terça-feira, 19 de abril de 2016

Um golpe contra o povo e contra a democracia

“O que se viu foi uma Câmara dos Deputados, que tem 7% de avaliação positiva, falar em nome do povo cassando o voto do povo. Foram 367 punguistas anulando 54.501.118 votos. Não há nenhuma acusação razoável contra a presidente Dilma e há cerca de 300 deputados enredados com questões judiciais. Não há democracia sem respeito à soberania popular”, escreve Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em artigo publicado por Jornal GGN, 18-04-2016.
 
Segundo ele, “se o governo Temer vier, será preciso agir para derrubá-lo, pois será um governo ilegítimo produzido por um golpe antidemocrático. Não se pode dar nenhuma trégua a um governo dessa natureza. A ideia da “unidade nacional” nada mais é do que uma máscara para jogar o peso do ajuste nos ombros dos trabalhadores e para sacrificar os programas sociais. As elites estão quebrando a ordem democrática e constitucional. Não merecem nenhuma confiança e nenhuma trégua”.
 
 
Eis o artigo.
 
Uma farsa dantesca, uma hipocrisia medonha, um cinismo indescritível. Eis a síntese do que se viu no dia 17 de abril de 2016 na Câmara dos Deputados. O que os deputados golpistas autorizaram foi a cassação de 54 milhões de votos, a cassação da soberania popular para que um grupo de corruptos assalte o poder sem voto e sem legitimidade. O que se viu foi a farsa de abrir caminho, em nome do combate à corrupção, para que um denunciado de ter recebido cinco milhões de reais em propina se torne presidente do Brasil. O que se viu foi a hipocrisia de, em nome da moralidade, permitir que o maior corrupto do Brasil se torne o primeiro na linha de sucessão da presidência da república. O que se viu foi o cinismo de deputados acusados de corrupção declararem votos em nome da salvação do Brasil do mal da corrupção. Este espetáculo de degradação da política, de degradação da dignidade do Brasil, sequer escapou ao New York Times que estampou em sua capa: “Gang de ladrões vai julgar Dilma”. Em nome de Deus, da família e da pátria e blasfemando contra Deus, conspurcando as suas famílias e pisoteando a pátria e a Constituição essa gang de ladrões fez suas declarações de voto.
 
O que se viu foi uma Câmara dos Deputados, que tem 7% de avaliação positiva, falar em nome do povo cassando o voto do povo. Foram 367 punguistas anulando 54.501.118 votos. Não há nenhuma acusação razoável contra a presidente Dilma e há cerca de 300 deputados enredados com questões judiciais. Não há democracia sem respeito à soberania popular.
 
Houve uma clara e criminosa ruptura da ordem democrática e institucional. Ruptura construída paulatinamente, pelo juiz Moro, pelo Ministério Público Federal, pela Política Federal e pelo Supremo Tribunal Federal que prevaricou ao permitir que Eduardo Cunha comandasse esse processo inescrupuloso de violência contra a democracia. O que se viu foi a desavergonhada declaração de votos de deputados do PSDB e de outros partidos de oposição clamando pela responsabilidade fiscal quando votaram nas pautas-bomba de Eduardo Cunha aumentando o déficit público no momento em que o Brasil precisava reduzi-lo. Como podem esses todos arvorar-se salvadores do Brasil quando agiram justamente para quebrar o Brasil?
 
O PT e o governo devem um pedido de desculpas à sociedade
 
Como pode essa gang de ladrões aliar-se à Fiesp que clama para não pagar o pato quando se sabe que quem paga o pato da Fiesp, dos bancos e do agronegócio é o povo pobre do Brasil que paga muito mais impostos que os ricos? Como pode o governo do PT ter sido tão ingênuo ao conceder mais de R$ 400 bilhões em incentivos e subsídios às elites possuidoras para ser traído por elas? Como pode o governo do PT ter se aliado aos partidos conservadores das elites abandonando o povo para ser traído por ministros do próprio governo na véspera e durante a votação do golpe?
 
Como pode o PT ter se enganado, imaginando que podia contar com o beneplácito das elites; que podia beber os vinhos caros com as elites; que podia exibir-se com os ternos importados junto às elites; que podia frequentar os hotéis e restaurantes luxuosos para congraçar com as elites? O PT foi aceito enquanto enchia os bolsos das elites com a farra das commodities. Nesse meio tempo, os movimento sociais se tornaram incômodos para os petistas nos governos; as sandálias da humildade foram jogadas no lixo; a estúpida arrogância do poder mesquinho entumecia o peito de parlamentares e dirigentes petistas; o conhaque de alcatrão de São João da Barra foi substituído pelo whisky envelhecido. Mas quando os governos petistas não tinham mais o que entregar à elite branca, endinheirada, de mentalidade escravocrata, machista, racista e homofóbica, o PT recebeu um senhor golpe. Somente nesse momento se lembrou de recorrer ao povo – mas tardiamente. Já passou da hora de o PT e do governo pedirem desculpas à sociedade pelos seus erros e pelos seus desvios
 
Sem pacto e sem transição transada
 
Quando veio a conta da farra fiscal em favor das elites, essas não quiseram pagá-la. Propuseram que o governo do PT pendurasse a conta nos ombros dos trabalhadores. O governo ficou paralisado: não fez nem uma coisa e nem outra. Não teve coragem de cobrar a conta a aqueles que mais ganharam.
 
Com um roteiro golpista e conspirador Temer e o PMDB construíram um programa de ataque aos direitos trabalhistas e sociais, de quebra da previdência, de entrega de áreas da economia de conteúdo nacional ao capital estrangeiro, de associação subordinada aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Essas são algumas das razões do golpe.
 
Mas se o PT e o governo foram humilhados e derrotados, se a Constituição foi rasgada e se a democracia foi violentada, paradoxalmente, essa crise toda produziu algo positivo. Novos movimentos sociais surgiram, uma juventude combativa se pôs nas ruas, milhares de debates foram realizados e esses novos movimentos e essa nova esquerda construíram pontes de unidade com os movimentos sociais que estavam paralisados, sob a cômoda condição de governistas. As manifestações do “não vai ter golpe” se equipararam às manifestações pró-golpe e isto fez com que nas redes sociais houvesse uma virada contra o golpe.
 
Duas frentes progressistas e de esquerda se formaram – Povo sem Medo e Frente Brasil Popular – e passaram a atuar em conjunto. É preciso avançar na reorganização dos movimentos sociais e políticos numa ampla frente progressista para enfrentar as novas etapas do golpe. O mais provável é que esse processo deságue na proposição de novas eleições gerais.
 
Mas o que esses movimentos políticos e sociais aprenderam nesse curto espaço de tempo é a necessidade de construir e preservar a autonomia em relação a qualquer governo. Para quem quer conquistar direitos e construir políticas públicas sociais é mais importante estar nas ruas, nas periferias, nas organizações sociais, culturais e sindicais do que estar nas secretarias e nos ministérios dos governos.
 
Esses novos movimentos não devem e nem podem fazer nenhum pacto. Os pactos, as “transições transadas”, na expressão do Raimundo Faoro, sempre foram enganosos para o povo e para os movimentos sociais. Mudanças efetivas nunca se consumaram no Brasil, pois as elites se apossaram das ideias de mudança para manter o status quo. É o que se vê novamente neste momento. Em nome do combate à corrupção quer-se um retrocesso da democracia, dos direitos sociais, dos direitos civis e dos direitos políticos. Movimentos de repressão e de perseguição à lideranças de movimentos sociais já estão em andamento. O povo não pode enganar-se e nem ser enganado mais uma vez com pactos ilusórios.
 
Se o governo Temer vier, será preciso agir para derrubá-lo, pois será um governo ilegítimo produzido por um golpe antidemocrático. Não se pode dar nenhuma trégua a um governo dessa natureza. A ideia da “unidade nacional” nada mais é do que uma máscara para jogar o peso do ajuste nos ombros dos trabalhadores e para sacrificar os programas sociais. As elites estão quebrando a ordem democrática e constitucional. Não merecem nenhuma confiança e nenhuma trégua.
 
Neste 17 de abril de 2016, o sol enganou o dia e a lua enganou a noite. Não poderá ser lembrando com um dia ensolarado e como uma noite enluarada. Foi um dia trevoso, cinzento para a história do Brasil. Felizes os portugueses que comemoram o mês de abril como um mês de libertação. Nós, brasileiros, teremos que lembrar o mês de abril como o mês da vergonha, da farsa, da hipocrisia e do cinismo.
 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O exorcismo e a psiquiatria. Padre Gabriel, exorcista de Roma, responde perguntas.


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            1ª- Pergunta – Gostaria de saber se, na sua perspectiva, existem traços típicos que caracterizam as pessoas que, mais tarde, apresentam sintomas de possessão; ou seja, se, entre as pessoas por si diagnosticadas como endemoninhadas, existiam anteriormente comportamentos que as tornavam mais vulneráreis? Ou se a possessão atinge as pessoas ao acaso. Pergunto-lhe ainda se estes fenômenos de possessão também se verificam em ateus ou declaradamente ateus. Uma última curiosidade: já li qualquer coisa a respeito de perturbações especificas ligadas a estes fenômenos, como, por exemplo, a glossolalia (capacidade de falar em línguas desconhecidas) ou a levitação. Já observou casos destes?
 
 Resposta – São várias perguntas interessantes. Começo pela última curiosidade. Sim, já encontrei fenômenos de pessoas que durante os exorcismos falavam outras línguas ou línguas estranhas; também presenciei fenômenos de levitação e de força gigantesca. Mas estes fenômenos sozinhos não são suficientes para poder se afirmar se o caso é de possessão diabólica; são necessárias condições especiais e a integração com outros elementos de avaliação.
 
Um exorcista está habituado a ver fenômenos estranhos em grande quantidade e de tal maneira que se não os tivesse visto não acreditaria neles. Como, por exemplo, pessoas que durante os exorcismos cospem pregos, vidros, madeixas de cabelos, as mais variadas coisas.
 
Ou, então, a presença, em travesseiros ou colchões, de ferros retorcidos, de cordas com nós, de trançados muito apertados em forma de terço, de animais ‘pré-históricos’ feitos de material semelhante ao plástico… O caso mais grave que estou acompanhando é o de uma pessoa de quem o demônio disse que fará vomitar um aparelho de rádio; já vomitou quase dois quilos de material.
 
Destaco que os objetos vomitados se materializam no instante em que saem da boca. Observei isso claramente num jovem que cuspiu pregos na mão; até o último instante tive sempre a impressão de que cuspia saliva. Assim se explica por que razão a pessoa nunca tem danos físicos, mesmo quando cospe pedaços de vidro grosso e cortante. São fenômenos paranormais. É importante levar em conta a modalidade; certos objetos que encontramos nos travesseiros são sinais evidentes de feitiços, ou seja, são resultados de malefícios.
 
         Respondo agora à primeira pergunta: todas as pessoas podem ser atingidas pela possessão diabólica de manifestação, principalmente os descrentes, os ateus, os não praticantes, porque se encontram mais indefesos.
 
E o exorcista pode exorcizar quem quer que seja: aos meus serviços, por exemplo, já recorreram muçulmanos, budistas, pessoas sem qualquer tipo de credo religioso. 
 
         Não existem predisposições dependentes, por exemplo, a fragilidade do sistema nervoso ou a hereditariedade. Pelo contrário, existe o perigo de que uma pessoa se exponha à possessão diabólica, por exemplo, freqüentando sessões de invocação dos mortos ou seitas satânicas. É importante saber que a possessão diabólica não é um mal contagioso: não existe perigo algum, nem para os familiares, nem para os lugares que freqüentam. Pode se casar, ter filhos, sem nenhum perigo de contágio. Podemos dizer, de um modo geral, que o demônio não pode nos fazer nada sem o nosso consentimento. 
 
Por exemplo, veio me procurar uma moça que, por pura curiosidade, tinha assistido a uma missa negra. Não conseguia estudar, se concentrar e tinha crises repentinas de violência, como nunca havia acontecido antes. Neste caso, a causa era evidente e era uma causa culpável.
A respeito da culpabilidade, excetua-se o campo dos malefícios, em que agora não me aprofundarei por ser um campo bastante vasto e que foge do nosso tema principal. Diga-me se respondi suficientemente a todas as suas questões.
 
Pessoa que formulou a pergunta
 
– Sim, sinto-me satisfeito. (Esta é sempre a gentil declaração que ouço após as minhas respostas, por isso, de agora em diante não voltarei a repeti-la. Digo apenas, com a fraqueza que me é habitual, que encontrei mais interesse e mais crédito ao falar a estes grupos de psiquiatras, do que quando falo a grupos de sacerdotes.)
 
         2ª- Pergunta – Sobre algumas coisas, admito que estou de acordo com o padre Amorth. Mas já não concordo em considerar equivalente, num certo sentido, a Igreja e o manicômio: o primeiro, como lugar do exorcismo contra o demônio, o outro, como lugar da cura da loucura. Concordo que ambos trabalhem em função do homem.
 
Procedo do positivismo médico; sou um descrente. Mas acredito no homem, por isso, de um ou de outro modo, trabalhamos para o mesmo fim; o senhor, padre, com o exorcismo e nós, de outra maneira.
 
Os psiquiatras, por vezes, foram acusados de não saberem fazer a distinção entre uma alucinação, um efeito paranormal e um estado de êxtase. É sempre bom esclarecermos, porque ninguém tem o monopólio do saber. Vem à minha mente a frase de Hamlet: “Existem mais coisas entre a terra e o céu do que as que sonha a nossa vã filosofia”. Por isso que é sempre necessário muita humildade.
 
         Tenho que destacar a prudência que o padre Amorth demonstra. Eu tenho uma paciente que foi ao seu encontro porque supunha que estava possuída pelo demônio. Percorrendo o itinerário que a tinha levado ao exorcista, tive dificuldade em perceber por que razão o padre Amorth não a tinha exorcizado, enviando-a, ao contrário, a um psiquiatra.
 
Depois, lentamente, fui percebendo a razão: existem duas estradas a percorrer. A sua tarefa é a de expulsar os demônios, a minha é a de reconstruir a pessoa. Esta pessoa, que não é psicótica nem neurótica, teve necessidade de passar pelo padre Amorth antes de chegar até mim. E compreendo também a importância da fé. Todos nós poderemos constatar que temos extrema facilidade em curar pessoas que têm fé.
 
         Resposta – Obrigado pela sua intervenção. Realmente é necessário mútua compreensão para sermos ainda mais úteis para os doentes. Descobrem-se mundos novos. Coisas difíceis de acreditar. Certo dia, o padre Cândido estava exorcizando uma moça, estudante universitária, que apresentava sintomas certos de possessão diabólica, mas também sinais certos de desequilíbrio psíquico.
 
O padre Cândido pediu ajuda a um amigo e marcaram um encontro. O psiquiatra tinha uma escrivaninha que era muito grande e, por isso, a moça estava sentada à sua frente mas ainda bastante distante. No fim da conversa, o psiquiatra disse a ela: “Menina, vou receitar estes medicamentos para você”, e começou a escrever a receita.
 
Nesse momento, aconteceu um fato estranho. Sem se mexer da cadeira, a moça esticou o braço, que ficou muito comprido sob o olhar estupefato do psiquiatra (“quase dois metros”, dirá ele mais tarde), pegou a receita que o médico estava preenchendo, rasgou-a e atirou-a para o cesto de lixo dizendo com voz profunda: Esta porcaria não me serve para nada”. O padre Cândido ria muito ao contar do susto que tinha passado o seu amigo médico, que nunca mais quis saber nada da moça, nem de nenhum outro paciente do exorcista.
 
         São fatos perante aos quais um exorcista não se espanta, pois está constantemente acostumado a lidar com eles. Mas é bom que também o psiquiatra os conheça para poder intervir no âmbito que é de sua competência.
 
3ª- Pergunta- Antes de mais nada, quero agradecer ao padre Gabriele Amorth por tudo o que nos disse. A minha pergunta é estritamente técnica a respeito da função do psiquiatra nesses casos. Gostaria de saber qual a responsabilidade individual destas pessoas, que interesses tem o demônio; as causas que levam uma pessoa ficar possuída pelo demônio.
 
         Resposta – São três perguntas muito interessantes e sinto ter de resumir as respostas em tão pouco tempo. Começo pela última pergunta, que também esclarece a primeira. São quatro as causas que podem levar à possessão diabólica ou a perturbações de natureza maléfica; duas causas são inculpáveis; por isso não existe responsabilidade; duas causas são culpáveis; por isso a responsabilidade humana é evidente.
 
         A) Pode se tratar de simples permissão de Deus, do mesmo modo como Deus pode permitir uma determinada doença. A finalidade é dar à pessoa uma oportunidade de purificação e de méritos. Poderia apresentar uma longa lista de santos e de bem-aventurados que sofreram períodos de possessão diabólica (Santa Gemma Galgani, a bem-aventurada Ângela de Foligno, o bem-aventurado Padre Calábria…). Pode se tratar apenas de perturbações maléficas, tais como pancadas, quedas ou coisas semelhantes; temos exemplos famosos deste tipo de fenômenos na vida do Santo d’Ars e do Santo Padre Pio.
 
            B) A causa pode ser dada por um malefício de qual se é vítima: não há culpa por parte da vítima, mas existe culpa por parte de quem o provoca. Até mesmo a pessoa mais inocente (por exemplo, um bebê ainda no seio materno) pode ser atingida por um maléfico, que é definido como: fazer mal por meio do demônio.
 
E pode ser colocado em prática de muitas maneiras: feitiço, pactos, maldições, mau-olhado, macumba… Aqui entramos no grande campo da magia e da bruxaria, que nos levaria para longe do nosso tema. Limito-me a dizer que Deus criou o homem livre; livre até de fazer mal às outras pessoas. Assim como posso pagar a um assassino para que mate uma determinada pessoa, do mesmo modo posso pagar a um indivíduo ligado ao demônio para que faça um malefício contra alguém.
 
         C) Freqüentar pessoas e lugares perigosos. Quem consulta magos, cartomantes, bruxos; quem participa em sessões de invocação de espíritos de mortos ou faz parte de seitas satânicas; quem se dedica ao ocultismo, à necromancia (mesmo sob a forma de psicografia, atualmente muito difundida): todas estas pessoas se expõem ao risco (embora na maior parte das vezes não sofra as conseqüências) de receber influências maléficas e mesmo a possessão. É evidente nestes casos a plena responsabilidade do indivíduo, por vezes provocada com absurda vontade: por exemplo, no caso do pacto de sangue com o diabo.
 
         D) Também a quarta causa implica plenamente a responsabilidade do indivíduo. Pode-se cair em malefícios pela persistência, em culpas graves e múltiplas. Creio que é o caso evangélico de Judas, de quem se diz no fim: “Satanás entrou nele”. Tive casos de jovens usuários de droga e sobretudo culpados de delitos e perversões sexuais, culpas graves e persistentes que os tornaram escravos do demônio. Também já experimentei a grande dificuldade que é libertar mulheres que, para além de outros motivos que tinham provocado a possessão, tinham realizado abortos.
 
         Respondo, enfim, a segunda questão: que interesse tem o demônio. Nenhum interesse, mas age por pura perfídiaÉ a verdadeira falsidade demoníaca, que quer o mal pelo mal, mesmo em próprio dano. Certo dia, interroguei um demônio: “Você paga com um aumento de penas eternas todos os sofrimentos que provocas a estas pessoas. Tem todo o interesse em ir embora o mais rápido possível”. Respondeu-me: “Não me interessam as penas que tenho de sofrer; me basta fazer sofrer esta pessoa e destruí-la”.
 
Nós podemos compreender, mesmo desaprovando, o delinqüente que mata um homem para o derrubar. Mas nunca chegaremos a compreender a perfídia do demônio que se encarniça contra o homem, eventualmente com o objetivo de desprezar Deus, travando os seus planos de felicidade e bem, mas em dano próprio.
 
         4ª- Pergunta – Na minha longa experiência sempre me abstive de fazer investigação como curioso; procurei sempre, pelo contrario, manter-me atualizado. Hoje vim aqui a convite do prezado Doutor Tamino; e, no entanto, comecei a anotar muitas coisas e a surgirem muitas dúvidas. Vou apresentar apenas algumas.
Antes de tudo, está fora de questão que o psiquiatra, mais do que todos os outros, tem de ter consciência dos enormes limites da ciência. Lembro-me de um grande estudioso francês que falava das vantagens da ignorância, ou seja, de considerar-se ignorante; quando uma pessoa se considera sábia não aprende mais nada.
Gostaria que me dissesse mais alguma coisa a respeito da possessão e dos malefícios. E também a respeito da colaboração que se requer do endemoninhado para que seja curado, o que isso significa? Já tive experiência destas possessões e gostaria de saber, também, a opinião dos outros: é que entre as formas que já encontrei na minha vida profissional e as que hoje aqui foram relatadas, há bem pouco em comum.
 
         Resposta – Muito obrigado. Certamente que o pouco tempo disponível não permite responder completamente a questões tão profundas. Aquilo que relatei não combina com a sua experiência. Seria interessante fazer uma comparação, porém, limito-me a uma observação: os fatos naturais são caracterizados por uma certa repetição que, no fim das contas, permite a formulação de leis, de critérios, também em campo médico.
 
Deste modo, a partir da experiência, nasce a ciência. Mas aqui não. Não existem dois casos iguais. Mesmo entre exorcistas, as experiências são de tal maneira diferente que por vezes é difícil entendermos.
 
         Mais algumas palavras a respeito da possessão, que é a forma mais graveO demônio é puro espírito, na realidade, é uma força demoníaca que se apodera de uma pessoa e fala ou age servindo-se dos órgãos desta pessoa, mas valendo-se do seu conhecimento e força. Por isso pode revelar coisas ocultas; pode falar todas as línguas ou línguas que desconhecemos; pode manifestar uma força extraordinária, impossível, humanamente falando.
 
Um amigo, exorcista em Roma há muito tempo, estava exorcizando um jovem numa Igreja. A certa altura, este jovem levantou-se e começou a subir, a subir até que a sua cabeça tocou no teto da Igreja. Imaginem o terror que experimentaram os que presenciaram a cena, o medo de que o seu familiar caísse de repente e se arrebentasse no chão. O exorcista fez um gesto para tranqüilizá-los e continuou firme com o exorcismo, como se nada de mais estivesse acontecendo.
 
Mais para o fim das orações, aquele jovem começou a descer lentamente e, no final do exorcismo, já estava de novo sentado. Não percebeu nada. São fenômenos que ocorreram, e que não podem ter explicação natural. Mais difícil é verificar a relação com os malefícios.
 
Já a Bíblia diz, no livro do Êxodo, quando descreve que os fatos prodigiosos que Moisés realiza perante o Faraó, por ordem de Deus e com a força de Deus, também são realizados pelos magos, com a força do demônio: transformar a água em sangue, o bastão em serpente, provocar a invasão de rãs... O demônio também tem o poder de provocar doenças.
 
Jesus curou muitos surdos e mudos, que tinham sido atingidos por malefícios; certa vez, curou um surdo-mudo expulsando o demônio que tinha se apoderado dele:neste caso, o mal era resultante de uma presença demoníaca.
 
O padre Cândido, com seus exorcismos, curou muitas doenças e, até, tumores no cérebro. Já me aconteceu, várias vezes, fazer desaparecer cistos dos ovários, na véspera de uma operação. Naturalmente que são fatos que ocorrem apenas a pessoas já afetadas por malefícios.
 
O Evangelho sugere o critério: a árvore é conhecida pelos frutos. Até os médicos, muitas vezes, fazem experiências com os medicamentos e percebem que, se um dá resultado positivo, prosseguem com esse tratamento; caso contrário, substituem-no. Eu costumo ser abrangente na administração dos exorcismos e, depois, para avançar, me prendo ao efeito provocado.
 
         Uma palavra também sobre a colaboração que se espera de uma pessoa possessa.Estamos em um campo no qual a cura é a oração, é a intervenção divina. Por isso, pedimos a quem é vítima de malefícios que se reconcilie com a lei de Deus(freqüentemente o ponto de partida é uma boa confissão), que intensifique a oração e a freqüência aos sacramentos, que aprofunde a própria cultura religiosa. E estes meios comuns da graça não são apenas de ajuda; por vezes, são suficientes para fazerem cessar as perturbações.
 
         5ª- Pergunta – Existem possessões mais ou menos graves? O demônio pode dar poderes, benefícios?
 
         Resposta – Existe uma vasta série de possessões diabólicas, diferentes em intensidade e em manifestações. Existe diferença de intensidade.
 
Veio me procurar, uma jovem de 15 anos, que há alguns dias tinha ido assistir, por curiosidade, a um ritual satânico. De volta para casa, ficou furiosa, dava pontapés e arranhava os familiares que procuravam detê-la, cuspia neles.
 
Foram suficientes poucos minutos de exorcismos para que fosse completamente libertada. Outras vezes, somam-se várias causas, em diferentes idades da vida, e quando a pessoa vem procurar o exorcista é necessário sanar toda uma série de feridas, exigindo, deste modo, um tratamento de muitos meses, freqüentemente muitos anos, para atingir a plena libertação.
 
            Existem também grandes diferenças nas manifestações externas. Cito dois casos extremos. Há pessoas que se tornam furiosas, com uma força sobre-humana, gritam e procuram se atirar contra os presentes; contudo, também já tive casos de absoluta imobilidade e silêncio, com uma total falta de reações externas, que exigiram grande esforço e a colaboração de muitos elementos para compreender que se tratava realmente de uma possessão diabólica. Entre estes casos extremos, há espaço para uma série de variações intermediarias.
 
Outra situação é a de quem consegue realizar completamente os seus compromissos profissionais e familiares, e afazeres de modo que ninguém tome conhecimento do seu mal; diferente é a condição de quem não é capaz de fazer nada, de quem tem necessidade de assistência contínua e, por isso, sente um tédio mortal para com a vida.
 
         Passando à outra perguntasim, o demônio pode dar poder e benefícios. É o que faz, por exemplo, com todos os magos e bruxos: o poder da adivinhação e de provocar perturbações; pode também dar vantagens materiais de riqueza, sucesso, prazeres.
 
Mas uma vez que o demônio apenas pode fazer mal e querer o mal, combina sempre estes dons com grandes sofrimentos. Por isso, aqueles que pedem dons a satanás fazem um péssimo negócio: vivem o inferno já nesta terra e, se não se converterem, irão vive-lo na outra vida também.
 
            6ª- Pergunta – Vamos dar um exemplo: uma pessoa possuída pelo demônio recebe um mal físico que exige intervenção cirúrgica; quais são as conseqüências? Pode haver conflito entre um exorcista e um médico, com evidente prejuízo ao paciente, se o exorcista considerar que se encontra diante de um malefício, que pode ser curado com o exorcismo, e o médico considerar, pelo contrário, que se trata apenas de um mal natural, que deve ser curado por via médica?
 
Resposta – São possíveis surpresas, mas não são possíveis conflitos entre médicos e exorcistas. Esta, pelo menos, é minha experiência pessoal e dos exorcistas que conheço.
 
Surpresas: tive alguns casos nos quais o cirurgião, dando continuidade aos preparativos para a operação, não encontrou nada daqueles males que as análises, a ecografia, a TAC e a ressonância magnética revelaram. Em todos os casos, havia um mal (por exemplo, cistos), mas que surgiram imediatamente após a operação. Mas são casos muito raros.
 
Já no que diz respeito à possibilidade de conflito entre médicos e exorcistas, nunca tive conhecimento de nenhum. Isto porque, fundamentalmente, trabalham em campos diferentes. Jamais me senti no direito de dizer a um médico o meu parecer, ou de interferir nas decisões dele. Na maior parte das vezes, tive casos em que suspeitava de malefícios e esperava que se evitassem determinadas intervenções cirúrgicas; e, de fato, ocorriam mudanças nos dados das análises, o que levava os cirurgiões a decidirem não intervir.
 
Posso dizer que me encontrei muitas vezes a colaborar, indiretamente, com os médicos, sem que nunca nos encontrássemos e sem que eles soubessem da minha existência ou do fato que o paciente recebia exorcismos realizados por mim. Creio que este também é um importante ponto de encontro, embora inconscienteo respeito mútuo que faz com que cada qual atue na própria área de intervenção; e o encontro é dado pelas vantagens que o doente recebe, sendo beneficiário tanto dos cuidados médicos como da intervenção dos exorcistas.
 
7ª- Pergunta – Uma curiosidade pessoal. Gostaria de saber com que critérios de escolha é que chegou a este tipo de atividade, e se sofreu danos pessoais. E, antes ainda, gostaria de saber da cultura, do ambiente onde vive; por exemplo, a comparação de alguém que vive em Londres com alguém que vive em uma tribo africana.
 
Resposta – Considero muito importante fazer estas distinções.
 A cultura pessoal e o ambiente, mais ou menos avançado, em que se vive, não têm nenhuma influência nem sobre as eventuais perturbações, não têm nenhuma influência nem sobre as eventuais perturbações, nem sobre os remédios que as pessoas procuram nos exorcistas ou nos magos e nos bruxos.
 
Tanto nós, como eles, somos visitados por operários, agricultores, domésticas, profissionais liberais, industriais, políticos… Tive o caso de um engenheiro eletrônico que tinha pago vinte mil euros por um amuleto (um saquinho com um cordel cheio de nós), que devia tê-lo libertado de todos os seus problemas.
 
O progresso técnico e a cultura não têm qualquer influência; verificamos a existência deste fato por todo o lado: tanto na Inglaterra como em Portugal, nos Estados Unidos como na África ou na Índia.
 
         Também a religião tem pouca influência e convive tranquilamente com as várias formas de superstição, embora as combata como pecados de idolatria. As pessoas vão à igreja e depois à bruxaria, com a maior naturalidade.
 
Sabemos que no mundo tecnicamente mais evoluído, a página dos jornais diários mais lida é a do horóscopo; foram feitas estatísticas bem precisas a este respeito.
 
Não esqueçamos que a luta contra o demônio e contra os espíritos maléficos foi sempre conduzida, junto de todos os povos, ainda antes que existisse o povo judeu; naturalmente que cada qual seguia as convicções e os métodos do seu ambiente cultural.
 
O surgimento do cristianismo e de outras grandes religiões tiveram escassa influência na mudança da mentalidade 
 
         Agora respondo à pergunta sobre como me tornei exorcista. Foi por acaso; não foi uma escolha minha. Tinha ido visitar o Cardeal Hugo Poletti, para cumprimentá-lo e alegrá-lo um pouco com a minha maneira brincalhona de ser, quando no meio da conversa surgiu o nome do padre Cândido Amantini: Você conhece o padre Cândido: Doente como está precisa mesmo de alguém que o ajude”.
 
Começou a escrever numa folha (evidentemente que me conferia a condição de exorcista), sem prestar atenção aos meus protestos. Acrescento também que danos à minha pessoa nunca sofri; trato o demônio com a autoridade porque é ele que tem medo de mim e de qualquer homem, criado à imagem de DeusMuito mais, tem medo de um cristão, que a partir do Batismo ficou com o selo da Santíssima Trindade.
 
8ª- Pergunta – Muitas pessoas falam demais sobre os demônios. Porque não falar, igualmente, dos espíritos bons, já que também existem?
 
         Resposta – Você tem razão. O demônio sempre se fez notícia; os anjos, pouco. Recordo-me daquele provérbio chinês, que agora também está de moda entre nós: “Faz mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que cresce”.
 
Os anjos existem, são muito mais ativos do que os demônios e, na outra vida, poderemos verificar de quantos perigos nos defenderamaté de perigos materiais.
 
Quando penso, por exemplo, nas imprudências e nos riscos que consegui superar em quarenta anos da carta de habilitação, conduzindo nem sempre da maneira mais correta,tenho mesmo que agradecer ao meu anjo da guarda.
 
Mas tomar consciência do bem é mais difícil do que percebermos o mal. Até no campo dos males físicos: lamentamo-nos se temos um mal (por exemplo, dor de dentes) e não pensamos em todos os nossos órgãos que funcionam bem.
 
         Agradeço à pergunta que me apresentou porque me permite recordar que os anjos existemdefendem-nos dos perigos, dão-nos boas inspirações, ajudam-nos nas nossas atividades, apóiam-nos na adversidade. É realmente injusto não falar mais sobre ele.
 
         9ª- Pergunta – Mais uma pergunta sobre a ação do demônio. Certamente que não tem interesse algum em encontrar-se com um exorcista. Gostaria de saber se os endemoninhados vêm ao seu encontro espontaneamente ou a força.
 
         Resposta – A pessoa endemoninhada sofre, e deseja ir ao encontro do exorcista para ser curada, ou seja, libertada. Mas é verdade que encontra dificuldades, especialmente no último momento. Em muitos casos, se os atingidos não forem ajudados não conseguem chegar ao exorcista.
Durante os exorcismos o demônio fica mais feroz do que em qualquer outro momento. E então, antes de começar o exorcismo, começam as perturbações. Há quem chegue até mim serenamente e não apresente dificuldades iniciais; há quem chegue até mim em estado de transe, tendo sido mesmo arrastado a força durante a última parte do trajeto; há quem gostaria de fugir enquanto espera pelo exorcismo, e fugiria mesmo se não fosse agarrado. E há quem sai de casa para vir se encontrar comigo, mas depois não consegue mudar a direção.
 
Depois, e de um modo geral, no fim do exorcismo as pessoas regressam as suas casas, serenas, contentes por terem vindo; em todo o caso, mesmo percebendo as vantagens do exorcismo, sentem tantas dores durante o desenrolar do ritual que acabam até dizendo: “Aqui é que eu não volto mais!” Mas, pelo contrário, são as pessoas mais fieis em regressar.
 
         Acrescento que é muito importante o auxílio que depois o possuído dá a si próprio (através da oração, da freqüência aos sacramentos…) ou que recebe dos outros:bênçãos, orações de libertação, etc
 
         10ª- Pergunta – Mas é assim, tão importante, a colaboração da pessoa endemoninhada? Se há uma presença externa que não depende dela, deveria poder ser libertada.
 
         Resposta – Sim, a colaboração é muito importante. Eu costumo dizer, dado que já quase toda gente tem experiência destas coisas, que é um pouco como libertar um toxicodependente: se colaborar pode chegar à curacaso contrário, não. Digo-o também ao interessado: a luta e a vitória contra o demônio é você quem a conduz; é você que se liberta, eu apenas posso lhe ajudarPorque aqui é necessário a ajuda de Deus: quem liberta é o SenhorE obtém-se auxílio quando se reza e quando se afastam os obstáculos a ação da graça: por uma injustiça grave que deve ser reparada. Para obter o auxílio de Deus a oração é fundamentalDigo muitas vezes que o maior obstáculo que nós exorcistas encontramos é a passividade das pessoas, a pretensão de ser libertado sem o esforço próprio.
 
         11ª- Pergunta – Gostaria de voltar à tipologia de fenômenos de que se falou, como a glossolalia, a levitação, etc. São fatos que me impressionam porque já pude observá-los em outro contexto completamente diferente do da possessão diabólica; encontramos exemplos destes fenômenos na literatura psicanalítica.
Carl Jung fala a este respeito e dá uma explicação em que formula a hipótese de forças e energias que se libertam. Parece-me que o Padre Amorth faz a distinção entre fenômenos demoníacos, fenômenos paranormais e fenômenos psiquiátricos. Esta distinção baseia-se numa evidente diferenciação fenomenológica que, porém, possui igual substancialidade energética, ou trata-se de uma diferenciação substancial em que se liberta uma energia totalmente diferente, de outra natureza?
 
         Resposta – A diferença é substancial porque há uma substancial diferença de causa. Nos fenômenos de natureza maléfica, a causa é a presença do demônio e aeventual energia que se liberta provém do demônio. Por isso, só a oração e os exorcismos não são eficazes e os males continuam, quer dizer que a causa é diferente: psíquica ou parapsicológica. Por isso, não se trata de energias de intensidade diferente, mas de energias de natureza diferente, de proveniência diferente.
 
         12ª- Pergunta – No caso que citou, do levantamento de um grande peso, pareceu-me entender que na sua perspectiva não existe uma diferente intensidade de força, mas trata-se apenas de um fenômeno de natureza diferente.
 
         Resposta – Exato. Neste momento, estamos perante a dificuldade que existe em catalogar determinados fenômenos. Porque mesmo que a fenomenologia seja idêntica, a causa pode ser substancialmente diferente.
 
Foi por este motivo que citei o exemplo bíblico de Moisés que, com a força de Deusrealizava os mesmos prodígios que depois dos magos egípcios realizavam com a força do diabo. Podemos-nos encontrar perante dois fenômenos idênticos: um de caráter maléfico e o outro de caráter paranormal.
Como podemos distinguir a causa que os diferencia? Antes de mais a modalidade de manifestação. Por exemplo, se uma pessoa manifesta uma força anormal apenas durante o exorcismo. E, mais, se existem, eventualmente, outros fenômenos suspeitos. Por exemplo, se a mesma pessoa, durante os exorcismos, quando é aspergida com água-benta, reage como se estivesse a ser queimada.
 
Certamente que isto não acontece com pessoas que estão experimentando certos fenômenos de caráter parapsicológico. Acrescento ainda: a eficácia dos meios de cura.
 
Se uma pessoa age sob a influência de poderes maléficos, os exorcismo produzem efeito na pessoa, enquanto que as outras curas de índole natural não produzem efeitos.
 
A ciência médica e os poderes parapsicológicos (como a pranoterapia, por exemplo)influem sobre os poderes naturais, mas não produzem qualquer efeito sobre os maléficos. Também por isto se vê que a diferença é substancial e não apenas fenomenológica.
 
Fonte: Extraído do Livro “Exorcistas e Psiquiatras” – Pe. Gabriele Amorth – Ed. Palavra & Prece. Capa acima.
 
http://blog.comshalom.org/carmadelio/39520-o-exorcismo-e-psiquiatria-padre-gabriel-exorcista-de-roma-responde

CNBB divulga Declaração sobre o momento nacional

 
A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou, na tarde desta quinta-feira, 14 de abril, Declaração sobre o momento nacional, dentro das atividades da 54ª Assembleia Geral da CNBB, que acontece em Aparecida (SP), de 6 a 15 de abril.
 
Frente à crise ética, política, econômica e institucional pela qual passa o país, o episcopado brasileiro conclama "o povo brasileiro a preservar os altos valores da convivência democrática, do respeito ao próximo, da tolerância e do sadio pluralismo, promovendo o debate político com serenidade. Manifestações populares pacíficas contribuem para o fortalecimento da democracia. Os meios de comunicação social têm o importante papel de informar e formar a opinião pública com fidelidade aos fatos e respeito à verdade".
 
Eis o texto.
 
DECLARAÇÃO DA CNBB SOBRE O MOMENTO NACIONAL
 
“Quem pratica a verdade aproxima-se da luz” (Jo 3,21).
 
Nós, bispos católicos do Brasil, reunidos em Aparecida, na 54ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), frente à profunda crise ética, política, econômica e institucional pela qual passa o país, trazemos, em nossas reflexões, orações e preocupações de pastores, todo o povo brasileiro, pois, “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes, 1).
 
Depois de vinte anos de regime de exceção, o Brasil retomou a experiência de um Estado democrático de direito. Os movimentos populares, organizações estudantis, operárias, camponesas, artísticas, religiosas, dentre outras, tiveram participação determinante nessa conquista. Desde então, o país vive um dos mais longos períodos democráticos da sua história republicana, no qual muitos acontecimentos ajudaram no fortalecimento da democracia brasileira. Entre eles, o movimento “Diretas Já!”, a elaboração da Carta Cidadã, a experiência das primeiras eleições diretas e outras mobilizações pacíficas.
 
Neste momento, mais uma vez, o Brasil se defronta com uma conjuntura desafiadora. Vêm à tona escândalos de corrupção sem precedentes na história do país. É verdade que escândalos dessa natureza não tiveram início agora; entretanto, o que se revela no quadro atual tem conotações próprias e impacto devastador. São cifras que fogem à compreensão da maioria da população. Empresários, políticos, agentes públicos estão envolvidos num esquema que, além de imoral e criminoso, cobra seu preço.
 
Quem paga pela corrupção? Certamente são os pobres, “os mártires da corrupção” (Papa Francisco). Como pastores, solidarizamo-nos com os sofrimentos do povo. As suspeitas de corrupção devem continuar sendo rigorosamente apuradas. Os acusados sejam julgados pelas instâncias competentes, respeitado o seu direito de defesa; os culpados, punidos e os danos, devidamente reparados, a fim de que sejam garantidas a transparência, a recuperação da credibilidade das instituições e restabelecida a justiça.
 
A forma como se realizam as campanhas eleitorais favorece um fisiologismo que contribui fortemente para crises como a que o país está enfrentando neste momento.
 
Uma das manifestações mais evidentes da crise atual é o processo de impeachment da Presidente da República. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil acompanha atentamente esse processo e espera o correto procedimento das instâncias competentes, respeitado o ordenamento jurídico do Estado democrático de direito.
 
A crise atual evidencia a necessidade de uma autêntica e profunda reforma política, que assegure efetiva participação popular, favoreça a autonomia dos Poderes da República, restaure a credibilidade das instituições, assegure a governabilidade e garanta os direitos sociais.
 
De acordo com a Constituição Federal, os três Poderes da República cumpram integralmente suas responsabilidades. O bem da nação requer de todos a superação de interesses pessoais, partidários e corporativistas. A polarização de posições ideológicas, em clima fortemente emocional, gera a perda de objetividade e pode levar a divisões e violências que ameaçam a paz social.
 
Conclamamos o povo brasileiro a preservar os altos valores da convivência democrática, do respeito ao próximo, da tolerância e do sadio pluralismo, promovendo o debate político com serenidade.
 
Manifestações populares pacíficas contribuem para o fortalecimento da democracia. Os meios de comunicação social têm o importante papel de informar e formar a opinião pública com fidelidade aos fatos e respeito à verdade.
 
Acreditamos no diálogo, na sabedoria do povo brasileiro e no discernimento das lideranças na busca de caminhos que garantam a superação da atual crise e a preservação da paz em nosso país. “Todos os cristãos, incluindo os Pastores, são chamados a se preocupar com a construção de um mundo melhor” (Papa Francisco).
 
Pedimos a oração de todos pela nossa Pátria. Do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, invocamos a bênção e a proteção de Deus sobre toda a nação brasileira.
 
Aparecida - SP, 13 de abril de 2016.
 
Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília
Presidente da CNBB
   
Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo de São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB
 
Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB
 

O meio ambiente como uma não-questão e a gestão ambiental no ABC paulista. Entrevista especial com Maurício Waldman

“Pensar a política ambiental e qualquer outro aspecto da vida cidadã exige um repensar profundo do Brasil, entender como é que chegamos à situação que hoje vivemos no país. Portanto, tempo de ‘resetar’, de repensar. Repensar tudo”, afirma o pesquisador.
 
 
Imagem: pixabay.com
 
 
Entre as críticas feitas à esquerda brasileira, e especialmente ao PT, que está à frente da presidência na última década e meia, destaca-se a de não compreender as questões ambientais que estão em jogo nas decisões políticas. Assumindo esse tema como mote de seu novo livro, intitulado “A Tragédia dos Mananciais do Grande ABC: A Destruição da Represa Billings e das Águas Doces no Berço do Partido dos Trabalhadores”, Maurício Waldman, conhecido por suas pesquisas e militância em defesa do meio ambiente, comenta a gestão ambiental na região do ABC paulista nas últimas décadas.

Desfiliado do PT ainda no início dos anos 90 “por conta de ações contrárias ao meio ambiente por parte da administração petista de São Bernardo do Campo”, Waldman afirma que o partido “logrou a conquista do pleito eleitoral em São Bernardo com base num autêntico ‘mantra’: a Gestão Democrática e Popular” e fazendo uma “crítica feroz da Lei de Proteção aos Mananciais”, a qual esteve embasada na “defesa dos interesses dos trabalhadores”, criticando o que seria um “‘caráter draconiano da legislação’, impedindo o acesso dos humildes à moradia”.
 
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, ele explica que a situação de pobreza de amplos setores da população da região do ABC e “a ausência de uma política habitacional vitaminou o processo de devastação dos mananciais”, porque essas áreas “passaram a ser reivindicadas para ocupação informal, gerando enorme destruição ambiental, cujos protagonistas mais conhecidos são os loteadores clandestinos”.
 
Ele explica: “Grupos ou imobiliárias compram as terras na área de mananciais por preços baixos — até porque a atividade é clandestina — e, desrespeitando a legislação, posteriormente as dividem em lotes menores que os propostos pela Lei. Auferem lucros gigantescos, produzindo safra inumerável de milionários. Retenha-se que, como norma, os loteadores não esclarecem aos interessados sobre os obstáculos jurídicos dos terrenos, situados em áreas cuja ocupação deveria acatar normatização específica”.
 
Waldman ressalta que a problemática abordada em seu livro não é “exclusiva do PT”, porque outros partidos “também estão envolvidos com loteadores clandestinos e esquemas de corrupção nas prefeituras”. O erro do PT, contudo, “que se prontificava como diferente de tudo que existia no mundo da política”, foi ter “mergulhado de cabeça na inconsistência, na geleia de má consciência que é a gestão do Estado”.
 
Maurício Waldman é graduado em Sociologia, com mestrado em Antropologia e doutorado em Geografia pela Universidade de São Paulo - USP, onde defendeu a tese sobre abastecimento de água na Grande São Paulo. Atuou como Coordenador de Meio Ambiente em São Bernardo do Campo-SP e Chefe da Coleta Seletiva de Lixo na capital paulista.
 
Nos anos 1990, trabalhou no Centro Ecumênico de Documentação e Informação - CEDI, atuou em movimentos em defesa da Represa Billings no Grande ABC Paulista e participou em diversas entidades ecológicas, dentre as quais a Comissão de Fiscalização do Reator Nuclear do Projeto Aramar e no Comitê de Apoio aos Povos da Floresta de São Paulo.
 
Waldman foi membro da Coordenação da Campanha Viva a Billings Viva, no início dos anos 90, em defesa dos mananciais da região do ABC na Região Metropolitana de São Paulo e representou o Comitê de Apoio aos Povos da Floresta no Encontro paralelo da ECO-92.
 
Confira a entrevista.
Capa do livro
Imagem cedida pelo entrevistado
IHU On-Line - De onde surgiu seu interesse de escrever A Tragédia dos Mananciais do Grande ABC: A Destruição da Represa Billings e das Águas Doces no Berço do Partido dos Trabalhadores?

Maurício Waldman – De um texto que surgiu a partir da minha militância ambiental e partidária. Fui militante e membro do PT até 1992, quando rompi com o partido. Naquele ano, por conta de ações contrárias ao meio ambiente por parte da administração petista de São Bernardo do Campo, contra as quais me posicionei, entrei em conflito aberto com a direção local do partido e com os loteadores clandestinos. Ameaçado de morte em várias ocasiões, fui inclusive alvejado na rodovia Anchieta por pistoleiros, ao que tudo indica, a mando de loteadores vinculados ao esquema de ocupação ilegal dos mananciais, muito ativo na região de São Bernardo do Campo e no Grande ABC. Estes fatos ocorreram 24 anos atrás e estão, de um modo ou de outro, consignados no livro.
 
A Tragédia dos Mananciais do Grande ABC: A Destruição da Represa Billings e das Águas Doces no Berço do Partido dos Trabalhadores é um livro de autoria de um cidadão que somou a militância ambientalista a uma ativa participação no PT. Assim, conhecendo o partido por dentro e tendo acompanhado o cotidiano político do PT, senti-me instigado a avaliar não apenas como a administração petista de São Bernardo do Campo agiu na questão da Represa Billings, dos mananciais e do meio ambiente em geral, como também de que modo este recorte se inseria na malha mais ampla da política e da realidade brasileira. Desta forma, vejo A Tragédia dos Mananciais do Grande ABC: A Destruição da Represa Billings e das Águas Doces no Berço do Partido dos Trabalhadores como obra fundamentada numa experiência real de ativismo político, algo muito diferente de oratórias abstratas e de textos de gabinete.
 
Embora retrate uma experiência de militância partidária e ambientalista, gostaria de sublinhar que o texto foi primeiramente redigido em 1994 como parte de minha produção acadêmica durante meu mestrado na Universidade de São Paulo - USP. Na ocasião, atendendo a sugestão da Professora Ana Maria Marques Camargo Marangoni, do Departamento de Geografia da USP, elaborei uma análise da relação entre a administração e os vereadores do PT de São Bernardo com grupos mancomunados com o loteamento clandestino e a devastação dos mananciais da Represa Billings, que, como se sabe, é o maior reservatório de água potabilizável da Grande São Paulo. Ao mesmo tempo, este material tinha a preocupação em identificar contradições e vínculos com medidas ilegais adotadas pela administração do PT em São Bernardo do Campo. Deste modo, trata-se de uma pesquisa incorporando fundamentação metodológica, pesquisa documental, bibliografia científica e juridicidade editorial. É um livro demarcado por uma trajetória militante e ao mesmo tempo modelado por proposições e diretrizes acadêmicas. Como, aliás, entendo que uma obra tratando de temáticas como esta tem que ser.
 
IHU On-Line - Como era sua relação com o PT?
 
Maurício Waldman - Gostaria de frisar que militava tanto no movimento ambientalista quanto no PT. Colaborei com Chico Mendes, participei da Eco-92, de encontros ambientalistas e de tudo a que tinha direito. Nesta época participei em várias publicações e escrevi muitos textos e artigos, quase sempre na área ambiental. Quando era membro do PT, desempenhei muitas funções na vida partidária e no ativismo político. Isto, desde meados dos anos 1980. Dentre outras participações, fui responsável, por exemplo, pelo coletivo de Ambientalistas do PT em São Paulo, membro da Coordenação Nacional de Ecologistas do PT e Administrador Geral do Diretório Regional do PT do Estado de São Paulo. Também elaborei, juntamente com Luiz Eduardo Cheida (atualmente deputado estadual pelo PMDB do Paraná), o Capítulo de Meio Ambiente da primeira campanha presidencial do Lula em 1989. Tudo isso justificou convite para formar a Coordenadoria do Meio Ambiente em São Bernardo do Campo no biênio 1991-1992, cidade que, aliás, é o berço icônico do PT.

“O que tem acontecido com os mananciais do Grande ABC, sistematicamente agredidos e dizimados pela incúria do poder público, é uma das mais dantescas agressões ao meio ambiente da história urbana do país

IHU On-Line – Quais são as principais interfaces de seu livro?
 
Maurício Waldman - Na realidade o livro trabalha com várias interfaces, a começar pela da água doce, um assunto mais atual do que nunca. Se pudéssemos condensar toda água doce do globo num litro de água, deste volume, tão só uma gota do líquido seria aquela que escoa através dos cursos d’água da Terra. É desta proporção que a sobrevivência humana depende para seguir adiante. Mesmo assim, este recurso precioso tem sido intensamente dilapidado, principalmente no meio urbano. E no referente às áreas metropolitanas, como na Grande São Paulo e no ABC Paulista, são justamente as regiões de mananciais que têm sido impactadas de modo gritante.
 
Tecnicamente, manancial corresponde a um conceito que designa áreas destinadas à produção de água, que cobrem em torno da metade da Região Metropolitana de São Paulo. No Grande ABC, agrupamento regional formado por sete cidades, a parcela de território incluída na área dos mananciais varia de um município para outro. Por exemplo, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires estão totalmente inseridos na área de preservação. São Bernardo do Campo possui 70% de seu território em área de proteção aos mananciais. Santo André, quase 60%, ao passo que Mauá e Diadema, aproximadamente 19%. Quanto a São Caetano, o município situa-se inteiramente fora desta área. Entenda-se que devido ao caráter crucial do abastecimento público de água potável, os mananciais foram merecedores de legislação específica, visando proteger os recursos hídricos e garantir que as torneiras continuem a oferecer o líquido para a população.
 
Trata-se de uma legislação bastante complexa, estabelecendo diferentes critérios de restrições quanto ao uso do solo e cuidados com a água. A lei leva em consideração pressupostos como características climáticas, meteorológicas, pedológicas e botânicas da região dos mananciais e é claro, no caso do ABC, a maior ou menor proximidade com a Represa Billings. Visando o equilíbrio hidrodinâmico do reservatório, a legislação procura conter a blindagem do solo, decorrente da impermeabilização por edificações e pelo asfaltamento. Por esta razão, prevê a preservação da cobertura vegetal e uma urbanização que não encarcere o solo. Daí que propõe pavimentação das ruas com paralelepípedos, permitindo a infiltração das águas pluviais para recarga dos lençóis subterrâneos. Por sinal, é importante esclarecer que a Lei de Proteção aos Mananciais surge numa época em que as mobilizações ambientalistas eram virtualmente nulas. Apenas posteriormente a Represa Billings foi incorporada ao que pode ser denominado como imaginário da natureza. E mais, trata-se de uma lei escrita durante a ditadura militar, enfrentando o rígido tecnicismo que tipificava o regime de exceção.
 
Mais do que uma lei genérica de preservação da natureza, a legislação dos mananciais é uma normatização com foco na ocupação territorial. Neste sentido, embora os impactos na Billings e na região dos mananciais sejam notoriamente ambientais, o cerne deste debate está assentado nas políticas públicas de ocupação do solo, nos programas de urbanização, de oferta de moradia, e de um modo muito claro, em garantir o fornecimento de água, insumo vital e essencial. Neste último quesito, recordaria que a atual crise hídrica, atingindo em cheio a metrópole paulista, reatualiza radicalmente a questão do gerenciamento ótimo dos reservatórios de água doce da mancha urbana, em particular o da Billings, que configura um patrimônio hidrológico e ambiental reconhecidamente estratégico.
 
IHU On-Line - Qual é a importância do Sistema Billings? Por que ele é estratégico?
 
Maurício Waldman - A Billings é uma obra que se impõe por si mesma. O eixo deste sistema é um vasto reservatório de 127 km de extensão e 560 km² de superfície, com margens no Sul da capital e em cinco das sete cidades do Grande ABC. Localizada nos bordos do planalto, à vista da baixada santista e do Atlântico, a Billings armazena o magnífico montante de um bilhão e duzentos milhões de m³ de água potabilizável, um acervo que não tem como ser desprezado na ótica dos interesses hídricos metropolitanos. Neste cenário, o que tem acontecido com os mananciais do Grande ABC, sistematicamente agredidos e dizimados pela incúria do poder público, é uma das mais dantescas agressões ao meio ambiente da história urbana do país, uma verdadeira tragédia, que tem na omissão das autoridades uma das causas centrais, senão a principal.
 
IHU On-Line - Em seu livro o senhor trata da destruição da Represa Billings. Em que consiste tal destruição e quando ela começou?
 
Maurício Waldman - Historicamente, é importante recordar que a Represa Billings surge em decorrência das demandas crescentes de água e energia por parte da metrópole paulista. No começo do século passado a cidade de São Paulo se ressentia de crescente carência de energia, ocorrendo quebras do fornecimento e apagões. Foi assim que em 1925, Firmiano Pinto, prefeito em exercício da capital, endossou, praticamente em caráter emergencial, um projeto encomendado pelo governo do Estado à empresa canadense The São Paulo Tramway, Light and Power, ou simplesmente Light, tal como passou a ser conhecida pela imprensa e na voz do povo. O projeto da Light levava em consideração a ausência de quedas d'água significativas, necessárias à construção de hidrelétricas, nos espaços próximos da capital.
 
Então, a ideia de represar as águas na Serra de Cubatão, gerando energia serra abaixo, na Usina Henry Borden, surgiu como grande trunfo para a solução do problema, cuidadosamente escondido nas mangas de um mágico. Vale lembrar que a autorização governamental para a construção da Represa Billings, assinada pelo Presidente Arthur Bernardes em março de 1925, esclarecia de modo cabal que o uso energético das águas da região não poderia prejudicar o abastecimento da população. Até porque já se antevia que, em futuro próximo, problemas para captar água potável, atendendo a demanda da capital, se exacerbariam. Mas exatamente este ponto é que se tornaria um dos pivôs da destruição dos mananciais.
 
IHU On-Line - Por quê?
 
Maurício Waldman - Porque a água do reservatório, que tanto poderia gerar energia elétrica como abastecer a população — utilizações ao menos em tese não excludentes —, tornou-se alvo de uma disputa na qual os interesses relativos à matriz energética e ao abastecimento público de água potável entraram em contradição. Neste conflito, o primado energético soube impor-se e explorar, em seu proveito, uma ideologia do progresso e de resto, combinar as mazelas do desmesurado crescimento urbano da metrópole paulista às suas próprias expectativas. Isto explica o descaso com a preservação dos mananciais. Quando se fala em políticas de usos múltiplos das águas na Região Metropolitana de São Paulo, é preciso levar em conta que os usos da Bacia do Tietê sempre foram direcionados pelo interesse energético predominando sobre os demais, um privilégio que constitui, também, a principal causa da deterioração das águas da região metropolitana.
 

“Áreas ocupadas irregularmente são frequentemente erodidas pelas chuvas, muito intensas no alto da Serra, onde se situam os mananciais

  
IHU On-Line – Por que o interesse energético predomina sobre os demais e de que modo tal predominância prejudicou os mananciais?
 
Maurício Waldman - É preciso atentar que para o lobby energético, a qualidade e potabilidade das águas não era um tópico relevante. Desde que houvesse líquido para colocar em movimento as turbinas da Usina Henry Borden, tanto fazia que a água fosse boa para beber ou não. Como certa vez argutamente ponderou o engenheiro e sanitarista Samuel Murgel Branco, infelizmente falecido, a companhia Light, virtual detentora do monopólio energético, não se interessava pela questão do abastecimento, e muito menos, pela despoluição do Tietê e da Billings, uma vez que esgotos, ao passarem por turbinas, geravam eletricidade do mesmo jeito. Desta forma, a Usina Henry Borden — e desculpe a utilização do termo, de largo trânsito entre os especialistas — tornou-se a primeira usina “merdelétrica” do Planeta. Porém este arrazoado, sem dúvida alguma fundamental para o questionamento da destruição dos mananciais, é, no entanto, apenas um num conjunto de fatores.
 
Gestão dos mananciais
 
Num plano geral, existe uma ordem de motivações muito concretas que está na raiz da política realmente aplicada na gestão dos mananciais, que aparentando estar mais preocupada em gerar esgotos do que água potável para a população, verdadeiramente constitui o que denomino no meu livro como uma “não-política” de águas doces. Com efeito, a legislação de proteção aos mananciais permite, como disse, a ocupação por assentamentos humanos, pois basicamente o que se tem é uma legislação que busca ofertar em alguma racionalidade ao processo de territorialização do espaço geográfico da Grande São Paulo.
 
Retenha-se que a lei admite praticamente todos os usos regulares de solo urbano: residencial, industrial, comércio varejista, produção hortifrutigranjeira, atividades institucionais, esportes, lazer, reflorestamento e até mesmo a extração vegetal. Regula também a intensidade e proporção dos lotes para uso residencial, até porque a região dos mananciais não apresenta condições naturais para plena implantação de projetos habitacionais. Tanto assim que áreas ocupadas irregularmente são frequentemente erodidas pelas chuvas, muito intensas no alto da Serra, onde se situam os mananciais. Todas as áreas ocupadas de modo indevido apresentam ravinamentos profundos, que periodicamente engolem casas inteiras e seus habitantes, uma calamidade sempre retratada nos jornais do Grande ABC.
 

"Todas as áreas ocupadas de modo indevido apresentam ravinamentos profundos, que periodicamente engolem casas inteiras e seus habitantes, uma calamidade sempre retratada nos jornais do Grande ABC". Foto cedida pelo entrevistado
 
IHU On-Line - Como acontece a ocupação desta região?
 
Maurício Waldman - Em nível macro, a situação de pobreza de largos setores da população e a ausência de uma política habitacional vitaminou o processo de devastação dos mananciais. As áreas de mananciais passaram a ser reivindicadas para ocupação informal, gerando enorme destruição ambiental, cujos protagonistas mais conhecidos são os loteadores clandestinos. Grupos ou imobiliárias compram as terras na área de mananciais por preços baixos — até porque a atividade é clandestina — e, desrespeitando a legislação, posteriormente as dividem em lotes menores que os propostos pela Lei. Auferem lucros gigantescos, produzindo safra inumerável de milionários. Retenha-se que, como norma, os loteadores não esclarecem aos interessados sobre os obstáculos jurídicos dos terrenos, situados em áreas cuja ocupação deveria acatar normatização específica.
IHU On-Line – E como a população reage a isso ou soluciona esses problemas?
 
Maurício Waldman - Quanto à infraestrutura urbana, em tese proibida por ferir a legislação, a questão é “solucionada” mediante acordos políticos. Uma vez efetivada não só a venda como a ocupação dos lotes, os loteadores e testas-de-ferro saem em campo em “defesa dos trabalhadores”, auxiliando na formação de comissões e de associações de bairro com a finalidade de reivindicar junto ao poder público toda sorte de infraestrutura e serviços, cujo custo é alto em face da deterioração ambiental e pelas condições geofísicas da região dos mananciais. É neste ponto que as administrações municipais fazem sua parte no serviço sujo, comprometendo ainda mais a preservação das águas e do meio ambiente. E infelizmente, este roteiro foi também rigorosamente acatado pelo PT de São Bernardo.
 
IHU On-Line - Como avalia a gestão ambiental do PT em São Bernardo do Campo? Quais os pontos positivos e negativos a destacar?
 
Maurício Waldman - Começando a responder pela última pergunta, simplesmente não há algo positivo a registrar. Quanto à outra questão, deveríamos começar pelo histórico que o partido apresentava claramente já nos anos 1990.
 
É importante acentuar que o PT logrou a conquista do pleito eleitoral em São Bernardo do Campo com base num autêntico “mantra”: a Gestão Democrática e Popular. Esta plataforma política propunha a adoção de medidas reformistas, reunindo diversos setores sociais para, com base num assim considerado acúmulo de forças, trabalhar uma perspectiva futura — e não imediata — de construção de uma sociedade socialista, entendida, no caso, como socialista democrática. Porém, a discussão pertinente ao tipo de socialismo que realmente nortearia a conduta do partido no poder nunca ficou totalmente esclarecida, advertência que incluiria a nebulosa formulação de um socialismo democrático.
 
Oscilando entre um modelo social-democrata e construção de uma plataforma política substantivada num acúmulo de forças do “campo popular”, em boa parte esta noção constituía uma solução de compromisso entre setores mais à esquerda do PT e as alas reformistas e conservadoras. Na prática, era uma dentre muitas contradições internas que no seio do PT passaram a se cristalizar desde meados nos anos 1980. Apesar de acirrados debates internos, tais pendências jamais foram efetivamente enfrentadas pelo partido, que seguiu adiante na luta pelo poder político sem conseguir — ou pretender — solucioná-las. E, certamente, tudo isso também se refletia na questão ambiental.
 

  

“O Estado brasileiro é basicamente, como dizia o geógrafo Milton Santos, uma máquina de fabulações, um império da mistificação

IHU On-Line - Como este conflito se reproduziu na questão ambiental?
 
Maurício Waldman - Faz-se necessário lembrar, em nome de uma explanação mais precisa, da presença de variáveis externas a São Bernardo do Campo de relevante influência nos conflitos que irromperam na administração. Dentre estas, a de que o Partido dos Trabalhadores jamais definiu, em toda a sua complexidade, o perfil da questão ambiental na ótica dos interesses populares. A questão ambiental, assim como todas classicamente carimbadas como “alternativas”, sempre causou embaraço interno no partido. Reconhecidamente, a inserção do debate ambiental no discurso partidário sempre foi reticente, enfrentando toda sorte de resistências e quando muito, incorporadas pontualmente nos programas do PT. Entre os motivos, podemos arrolar a primazia dos temas originários do chamado mundo do trabalho, em razão da influência, especialmente num primeiro momento da existência do partido, das acepções marxistas ortodoxas. Posteriormente, esta pendência se cristalizou nos embates com uma crescente maré tecnicista, que praticamente fagocitou a discussão política. Pior ainda, este quadro se agravou com a questão do loteamento clandestino.
 
Portanto, um aspecto medular foi o ingresso de loteadores clandestinos no PT e a continuidade da carreira partidária de vereadores vinculados a estes esquemas na agremiação. Simultaneamente, estes atores coexistiam no PT com militantes do movimento ecológico, uma situação paradoxal, durante anos seguidos mantida sob tensão potencial, mas só ganhando visibilidade no momento em que o partido foi alçado à administração do município. Dadas estas contradições, não admira que, no frigir da campanha eleitoral, aparte a Plataforma Democrática e Popular defender “um Plano Diretor baseado no crescimento harmônico e ecologicamente equilibrado do município” e apoiar retoricamente “a organização dos Conselhos Populares”, o discurso programático tenha se pautado por promessas de efetivação de infraestrutura urbana para áreas de manancial loteadas pela especulação imobiliária, ocasionando atritos generalizados com o movimento ecológico.
 
Nestas crispações, a administração destacou-se como crítica feroz da Lei de Proteção aos Mananciais. Sempre argumentando na linha da “defesa dos interesses dos trabalhadores”, criticava-se o que seria um “caráter draconiano da legislação”, impedindo o acesso dos humildes à moradia. O que se segue a isto é o que meu livro explicita: o rompimento do movimento ambientalista com a administração, fato este carregado de turbulência política.
 
IHU On-Line - Como o senhor observa estes episódios à luz do que hoje acontece com a questão ambiental e a questão política?
 
Maurício Waldman - Entendo, é claro, que o livro descreve uma problemática que não é de modo algum exclusiva do PT. Além do PT outros partidos também estão envolvidos com loteadores clandestinos e esquemas de corrupção nas prefeituras. Portanto, o problema não é exatamente este. A questão é que o PT se prontificava como diferente de tudo o que existia no mundo da política. Era incorruptível, ideologicamente avançado e politicamente democrático. Insuperavelmente sério, justo e decente. Porém, nada disto aconteceu no berço do PT. E já na primeira administração. Entendo que muito do que se observa hoje reflete num grau ampliado tudo o que A Tragédia dos Mananciais do Grande ABC: A Destruição da Represa Billings e das Águas Doces no Berço do Partido dos Trabalhadores descreve. Daí que existe uma questão importante a se colocar: a de que o caráter matricial da questão ambiental não admite que seja tratada como uma “não-questão”, o que põe em xeque a forma como o Estado brasileiro está estruturado.
 
O Estado brasileiro é basicamente, como dizia o geógrafo Milton Santos, uma máquina de fabulações, um império da mistificação. Seguramente o que acabou acontecendo com o PT tem a ver com o fato de este partido ter mergulhado de cabeça na inconsistência, na geleia de má consciência que é a gestão do Estado, o que terminou, na minha visão, por liquidar o PT como ator questionador, propositivo e agente de mudanças. Portanto, pensar a política ambiental e qualquer outro aspecto da vida cidadã exige um repensar profundo do Brasil, entender como é que chegamos à situação que hoje vivemos no país. Portanto, tempo de “resetar”, de repensar. Repensar tudo. Essa é a principal mensagem do meu livro: a necessidade de repensar a política, e nesta moldura, repropor a política ambiental. É isso.
Por Patricia Fachin