tratamento aos presidentes dos três poderes para garantir maior equilíbrio às instituições. “Os presidentes não podem ficar suscetíveis a sair do cargo por conta de uma decisão pessoal do procurador-geral da República. Acho que isso não é consistente com a harmonia dos poderes”, afirmou o senador à imprensa.
 
O projeto de Jucá beneficiaria diretamente o presidente do Senado, Eunicio Oliveira (PMDB-CE) e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), dando a eles a mesma imunidade do presidente da República, Michel Temer. Os dois são citados em delações premiadas no âmbito da Lava Jato. A proposta foi arquivada.
 
Em março deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso enviou ao plenário da Corte uma proposta que discute a restrição do foro privilegiado para deputados federais, senadores e ministros.
 
No despacho, o ministro diz que os detentores de foro privilegiado somente devem responder a processos criminais no STF se os fatos imputados a eles ocorram durante o mandato. No caso de fatos que ocorreram antes da posse, a competência para julgamento seria da Primeira Instância da Justiça. Por esse entendimento, os processos da Lava Jato “desceriam” para a Justiça Comum.
 
Barroso argumenta que o privilégio precisa ser revisto por dificultar investigações de autoridades e colaborar para que haja impunidade. Ele propôs ainda que fosse criada uma vara especial em Brasília, vinculada ao STF, para processar casos de foro privilegiado. "Não é preciso prosseguir para demonstrar a necessidade imperativa de revisão do sistema. Há problemas associados à morosidade, à impunidade e à impropriedade de uma Suprema Corte ocupar-se como primeira instância de centenas de processos criminais. Não é assim em parte alguma do mundo democrático".
 
Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação
 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

DEFINIÇÃO DE PECADO ORIGINAL (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA)

 
DEFINIÇÃO DE PECADO ORIGINAL (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA)

Todos os homens estão implicados no pecado de Adão. É São Paulo quem o afirma: «pela desobediência de um só homem, muitos [quer dizer, a totalidade dos homens] se tornaram pecadores» (Rm 5, 19): «Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram» (Rm 5, 12). A universalidade do pecado e da morte, o Apóstolo opõe a universalidade da salvação em Cristo: «Assim como, pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só [Cristo], virá para todos a justificação que dá a vida» (Rm 5, 18).
 
Depois de São Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o facto de ele nos ter transmitido um pecado de que todos nascemos infectados e que é «morte da alma» (292). A partir desta certeza de fé, a Igreja confere o Baptismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal (293).
Como é que o pecado de Adão se tornou o pecado de todos os seus descendentes? Todo o género humano é, em Adão, «sicut unum corpus unius hominis – como um só corpo dum único homem» (294). Em virtude desta «unidade do género humano», todos os homens estão implicados no pecado de Adão, do mesmo modo que todos estão implicados na justificação de Cristo. Todavia, a transmissão do pecado original é um mistério que nós não podemos compreender plenamente. Mas sabemos, pela Revelação, que Adão tinha recebido a santidade e a justiça originais, não só para si, mas para toda a natureza humana; consentindo na tentação, Adão e Eva cometeram um pecado pessoal, mas este pecado afecta a natureza humana que eles vão transmitir num estado decaído (295). É um pecado que vai ser transmitido a toda a humanidade por propagação, quer dizer, pela transmissão duma natureza humana privada da santidade e justiça originais. E é por isso que o pecado original se chama «pecado» por analogia: é um pecado «contraído» e não «cometido»; um estado, não um acto.
Embora próprio de cada um (296), o pecado original não tem, em qualquer descendente de Adão, carácter de falta pessoal. É a privação da santidade e justiça originais, mas a natureza humana não se encontra totalmente corrompida: está ferida nas suas próprias forças naturais, sujeita à ignorância, ao sofrimento e ao império da morte, e inclinada ao pecado (inclinação para o mal, que se chama concupiscência). O Baptismo, ao conferir a vida da graça de Cristo, apaga o pecado original e reorienta o homem para Deus, mas as consequências para a natureza, enfraquecida e inclinada para o mal, persistem no homem e convidam-no ao combate espiritual.
A doutrina da Igreja sobre a transmissão do pecado original foi definida sobretudo no século V, particularmente sob o impulso da reflexão de Santo Agostinho contra o pelagianismo, e no século XVI, por oposição à Reforma protestante. Pelágio sustentava que o homem podia, pela força natural da sua vontade livre, sem a ajuda necessária da graça de Deus, levar uma vida moralmente boa; reduzia a influência do pecado de Adão à de um simples mau exemplo. Os primeiros reformadores protestantes, pelo contrário, ensinavam que o homem estava radicalmente pervertido e a sua liberdade anulada pelo pecado das origens: identificavam o pecado herdado por cada homem com a tendência para o mal («concupiscência»), a qual seria invencível. A Igreja pronunciou-se especialmente sobre o sentido do dado revelado, quanto ao pecado original, no segundo Concílio de Orange em 529 (297) e no Concílio de Trento em 1546 (298).” (CIC – Parágrafos 402-406)
 
O PECADO ORIGINAL DA BÍBLIA

(1) Romanos 5, 12-21
 
Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram... De fato, até a lei o mal estava no mundo. Mas o mal não é imputado quando não há lei. No entanto, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não pecaram à imitação da transgressão de Adão (o qual é figura do que havia de vir). Mas, com o dom gratuito, não se dá o mesmo que com a falta. Pois se a falta de um só causou a morte de todos os outros, com muito mais razão o dom de Deus e o benefício da graça obtida por um só homem, Jesus Cristo, foram concedidos copiosamente a todos. Nem aconteceu com o dom o mesmo que com as conseqüências do pecado de um só: a falta de um só teve por conseqüência um veredicto de condenação, ao passo que, depois de muitas ofensas, o dom da graça atrai um juízo de justificação. Se pelo pecado de um só homem reinou a morte (por esse único homem), muito mais aqueles que receberam a abundância da graça e o dom da justiça reinarão na vida por um só, que é Jesus Cristo! Portanto, como pelo pecado de um só a condenação se estendeu a todos os homens, assim por um único ato de justiça recebem todos os homens a justificação que dá a vida. Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos. Sobreveio a lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça.  Assim como o pecado reinou para a morte, assim também a graça reinaria pela justiça para a vida eterna, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Romanos 5, 12)
(2) 1 Coríntios 15, 21-22 – Em Adão todos morremos
Com efeito, se por um homem veio a morte, por um homem vem a ressurreição dos mortos.Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão.” (I Coríntios 15, 21-22)
(3) Efésios 2, 1-3 Mortos no pecado… pornatureza filhos da ira.  
E vós outros estáveis mortos por vossas faltas, pelos pecados que cometestes outrora seguindo o modo de viver deste mundo, do príncipe das potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes. Também todos nós éramos deste número quando outrora vivíamos nos desejos carnais, fazendo a vontade da carne e da concupiscência. Éramos como os outros, por natureza, verdadeiros objetos da ira (divina).”  (Efésios 2, 1-3)
(4) Gênesis Capítulos 2-3; 6, 5; 8,21 – A queda da Humanidade.
(5) Salmo 50; 57 -- concebido em pecado...extraviado desde o ventre
Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado...”(Salmo 50,7)
Desde o seio materno se extraviaram os ímpios, desde o seu nascimento se desgarraram os mentirosos.” (Salmo 57,4)
(6) Jó 14, 1ss; 15, 14 – nascido de uma mulher… imundo..
(7) Sabedoria 1, 12ss; 2, 23ss; Eclesiástico 25, 24 – De Eva veio a Morte.
 
O PECADO ORIGINAL NOS PAIS DA IGREJA

Demonstrações dos Padres não são entendidas como uma prova direta da doutrina uma vez qye os escritos patrísticos não são Escritura Inspirada nem na teologia católica são os padres considerados infalíveis individualmente. No entanto, eles são testemunhas da fé cristã autêntica como foi proferida e desenvolvida no início da Igreja.
 
  • Sobre a doutrina do pecado original - se a crença católica é verdadeira - devemos encontrar nos Padres que o pecado de Adão [e Eva] resultou nas seguintes consequências:
  • Morte para todos (Gn 3; 1 Cor 15: 21f; Rm 5: 12,15; 06:23)
  • Condenação para todos (Rm 5, 16ff)
  •  Um “contágio” herdado - desde o nascimento estamos  “constituidos pecadores” (Romanos 5, 12-19 cf. 7,13ss;
  • Salmo 51: 5 5 Ef 2, 1-3) perda ou falta de graça, santidade, filiação divina
  •  E transmitidos "pela propagação e não por imitação [de Adão]"
 Em relação ao batismo, devemos encontrar o seguinte sobre o sacramento:
  • Remissão do pecado e da recepção do Espírito Santo (Atos 2:38)
  • Regeneração espiritual / o novo nascimento (João 3: 3,5; Tito 3: 5)
  • Restauração da filiação, graça, santidade (Rm 6: 3ff; 8: 11ss)
  • E que o sacramento foi administrado as crianças desde cedo
 
SANTO IRINEU DE LIÃO (180 d.C)
"Por outros termos, trata-se de Adão, o homem modelado em primeiro lugar, acerca do qual a Escritura refere que Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Nós todos derivamos dele e por causa disso herdamos o seu nome. Ora, se o homem foi salvo, também salvo deve ser o homem que foi modelado em primeiro lugar. De fato, seria por demais irracional dizer que não é libertado pelo vencedor do inimigo quem diretamente foi ferido pelo mesmo inimigo e que foi o primeiro a experimentar a escravidão, ao passo que seriam libertados os filhos gerados por ele na mesma escravidão." (Contra as Heresias - Livro III, 23, 2)
 
TERTULIANO (200 d.C)
Por fim, em todos os casos de irritação, desprezo e repugnância, você pronuncia o nome de Satanás. Ele é quem chamamos o anjo do mal, o autor de todos os erros, o corruptor de todo o mundo, por meio do qual o homem foi enganado no início para que ele transgredisse o mandamento de Deus. Por conta de quem o homem transgressor foi entregue à morte; e a raça humana inteira, que foi infectado por sua semente, foi feito o transmissor da condenação." (O Testemunho da Alma 3, 2)
Porque por um homem veio a morte, por um homem também vem a ressurreição” [1 Coríntios 15, 21]. Aqui, pela palavra homem, que é composto de um corpo, como mostrado já muitas vezes, temos, eu entendo que é um fato que Cristo tinha um corpo. E se todos nós somos feitos para viver em Cristo como Nós fomos feitos para morrer em Adão, então, como na carne Fomos feitos para morrer em Adão, então, também na carne fomos feito para viver em Cristo. Caso contrário, se o que vem à vida em Cristo não viesse a ter lugar naquela mesma substância em que nós morremos em Adão, o paralelo seria imperfeito.” (Contra Marcião 5- 9, 5)
 
ORÍGENES  (244 d.C)
 “A Igreja recebeu dos Apóstolos o costume de administrar o batismo até mesmo para crianças. Pois aqueles a quem foram confiados os segredos dos mistérios divinos sabiam muito bem que todos carregam a mancha do pecado original, que deve ser lavada com água e o espírito. (Orígenes In Rom. Com. 5,9:)
Se as crianças são batizadas “para a remissão dos pecados” cabe uma pergunta: de que pecados se tratam? Quando eles poderiam pecar? Como podemos aceitar tal testemunho para o batismo de crianças, a menos que se admita que ‘ninguém está sem pecado, mesmo quando sua vida na terra não tenha durado mais que um dia’?. As manchas do nascimento são removidas pelo mistério do batismo. Se batiza crianças porque ‘se alguém não nascer da água e do espírito, é impossível entrar no reino dos céus.’”  (Orígenes, Homilia sobre o Evangelho de Lucas 14, 1)
Havia muitos leprosos em Israel nos dias do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o sírio, que pertencia ao povo de Israel. Considere o grande número de leprosos que tinha até então ‘em Israel segundo a carne’. Veja, por outro lado, a espiritual Eliseu, nosso Senhor e Salvador, que purifica no mistério do batismo os homens cobertos pelas manchas da lepra e dirige-lhe estas palavras: ‘Levanta-te, vai ao Jordão, e a tua carne ficará limpa’. Naamã se levantou, foi tomar banho e cumpriu o mistério do batismo, ‘sua carne ficou como a carne de uma criança.’ Que criança? Daquele que ‘no banho de regeneração’ nasce em Cristo Jesus.” (Orígenes, In Luc. hom. 33, 5)
Se você gosta de ouvir o que os outros santos disseram sobre o nascimento físico, ouça Davi, quando ele diz: ‘Eu fui formado, assim diz o texto, em maldade, e minha mãe me concebeu no pecado’; mostra que toda alma que nasce em carne carrega a mancha da iniquidade e do pecado. É por isso que esta frase citada acima: Ninguém está livre de pecado, nem mesmo a criança que tem apenas um dia. Tudo isso pode ser adicionado a consideração da razão sobre o motivo que tem a Igreja para o costume de batizar crianças, pois este sacramento da Igreja seja para a remissão dos pecados. Certamente, se não houvesse crianças em necessidade de remissão e perdão, a graça do batismo pareceria desnecessária.” (Orígenes, Homilia sobre Levítico 8, 3)
 
SÃO CIPRIANO DE CARTAGO (250 d.C)
Porém em relação com o caso das crianças, na qual disse que não devem ser batizados no segundo diz ou terceiro dia depois do nascimento, e que a antiga lei da circuncisão deve ser considerada, pela qual pensa que alguém que de nascer não deve ser batizado e santificado dentro de 8 dias, todos nos pensamos de uma maneira muito diferente em nosso concílio. Por que neste curso que pensas tomar, nada está de acordo, se não que todos julgamos que a misericórdia e graça de Deus não devem ser negada a nenhum nascido do homem. Por que como disse o senhor em seu evangelho: “o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.” Na medida em que possamos, devemos depois procurar que se possível, que nenhuma alma se perca...
Por outro lado, a fé nas escrituras divinas nos declaram que todos, sejam crianças ou maiores, temos a mesma igualdade nos dons divinos...
A razão pela qual cremos que ninguém deve ser impedido de obter a graça da lei, por que na lei que foi ordenada, e a circuncisão espiritual não deve ser impedida pela circuncisão carnal, senão que absolutamente todos os homens tem que ser admitidos à graça de Cristo., já que também Pedro nos Atos dos Apóstolos fala e diz: “Deus me mostrou que eu não deveria ligar para qualquer homem comum ou imundo.”. Mas se nada poderia impedir a obtenção da graça aos homens, e o mais atroz de todos os pecados não pode por obstáculos aos que são maiores. Mas se até aos que são os maiores pecadores, e os que haviam pecado contra Deus, quando creem, lhes é concedido a remissão dos pecados e nada se vê impedindo o batismo e a graça, deveríamos impedir um bebê? Que sendo recém nascido, não há pecado, salvo, que nascido da carne de Adão, contraiu o contágio da morte antiga em seus nascimento?...
E, portanto, querido irmão, esta foi nossa opinião no concílio, que por nós, nada deve impedir o batismo e a graça de Deus, que é misericordioso, amável e carinhoso para com todos. Que, posto que é observado e mantido em respeito a tudo, nos parece que se deve respeitar em todos os casos inclusive nos das crianças...”   (Carta 58, 5  a Fidus)
Se, no caso de os piores pecadores e dos que antigamente pecaram muito contra Deus, quanto mais tarde eles acreditam, a remissão de seus pecados é concedida e ninguém está impedido do Batismo e graça, quanto mais, então, que um infante não seja detido, o qual, tendo, mas recentemente nascido, não cometeu nenhum pecado, exceto que, nascido da carne de acordo com Adão, ele contraiu o contágio dessa antiga morte de seu primeiro nascimento . Por isso mesmo é que ele se aproxima mais facilmente para receber a remissão dos pecados: porque os pecados perdoados Nele não são seus, mas os de outro.” (Carta 64, 5)
 
METÓDIO DE FELIPO (300 d.C)
O homem também foi criado sem corrupção... Mas quando aconteceu que ele transgrediu o mandamento, ele sofreu uma terrível e destrutiva queda e foi reduzido a um estado de morte. O Senhor diz que foi por causa disso que Ele mesmo desceu do céu para o mundo, tomando a licença das fileiras e os exércitos dos anjos... Foi para este fim que o Verbo se colocou sobre a humanidade: que Ele poudesse superar a serpente e que Ele mesmo pudesse colocar para baixo a condenação que primeiro veio a existir quando o homem foi arruinado. Porque convinha que o maligno não fosse derrotado por outro, mas por aquele ele havia enganado, e quem ele estava gozando de que mantinha em sujeição. De nenhuma outra maneira poderia o pecado e a condenação serem destruído, exceto criar de novo esse mesmo homem - aquele de quem se dizia: “Vieste da do pó e ao pó retornarás” [Gen 3, 19] - e por sua ruína a frase , por causa dele [Adam], foi pronunciada sobre todos. Assim, apenas como em Adão todos anteriormente morriam, então de novo em Cristo, que sobrepujou Adão, todos são feitos para viver [1 Coríntios 15, 22].” (O Banquete das 10 Virgens ou Sobre a Castidade 3, 6)
 
AFRAÁTES DO SÁBIO PERSA (340 d.C)
"Com efeito, uma vez que o primeiro ser humano deu ouvido e escutou à serpente, ele recebeu a sentença de maldição, pela qual ele se tornou o alimento para a serpente; e a maldição passou para toda a sua descendência." (Afraates o Sírio, Tratados 6:14; 7: 1; 23: 3)
 
 EFRAIM DA SÍRIA (+373 d.C)
 “Adão pecou e ganhou todas as dores, e o mundo, seguindo o seu exemplo, toda a culpa. E não levou nenhum pensamento de como ele poderia ser restaurado, mas apenas de como sua queda oudesse ser mais agradável por isso. Glória a Ele que veio e restaurou-o!” (Hinos da Epifania 10, 1)
 
ATANÁSIO DE ALEXANDRIA (360 d.C)
Adão, o primeiro homem, alterou o seu curso, e através do pecado, a morte entrou no mundo .... Quando Adão transgrediu, O PECADO se estendeu a todos os homens.” (Discursos contra os arianos 1, 51)
SÃO CIRÍLO DE JERUSALÉM (370 d.C)
A coroa da cruz levou para a luz aqueles que estavam cegos pela ignorância, soltou todos aqueles que estavam acorrentados por seus pecados, e resgatou a totalidade dos homens. Não é de admirar que o mundo inteiro está redimida. Ele não era um mero homem, mas o unigênito Filho de Deus, que morreu em seu nome. Na verdade, um só homem pegou, Adão, tinha o poder de trazer a morte para o mundo. Se, pela ofensa de um, a morte reinou sobre o mundo [Rom 5, 17], por que não a vida mais apropriadamente reinaria pela justiça de um? Se eles foram expulsos do paraíso por causa da árvore e por comerem, não deveriam agora os crentes entrar mais facilmente no paraíso por causa da árvore de Jesus? Se esse homem primeiro formado da terra inaugurou a morte universal, não deve Ele que o formou da terra trazer vida eterna, já que Ele próprio é a vida?” (Leituras Catequéticas 13, 1-2)
 
SÃO BASÍLIO MAGNO (379 d.C)
Pouco dado, muito recebido; pela doação o pecado original é descarregado. Assim como Adão transmitiu o pecado por sua comida perversa, destruímos esse alimento traiçoeiro quando curamos a necessidade e a fome do nosso irmão.... Para os presos, o Batismo é o resgate, perdão de dívidas, morte do pecado, a regeneração da alma , uma peça de roupa resplandecente, um selo inquebrável, uma carruagem para o céu, um protetor real, um presente de adoção.” (Elogio sobre os mártires 8, 7; 13, 5)
 
SÃO GREGÓRIO DE NAZIANZO
Isso vai acontecer, eu acredito... que esses últimos mencionados[crianças que morrem sem batismo] não serão nem admitidos pelo justo julgamento a glória do Céu, nem condenados a sofrer punição, uma vez que, embora não sejam selados [pelo batismo], eles não são maus.... Pois do fato de que não merecem punição não se seguem que são digno de serem honrados, mais do que se segue que aquele que não é digno de uma certa honra merece por conta disso que ser punido.”(Oração 40, 23)
 
DIDÍMO O CEGO (398 d.C)
Se Cristo tivesse recebido Seu corpo de uma união conjugal e não de outra maneira seria suposto que ele também está sujeito a uma prestação de contas por causa do pecado, que, de fato, todos os que são descendentes de Adão contraíram por sucessão.” (Contra os maniqueístas 8)
 
SÃO JOÃO CRISÓSTOMO (380 d.C)
Você vê quantos são os benefícios do Batismo, e alguns pensam que sua graça celestial consiste apenas na remissão dos pecados; mas temos enumerado dez honras. Por esta razão, batizar até mesmo crianças, embora eles não sejam contaminados por pecado [ou ainda que eles não têm pecados pessoais]: de modo que pode haver dado a eles a santidade, a justiça, a adoção, a herança, a fraternidade com Cristo, e que eles possam ser seus membros.” (Catequese Batistmal citada por Santo Agostinho no Contra Juliano 1, 6)
Nesta passagem, Santo Agostinho comenta em Contra Julian 1, 6: 22 depois de citar a linha acima em grego:
Mas não tratemos de suposições, ou um possível erro de um copista ou um matiz do tradutor. Cito as palavras de João como se lê no texto grego: ")\"J@ØJ@6"ÂJB"4*\"$"BJ\.@:,<6"ÂJ@4:"DJZ:"J"@Û6§P@<J"”. O que se traduz: “Por isso batizamos crianças, embora elas não tenham pecado." Você vê com certeza que diz: "As crianças não estão manchadas com o pecado” ou o “pecados," mas eles não têm pecado. Entendes pessoalmente, e discussão já não é possível.
Por réplicas, disse que "possui"? A razão é simples, porque ele fala ao coração da Igreja Católica, e acreditava que não seria interpretado de outras maneiras para além das palavras expressas; ninguém tinha levantado essa discussão, e, não sendo contestado esta verdade, ele fala muito seguro.
Agostinho ainda fala:
Você se atreve a opor-se as palavras do santo Bispo João e àqueles tantos ilustres colegas seus e apresenta como um adversário e como um membro dissidente da companhia em que a mais perfeita harmonia reina, Deus me livre! Longe de nós dizer ou pensar tão grande mal deste homem ilustre! Longe de nós pensar que João de Constantinopla abrigue, sobre batismo das crianças e a liberação por Cristo de sua escritura paterna, sentimentos contrários de muitos eminentes colegas, em particular Inocêncio de Roma, Cipriano, Basílio da Capadócia, Gregório Nazianzeno, Hilário da Gália e Ambrósio de Milão. Há, sim, algumas questões sobre as quais eles não concordam, por vezes, estes defensores mais instruídos e invictos da fé católica, sempre guardam a unidade da fé, e podem dizer algo mais verdadeiro e melhor do que outro. Mas a questão que tratamos agora pertence aos fundamentos da fé. Qualquer um que quer, dentro da fé cristã, substituir o que está escrito, ou seja, que a morte entrou no mundo por um homem, e de um homem veio a ressurreição dos mortos; e como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos serão vivificados, esforça-se para tirar a nossa fé em Cristo.”  (Contra Juliano Livro I Capitulo 6, 22)
Além disso, Jurgens comenta que Juliano de Eclanum tinha apelado a Crisóstomo em favor do Pelagianismo citando a linha acima de - Ad neophytos - “Nós batizamos até mesmo crianças, embora eles não estejam contaminadas pelo pecado,”, e ele tomou isso como uma negação do pecado original . No entanto, Agostinho teve não apenas o latim, mas o original grego do mesmo texto que se ler: “Nós batizamos até mesmo crianças, embora eles não tenham pecados.” Agostinho insiste que os “pecados” no plural deixa claro que Crisóstomo estava falando de pecados pessoais. Agostinho então exonera Crisóstomo e priva Juliano de sua fonte, citando inúmeras outras passagens de Crisóstomo.
O que significa: “Porque nele todos pecaram”? Pela queda e por causa dele, apesar de não terem comido do fruto da árvore, seus descendentes todos se tornaram mortais. Pois já antes da Lei, havia pecado no mundo; o pecado, porém, não é levado em conta quando não existe lei. Alguns julgam que a expressão: “Antes da Lei” indica o tempo anterior à promulgação da Lei, a saber, a época em que viveram Abel, Noé e Abraão, até o nascimento de Moisés. Que pecado havia então? Uns dizem que ele assinala o pecado cometido no paraíso, que ainda não estava apagado, dizem eles, e vicejava nos frutos, causando de modo geral a morte, que imperava e tiranizava. Por que, então, acrescentou: “O pecado, porém, não é levado em conta quando não existe lei”? Aqueles que concordam conosco afirmam que ele formulou, segundo a objeção dos judeus, o seguinte: Se não há pecado sem lei, porque a morte eliminou a todos os que viveram antes da Lei? A meu ver, o que vamos expor é mais consentâneo à razão e de acordo com o pensamento do Apóstolo. O que é? A asserção de que “já antes da Lei, havia pecado no mundo”, parece-me dizer que, depois de promulgada a Lei, o pecado por transgressão dominou e perdurou enquanto a Lei existia; “o pecado, porém, não é levado em conta quando não existe lei”. Se, portanto, este pecado por transgressão da Lei gera a morte, replicas, como morreram todos os que existiram antes da Lei? Se o pecado foi a raiz da morte e “o pecado não é levado em conta quando não existe lei”, de que modo imperava a morte? Daí se conclui que não foi o pecado por transgressão, mas o pecado de desobediência cometido por Adão que arruinou tudo. E como se comprova? Porque antes da Lei todos morriam. 14. Todavia a morte imperou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram. Como imperou? De modo semelhante à transgressão de Adão, que é figura daquele que devia vir. Adão, portanto, é figura de Jesus Cristo. De que modo é figura? perguntas. Adão para os seus descendentes, apesar de não terem comido do fruto da árvore, foi causa de morte, através do alimento; doutro lado, Cristo para os seus, que não haviam praticado o bem, foi conciliador da justiça, concedida a todos nós por meio da cruz[...] de sorte que se um judeu te disser: É possível que apenas um, Cristo, pratique o bem, e obtenha a salvação para todo o orbe? – possas replicar-lhe: É possível que um só, Adão, tenha desobedecido e o mundo inteiro foi condenado?” (Homilia 10,1 Sobre Romanos)
Jurgens comenta sobre a passagem assim e Romanos 5, 12:
Crisóstomo sabia grego também, e ele nunca supôs que isso significava nada, exceto causa. Ele ainda refere-se a passagem ao pecado original, e entende pela cláusula “porque todos pecaram” que o que se quer dizer é “porque todos pecaram [em Adão]”, não é só que todos pecaram em seqüência depois de Adão, mas todos pecaram em conseqüência de Adão [...] a cláusula final exige claramente para a interpretação “porque todos pecaram em Adão”. Ele não precisa exclui o pecado pessoal, mas ele deve incluir o pecado original [...] Crisóstomo e os Padres em geral viram Rom 5, 12 como se referindo ao pecado original. A menção do pecado causando a morte, e morte sendo, portanto, a todos os homens era suficiente; por isso deve-se admitir que os Padres, em geral, não distinguem facilmente entre pecado original e seus efeitos. Assim, por Crisóstomo, o próprio fato de que os homens morrem, mesmo sem o “porque todos pecaram”, chama a atenção para o pecado original.” (The Faith of the Early Fathers Pg 115-116)
Crisóstomo continua:
De modo que, como pela desobediência de um só, todos se tornaram pecadores, assim pela obediência de um só, todos se tornaram justos. Esse dito parece levantar não pequena questão, que facilmente se resolverá através de cuidadosa atenção. Qual é a questão? Assegurar que, pela desobediência de um só, todos se tornaram pecadores. Não é inverossímil que em consequência do pecado o primeiro homem fez-se mortal com todos os seus descendentes; mas seria lógico que pela desobediência de um homem um outro se tornasse pecador? A conclusão seria que não devia ser castigado a não ser que ele mesmo se tornasse pecador. O que significa nesse trecho o termo: Pecadores? A meu ver, ser réu de suplício e condenado à morte. O Apóstolo mostrou claramente e em muitas passagens que, tendo morrido Adão, todos nós nos tornamos mortais.(Homilia 10,1 Sobre Romanos)
 
SÃO PACIANO DE BARCELONA (392 d.C)
Depois que Adão pecou, como observei antes, quando o Senhor disse: ‘Você é pó, e ao pó retornarás’ (Gn 3, 19), Adão foi condenado à morte. Esta condenação foi repassada a raça inteira. Pois todos pecara, já com a sua participação naquela natureza [ipsa iam urgente natura], como diz o Apóstolo: ‘Pois por um só homem o pecado entrou, e através do pecado morreu, e assim ele desceu para todos os homens, porque todos pecaram’ [Rm 5, 12, e veja nota Jurgens, vol 2, pg 144, n3] .... Alguém me dirá: Mas o pecado de Adão merecidamente passou para seus descendentes, porque eles eram nascido dele: mas como é que vamos ser gerados de Cristo, para que possamos ser salvos por meio dele? Não acho que estas coisas de uma forma carnal. Você já viu como é que são gerados por Cristo, nosso Pai. Nestes últimos tempos, Cristo tomou uma alma e com ele carne de Maria: esta carne veio para preparar a salvação...” (Sermões sobre o batismo 2; 6)
 
SANTO AMBRÓSIO DE MILÃO (383 d.C)
Antes de nascermos nós estamos infectados com o contágio, e antes de ver a luz do dia nós experimentamos o prejuízo da nossa origem. Em iniqüidade somos concebidos [cf. Salmos 51: 5] - ele não diz se a maldade de nossos pais ou nossa própria - E em pecados a mãe de cada um lhe dá vida. Nem com isso que ele indica se sua mãe deu à luz em seus próprios pecados ou se os pecados dos quais ele fala pertencem de alguma forma ao nascer. Mas considere e ver o que se quer dizer. nenhuma concepção é sem iniquidade, já que não há pais que não caíram. e se não há nenhum bebê que esteja mesmo um dia sem pecado, muito menos podem as concepções de útero de uma mãe ser sem pecado. Somos concebidos, portanto, no pecado de nossos pais, e é em seus pecados que nós nascemos." (Explicação sobre o profeta Davi 1, 11, 56)
Adão foi trazido a vida; e fomos todos trazidos à existência por ele. Adão pereceu e nele todos perecemos.” (Comentário ao Evangelho de Lucas 7, 234)
Pedro estava puro, mas devia lavar os pés, pois tinha o pecado que vem pela sucessão do primeiro homem, quando a serpente o subjugou e o induziu ao erro. É por isso que se lavam os pés dele, a fim de tirar os pecados hereditários. Portanto, nossos próprios pecados foram perdoados pelo batismo.”  (Sobre os Mistérios 32)
 
AMBROSIASTER OU PSEUDO AMBRÓSIO ( + 384 d.C)
Em quem’ isto é, em Adão – ‘todos pecaram’ [Rm 5, 12]. E ele disse: "em quem", usando a forma masculina, quando ele falava de uma mulher, porque a referência não era para um indivíduo específico, mas para a raça. É evidente, portanto, que todos pecaram em Adão,  -en masse-  por assim dizer; pois quando ele próprio foi corrompido pelo pecado, todos a quem ele gerou nasceram sob o pecado. Por sua causa, em seguida, todos são pecadores, porque todos nós somos dele. Ele perdeu o favor de Deus, quando se desviou.” (Comentários sobre 13 Epístolas Paulinas, Em Romanos 5:12, ver também Jurgens comentários vol 2, pg 179, N1-3)
 
SANTO AGOSTINHO (+ 430 d.C)
Você está condenado por todos os lados. Os numerosos testemunhos em relação ao pecado original, testemunhos dos santos, são mais claros do que a luz do dia. Olha o que um conjunto está no que eu lhe trouxe. Aqui está Ambrósio de Milão... aqui também é João de Constantinopla [Crisóstomo]... Aqui está Basilio... Aqui estão outros também, cujo acordo geral é tão grande que deve movê-lo. Esta não é, como você escreve com uma caneta para o mal, ‘uma conspiração dos perdidos’. Eles eram famosos na Igreja Católica por sua busca pela sã doutrina. Armados e cingidos com armas espirituais, eles travaram guerras extenuantes contra os hereges; e quando tinham fielmente completados os trabalhos dados a eles, adormeceram no colo da paz... Veja onde eu lhe trouxe: a assembléia desses santos não é qualquer uma. Eles não são apenas os filhos, mas também pais da Igreja... sacerdotes santos e bem-aventurados, amplamente conhecidos pela sua diligência na eloquência divina, Irineu, Cipriano, Reticio, Olimpo, Hilário, Ambrósio, Gregório, Inocêncio, João, Basílio - e se você goste ou não, vou acrescentar o presbítero Jerônimo, omitindo aqueles que ainda estão vivos - pronunciei contra você a opinião deles sobre o pecado original na sucessão da culpa de todos os homens, de onde ninguém está isento exceto Ele que a Virgem concebeu sem a lei do pecado guerreando contra a lei da mente...O que eles encontraram na Igreja, eles mantiveram; o que aprenderam, eles ensinaram; o que receberam dos pais, eles transmitiram aos filhos. Nós nunca estivemos envolvidos com você antes que esses juízes; mas nosso caso já foi tentado antes deles. Nem nós, nem você era conhecido deles; mas nós recitamos seus julgamentos proferidos em nosso favor contra você... Estes homens são bispos, sábios, solentes, santos e mais zelosos defensores da verdade contra vaidades tagarelas, em cujo motivo, erudição, e liberdade, três qualidades que você demanda em um juiz, você pode encontrar sem nada a desprezar... Com esses plantadores, bebedouros, construtores, pastores e fomentadores a Santa Igreja cresceu após o tempo dos Apóstolos.” (Contra Juliano 1:7:30-31; 2:10:33-34; 2:10:37)
 

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