domingo, 19 de junho de 2016

IMAGEM DE NOSSA SENHORA APARECIDA CHEGA Á DIOCESE DE SETE LAGOAS NESTE SÁBADO (18/06). VEJA A PROGRAMAÇÃO DA VISITA EM SUA PARÓQUIA.


As celebrações pelos 60 anos da Diocese de Sete Lagoas terão as bênçãos de Nossa Senhora Aparecida. Na manhã deste sábado (18), o Sr.  Bispo  Diocesano Dom Guilherme Porto recebeu em suas mãos a Imagem peregrina, durante missa solene no Santuário Nacional, em Aparecida. Até julho de 2016, a Padroeira do Brasil percorrerá todas as paróquias da diocese em preparação para o jubileu dos 300 anos do encontro nas águas do Rio Paraíba.
 
A romaria foi formada por ônibus, vans e carros particulares com a participação de fiéis, sacerdotes e religiosos. A programação teve início às 9h, com a missa presidida pelo bispo, e concelebrada pelos presbíteros presentes, com transmissão ao vivo pela Rede Vida de Televisão e TV Aparecida.
 
“Neste ano jubilar de ação de graças, em que comemoramos sessenta anos de nossa Diocese, temos a celebrar grandes conquistas. Embora, continue, em constante construção e renovação, cresce por si mesma em sua missão graças ao trabalho árduo e desafiador, de fé e coragem de todo o povo cristão”, ressalta Dom Guilherme Porto.
 
Após a missa, todos os diocesanos seguiram para Sete Lagoas levando a Imagem de Nossa Senhora Aparecida. A chegada da santa está prevista para às 21h, no Carmelo Imaculada Conceição, localizada no bairro Progresso.
 
Para o domingo, dia 19 de junho, uma carreata sairá do Carmelo com destino à Catedral de Santo Antônio, onde será celebrada uma missa solene, às 10h. Em sequência ela seguirá em peregrinação pelas paróquias.

PROGRAMAÇÃO:

Dia 18/06
09h00 – Missa no Santuário Nacional de Aparecida/SP com a entrega da imagem peregrina à Dom Guilherme Porto.
21h00 – Chegada da imagem ao Carmelo da Imaculada Conceição, no bairro Progresso.

Dia 19/06
08h00 – Carreata saindo da Paróquia Imaculada Conceição sentido Catedral de Santo Antônio (Centro)
 10h00 – Missa solene na Catedral Santo Antônio.
 13h00 – Comunidade Santo Expedito (Estrada dos Tropeiros).
 18h30 – Paróquia São Geraldo (Bairro São Geraldo).

Dia 20/06
10h00 – Paróquia São Cristóvão (Bairro Santo Antônio).
 17h00 – Paróquia São Pedro (Jardim Arizona).

Dia 21/06
 10h00 – Paróquia Nossa Srº da Conceição (Barreiro).
 17h00 – Paróquia Santa Luzia (Bairro Santa Luzia).

Dia 22/06
 10h00 – Paróquia Nossa Senhora das Graças (Bairro das Graças).
 17h00 – Paróquia Sant’Ana e São Joaquim (Bairro Boa Vista).

Dia 23/06
 10h00 – Paróquia Santa Tereza dos Andes (Bairro Jardim Europa).
 17h00 – Paróquia São José Operário (Bairro Orozimbo Macedo).

Dia 24/06
 10h00 – Paróquia São João Batista (Bairro Belo Vale I).
 17h00 – Paróquia Sagrada Família (Bairro Luxemburgo).

Dia 25/06
 10h00 – Paróquia Divino Espírito Santo (Bairro Montreal).
 17h00 – Paróquia Cristo Redentor (Bairro das Indústrias).

DEMAIS CIDADES DA DIOCESE:

Dia 26/06 – Capim Branco/MG.

Dia 27/06 – Matozinhos/MG.

Dia 28/06 – Prudente de Moraes/MG.

Dia 29/06 – Funilândia/MG.

Dia 30/06 – Jequitibá/MG.

Dia 01/07 – Santana do Riacho/MG.

Dia 02/07 – Jaboticatubas/MG.

Dia 03/07 – São José de Almeida e São Vicente.

Dia 04/07 – Baldim/MG.

Dia 05/07 – Santana de Pirapama/MG.

 Dia 06/07 – Cordisburgo/MG.

Dia 07/07 – Araçaí/MG.

Dia 08/07 – Caetanópolis/MG.

Dia 09/07 – Paraopeba/MG.

Dia 10/07 – Pompéu/MG.

Dia 11/07 – Martinho Campos/MG.

Dia 12/07 – Inhaúma/MG.

Dia 13/07 – Fortuna de Minas/MG.

Dia 14/07 – Cachoeira da Prata/MG.

Dia 15/07 – Pequi/MG.

Dia 16/07 – Maravilhas/MG.

Dia 17/07 – Papagaios/MG.

17h00 – Chegada da imagem ao Parque de Exposições JK, no bairro São Cristóvão, para a missa de 60 anos da Diocese e também de despedida da imagem peregrina.

http://www.diocesedesetelagoas.com.br/

sábado, 11 de junho de 2016

A Cidade do Vaticano por dentro

 
A Cidade do Vaticano é o menor Estado independente do mundo, com somente 44 hectares de extensão territorial. É cercada pelos muros que a delimitam desde a Praça de São Pedro, ainda que sua jurisdição se estenda a algumas regiões de Roma e proximidades. É também o Estado soberano menos povoado do mundo, com certa de 900 habitantes.


O Vaticano é tão pequeno, que a Basílica de São Pedro representa 7% do total de sua extensão, e se acrescentamos a Praça de São Pedro, já abrangemos 20% de seu território.
 
 
Sua língua oficial é o latim (único país do mundo com este idioma). Além disso, seus cidadãos têm uma taxa de alfabetização de 100%.
 
 
Sua forma de governo é a monarquia absoluta, sendo o chefe de Estado o próprio Sumo Pontífice, com pleno poder legislativo, executivo e judicial. Quando a sede está vacante, estes poderes são assumidos pelo Colégio Cardinalício.


A economia do Vaticano se baseia no investimento imobiliário, nos ativos existentes, nas entradas, nas remessas de dioceses do mundo inteiro, nas entradas procedentes do IOR (Instituto para as Obras de Religião), nas doações dos fiéis e no óbolo de São Pedro. Desde 1998, o Vaticano tem autorização da União Européia para emitir 670 mil euros por ano.

 
Quem cuida da segurança do Papa e do Estado é o corpo da Guarda Suíça, que assumiu a defesa do Papa oficialmente em 1506. Segundo a tradição sua vestimenta tão colorida e particular foi desenhada pelo próprio Michelangelo.


Em 1984, a Cidade do Vaticano foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. É o lar de edifícios, obras de arte e volumes antigos que representam o ponto mais alto do poder cultural do papado e dados obras mais sublimes da criatividade humana, como a maravilhosa Capela Sistina.

 
Nesse minúsculo Estado, também podemos encontrar o que geralmente vemos em qualquer outro: além de alguns edifícios habitados geralmente por pessoas que trabalham lá, existe a Casa de Governo, a estação de trem, um pequeno centro comercial, a farmácia, colégios de estudos, biblioteca, livraria, editora, jornal, museus, centro televisivo, rádio, serviço telefônico, hospital, heliporto e um lindo jardim, que reúne inúmeras histórias dos papas.
 
 







http://pt.aleteia.org/2016/05/05/a-cidade-do-vaticano-por-dentro/

 
 

BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR: POSSIBILIDADES E DESAFIOS

A segunda e mais recente versão do texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi apresentada pelo MEC no último dia 3 de maio. O novo documento apresenta mudanças sugeridas durante a fase de consulta pública por meio digital que, segundo as autoridades, contou com cerca de 12 milhões de contribuições.
 
 
Como documento essencial para a atividade docente, a nova versão da BNCC apresenta “temas integradores” para a Educação Básica, com trabalho interdisciplinar e transdisciplinar a partir de temas do cotidiano dos alunos – abordagem pela qual nós, do Programa “ABC NA EDUCAÇÃO CIENTÍFICA – Mão na Massa”, sempre nos pautamos: ela é mais atraente para os alunos e permite o desenvolvimento da metodologia investigativa pela economia de tempo. Assim, este enfoque contemporâneo proporciona uma relação maior entre a sala de aula e as demandas da sociedade – porém é necessária uma formação que estimule o desenvolvimento deste processo de ensino-aprendizagem baseado em construção compartilhará de conceitos e um conjunto de condições que incentivem o enfrentamento dos desafios da prática da BNCC.
 
Para ajudar uma reflexão coletiva, oferecemos um fórum virtual para educadores que estejam interessados a interagir, trocar experiências e discutir assuntos atuais pertinentes à área da educação. Ao mesmo tempo, em Niterói estamos realizando um trabalho presencial de formação de professores que, associado ao fórum, resultará em formação continuada. No espaço virtual, chamado “Sala dos Educadores”, os debates propostos são acerca de questões transversais e sobre o contexto, que podem enriquecer sala de aula através de perguntas desafio. Clique no link “Sala dos Educadores” e participe! Há informações sobre os riscos de se contrair dengue, zika e chikungunya e desafios para o nosso grupo de educador@s. É simples se cadastrar para começar participar desse espaço só nosso, para lançar ideias e apresentar dúvidas/ questões.
 
 
O Programa “ABC na Educação científica – Mão na Massa” prioriza a interação social e inclusão de tod@s estudantes! A partir de perguntas-desafio,  estimulamos a colaboração, o respeito às diferenças e, ao mesmo tempo, ajudamos no desenvolvimento de habilidades que, de acordo também com a BNCC, são fundamentais para a formação dos alunos. Mãos na Massa!
 
Por Rafael Benjamim
Edição Danielle Grynszpan

http://www.ioc.fiocruz.br/abcnaciencia/html/word/?page_id=154

Falta qualidade na educação

Sabemos há muito que a educação brasileira é precária. Ainda mais a pública. E isso é consequência de uma série de fatores. O sistema educacional brasileiro é falho, e os projetos criados para tentar superar as falhas também são ineficazes.

 
A formação e a preparação de professores não são eficientes, e muitos chegam à sala de aula sem o suporte necessário. Para completar o ciclo, aquela educação que vem de casa também não é executada como deveria. Os pais não entendem que a educação é, acima de tudo, um processo que deve ser iniciado dentro do lar, junto à família e continuado ao lado do sistema escolar. O resultado é que muitos alunos terminam o colegial com uma grande deficiência em múltiplas áreas do ensino.

É realmente absurdo um aluno terminar o ensino médio mal sabendo escrever e ler um texto. E quando digo ler, me refiro ao sentido não só de juntar as letras, mas de entender o que é dito, de conseguir interpretar. Muitos alunos não se interessam pelos estudos, mas as políticas públicas também não incentivam. Os pais jogam a culpa nos professores, e os professores passam o abacaxi para o governo, que por sua vez devolve a culpa aos dois primeiros. E nada se resolve.

 
Além dos problemas já citados, há ainda o conflito interno, por assim dizer. Os professores são tratados com muito descaso pelo governo. As condições de trabalho (salário, espaço, material, entre outros) são inaceitáveis. Não há como cobrar um bom serviço de um profissional oferecendo a ele uma base frágil.

Claro que existem pessoas engajadas em projetos que visam a melhoria educacional, pessoas que lutam e fazem mudanças. Há pequenos avanços ocorrendo. Mas para dizer que o ensino brasileiro é de qualidade, ainda falta um longo caminho.

 
Luiza Nunes é aluna do Cursinho da Poli

http://blogs.estadao.com.br/rotina-de-estudante/2011/09/08/falta-qualidade-na-educacao/

Polícia indicia padre por estupro de adolescente em Caldas Novas, GO

Fabiano Gonzaga, 28, que atua em MG, está preso desde o último dia 4. Delegada conclui que menor, deficiente mental, foi abusado; pároco nega.
 
Padre Fabiano Gonzaga foi indiciado por estupro, em Goiás (Foto: Divulgação/Arquidiocese de Uberada)
 
Testemunhas

 Segundo a delegada, a oitiva de testemunhas também foi determinante para o indiciamento do padre. “Um homem, que se apresentou espontaneamente na delegacia, nos disse que ficou constrangido no clube, quando percebeu que o padre estava olhando para as partes íntimas dele e para os dois filhos dele, que são crianças”, disse.
 
Sabrina destacou, ainda, que as fotos e conversas de teor pornográfico que foram encontradas no celular do pároco ajudaram a determinar a personalidade de Gonzaga.
 
“Apesar dessas imagens não terem ligação direta com o estupro que era investigado, ela nos ajudou a traçar o perfil dele. Ou seja, a maioria das fotos e conversas eram com outros homens, o que reforçou o desvio de conduta em relação à função de padre que ele exerce”, ressaltou.
 
Gonzaga permanece preso e vai responder ao crime de estupro de vulnerável, que tem pena prevista de até 15 anos de reclusão. “Remetemos o inquérito para o Poder Judiciário na sexta-feira (10), quando concluímos a investigação”, explicou a Sabrina.

 Celular de padre foi apreendido pela polícia durante investigações (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)
 
Afastamento

 O padre pertence ao clero da Arquidiocese de Uberaba, que o afastou do exercício do ministério presbiteral ou qualquer outro encargo eclesiástico por tempo indeterminado. Por meio de nota, divulgada no último dia 6, o padre Saulo Emílio Pinheiro Moraes, vigário geral, pediu perdão pelo constrangimento ou dor causados e disse que aguardava as investigações.

Nesta manhã, representantes da arquidiocese chegaram a Caldas Novas para conversar com Gonzaga. Eles ainda não se pronunciaram sobre o indiciamento.

Confira a nota que foi divulgada na íntegra:
 
“Diante do caso vinculado pelos meios de comunicação e que vem sendo apurado pelas autoridades legais, sobre o presbítero pertencente ao nosso clero, e o seu envolvimento em um caso de abuso sexual contra um adolescente, na cidade de Caldas Novas, no estado de Goiás, a Arquidiocese de Uberaba, vem a público para manifestar, que diante do exposto aguarda a apuração dos fatos, pelas autoridades competentes.

Como Igreja, repudiamos todo tipo de violência e abuso, nos mais diferentes níveis; e sentimos as dores daqueles que sofrem, principalmente quando envolve um dos nossos representantes. Informamos, também, que o referido padre foi privado do “uso de ordens”, pelo Senhor Arcebispo, Dom Paulo Mendes Peixoto, ou seja, não tem jurisprudência para presidir ou administrar qualquer sacramento. Sendo vedado o exercício do ministério presbiteral ou qualquer outro encargo eclesiástico, por tempo indeterminado para apuração dos fatos.

Pedimos perdão por qualquer constrangimento ou dor que pudemos causar com tal fato, e esperamos que tudo seja averiguado e resolvido o mais rápido possível, para que não haja maiores constrangimentos".
 

sábado, 4 de junho de 2016

Papa altera procedimento para afastar bispos negligentes em casos de pedofilia

 
Os bispos culpados de "negligência no exercício de suas funções" ante casos de "abusos sexuais contra menores" poderão ser destituídos, de acordo com um novo decreto que o papa Francisco divulgou neste sábado, e que foi incorporado ao direito canônico. 
 
O direito canônico já prevê a destituição do ofício eclesiástico por "causas graves", destacou o pontífice.
 
"Com a presente, quero precisar que entre estas chamadas 'causas graves' se inclui (a partir de agora, NR) a negligência dos bispos no exercício de suas funções, em particular no que diz respeito aos casos de abusos sexuais contra menores e adultos vulneráveis", escreveu Francisco.
 
O papa também anunciou a criação de um colégio de juristas que o auxiliarão antes de pronunciar a destituição de um bispo, afirma um comunicado divulgado pelo porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi.
 
Na Carta Apostólica em forma de "motu proprio", com o título "Como uma mãe amorosa", o papa afirma que a Igreja "ama todos os seus filhos, mas cuida e protege com especial afeto dos mais frágeis e sem defesa".
 
Portanto, acrescenta o pontífice, seus pastores, e sobretudo seus bispos, devem "mostrar uma diligência especial na proteção dos mais frágeis".
 
O papa Francisco pediu em várias ocasiões a punição severa dos culpados de abusos sexuais contra menores e tolerância zero com esta "tragédia".
 
Ele afirmou diversas vezes que os bispos que protegem pedófilos devem renunciar. Criou no Vaticano uma instância judicial para julgar estas pessoas.
 
Desde 2001 o Vaticano emitiu instruções firmes às igrejas de todo o mundo, como a colaboração automática com a justiça e a suspensão dos padres acusados, mas as associações de vítimas consideram que a conspiração do silêncio continua sendo tolerada nas esferas mais elevadas.
 

Padre é preso em Roma por supostos abusos sexuais a menores

Padre italiano Roberto Elici preso por pedofilia na cidade de Palermo(VEJA.com/Reprodução)
 
Um sacerdote italiano de Palermo, de 38 anos, foi detido nesta terça-feira (2) após denúncias de supostos abusos sexuais a três menores de idade na época em que era padre na capital da Siciliana, informou a polícia em comunicado.

Os agentes de Palermo, em conjunto com os de Roma, detiveram na capital da Itália o padre, está em prisão preventiva por ordem do Tribunal de Palermo. Segundo a imprensa do país, o religioso é Roberto Elici e as ações aconteceram enquanto ele atuava na paróquia de Nossa Senhora da Assunção.

A investigação foi coordenada pelo promotor de Justiça Claudio Camilleri e seu adjunto Salvo de Luca, que consideram Elici responsável por atos de violência sexual com prejuízo a menores.

Os abusos se prolongaram, pois os responsáveis das crianças tinham confiança no sacerdote e ele se "aproveitou (disso) para chegar até elas", segundo a nota.
 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Tráfico sexual na Amazônia: Um pacto silencioso de reprovação moral e aceitação prática. Entrevista especial com Marcel Hazeu

A exploração sexual de adultos e crianças na Amazônia é um fenômeno antigo que tem raízes profundas e está relacionada ao mercado de trabalho e à formação da região amazônica. Durante o processo de colonização e desenvolvimento local, o tráfico e a exploração mudaram de configuração, mas continuam "expressando a forma como as relações de trabalho e de convivência se organizam no contexto da ocupação colonial e capitalista da região", aponta Hazeu à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail.
 
Pesquisador da ONG Sociedade de Defesa dos Direitos Sexuais da Amazônia (Só Direitos), de Belém do Pará, Marcel Hazeu estudou o tráfico de mulheres do Brasil e da República Dominicana para o Suriname e enfatiza que o tráfico e a exploração sexual na região se intensificam porque há "poucas oportunidades para a população local". O mercado do sexo, "vinculado a todas as atividades econômicas (construção, transporte, mineração, etc.)", facilita e possibilita a entrada de crianças e adolescentes em um ciclo de prostituição que se repete a cada nova geração.
 
Marcel Hazeu é autor da dissertação Migração internacional de mulheres na periferia de Belém e atualmente cursa doutorado em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal do Pará. Ele coordenou pesquisas sobre exploração sexual de crianças e adolescente e sobre tráfico de pessoas na Amazônia, entre as quais citamos Tráfico de Mulheres: um novo / velho drama amazônico.
 
 
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line – Que motivos favorecem a exploração sexual na região amazônica?
 
Marcel Hazeu – A exploração sexual faz parte de um dos problemas que cercam o tráfico de mulheres, o qual precisa ser entendido a partir da questão constituinte, que é a exploração do trabalho em combinação com o impedimento do direito de ir e vir, ou seja, situações análogas à do trabalho escravo. Estas situações podem ser identificadas no contexto do mercado de trabalho formal e informal, tanto na esfera pública quanto privada. O deslocamento de um lugar para outro é um segundo elemento necessário para falar em tráfico de mulheres, uma vez que a saída de uma realidade, onde elas contavam com uma rede social mínima de proteção e o domínio mínimo do espaço para uma nova realidade, torna-as estranhas e sem acesso às relações sociais locais e, portanto, mais vulneráveis e dependentes das pessoas que organizaram sua viagem e seu lugar de estada.
 
Discutir tráfico de mulheres na Amazônia começa, portanto, com uma análise do mercado de trabalho, neste caso específico de mulheres de classes populares. Como estas mulheres na Amazônia se inserem no mercado trabalho local e internacional? Quais são as possibilidades e nichos de trabalho para mulheres na Amazônia? O que é considerado trabalho?
 
O mercado do trabalho na Amazônia se estruturou historicamente em decorrência da exploração de suas riquezas e da implementação de infraestruturas para a segurança nacional no sentido de escoar as riquezas ou providenciar recursos energéticos para a produção industrial vinculada à exploração de recursos naturais. Através de estímulo à migração espontânea, de organização da migração oficial e do aviamento de homens e mulheres de outras partes do Brasil, onde suas condições de vida impediram sua permanência com qualidade ou perspectivas, pessoas chegaram à Amazônia. O mercado de trabalho abriu espaço para mão de obra masculina na construção de obras e na garimpagem. Para as mulheres, o trabalho significava cuidar desta mão de obra masculina e, portanto, elas atuavam como cozinheiras, prostitutas, lavadeiras, etc., além de exercerem atividades de compra e venda. Muitos homens e mulheres chegaram e chegam à Amazônia através de esquemas de tráfico de pessoas, aqui chamado de aviamento, ou seja, escravidão por dívida, isolamento, ameaças, violência e vigilância.
 
Esta lógica se perpetuou nas últimas décadas da ocupação/invasão da Amazônia apesar da diversificação do mercado, do crescimento das cidades e dos meios de transporte e comunicação. Uma novidade das últimas décadas é a ampliação destes esquemas de migração e tráfico de pessoas para países vizinhos (muitas vezes vinculados à atividade garimpeira) e para países europeus.
Ideologicamente, ocorreu outro movimento que prejudicou o entendimento e o enfrentamento desta situação: o descredenciamento de vários tipos de trabalho de mulheres como trabalhos propriamente ditos. Por exemplo, o trabalho doméstico e o trabalho na prostituição. Em vez de serem consideradas como trabalhadoras exploradas, traficadas e escravizadas, sua situação foi enquadrada como não trabalho, vagamente identificada como algo que deve ser considerado "atividades naturalmente informalizadas de reprodução" ou como "atividades moralmente condenáveis".
 
Exploração sexual
 
O termo "exploração sexual" foi adotado no Brasil como expressão para a realidade de crianças e adolescentes que se encontraram no mercado de sexo, uma forma de trabalho infantil a ser banida. Para mulheres e homens adultos, o termo não tem uma definição clara e é usado no combate à prostituição em geral (abolicionismo). Tentativas de definir exploração sexual como prostituição forçada ou escravidão sexual não dominam o debate.
 
Finalmente, respondendo à pergunta: A história da colonização da Amazônia se confunde com as histórias de tráfico de mulheres. Ou seja, não se trata de um fenômeno novo, mas de uma realidade que muda de configuração ao longo do tempo, expressando a forma como as relações de trabalho e de convivência se organizam no contexto da ocupação colonial e capitalista da região.
 
Podemos identificar o seguinte:
• A escravidão de mulheres indígenas e, posteriormente, de mulheres africanas nas plantações na Amazônia e nos centros urbanos na época colonial até a abolição da escravidão.
• O aviamento de homens e mulheres vinculado à exploração da borracha.
• O aviamento de homens e mulheres vinculado à construção de grandes obras na Amazônia.
• O aviamento de homens e mulheres vinculado à atividade garimpeira no interior da Amazônia.
• O tráfico de mulheres para países da pan-amazônia e para Europa.
 
IHU On-Line – Que aspectos favorecem a exploração sexual infantil na Amazônia?
 
Marcel Hazeu – A exploração sexual de crianças e adolescentes na Amazônia tem sido favorecida por diversos aspectos:
 
1. Pelas relações de desigualdade de poder local, onde fazendeiros, comerciantes, políticos e outras autoridades locais mantêm um sistema de clientelismo que gera uma dependência direta entre este grupo e a população pobre e, ao mesmo tempo, a sensação de um poder ilimitado a ser gozado por este grupo em relação a tudo que a população pobre tem: seu trabalho, seu voto e sua sexualidade.
2. Pela organização do mercado local. As atividades econômicas na região apresentam poucas oportunidades para a população local, com exceção do mercado de sexo que está presente, vinculado a todas as atividades econômicas (construção, transporte, mineração etc.) e que se organiza fora da lei (oficialmente proibido como mercado), dando margem a todos os tipos de exploração sem a devida proteção e intervenção do Estado. Este mercado tem valorizado a "juventude" e encontrado formas de aliciar e estimular a entrada de adolescentes e crianças.
3. A impunidade de exploradores sexuais (o que tem a ver com o poder que gozam dentro da sociedade) estimula a atuação de exploradores e aumentam a vulnerabilidade e impotência dos explorados.
4. As campanhas e intervenções que confundem exploração sexual de crianças e adolescentes com pedofilia têm livrado o abuso e a exploração sexual vinculados ao exercício abusivo de poder para discutir distúrbios sexuais de alguns abusadores.
A prostituição forçada de mulheres (forçando a sua entrada involuntária ou impedindo sua saída da atividade) na Amazônia também é favorecida pela organização do mercado de sexo através de aviamento. Em outras palavras, essa escravidão é favorecida pela dívida e pelo isolamento dos lugares de trabalho, vinculados a garimpos, pelas novas construções, fazendas etc. As dimensões amazônicas e a ausência de controle do Estado, em muitos lugares e atividades econômicas, favorecem os empresários do mercado de sexo para explorar prostitutas e prostitutos.
 
IHU On-Line – Quais são as rotas internacionais do tráfico de mulheres?
 
Marcel Hazeu – Através de pesquisas que foram realizados pela rede Txai e pela ONG Só Direitos (pestraf Amazônia; tráfico de mulheres do Brasil e da República Dominicana para o Suriname; Mulheres em Movimento), e outras fontes, identificamos algumas rotas que, pela dinâmica do mercado internacional, podem já ter se reconfigurado, mas provavelmente ainda tem algum significado. A reconfiguração significa que o formato de migração e de relações análogas à escravidão podem ter diminuído de significância, uma vez que as comunidades brasileiras naqueles lugares se estabeleceram e se fortaleceram. Portanto, as rotas são Amazônia-Suriname; Amazônia-Espanha; Amazônia-Portugal; Amazônia-Guiana Francesa; Amazônia-Venezuela/Caribe. Além dessas, existem as rotas internas para lugares de novos investimentos em função das hidrelétricas em construção, por exemplo.
 
IHU On-Line – Você elaborou um estudo sobre o Tráfico de Mulheres do Brasil e da República Dominicana para o Suriname. O que evidenciou com essa pesquisa?
 
Marcel Hazeu – Este estudo foi o resultado de um trabalho em equipe e com participação de várias organizações, coordenado por mim e por Lucia Isabel Silva.
 
Muitas das mulheres traficadas que contatamos passaram por uma primeira experiência de tráfico quando foram "empregadas" como trabalhadoras domésticas infanto-juvenis.
 
Quase todas tiveram filhos na adolescência sem poder contar com apoio dos pais das crianças, e buscavam oportunidade de sustentar e estruturar a sua vida com filhos, o que parecia quase impossível no Pará (pela pouca escolaridade e falta de mercado de trabalho). Essa situação as vulnerabilizou para aceitarem convites que respondiam aos seus anseios.
 
Nenhuma das mulheres entrevistadas conseguiu mudar de vida em Belém e alcançar a sonhada independência e estruturação. Mesmo depois de vários anos, vivenciando inicialmente a realidade de escravidão, depois a vivência do garimpo, um "amigamento" ou prostituição mais independente, não alcançaram perspectivas concretas de mudança.
 
Esta mudança parecia somente possível através de um relacionamento com um homem (brasileiro, surinamês ou outro estrangeiro) que oferecesse melhores condições de vida. Este movimento para independência através de migração se tornou, para elas, uma dependência inicialmente de traficantes de pessoas e, posteriormente, de homens parceiros.
 
A prostituição no Suriname se organiza através de várias lógicas: clubes fechados, onde trabalham principalmente brasileiras e dominicanas; em discotecas e festas onde atuam brasileiras e surinamesas, que se misturam com os frequentadores; casas de massagem com presença dominante de surinamesas; via jornais e nos clubes no garimpo. O tráfico se organizava principalmente vinculado à prostituição nos clubes.
 
IHU On-Line – Qual é o significado da mulher na sociedade amazônica?
 
Marcel Hazeu – É uma pergunta à qual sinto dificuldade de responder. Não existe "a mulher" e sim mulheres amazônicas, desde guerreiras até escravizadas. Conta-se com um dos mais altos percentuais de mulheres-chefes de família, forte presença de mulheres líderes de lutas sociais; há muitas mulheres que encaram sozinhas a migração. Muitas têm identidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras, rurais e urbanas; o significado é sempre múltiplo.
 
Elas significam a mãe terra, quando pensamos na sua relação com a natureza abundante e seu vínculo com a vida e reprodução; elas significam a identidade amazônica desde a sua origem lendária até sua luta pela permanência e vivência com qualidade na região; elas significam o futuro da Amazônia, porque não abandonam seus filhos e procuram preservar as condições para seu futuro.
 
IHU On-Line – Como a população se comporta em relação à exploração de mulheres na região?
 
Marcel Hazeu – Como há uma confusão de compreensão sobre o mercado de sexo, tráfico de pessoas e exploração sexual, a população em geral não reprime a busca de oportunidades de mulheres através do mercado de sexo. Há um pacto silencioso de reprovação moral e aceitação prática ao mesmo tempo. As pessoas se pronunciam somente em casos concretos de denúncias de escravidão e assassinato vinculados ao mercado de sexo. Também se mobilizam para o enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes.
 
IHU On-Line – Como avalia a atuação dos órgãos de direitos humanos no país em relação ao turismo sexual?
 
Marcel Hazeu – Entendo o turismo sexual como atividade criminosa vinculada à exploração sexual de crianças e adolescentes. Turistas que vêm em busca de sexo com brasileiras e brasileiros adultos, que são profissionais de sexo, não são exploradores. Aqueles que vêm em busca de sexo com adultos, que não são profissionais de sexo, e que as abordam e procuram para explorar a situação de vulnerabilidade e pobreza para satisfazer seus desejos sexuais se movimentam num espaço crítico para uma intervenção.
 
A atuação dos órgãos de direitos humanos tem levado a uma intervenção generalizada contra qualquer forma de relações sexuais entre turistas e brasileiros, inclusive aquelas que envolvem profissionais de sexo. Assim dificulta o exercício da prostituição "legítima".
 
As campanhas contra exploração sexual de crianças e adolescentes vinculadas à atividade turística têm gerado um efeito bastante positivo, envolvendo o setor hoteleiro e de diversão. Falta, entretanto, um trabalho de esclarecimento e de prevenção com homens e mulheres que sonham com as oportunidades através de uma relação com um turista e que sofrem, muitas vezes, com as falsas perspectivas apresentadas por estes.
 

A dignidade humana em primeiro plano, a base da moral da Ética Mundial. Entrevista especial com Hans Küng

“No Ethos Mundial – tanto no que se refere aos direitos humanos como também aos deveres humanos – a dignidade humana está em primeiro plano; ela é a base da moral”, explica seu autor, o renomado teólogo alemão Hans Küng, que nesta segunda-feira, 22 de outubro, está na Unisinos proferindo a conferência "As religiões mundiais e a Ética global". Na tarde deste mesmo dia, ele estará reunido com um grupo de professores e professoras de teologia da região sul do Brasil, na sede do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
 
Segundo Küng, o projeto da ética global “não é uma teoria ou ideologia, mas uma práxis, no sentido de possibilitar a prática convivência das pessoas humanas na família, na escola, na comunidade, numa cidade, numa nação e também na comunidade das nações”. Confira a íntegra da entrevista exclusiva que Küng nos concedeu por e-mail, na última semana, adiantando alguns dos aspectos que irá discutir em sua vinda ao Brasil. Conheça mais detalhes sobre o pensamento künguiano no Fórum On-Line disponível no site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, www.unisinos.br/ihu.
 
Teólogo católico, Küng vive desde 1967 em Tübingen, onde leciona na Universidade. Por suas posições firmes diante de Roma, sofreu duras represálias, que em 1979 culminaram na cassação de sua autorização canônica para lecionar Teologia em instituição superior católica. Küng tinha tamanho prestígio intelectual na época que a Universidade, para que o professor e sua equipe de pesquisadores pudessem continuar atuando, criou o Instituto de Pesquisas Ecumênicas, como unidade autônoma em relação à Faculdade de Teologia Católica. Em 1990, ao encerrar sua carreira na Universidade, Hans Küng lançou o Projeto de Ética Mundial. Recentemente, em setembro de 2005, o papa Bento XVI surpreendeu a opinião pública mundial ao receber Küng para uma longa conversa amigável, na residência de Castel Gandolfo.
 
Também no Brasil a obra de Küng,  Projeto de ética mundial. Uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana (São Paulo: Paulinas, 1992) foi marco fundador de uma discussão que, pela premência dos fatos, frutificou rapidamente e continua a angariar apoio. Seguiu-lhe a publicação de Uma ética global para a política e a economia mundiais (Petrópolis: Vozes, 1999).  A obra mais recente de Hans Küng, traduzida para o português é O Princípio de tods as coisas. Ciências Naturais e Religião. Petrópolis:Vozes, 2007.
 
 
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line - Como se situa o Projeto da Ética Mundial ante a discussão entre o absolutismo da verdade e o relativismo?
 
Hans Küng - O Projeto de uma Ética Mundial (Weltethos) não toma posição em abstrato ante tais questões teóricas. No Projeto de uma Ética Mundial, não se trata de uma teoria ou ideologia, porém de uma práxis, no sentido de possibilitar a prática convivência dos homens na família, na escola, na comunidade, numa cidade, numa nação e também na comunidade das nações. Não se trata, portanto, da questão da verdade em si, porém de padrões, valores e posturas éticas bem concretas e elementares, que podem e devem ser expressas por todos os humanos da mais diversificada orientação espiritual e da mais diversificada religião e filosofia.
 
IHU On-Line - Portanto, nenhuma “ditadura do relativismo”?
 
Hans Küng - Não, já é bem claro que o Projeto de Ética Mundial não cultua um relativismo absoluto, no qual “anything goes”. Também é um fato de que a imensa maioria dos humanos não está disposta a aceitar, sem mais, por exemplo, o assassinato de inocentes, o abuso de crianças e de mulheres ou a mentira de governantes. Neste sentido, há realmente normas constantes. Mas estas normas devem sempre ser realizadas numa situação concreta e essas situações podem ser muito diversas. E, quando o papa se queixa com razão de uma “ditadura do relativismo”, deve-se, de outra parte, acentuar que outras tantas pessoas lastimam uma ditadura do absolutismo: que alguém quer saber, sozinho no mundo, o que é “a verdade”, por exemplo, em questões de regulação de nascimentos, aborto, tecnologia genética, ajuda a moribundos e assim por diante. Nós não necessitamos nem de uma ditadura do relativismo, nem de uma ditadura do absolutismo.
 
IHU On-Line - Quais são as maiores dificuldades para que as quatro diretrizes do Projeto (1) se insiram no modelo da hodierna sociedade ocidental?
 
Hans Küng - Trata-se, de um lado, dos libertinos que não aceitam nenhuma norma moral para si, que utilizam qualquer próximo apenas como meio para um fim e, quando vem ao caso, dele abusam irrefreadamente. Há governantes que com mentiras conduzem povos inteiros à guerra, ou Chief Executive Officers (CEO’s), que, com seus balancetes falsificados, enganam milhões ou bilhões de pessoas. Os grandes escândalos que vivenciamos na política, na economia e mesmo na ciência impeliram muitas pessoas à constatação de que nem tudo pode ser permitido, mas que as antiqüíssimas normas como “não matar”, “não furtar”, “não levantar falso testemunho”, “não abusar da sexualidade” valem para as pessoas de todas as culturas e de todas as camadas sociais.
 
IHU On-Line - Então é só o libertinismo que prejudica a recepção do Ethos mundial?
 
Hans Küng - Não, também a prejudica um rigorismo que identifica imediatamente qualquer norma moral com exigências rigorosas bem concretas, como as da doutrina moral católico-romana tradicionalista. Muitas pessoas rejeitam a autoridade moral da Igreja católica porque dela se abusou demasiadamente para todas as possíveis prescrições concretas, tanto na moral sexual como também na disciplina eclesiástica.
 
IHU On-Line - É possível uma Ética Mundial, mesmo “minimalista”, sem que se pressuponha um núcleo de ordem natural, como o direito natural ou a teologia natural?
 
Hans Küng - O Projeto de uma Ética Mundial atua mais empiricamente, enquanto se questiona as tradições religiosas e filosóficas da humanidade sobre esses critérios básicos e se vê que felizmente eles são confirmados por toda parte. O tradicional direito natural é pouco apropriado para isso: é verdade que ele tem atrás de si uma grande tradição greco-escolástica, mas padece há tempo sob dois percalços:
 
1. Ele é encarado de maneira demasiado estática e não faz jus ao constante desenvolvimento ulterior, também da moral.
 
2. Abusou-se dele com freqüência, para, por exemplo, em questões da moral social e sexual, fixar determinadas normas que se desenvolveram historicamente como sendo de direito natural. Acima de tudo, foi prejudicial que se tenha estigmatizado como imoral qualquer meio anticoncepcional, porque seria “contra naturam”. Uma ética contemporânea quase não fala da natureza, porém da pessoa ou do indivíduo humano. Por isso, no Ethos mundial – tanto no que se refere aos direitos humanos como também aos deveres humanos – a dignidade humana está em primeiro plano; ela é a base da moral.
 
IHU On-Line - Que sentido podem manter essas quatro diretrizes, se delas for tirada a fundamentação cultural e/ou religiosa?
 
Hans Küng - Como são fundamentadas as normas elementares da humanidade é uma questão secundária. Elas podem ser fundamentadas por uma religião ou por determinada filosofia ou também de maneira pragmático-humanista. Para poder conviver de maneira prática, é preciso unificar-se em relação às próprias normas, porém não em relação à sua fundamentação.
 
IHU On-Line - Como dialogam o Projeto da Ética Mundial e a democracia?
 
Hans Küng - O Projeto da Ética Mundial já pressupõe todas as diferenças que de fato existem na sociedade mundial em perspectiva múltipla. Seria ilusório pensar que poderíamos eliminá-las todas. Antes, é mais importante que pessoas e grupos humanos, que nações e também toda a sociedade humana possam conviver pacificamente, embora os indivíduos e grupos se diferenciem uns dos outros por múltiplas diferenças. Um ordenamento democrático deve, para poder funcionar, pressupor valores éticos básicos que ele próprio não pode criar.
 
Nota:
1.- As quatro diretrizes, solenemente proclamadas em 1993 no Parlamento das Religiões Mundiais, são:
- Não violência e respeito por toda forma de vida;
- Solidariedade e ordem econômica justa;
- Tolerância e lealdade de vida;
- Igualdade de direitos e entre os sexos.
 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Papa: “Deixa-me o coração triste ver um horário nas paróquias: «Da hora tal até tal hora». E depois?

Papa: “Deixa-me o coração triste ver um horário nas paróquias: «Da hora tal até tal hora». E depois? Porta fechada; não há padre, nem diácono, nem leigo que receba as pessoas…”
No Jubileu dos Diáconos o pontífice pediu disponibilidade mais além dos horários, porque servir é o único modo de ser discípulos de Jesus.
 
Papa no jubileu dos diáconos
 
«Servo de Cristo» (Gal 1, 10). Ouvimos esta expressão, que o apóstolo Paulo usa para se definir a si mesmo, quando escreve aos Gálatas. No início da carta, tinha-se apresentado como «apóstolo», por vontade do Senhor Jesus (cf. Gal 1, 1). Os dois termos, apóstolo e servo, andam juntos, e não podem jamais ser separados; são como que as duas faces duma mesma medalha: quem anuncia Jesus é chamado a servir, e quem serve anuncia Jesus.
 
O primeiro que nos mostrou isto mesmo foi o Senhor: Ele, a Palavra do Pai, Ele que nos trouxe a boa-nova (cf. Is 61, 1), Ele que em Si mesmo é a boa-nova (cf. Lc 4, 18), fez-Se nosso servo (Flp 2, 7) «não veio para ser servido, mas para servir» (Mc 10, 45). «Fez-Se diácono de todos», como escreveu um Padre da Igreja (São Policarpo, Ad Philippenses V, 2). E como Ele fez, assim são chamados a fazer os seus anunciadores, «cheios de misericórdia, de zelo, caminhando segundo a caridade do Senhor que Se fez servo de todos» (ibid.). O discípulo de Jesus não pode seguir um caminho diferente do do Mestre, mas, se quer levar o seu anúncio, deve imitá-Lo, como fez Paulo: almejar tornar-se servo. Por outras palavras, se evangelizar é a missão dada a cada cristão no Batismo, servir é o estilo segundo o qual viver a missão, o único modo de ser discípulo de Jesus. É sua testemunha quem faz como Ele: quem serve os irmãos e as irmãs, sem se cansar de Cristo humilde, sem se cansar da vida cristã que é vida de serviço.
 
Mas por onde começar para nos tornarmos «servos bons e fiéis» (cf. Mt 25, 21)? Como primeiro passo, somos convidados a viver na disponibilidade. Diariamente, o servo aprende a desprender-se da tendência a dispor de tudo para si e de dispor de si mesmo como quer. Treina-se, cada manhã, a dar a vida, pensando que o dia não será dele, mas deverá ser vivido como um dom de si. De facto, quem serve não é um guardião cioso do seu tempo, antes renuncia a ser senhor do seu próprio dia. Sabe que o tempo que vive não lhe pertence, mas é um dom que recebe de Deus a fim de, por sua vez, o oferecer: só assim produzirá verdadeiramente fruto. Quem serve não é escravo de quanto estabelece a agenda, mas, dócil de coração, está disponível para o não-programado: pronto para o irmão e aberto ao imprevisto, que nunca falta sendo muitas vezes a surpresa diária de Deus. O servo está aberto à surpresa, às surpresas diárias de Deus. O servo sabe abrir as portas do seu tempo e dos seus espaços a quem vive ao seu redor e também a quem bate à porta fora do horário, à custa de interromper algo que lhe agrada ou o merecido repouso. O servo não se cinge aos horários. Deixa-me o coração triste ver um horário nas paróquias: «Da hora tal até tal hora». E depois? Porta fechada; não há padre, nem diácono, nem leigo que receba as pessoas… Isto faz doer o coração. Deixai cair os horários! Tende a coragem de pôr de lado os horários. Assim, queridos diáconos, vivendo na disponibilidade, o vosso serviço será livre de qualquer interesse próprio e evangelicamente fecundo.
 
Também o Evangelho de hoje nos fala de serviço, mostrando-nos dois servos, de quem podemos tirar lições valiosas: o servo do centurião, que é curado por Jesus, e o próprio centurião, ao serviço do Imperador. As palavras que manda dizer a Jesus – para não vir a sua casa –, para além de surpreendentes, são muitas vezes o oposto das nossas orações: «Não Te incomodes, Senhor, pois não sou digno de que entres debaixo do meu teto» (Lc 7, 6); «nem me julguei digno de ir ter contigo» (v. 7); «também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência» (v. 8). Jesus fica admirado com tais palavras. Impressiona-Lhe a grande humildade do centurião, a sua mansidão. E a mansidão é uma das virtudes dos diáconos. Quando o diácono é manso, é servo; não joga a simular o padre, é manso. O centurião, confrontado com o problema que o afligia, teria podido fazer alvoroço pretendendo ser ouvido, fazendo valer a sua autoridade; teria podido convencer com insistência e até forçar Jesus a deslocar-se a casa dele. Em vez disso, faz-se pequeno, discreto, manso, não levanta a voz nem quer incomodar. Comporta-se – talvez sem o saber – segundo o estilo de Deus, que é «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29). Com efeito Deus, que é amor, leva o seu amor até ao ponto de nos servir: connosco é paciente, benévolo, sempre disponível e bem disposto, sofre com os nossos erros e procura o caminho para nos ajudar a tornar-nos melhores. Manso e humilde são também os traços do serviço cristão, que é imitar Deus servindo os outros: acolhendo-os com amor paciente, sem nos cansarmos de os compreender, fazendo com que se sintam bem-vindos a casa, à comunidade eclesial, onde o maior não é quem manda, mas quem serve (cf. Lc 22, 26). E nunca ralheis, nunca. Assim na mansidão, queridos diáconos, amadurecerá a vossa vocação de ministros da caridade.
 
Nas leituras de hoje, depois do apóstolo Paulo e do centurião, há um terceiro servo: aquele que é curado por Jesus. Na narração, diz-se que era muito querido do seu patrão e que estava doente, mas não se sabe a doença grave que tinha (v. 2). De algum modo podemos também nós reconhecer-nos naquele servo. Cada um de nós é muito querido de Deus, amado e escolhido por Ele; somos chamados a servir, mas primeiro precisamos de ser curados interiormente. Para estar apto ao serviço, precisamos da saúde do coração: um coração curado por Deus, que se sinta perdoado e não seja fechado nem duro. Ser-nos-á útil rezar confiadamente todos os dias por isto, pedindo para sermos curados por Jesus, assemelhar-nos a Ele, que «já não nos chama servos, mas amigos» (cf. Jo 15, 15). Queridos diáconos, podeis pedir diariamente esta graça na oração, numa oração em que apresenteis as fadigas, os imprevistos, os cansaços e as esperanças: uma oração verdadeira, que leve a vida ao Senhor e traga o Senhor à vida. E, quando servirdes à Mesa Eucarística, lá encontrareis a presença de Jesus, que Se dá a vós para que vos doeis aos outros.
 
Assim, disponíveis na vida, mansos de coração e em diálogo constante com Jesus, não tereis medo de ser servos de Cristo, de encontrar e acariciar a carne do Senhor nos pobres de hoje.

https://pt.zenit.org/articles/papa-aos-diaconos-nao-somos-donos-do-nosso-tempo/
 

Em catequese, papa Francisco ressalta importância do coração humilde

Peregrinos acompanharam a meditação na Praça de São Pedro
 
A parábola do fariseu e publicano (Lc 18, 9-14) motivou a catequese, com o papa Francisco, na quarta-feira, 1º de junho. Milhares de peregrinos participaram do encontro semanal, na Praça de São Pedro, no Vaticano.

Na reflexão, o papa destacou o valor da humildade, recordando que a soberba compromete boas ações, esvazia a oração, afasta de Deus e dos outros. “Se a oração do soberbo não alcança o coração de Deus, a humildade do miserável o escancara. Deus tem uma fraqueza: a fraqueza pelos humildes. Diante de um coração humilde, Deus abre totalmente o seu coração”, disse o papa.
 
Confira a íntegra da reflexão:
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
 
Quarta-feira passada ouvimos a parábola do juiz e da viúva, sobre a necessidade de rezar com perseverança. Hoje, com outra parábola, Jesus quer nos ensinar qual é a atitude correta para rezar e invocar a misericórdia do Pai; como se deve rezar; a atitude correta para rezar. É a parábola do fariseu e do publicano (cfr. Lc 18, 9-14).
 
Ambos os protagonistas vão ao templo para rezar, mas agem de modos muito diferentes, obtendo resultados opostos. O fariseu reza “estando de pé” (v.11), e usa muitas palavras. A sua é, sim, uma oração de agradecimento dirigida a Deus, mas na realidade é uma exposição dos próprios méritos, com sentido de superioridade para com os “outros homens”, qualificados como “ladrões, injustos, adúlteros”, como, por exemplo, – e aponta aquele outro que estava ali – “este publicano” (v. 11). Mas o problema está justamente aqui: aquele fariseu reza a Deus, mas na verdade olha para si mesmo.
 
Reza para si mesmo! Em vez de ter diante dos olhos o Senhor, tem um espelho. Mesmo encontrando-se no templo, não sente a necessidade de se prostrar diante da majestade de Deus; está de pé, se sente seguro, como se fosse ele o patrão do templo! Ele elenca as boas obras realizadas: é irrepreensível, observador da lei além do devido, jejua “duas vezes na semana” e paga o dízimo de tudo aquilo que possui. Em suma, mais que rezar, o fariseu se congratula da própria observação dos preceitos. No entanto, a sua atitude e as suas palavras estão distantes do modo de agir do falar de Deus, que ama todos os homens e não despreza os pecadores. Ao contrário, aquele fariseu despreza os pecadores, também quando aponta o outro que está ali. Em resumo, o fariseu que se diz justo negligencia o mandamento mais importante: o amor por Deus e pelo próximo.
 
Não basta, portanto, nos perguntarmos quanto rezamos, devemos também nos perguntar como rezamos, ou melhor, como é o nosso coração: é importante examiná-lo para avaliar os pensamentos, os sentimentos, e erradicar arrogância e hipocrisia. Mas eu pergunto: pode-se rezar com arrogância? Não. Pode-se rezar com hipocrisia? Não. Somente devemos rezar colocando-nos diante de Deus assim como somos. Não como o fariseu que rezava com arrogância e hipocrisia. Somos todos tomados pelo frenesi do ritmo cotidiano, muitas vezes à mercê das sensações, atordoados, confusos. É necessário aprender a reencontrar o caminho rumo ao nosso coração, recuperar o valor da intimidade e do silêncio, porque é ali que Deus nos encontra e nos fala. Somente a partir dali podemos, por nossa vez, encontrar os outros e falar com eles. O fariseu se encaminhou ao templo, está seguro de si, mas não percebe ter perdido o caminho do seu coração.
 
O publicano, em vez disso – o outro – apresenta-se no templo com alma humilde e arrependido: “parado à distância, não ousava nem mesmo levantar os olhos ao céu, mas batia no peito” (v. 13). A sua oração é brevíssima, não é tão longa como aquela do fariseu: “Ó Deus, tenha piedade de mim pecador”. Nada mais. Bela oração! De fato, os coletores de impostos – dito apenas “publicanos” – eram considerados pessoas impuras, submetidos aos dominadores estrangeiros, eram mal vistos pelo povo e, em geral, associados aos “pecadores”. A parábola ensina que se é justo ou pecador não pela própria pertença social, mas pelo modo de se relacionar com Deus e pelo modo de se relacionar com os irmãos. Os gestos de arrependimento e as poucas e simples palavras do publicano testemunham a sua consciência acerca da sua mísera condição. A sua oração é essencial. Age com humildade, seguro somente de ser um pecador necessitado de piedade. Se o fariseu não pedia nada porque já tinha tudo, o publicano só pode implorar a misericórdia de Deus. E isso é belo: implorar a misericórdia de Deus! Apresentando-se de “mãos vazias”, com o coração nu e se reconhecendo pecador, o publicano mostra a todos nós a condição necessária para receber o perdão do Senhor. No fim, justamente ele, tão desprezado, se torna um ícone do verdadeiro crente.
 
Jesus conclui a parábola com uma sentença: “Eu vos digo: estes – isso é, o publicano – diferente do outro, voltou pra sua casa justificado, porque aquele que se exalta será humilhado, quem, em vez disso, se humilha será exaltado” (v. 14). Destes dois, quem é o corrupto? O fariseu. O fariseu é justamente o ícone do corrupto que finge rezar, mas só consegue se vangloriar diante de um espelho. É um corrupto e finge rezar. Assim, na vida, quem acredita ser justo e julga os outros e os despreza, é um corrupto e um hipócrita.
 
A soberba compromete cada boa ação, esvazia a oração, afasta de Deus e dos outros. Se Deus prefere a humildade não é para nos lamentarmos: a humildade é, em vez disso, condição necessária para ser levantado por Ele, de forma a experimentar a misericórdia que vem encher os nossos vazios. Se a oração do soberbo não alcança o coração de Deus, a humildade do miserável o escancara. Deus tem uma fraqueza: a fraqueza pelos humildes. Diante de um coração humilde, Deus abre totalmente o seu coração. É esta humildade que a Virgem Maria exprime no cântico Magnificat: “Olhou para a humildade da sua serva […] de geração em geração a sua misericórdia para aqueles que o temem” (Lc 1, 48. 50). Que ela nos ajude, nossa Mãe, a rezar com coração humilde. E nós repitamos por três vezes, aquela bela oração: “Ó Deus, tenha piedade de mim pecador”.
CNBB com informações da Rádio Vaticano.
                   
http://www.cnbb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=18854:em-catequese-papa-francisco-ressalta-importancia-do-coracao-humilde&catid=147:internacional&Itemid=185

Meio Ambiente e Justiça Social

Dom Reginaldo Andrietta
Bispo de Jales

A Semana Mundial do Meio Ambiente, realizada este ano de 30 de maio a 5 de junho, é muito oportuna para refletirmos sobre as sábias palavras do Papa Francisco em sua Encíclica “Laudato Si”, de maio do ano passado, e em seu pronunciamento na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em setembro do mesmo ano. Em ambas, ele associa questão ambiental e problemática da pobreza.
 
 “Não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”. O Papa assim se expressa nessa Encíclica e reafirma essa ideia na Assembleia da ONU, dizendo que no panorama mundial há amplos setores sem proteção, vítimas de um mau exercício do poder. 
 
Para ele, “o ambiente natural e o vasto mundo de mulheres e homens excluídos sãos dois setores intimamente ligados entre si, que as relações políticas e econômicas preponderantes transformaram em partes frágeis da realidade”. Por isso, “é necessário afirmar vigorosamente os seus direitos”. Trata-se de consolidar a proteção do meio ambiente e pôr fim à exclusão.
 
Esse Papa adotou o nome de Francisco, em homenagem a Francisco de Assis, santo que se identificou em tudo com Jesus Cristo, particularmente por seu desprendimento à riqueza e por sua afeição aos pobres. Este Santo do Cântico das Criaturas e o Papa se tornaram inseparáveis, por sua dedicação à defesa da natureza e à justiça para com os pobres. Essa postura encorajou a Igreja no Brasil a realizar a Campanha da Fraternidade deste ano com enfoque socioambiental.
 
A problemática do saneamento básico, abordada nessa Campanha com cunho ecumênico, está associada à problemática da pobreza, enfoque esse justificado pela Relatora Especial das Nações Unidas sobre o direito à água potável e saneamento, Catarina de Albuquerque, ao declarar no ano passado que "aqueles que não têm acesso a saneamento adequado são esmagadoramente as pessoas que vivem na pobreza, e os indivíduos e grupos marginalizados e excluídos".
 
“Casa comum, nossa responsabilidade”. Este tema da Campanha da Fraternidade a ser sempre relembrado, chama a atenção sobre a responsabilidade de todos nos destinos de nosso planeta e da humanidade. Todos devemos “colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades”, diz o Papa na Encíclica “Laudato Si”, ressaltando a responsabilidade educativa sobretudo para com as novas gerações. 
 
“Os jovens têm uma nova sensibilidade ecológica e um espírito generoso, e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente, mas cresceram num contexto de altíssimo consumo e bem-estar que torna difícil a maturação de outros hábitos. Por isso, diz o Papa, “estamos perante um desafio educativo”. 
 
Que a Semana Mundial do Meio Ambiente seja, portanto, muito educativa para todos os cidadãos e cidadãs, especialmente novas gerações, entidades da sociedade civil, empresas e distintas instâncias do poder público. Nosso planeta é nossa casa comum. Que cada um faça a sua parte pelo bem de todos, pois o destino da humanidade depende de nossa corresponsabilidade! 
 
 

Homens na era da tecnologia

Criatividade, senso crítico e sensibilidade podem sobreviver à lógica impessoal da rapidez, do lucro e da eficiência?

Tempos Modernos, 2001: Uma Odisseia no Espaço, Metropolis, Blade Runner
 
Quando penso no futuro das interações homem-máquina, duas ansiedades entrelaçadas me vêm à mente. Primeiro, existe a tensão entre existência individual e coletiva. A tecnologia nos conecta uns aos outros como nunca antes, e ao fazê-lo deixa explícito em que grau somos definidos e previstos pelos outros: o modo como nossas ideias e identidades não pertencem simplesmente a nós, mas fazem parte da oscilação da grande maré humana.
 
Isso sempre foi verdade, mas raramente foi mais evidente ou experimentado de forma tão constante. Pela primeira vez na história humana, a maior parte da população mundial não apenas é alfabetizada – conquista que tem menos de um século –, como também participa ativamente da cultura escrita e gravada, em razão dos dispositivos conectados que permeiam quase todos os países. Essa é uma coisa surpreendente, desconcertante, deliciosa: a multidão na nuvem tornando-se um fluxo de consciência compartilhada.
 
Segundo, existe a questão de como vemos a nós mesmos. A natureza humana é um conceito amplo e espaçoso, que a tecnologia modificou e expandiu ao longo da história. As tecnologias digitais nos desafiam mais uma vez a perguntar qual é o lugar que ocupamos no universo, o que significa ser criaturas com linguagem, autoconsciência e racionalidade.
 
Nossas máquinas ainda não são mentes, mas estão adquirindo cada vez mais atributos que costumávamos considerar unicamente humanos: raciocínio, ação, reação, linguagem, lógica, adaptação, aprendizado. Corretamente, temerosamente e hesitantemente, começamos a perguntar que consequências transformadoras trará essa última extensão e usurpação.

Matrix, O Exterminador do Futuro e Ela (Her) (Foto: Courtesy of Warner Bros. Pictures)
 
Eu digo que essas ansiedades estão entrelaçadas porque, para mim, elas são acompanhadas de um erro comum: a superestimação de nossa racionalidade e nossa autonomia. Ao perguntarmos o que significa ser humano, tendemos a nos considerar mentes individuais e racionais e a descrever nossos relacionamentos com e por meio da tecnologia com base nisso: como “usuários” isolados cuja agência e liberdade são uma questão de técnicas e opções racionais; como realizadores de tarefas que são existencialmente ameaçados por qualquer agente mais eficiente. 
 
Esta é uma visão das interações homem-máquina. Mas é também uma descrição dos seres humanos que nos dá ao mesmo tempo pouco crédito e crédito demais. Sabemos que somos criaturas teimosamente incorporadas, intensamente sociais e emocionais. Grande parte dos melhores trabalhos recentes em economia, psicologia e neurociência enfatizaram que não podemos ser desmembrados em capacidades distintas: em caixas semimecânicas e distintas de memória, processamento e geração.
Nem a língua, nem a cultura, nem a mente humana podem existir em isolamento ou brotar na existência totalmente formadas. Somos interdependentes em um grau que raramente admitimos. Temos pouco em comum com nossas criações – e o feio hábito de culpá-las por coisas que fazemos a nós mesmos.
 
O que torna tudo isso tão urgente é a natureza brutalmente darwiniana da evolução tecnológica. Nossas máquinas podem não estar vivas, mas as pressões evolucionárias que as cercam são exatamente tão intensas quanto na natureza, e com poucas de suas restrições. Vastas quantias de dinheiro estão em jogo, com corporações e governos disputando quem constrói sistemas mais velozes, eficientes e efetivos, para manter em funcionamento os ciclos de atualização do consumo. Ficar para trás – recusar-se a automatizar-se ou a adotá-los – é ser eliminado da concorrência. 
 
Como indicou o filósofo Daniel Dennett, entre outros, essa lógica da atualização e adoção estende-se muito além de campos óbvios como finanças, guerra e manufatura. Se um algoritmo médico provar que produz diagnósticos mais precisos que um médico, recusar-se a usá-lo é ao mesmo tempo antiético e legalmente questionável. Conforme os carros semiautônomos ou autodirigidos se tornam mais acessíveis e legalizados, é difícil argumentar contra a tese ética e regulatória de que deveriam ser obrigatórios. E assim por diante. É provável que poucos campos do empreendimento humano permaneçam intocados. 
 
As máquinas, em outras palavras, estão se tornando incrivelmente capazes de tomar decisões por nós, com base em vastas quantidades de dados – e se aperfeiçoam nisso em um ritmo igualmente surpreendente. Esqueça a hipotética emergência da inteligência artificial para fins gerais, pelo menos por enquanto: hoje transferimos cada vez mais do que acontece em nosso mundo à velocidade e eficiência de decididores que não pensam.
 
É exatamente porque nossas máquinas atuais não podem pensar nem sentir que isso importa. Nós as chamamos de “inteligentes” e nos maravilhamos com seus poderes; pintamos imagens de um mundo em que elas, e não nós, determinam o que e como fazemos. É inútil resistir: vemos propósito, autonomia e intenção em toda parte.
 
Mas, ao atribuirmos a nossos instrumentos agência e intenções que eles não possuem, deixamos de compreender vários pontos fundamentais. Os humanos não são lentos, idiotas e dirigidos para o monte de lixo evolucionário; a eficiência das máquinas é de fato um modelo muito ruim para compreendermos a nós mesmos; e cortar as pessoas de todo ciclo possível – para garantir velocidade, lucro, proteção ou sucesso militar – é um modelo ruim para um futuro em que os humanos e as máquinas maximizam igualmente suas capacidades.
 
 Blade Runner e 2001: Uma Odisseia no Espaço (Foto: Courtesy of Warner Bros. Pictures).
 
Nossas criações são eficazes em parte porque não têm o peso do que mais torna humanos os seres humanos: o caldeirão fervente da emoção, sensação, tendência e crença que constitui o cerne da vida mental. Somos criaturas belas e tendenciosas. A tecnologia e o intelecto nos permitem exteriorizar nossos objetivos, mas os fins somos nós que escolhemos.
 
Os incentivos que nossos instrumentos perseguem incansavelmente em nosso nome incluem um trabalho humano próspero e significativo, interações ricas e humanas? Acreditamos que essas coisas sejam inatingíveis, indecifráveis ou inúteis? Se não, quando vamos mudar nosso enfoque?
 
Se desejarmos construir não apenas máquinas melhores, mas relacionamentos melhores com e por meio das máquinas, precisamos começar a falar de modo muito mais rico sobre as qualidades desses relacionamentos; como funcionam exatamente nossos pensamentos, sentimentos e tendências; e o que significa almejar, além da eficiência, vidas que valham a pena viver. 
 
Como é uma colaboração de sucesso entre humanos e máquinas? Eu diria que é uma em que os humanos continuam no ciclo, capazes de avaliar de forma transparente os incentivos de um sistema e influir em sua direção ou discutir sua alteração.
 
Como é uma colaboração de sucesso entre humanos mediada pela tecnologia? Já temos muitas dessas, e elas se caracterizam pela maximização de todos os recursos envolvidos: criatividade e questionamento humanos; a busca, velocidade, processamento e memória das máquinas; uma interação que envolve ambas as partes; e o reconhecimento de que a eficiência não é um fim em si, mas simplesmente uma medida de velocidade.  
 
Finalmente, sejamos claros sobre uma coisa. Estamos em uma época incrível para se viver, para debater essas questões juntos. Se há uma coisa que nossa crescente articulação coletiva como espécie produz é que as pessoas se importam, sobretudo, com as outras pessoas: o que elas pensam, fazem, acreditam, temem, odeiam, amam, riem – e o que podemos fazer juntos.
 
Nossas criações certamente se desenvolverão muito além de nossa atual compreensão: até onde e com que rapidez talvez seja nossa mais urgente pergunta existencial. Nossas melhores esperanças de progresso, entretanto, continuam bastante conhecidas: compreender melhor a nós mesmos; perguntar que objetivos podem servir não apenas à nossa sobrevivência, mas também ao nosso progresso; e lutar para construir sistemas que sirvam a esses, e não os subvertam.
 
(Trecho do discurso feito no lançamento do Programa de Ciências Humanas e a Era Digital, do Centro de Pesquisas em Ciências Humanas da Universidade de Oxford, em 21 de janeiro de 2016.) 

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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