quinta-feira, 24 de março de 2016

Quinta-feira Santa - - Eucaristia: Sacramento do amor

 
A celebração da Semana Santa encontra seu ápice no Tríduo Pascal, que compreende a Quinta-feira Santa, a sexta-feira da paixão e morte do Senhor e a solene Vigília Pascal, no sábado à noite. Esses três dias formam uma grande celebração da páscoa memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

A liturgia da Quinta-feira Santa nos fala do amor, com a cerimônia do Lava-pés, a proclamação do novo mandamento, a instituição do sacerdócio ministerial e a instituição da Eucaristia, em que Jesus se faz nosso alimento, dando-nos seu corpo e sangue. É a manifestação profunda do seu amor por nós, amor que foi até onde podia ir: "Como Ele amasse os seus amou-os até o fim".

A Eucaristia é o amor maior, que se exprime mediante tríplice exigência: do sacrifício, da presença e da comunhão. O amor exige sacrifício e a Eucaristia significa e realiza o sacrifício da cruz na forma de ceia pascal. Nos sinais do pão e do vinho, Jesus se oferece como Cordeiro imolado que tira o pecado do mundo: "Ele tomou o pão, deu graças, partiu-o e distribuiu a eles dizendo: isto é o meu Corpo que é dado por vós.

Fazei isto em memória de ' mim. E depois de comer, fez o mesmo com o cálice dizendo: Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que é derramado por vós" (Lc 22,19-20). Pão dado, sangue derramado pela redenção do mundo. Eis aí o sacrifício como exigência do amor.


O amor, além do sacrifício, exige presença. A Eucaristia é a presença real do Senhor que faz dos sacrários de nossas Igrejas centro da vida e da oração dos fiéis.

A fé cristã vê no sacrário de nossas igrejas a morada do Senhor plantada ao lado da morada dos homens, não os deixando órfãos, fazendo-lhes companhia, partilhando com eles as alegrias e as tristezas da vida, ensinando-lhes o significado da verdadeira solidariedade: "Estarei ao lado de vocês como amigo todos os momentos da vida". Eis a presença, outra exigência do amor.

A Eucaristia, presença real do Amigo no tabernáculo de nossos templos, tem sido fonte da piedade popular como demonstra o hábito da visita ao Santíssimo e da adoração na Hora Santa. Impossível crer nessa presença e não acolhê-la nas situações concretas do dia-a-dia.

Vida eucarística é vida solidária com os pobres e necessitados. Não posso esquecer a corajosa expressão de Madre Teresa de Calcutá que, com a autoridade do seu impressionante testemunho de dedicação aos mais abandonados da sociedade, dizia: "A hora santa diante da Eucaristia deve nos conduzir até a hora santa diante dos pobres. Nossa Eucaristia é incompleta se não levar-nos ao serviço dos pobres por amor."

O amor não só exige sacrifício e presença, mas exige também comunhão. Na intimidade do diálogo da última Ceia, Jesus orou com este sentimento de comunhão com o Pai e com os seus discípulos: "Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti... que eles estejam em nós" (Jo 17,20-21).

Jesus Eucarístico é o caminho que leva a esta comunhão ideal. Comer sua carne e beber seu sangue é identificar-se com Ele no modo de pensar, nos senti mentos e na conduta da vida. Todos que se identificam com Ele passam a ter a mesma identidade entre si: são chamados de irmãos seus e o são de verdade, não pelo sangue, mas pela fé. Eucaristia é vida partilhada com os irmãos. Eis a comunhão como exigência do amor.

Vida eucarística é amar como Jesus amou. Não é simplesmente amar na medida dos homens o que chamamos de filantropia. É amar na medida de Deus o que chamamos de caridade. A caridade nunca enxerga o outro na posição de inferioridade. É a capacidade de sair de si e colocar-se no lugar do outro com sentimento de compaixão, ou seja, de solidariedade com o sofrimento do outro. Caridade é ter com o outro uma relação de semelhança e reconhecer-se no lugar em que o outro se encontra...

Na morte redentora na cruz, Cristo realiza a suprema medida da caridade "dando sua vida" e amando seus inimigos no gesto do perdão: "Pai, perdoai-lhes pois eles não sabem o que fazem." A Eucaristia não deixa ficar esquecido no passado esse gesto, que é a prova maior do amor de Deus por nós. Para isso, deixa-nos o mandamento: "Façam isso em minha memória".

Caridade solidária é o gesto de descer até o necessitado para tirá-lo da sua miséria e trazê-lo de volta a sua dignidade. A Eucaristia é o gesto da caridade solidária de Deus pela humanidade. "Eu sou o Pão da vida que desceu do céu. Quem come deste Pão vencerá a morte e terá vida para sempre".
 
Por: Dom Eduardo Koaik
Bispo Emérito de Piracicaba

http://www.catequisar.com.br/texto/materia/bispo/41.htm


Com o Oscar de melhor filme, Spotlight traz à tona discussão sobre a pedofilia

 
Grande vencedor do Oscar de 2016, anunciado na noite de domingo, Spotlight designa, na verdade, a editoria de repórteres especiais do jornal americano The Boston Globe, encarregados de desvendar como a Igreja Católica encobertou crimes de pedofilia cometidos por quase uma centena de padres em Boston, nos Estados Unidos. Já o subtítulo do instigante filme – Segredos Revelados –  esclarece mais sobre a conduta de criminosos que manifestam interesse sexual por crianças e adolescentes e buscam camuflar suas perversões por meio de profissões acima de qualquer suspeita.

“O pedófilo é aquela pessoa em quem você mais confia, em princípio. E o crime de pedofilia ganha uma dimensão bem maior que você imagina por meio da internet. Ao divulgar a foto de um estupro pelo celular, por exemplo, além de ser nojento e degradante, você está cometendo crime de pornografia infantil, ao perpetuar para milhares de conhecidos a degradação de uma criança”, alerta o promotor mineiro Casé Fortes, integrante da CPI contra a Pornografia Infantil, de 2008, que o levou a lançar o livro Todos contra a pedofilia. Pela Lei da Pornografia Infanto-juvenil, número 11. 829, que atualizou os tipos de pornografia infantil, só o fato de se ter uma foto como essa no celular ou no pen-drive leva o portador a estar sujeito a processo, sujeito a pena de um a quatro anos de prisão.

“Se distribuir a foto gratuitamente para grupos de WhatsApp, a pena poderá aumentar para três a seis anos de cadeia, ainda que o portador alegue que repassou a foto para prevenir as pessoas do grupo da realidade da vida ou para alertar sobre o que está acontecendo. É preciso parar com isso”, afirma o promotor. Segundo o especialista, que percorreu 3 mil quilômetros no Brasil, visitando desde as estradas mineiras até a Ilha de Marajó e as divisas da Amazônia, as fronteiras da rede de navegação da internet são ainda mais ilimitadas, mas mostram situações sempre pautadas no real, por mais que possam parecer montagens de computador. “São abusos filmados pelos próprios pais, com crianças drogadas ou raptadas em diversos países, inclusive no Brasil”, disse o promotor.
 
Há como escolher se você quer clicar em meninos ou meninas sendo violadas com pirulitos, por faixas etárias, pela cor do cabelo, com ou sem violência, com fogo ou outros tipos de instrumentos, conforme está descrito no livro Todos contra a pedofilia, que se tornou objeto de campanha nacional, com a adesão de artistas, cantores e celebridades. “Na primeira Operação Carrossel, da Polícia Federal, foram apreendidas milhares de fotos e memórias dos computadores, mas os autores não puderam ser enquadrados porque não havia sido tipificado o crime pela internet. A lei que atualizou os artigos do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) foi o principal ganho da CPI”, explica o promotor.

ASSÉDIO
 
 Pedofilia não é simplesmente “gostar de crianças”, mas sim, “gostar de crianças para praticar sexo”, e praticar sexo com crianças é crime. Pratica um crime ligado à pedofilia, portanto, aquela pessoa que comete um estupro contra uma criança, que cometeu um atentado violento ao pudor (antes da Lei 12.015/2009) contra uma criança, aquele que produz, vende, troca ou publica pornografia infantil, aquele que assedia sexualmente uma criança através da internet e aquele que promove a prostituição infantil. “Existe uma minoria de pedófilos doentes e existe a grande maioria de pedófilos criminosos que sabem muito bem o que estão fazendo. A perversão não os torna incapazes de se controlar, inclusive existem aqueles que pedófilos clínicos que não são criminosos”, acrescenta Fortes.

Para Ana Beatriz Barbosa Silva, que assina o prefácio do livro e autora de Mentes Perigosas, para realizarem seus crimes os pedófilos criminosos, por ela considerados psicopatas, costumam se camuflar em profissões que os permitem aproximar-se de crianças. “São professores, chefes de escoteiros, treinadores esportivos, pediatras, religiosos que atuam em colégios, entre dezenas de profissões que exigem contato com crianças. Todas estas atividades profissionais apresentam uma aura socialmente reconhecida como nobres e educativas. O pedófilo usa, de forma maquiavélica, essa artimanha para acercar-se de suas vítimas, sem despertar suspeitas.”

TRÊS PERGUNTAS PARA

Cristina Silveira, psicopedagoga e psicanalista

1 - Na verdade, não é só na igreja que acontecem os casos de pedofilia...

Não, é principalmente em casa. Segundo pesquisas, a grande maioria de abusos sexuais acontece no âmbito doméstico, praticados por parentes próximos, como tios, primos e padastros. Depois, vêm os abusos em ambientes ligados a crianças, como escolares, escolas e igrejas.
 
2 - Por que o principal alvo é a casa?

Porque é onde a criança está mais suscetível. Ela confia no adulto, dependendo da idade, até os 7 anos, ela não tem consciência de que está sofrendo um abuso, acha que é uma brincadeira, que é um jogo ou um segredo. Ela nunca pensa que é algo proibido e feio. O abusador sempre leva isso para o lado da brincadeira.
3 - Como descobrir se a criança está sendo vítima?

A criança começa a despertar para o fato de que aquelas ações são um abuso quando entra para a escola e percebe que o tratamento dado pelo adulto às outras crianças é diferente. Então, ela própria muda o comportamento: fica arredia, para de comer, começa a fazer xixi na cama e a aparentar medo e insegurança. A segunda forma é quando a criança repete os mesmos atos sofridos em casa com os próprios coleguinhas, nos desenhos e nas brincadeiras com as bonecas.

NA MIRA

Novos tipos de crimes para combate à pornografia infantil e ao abuso sexual

PRODUÇÃO DE PORNOGRAFIA INFANTIL


É a produção de qualquer forma de pornografia envolvendo criança ou adolescente (artigo 240 do ECA), já que tem como destinatário o pedófilo, ou seja, a pessoa que tem excitação sexual com indivíduos pré-púberes.

VENDA DE PORNOGRAFIA INFANTIL


É o ato de vender ou expor à venda, por qualquer meio (inclusive internet), foto ou vídeo de pornografia ou sexo explícito envolvendo criança ou adolescente (artigo 241 do ECA).

DIVULGAÇÃO DE PORNOGRAFIA INFANTIL

 É a publicação, troca ou divulgação, por qualquer meio (inclusive internet) de foto ou vídeo de pornografia ou sexo explícito envolvendo criança ou adolescente (artigo 241-A do ECA).

POSSE DE PORNOGRAFIA INFANTIL

É ter em seu poder (no computador, pen-drive, em casa, etc.) foto, vídeo ou qualquer meio de registro contendo pornografia ou sexo explícito envolvendo criança ou adolescente (artigo 241-B do ECA).

PRODUÇÃO DE PORNOGRAFIA INFANTIL SIMULADA (MONTAGEM)


É o ato de produzir pornografia simulando a participação de criança ou adolescente, por meio de montagem, adulteração ou modificação de foto, vídeo ou outra forma de representação visual (artigo 241-C do ECA). Esse tipo de pornografia é muito usado por pedófilos para seduzir uma criança durante a prática do chamado “Grooming” – assédio sexual de crianças pela internet.

ALICIAMENTO DE CRIANÇA


É o ato de aliciar, assediar, instigar ou constranger a criança (menor de 12 anos de idade), por qualquer meio de comunicação (pessoalmente ou a distância: pelo telefone, internet, etc.), a praticar atos libidinosos, ou seja, passa a ser crime convidar ou “cantar” uma criança para relação libidinosa (sexo, beijos, carícias, etc.). É muito comum esse tipo de assédio pela internet, através de salas de bate-papo (chats) ou programas de relacionamento (MSN, ORKUT, MySpace, etc.). É o “Grooming” propriamente dito (artigo 241-D do ECA).

Fonte: Livro Todos Contra a Pedofilia, de Casé Fortes
 

Futuro arcebispo de Diamantina comenta polêmicas e fala sobre homilia associada a Lula

Em missa, dom Darci falou do mal "daqueles que se autodenominam jararacas" (foto: :Arquidiocese de Aparecida/Divulgação)
A partir de maio, a Arquidiocese de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, terá novo arcebispo. Dom Darci José Nicioli, de 56 anos, assume o posto atualmente ocupado por dom João Bosco Oliver de Faria, que renunciou por ter completado 75 anos, conforme estabelece o Código de Direito Canônico da Igreja Católica. Mineiro de Jacutinga, no Sul do estado, ele estava há 20 anos na Arquidiocese de Aparecida, em São Paulo. O religioso assume o cargo em meio a polêmicas recentes. Uma delas é a investigação de um caso de abuso sexual envolvendo um padre que atuava em São João da Chapada, distrito da cidade histórica mineira. E, no último domingo, a homilia do religioso durante uma missa no Santuário de Aparecida gerou repercussão por ter citado o mal “daqueles que se autodenominam jararacas”, o que levou muitos a associarem a fala com o discurso do ex-presidente Lula na semana passada, após depoimento na Operação Lava-Jato da Polícia Federal.

Dom Darci nasceu em 1959 em Jacutinga, no Sul de Minas, e foi ordenado sacerdote em fevereiro de 1986. De 2009 a 2013 foi superior e reitor do Santuário Nacional de Aparecida e vigário-geral da província Redentorista de São Paulo (2013-2014). É mestre em teologia pelo Pontifício Ateneo St. Anselmo, de Roma. “Vejam vocês como Deus é bom: saí de Minas Gerais para ser missionário, com apenas 14 anos de idade e, agora, tenho a graça de retornar como bispo-missionário às queridas terras mineiras... No coração brota espontaneamente uma prece: Deo gratias!”, escreveu o novo arcebispo, em carta destinada à comunidade católica de Diamantina, divulgada no site da Arquidiocese.
Em entrevista ao Estado de Minas, o religioso disse que, apesar do tempo vivendo longe da terra natal, faz várias visitas ao estado para celebrações. “A gente está sempre ligado a Minas, porque, como redentorista, vou quase todo mês pregar em alguma paróquia no Sul do estado”, explicou. Ele lembra visitas a outras regiões, como o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, e à Basílica de São Geraldo, em Curvelo, na Região Central do estado.

Dom Darci explica que ainda não esteve em Diamantina, mas conhece a história da arquidiocese. A diocese da cidade foi fundada em 1854 e elevada em 1917. Ela abrange as dioceses de Almenara, Araçuaí, Guanhães e Teófilo Otoni. “Sei também que a Arquidiocese de Diamantina tem 47 mil quilômetros quadrados; é bem grande. São 34 municípios e sabemos do Vale do Jequitinhonha, toda a dificuldade que o pessoal vive. Vamos trabalhar de forma a incluir quem porventura esteja marginalizado. Queremos contar com a parceria das autoridades civis, do povo de Deus, padres, lideranças leigas”, diz.
O futuro arcebispo de Diamantina também falou da experiência em São Paulo. “Muito do que sou eu levo de Aparecida. Aparecida me ensinou muito, a experiência administrativa, pastoral, a visão organizativa da Igreja. Hoje ela é referência mundial e pude contribuir. Para mim, é um orgulho, a graça de Deus me permitiu trazer esse trabalho”, disse o padre, agradecendo as equipes e parceiros com quem trabalhou durante 20 anos.

Denúncia Sobre as investigações contra o padre de São João da Chapada, suspeito de abusar de adolescentes, dom Darci disse ter ficado sabendo por meio de uma das matérias publicadas pelo Estado de Minas, e afirma que a postura da Igreja é muito séria em relação a esses casos. “Li que havia uma denúncia. Sei que o arcebispo suspendeu o padre para averiguação, ele saiu do local onde estava até que seja feito o inquérito para saber se há veracidade”, disse. “Após isso, a igreja agirá. Existe a pena canônica (caso considerado culpado) e ele também responderá civilmente. Se não é culpado, têm que reconduzi-lo ao trabalho, mas ainda não estou por dentro disso”, relata.

Dom Darci também nega ter se referido a Lula durante a missa em Aparecida em 6 de março. “A gente, quando faz uma homilia, não manda recado para ninguém. A aplicação é feita por quem ouve”, disse o religioso. “Aquilo que eu disse é sobre eliminar todo o mal da nossa vida. E usei como imagem Nossa Senhora, aquela que pisou na cabeça da serpente e o mal não a tocou. Eu a coloquei como exemplo, que pisemos na cabeça das jararacas nas nossas vidas, poderia ter sido outra cobra, uma urutu-cruzeiro”, comparou. Para o sacerdote, a situação foi positiva para gerar reflexão. “Mas isso não foi de todo mal. Foi bom para refletir. Somos cristãos e devemos agir a favor do Brasil. Eu não incitei violência. Terminei minha fala dizendo que ‘vamos vencer o mal pelo bem’”.

A celebração de apresentação e posse do arcebispo está marcada para as 15h30 de 22 de maio na Catedral Metropolitana de Diamantina.
 

O sentido da condenação e morte de Jesus

 
O projeto de Jesus se completa na sua morte, sinal de amor até o fim. Mesmo diante da dor extrema, Jesus não se desvia do desígnio do Reino de Deus. Ele assume a cruz com liberdade e revela seu amor incondicional por nós. Pelo seu sangue é selada a nova aliança e são desmascaradas as artimanhas da mentira e do poder opressor que se opõe ao Reino de Deus. A cruz, que significava destruição, torna-se reconstrução da condição humana.
 
1. INTRODUÇÃO
 
Para compreender o tema em sua amplitude, “condenação e morte de Jesus”, é preciso ter, diante dos olhos, alguns aspectos que por ora se podem denominar introdutórios, os quais, nesta reflexão, não têm o sentido de ser preliminares, mas, antes, exigência para a compreensão mais abrangente das razões da “condenação e morte de Jesus”.
 
Jesus é o dom gratuito do Pai
 
Sendo de condição divina, Jesus Cristo fez-se totalmente humano, esvaziou-se da condição divina para viver conosco (Fl 2,6-8). Deus revela-se como Deus muito humano. Nada do que é humano é indiferente a Deus. A grande Revelação de Deus é a humanidade. A humanidade de Jesus marca definitivamente a abertura e o acesso à vida de Deus. Agora, o encontro com Deus se dá não necessariamente no Templo, mas em Jesus Cristo. “Ninguém vai ao Pai senão por mim”, diz Jesus (Jo 14,6). Deus se faz carne e vem habitar entre nós. Jesus Cristo se faz humano e servidor, manifestação da graça de Deus. O Pai vem ao encontro da humanidade pelo seu Filho e convoca todos para o seguimento de seu Filho, Jesus Cristo, a partir do anúncio e concretização do Reino de Deus. Por meio de sua pessoa e seu testemunho, Jesus é a irrupção do Reino de Deus em palavras e ações, nas dimensões do dom e tarefa, na perspectiva do “já” e “ainda-não”. O presente inaugura a plenitude de salvação futura, e o futuro penetra e esclarece o presente como tempo de decisão para alcançá-lo por meio da libertação dos males que oprimem os seres humanos.
 
Jesus vem em nome do Pai para fazer a vontade do Pai
 
Em Jesus Cristo se dá a irrupção do Reino de Deus. É o divino que invade a história. Jesus não prega a si mesmo, mas algo distinto de si mesmo, o Reino de Deus. Jesus foi fiel servidor do Reino. Ele é “servo de Deus”. Toda a sua vida deve ser compreendida à luz do Reino e este, por sua vez, só pode ser compreendido à luz da entrega total de Jesus. Em Jesus, portanto, revela-se um Deus descentralizado. Ou seja, tem-se a manifestação de um Deus que vive para fora, isto é, totalmente para o outro. Jesus apresenta-se como radicalmente livre das leis opressoras da época e aponta para o caminho da liberdade, tendo o Reino de Deus como o centro de sua pregação e de sua vida. “O tema do ‘Reino de Deus’ penetra toda a pregação de Jesus. Só podemos compreendê-lo a partir da totalidade da sua pregação” (RATZINGER, 2007, p. 70). É o ponto-chave de compreensão de toda a vida do Filho, dando sentido à missão histórica de Jesus e concretizando-a. Ele assume, na força e presença do Espírito Santo, a radicalidade da pregação do Reino de Deus, pois ele não veio pregar a si mesmo, mas o Reino de Deus, sendo-lhe dadas pelo Espírito Santo energia e autoridade na pregação. No entanto, a sua autoridade não está de acordo com os moldes das autoridades humanas, pois gera conflitos não somente com seus inimigos e adversários, mas também com seus conterrâneos. É autoridade que vem à tona por conta própria, ou seja, impõe-se por si própria. Impõe-se pela verdade. Se a presença do Espírito Santo faz Jesus ser fiel ao Reino de Deus, então, para conhecer Jesus, é preciso fazer a experiência que ele faz do Espírito Santo, pois nele o Espírito Santo desceu, permaneceu, habitou, repousou em plenitude e encontrou-se à vontade como se estivesse em sua própria casa.
 
Jesus foi fiel à sua opção pelo Reino até o fim
 
Em Jesus Cristo, Deus se revela plenamente. Assim, não se pode compreender Jesus sem a perspectiva do Reino de Deus, nem o Reino de Deus sem Jesus Cristo. O Reino de Deus revela não só a pessoa de Jesus, que é a personificação do Reino, mas revela também em Jesus a face de Deus. O Deus de Jesus Cristo é o Deus do Reino. O projeto de vida de Jesus é o anúncio do Reino, dom de Deus que vem ao nosso encontro, porque somos pecadores e imperfeitos. “O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mt 1,15). Jesus resgata a linha mestra dos profetas e estabelece o núcleo em torno da justiça e da vida. “O Espírito Santo está sobre mim, porque ele me consagrou com unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19).
Jesus atua como servo (Fl 2,7). Ele testemunha e proclama com fidelidade o Reino. Mostra-o presente por meio de sinais, prodígios e milagres, que não revelam um Jesus “milagreiro”. Eles são sinais concretos que revelam a chegada do Reino de Deus. Evangeliza os pobres e se faz pobre com eles. Jesus quer garantir a vida aos que são incapazes de garanti-la por si mesmos e põem toda a força em Deus. Assim, o Reino de Deus é dos pobres não por privilégio, mas porque é o modo próprio de “ser de Deus”. Toda ação de Jesus é a promoção da solidariedade entre os homens e mulheres, denunciando as estruturas de morte e anunciando a vida que está nele. Jesus anuncia a prática do amor como dimensão protagonizante do Reino de Deus. O serviço de Jesus ao Reino se dá no amor que leva à vida e à comunhão de tudo e de todos em Deus. Sendo assim, por meio de seu sangue, assumido e derramado com liberdade na cruz, Jesus selou a definitiva aliança de amor.
 
 
O Filho do homem veio para dar a sua vida em resgate de muitos
 
Jesus não morrera, mas fora morto, tornando-se, assim, mártir, isto é, testemunha fiel da sua missão como resposta ao desejo de Deus. Jesus dá sua vida, gasta sua vida pelo Reino de Deus, porque é o Filho amado, o Predileto, o Eleito, o Primogênito, o Unigênito, o Enviado, o Administrador plenipotenciário do Pai. Tudo foi entregue às mãos do Filho pelo Pai. O Pai entrega ao Filho a missão do Reino. O Pai confia plenamente no Filho. Tem fé no Filho. Nele o Pai tem todo o seu benquerer. Assim, se o Pai tem fé no Filho, então a fé filial advém da fé paternal. O Filho torna-se companheiro, filho, adulto, amigo. O Filho adere à fé do Pai. Ele aprende a obediência por meio de seus sofrimentos, obediência esta não disciplinar, mas profética. O Pai dá ao Filho a grandeza de revelar o seu amor por toda a humanidade. Então, diz Jesus: “Quem vê o Filho, vê o Pai. Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aqueles a quem o Filho der a conhecer” (Jo 14,1-6). O Filho é o revelador do Pai e o Pai é o revelador do Filho. “Meu Pai é vosso Pai e meu Deus é vosso Deus.” Assim, o caminho para o encontro com Deus é seu Filho, isto é, sua condição humana. Já não é preciso, por conseguinte, sair da condição humana para encontrar Deus. Para conhecer Deus, precisa-se conhecer o Filho. Portanto, se Deus se revela no Filho, então Deus, em Jesus Cristo, primeiro se revela como irmão e somente depois se revela como Pai. O encontro com o Pai se dá, pois, no Filho.
 
2. A CONDENAÇÃO E MORTE DE JESUS
 
A oração de Jesus
 
Na oração de Jesus no monte das Oliveiras, Jesus fala com o Pai. Percebe-se na oração de Jesus, primeiro, a experiência primitiva do medo, depois a turvação diante do poder da morte e, também, o pavor perante o abismo do nada, que o faz tremer, ou melhor, suar gotas de sangue (cf. Lc 22,44). Aquele que é vida sente advir sobre si todo o poder de destruição. Em Jesus vê-se o duelo entre luz e trevas, vida e morte. Manifesta-se não apenas uma angústia, mas o verdadeiro drama da escolha que caracteriza a vida humana. “Precisamente porque é o Filho, vê com extrema clareza toda a amplitude da maré imunda do mal, todo o poder da mentira e da soberba, toda a astúcia e atrocidade do mal, que se apresenta como a máscara da vida, mas serve continuamente à destruição do ser, à deturpação e ao aniquilamento da vida” (RATZINGER, 2011, p. 145). A cruz da obediência livre e fiel marca a passagem da vontade do Filho à vontade do Pai:
Assim, a oração “não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,44) é verdadeiramente uma oração do Filho ao Pai, na qual a vontade humana natural foi totalmente arrastada para dentro do eu do Filho, cuja essência se exprime precisamente no “não Eu, mas no Tu”, no abandono total do Eu ao Tu de Deus Pai. Mas este “Eu” acolheu em Si a oposição da humanidade e transformou-a, de tal modo que, agora, na obediência do Filho, estamos presentes todos nós, somos todos arrastados para dentro da condição de filhos. (RATZINGER, 2011, p. 150).
 
A condenação de Jesus
 
Jesus é condenado, fundamentalmente, porque atingiu o centro da vida do Templo. A aristocracia do Templo exerce uma liderança sobressalente na condenação de Jesus. O sumo sacerdote que se destaca é Caifás. Os sumos sacerdotes mantinham-se no poder à medida que faziam a vontade de Roma e buscavam manter a ordem. Jesus, com seu gesto no Templo, tumultua a ordem estabelecida. Ele se torna um perigo. “Sua atuação contra o templo é uma ameaça à ordem pública suficientemente preocupante para entregá-lo ao prefeito romano” (PAGOLA, 2011, p. 454). Jesus atreveu-se a desafiar publicamente o sistema do Templo. A ordem pública está em perigo. Não há perigo ao poder do império romano, pois o Reino anunciado por Jesus não é de violência e não dispõe de legião alguma. E, por sua vez, a essência do Reino de Deus é o testemunho da verdade e não o poder. A verdade do Reino de Deus desmascara a promiscuidade entre poder e mentira, a busca de poder e prestígio em nome de Deus que havia na época. O Reino de Deus, pelo contrário, alicerça-se na verdade. Com Jesus, aparece a verdade como essência do Reino de Deus. “O mundo é ‘verdadeiro’ na medida em que reflete Deus, o sentido da criação, a Razão eterna donde brotou. E torna-se tanto mais verdadeiro quanto mais se aproxima de Deus. O homem torna-se verdadeiro, torna-se ele mesmo quando se conforma a Deus” (RATZINGER, 2011, p. 176). Para Jesus, “dar testemunho da verdade” significa realçar a vontade de Deus diante dos interesses do mundo e das potências do mundo:
A razão de fundo é clara. O reino de Deus defendido por Jesus põe em questão ao mesmo tempo toda aquela armação de Roma e do sistema do templo. As autoridades judaicas, fiéis ao Deus do templo, veem-se obrigadas a reagir: Jesus estorva. Invoca Deus para defender a vida dos últimos. Caifás e os seus servos o invocam para defender os interesses do templo. Condenam Jesus em nome de seu Deus, mas, ao fazê-lo, estão condenando o Deus do reino, o único Deus vivo em quem Jesus crê. O mesmo acontece com o Império de Roma. Jesus não vê naquele sistema defendido por Pilatos um mundo organizado segundo o coração de Deus. Ele defende os mais esquecidos do Império; Pilatos protege os interesses de Roma. O Deus de Jesus pensa nos últimos; os deuses do Império protegem a pax romana. Não se pode, ao mesmo tempo, ser amigo de Jesus e de César; não se pode servir a Deus do reino e aos deuses estatais de Roma. As autoridades judaicas e o prefeito romano movimentaram-se para assegurar a ordem e a segurança. No entanto, não é só uma questão de política pragmática. No fundo, Jesus é crucificado porque sua atuação e sua mensagem sacodem pela raiz esse sistema organizado a serviço dos poderosos do Império romano e da religião do templo. É Pilatos quem pronuncia a sentença: “Irás para a cruz”. Mas essa pena de morte está assinada por todos aqueles que, por razões diversas, resistiram ao seu chamado de “entrar no reino de Deus” (PAGOLA, 2011, p. 463).
 
Os atos que antecedem a crucificação
 
O centro da mensagem de Jesus é o Reino de Deus. Jesus apresenta a nova realeza. E o centro desta é a verdade. “A instauração dessa realeza como verdadeira libertação do homem é o que interessa” (RATZINGER, 2011, p. 178). Todavia, antes da sentença final, há ainda um interlúdio dramático, dividido em três atos. O primeiro ato é a apresentação que Pilatos faz de Jesus como candidato à anistia pascal. A questão toda é que só receberia a anistia quem fosse condenado por uma situação fatal. E em Jesus Pilatos não encontra nada de que o possa acusar a fim de ele ser condenado. Pilatos não consegue quebrar a lógica e o nexo entre poder e mentira. É incapaz de dizer não ao projeto perverso de opressão do povo pobre e dos que são condenados injusta e inocentemente. O segundo ato é a flagelação de Jesus. A flagelação era a punição alicerçada no código penal romano, infligida como castigo concomitante à condenação à morte (cf. RATZINGER, 2011, p. 180). É um ato que aparece durante o interrogatório, como prerrogativa do prefeito em virtude de seu poder, concedido pelo imperador. E o terceiro ato é a coroação de espinhos. Esta representava, na verdade, a zombaria contra quem quisesse ser rei. Os soldados se comprazem com isso, porque despejam toda a sua raiva contra os poderosos na vítima expiatória. Em Jesus condenado se apresenta o “Ecce homo” (RATZINGER, 2011, p. 182). A condenação com a finalidade de não causar rebuliço na ordem está acima da justiça:
Ecce homo”: espontaneamente essa expressão adquire uma profundidade que ultrapassa aquele momento. Em Jesus, aparece o ser humano como tal. Nele se manifesta a miséria de todos os prejudicados e arruinados. Na sua miséria, reflete-se a desumanidade do poder humano, que desse modo esmaga o impotente. Nele se reflete aquilo que chamamos “pecado”: aquilo em que se torna o homem quando vira as costas a Deus e, autonomamente, toma em sua mão o governo do mundo.
Mas é verdade também o outro aspecto: não se pode tirar de Jesus sua dignidade íntima. Nele continua presente o Deus escondido. Também o homem açoitado e humilhado permanece imagem de Deus. Desde quando Jesus se deixou açoitar, precisamente os feridos e os açoitados são imagem do Deus que quis sofrer por nós. Assim, Jesus, no meio da sua paixão, é imagem de esperança: Deus está do lado dos que sofrem (RATZINGER, 2011, p. 182).
 
A morte de cruz caracteriza desprezo e humilhação
 
A fidelidade de Jesus ao Reino de Deus leva-o à superação de toda tentação de usar o poder do Espírito Santo como apropriação. Segundo Lucas, Jesus toma resolutamente a decisão de ir para Jerusalém. É decisão firme e resoluta (cf. Lc 9,51-52). Para Lucas, cada passo é definitivo e não há regresso. Jesus endureceu o rosto para Jerusalém. É o grande momento da decisão e da fidelidade. Jesus sabia do possível confronto em Jerusalém. Sabia que, por algum pecado ou ofensa religiosa, o profeta seria lapidado. Jesus podia ter esperado a lapidação, mas não a morte por crucificação. Nesse sentido, como consequência, tem-se que Jesus nem sequer é morto com a dignidade de profeta. Morre crucificado. A crucificação era sinal de castigo aos escravos e tinha a intenção de aterrorizar a população e servir, assim, como ato público de exemplo de castigo (cf. PAGOLA, 2011, p. 465). Em outras palavras, Jesus não morre com sentido religioso, pois a cruz lhe tira o sentido religioso da morte. A morte de cruz de Jesus tem caráter de humilhação. A cruz tira o mérito de Jesus como profeta.
 
Na cruz, Jesus, pelo amor incondicional, prova sua realeza e poder
 
A cruz não é só o sofrimento do Filho. É a dor do Pai que sofre a morte do Filho em seu amor. O óbvio começa a ser visto. O Filho sofreu a crucificação e morreu. Mas quem sofreu por último sua morte e sua perda foi também o Pai. Na perda do Filho, o Pai perdeu sua paternidade, todo o sentido do seu existir como Pai e como Deus. “A dor do Filho é a ‘dor’ do Pai. Este não é somente aquele que recebe o ato de entrega de Jesus; é ao mesmo tempo aquele que oferece e, em certo sentido, se oferece ao oferecer o Filho ao mundo” (ROCCHETTA, 2002, p. 300). Atingido pela morte, na dor e na perda, o Pai, na presença do Espírito, também conhece e experimenta a morte do Filho amado, segundo a espantosa afirmação da tradição cristã: “Deus morreu”. O sofrimento de Jesus deve ser visto no sofrimento do amor de quem se abre à mortalidade e à dor dos outros. É o sofrimento que engrandece aquele que sofre. Alarga seus ombros e seu regaço, carregando sobre si a mortalidade do outro e sua dor (cf. SUSIN, 1997, p. 111-151). “A morte de Jesus é o ato supremo da sua liberdade e do seu amor. Vive a obediência total em união com o Pai. O Filho do Homem foi levantado para atrair todos a si e ao Pai” (GRUPO FONTE, 2013, p. 154). O amor de Jesus pela criatura humana faz com que ele assuma incondicionalmente a realidade decaída e corrompida da criatura que se afastou do amor para resgatá-la em sua essência e entregá-la ao amor do Pai (cf. GRUPO FONTE, 2012, p. 140). Mesmo diante da dor extrema, Jesus não se desvia do desígnio do Reino de Deus. Vive a entrega à vontade do Pai com plena liberdade e gratuidade. “A cruz testemunha o imenso e eterno amor que flui do coração do Pai” (GRUPO FONTE, 2012, p. 140). O que o Pai quer não é que matem o Filho, mas que o Filho viva o seu amor até as últimas consequências. Jesus morreu como viveu, ou seja, morreu amando até o fim:
Deus não pode evitar a crucifixão, porque para isso deveria destruir a liberdade dos seres humanos e negar-se a si mesmo como Amor. O Pai não quer o sofrimento e o sangue, mas não se detém nem sequer diante da tragédia da cruz e aceita o sacrifício de seu Filho querido unicamente por amor insondável para conosco. Assim é Deus (PAGOLA, 2011, p. 345).
 
 
A cruz revela o poder e as forças do mal
 
Na cruz, perpassa a infidelidade da humanidade ao projeto de Deus. A morte de Jesus realiza a radical experiência humana do abandono. Na cruz, Jesus experimenta o fracasso de seu projeto. Ele sente o abandono, até mesmo daqueles que o acompanharam durante toda a vida. É o escândalo e a humilhação máxima a alguém. Na cruz, Jesus sofre e morre. Para verdadeira compreensão do sofrimento de Jesus, é preciso, no entanto, elaborar algumas considerações a seu respeito: não é um sofrimento como pena, como pagamento de uma culpa por ele merecida ou que estaria a ele reservada, pois poderia atingir o cerne da vida de Deus; não é um sofrimento como castigo pedagógico com vistas ao futuro; não é um sofrimento apenas como constitutivo da finitude humana, uma vez que se poderia cair no perigo do destino trágico; não é apenas como consequência das condições históricas e sociais de injustiça, pois se poderia cair no sofrimento a nós destinado simplesmente pelos outros; não é apenas como o sofrimento do inocente, pois haveria o perigo do exagero na dose do sofrimento, tornando-o monstruosidade, e da inconsequente divinização do sofrimento:
Sem dúvida, a primeira coisa que todos nós descobrimos no Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até a morte pelas autoridades religiosas e pelo poder político, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da justiça. Mas precisamente ali, nessa vítima inocente, nós, seguidores de Jesus, vemos Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos (PAGOLA, 2011, p. 342).
 
O sofrimento de Jesus é expiatório
 
No sofrimento expiatório há a passagem da causa para alguém. Aqui geralmente este alguém é Deus. Esse é o sofrimento que salva, que santifica. É o sofrimento que gera a vida. É o sofrimento desde o outro e para o outro. É o sofrimento que não destrói. Engrandece e constrói. Não há amor sem dor. Ao invés de destruir-nos, resgata-nos. Esse sofrimento é o que nos reconcilia com Deus. Logo, o sofrimento é, em si, desumano, destruidor, angustiante, mas, integrado no amor, é extremamente divinizador. O sofrimento pelo outro, desde o outro e para o outro, é o sofrimento do amor. “O sofrimento e a dor, inerente à vida, fazem intuir que o dia da paixão e morte de Jesus, na cruz, revela o que há de mais profundo no ser humano e de mais belo no coração de Deus” (GRUPO FONTE, 2013, p. 154). Jesus é o Servo Sofredor por excelência. Vive sua liberdade como esvaziamento (Fl 2,6-8), ou seja, esvaziou-se da sua propriedade. Esvaziamento significa dizer que o que é meu passa a ser de outrem, fazer a experiência do ser acolhedor, ser hospitaleiro, entregar tudo, esvaziar-se da propriedade pessoal em vista da presença do outro. “Este ‘fim’, este extremo cumprimento do amar foi alcançado agora, no momento da morte. Jesus foi verdadeiramente até o fim, até o limite e para além do limite. Ele realizou a totalidade do amor, deu-se a si mesmo” (RATZINGER, 2011, p. 202). Na cruz realiza-se a entrega total de Jesus ao projeto do Pai e conduz-se a humanidade a Deus. Na cruz, configura-se nova forma de poder e realeza:
Desse modo é possível uma nova forma de obediência, uma obediência que ultrapassa todo o cumprimento humano dos Mandamentos. O Filho torna-Se Homem e, no seu corpo, reconduz a Deus a humanidade inteira. Só o Verbo feito carne, cujo amor se cumpre na cruz, é a obediência perfeita. Nele, não se tornou definitiva apenas a crítica aos sacrifícios do templo, mas cumpriu-se também o desejo que ainda restava: a sua obediência ‘corpórea’ é o novo sacrifício para dentro do qual ele nos atrai a todos nós e no qual, ao mesmo tempo, a nossa desobediência fica anulada por meio do seu amor (RATZINGER, 2002, p. 212).
 
Da cruz como destruição à reconstrução da condição humana
 
A cruz representa destruição e morte violenta. Cruz significa desprezo, castigo e fim de tudo. Porém se, por um lado, a cruz de Jesus é escândalo como sequência histórica da vida de sua vida, é também e, sobretudo, cruz redentora. A cruz em si não é salvadora nem, tampouco, redentora. “A cruz pela cruz não passa de uma maldição. Salvadora é a vida de Jesus” (RUBIO, 1994, p. 87). Em outras palavras, a cruz passou a ser salvadora por causa da vida de Jesus. “A cruz é salvadora porque constitui o resumo e a radicalização máxima da entrega de Jesus, vivida durante toda a sua vida” (RUBIO, 1994, p. 88). Tem-se a revelação de um Deus humilde e paciente, que respeita até as últimas consequências a liberdade humana. Deus não se revela como Deus imutável e majestoso, alheio ao sofrimento humano. Ele se revela como o Deus solidário ao sofrimento humano e às suas angústias. Vê-se, pois, um Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos (cf. PAGOLA, 2012, p. 341). Nesse sentido: “Com a cruz, ou termina nossa fé em Deus ou nos abrimos a uma compreensão nova e surpreendente de um Deus que, encarnado em nosso sofrimento, nos ama de maneira incrível” (PAGOLA, 2012, p. 343). Deus não responde ao mal com o mal. Do mal provém a redenção. A cruz, que significava destruição, torna-se reconstrução da condição humana (GRUPO FONTE, 2013, p. 154). “O mistério da cruz não está simplesmente diante de nós, mas envolve-nos, dando um novo valor à nossa vida” (RATZINGER, 2011, p. 213). Na cruz a morte é vencida, ou seja, a morte é transformada em vida.
A mensagem de Jesus crucificado é muito clara. Deus, que poderia ter aniquilado todas as formas de mal, preferiu entrar nele com a carne do seu Filho, em Jesus, proclamando o perdão e o retorno, e assumindo em si as consequências do mal, para redimi-lo na própria carne crucificada. É a lei da cruz, o princípio segundo o qual o mal não é eliminado, mas transformado em bem pelo exemplo e pela força da morte de Cristo. Deste modo, a cruz se torna a suprema lei do amor, e quem quiser seguir o caminho de regeneração inaugurado por Jesus deve entrar no mal do mundo para dali tirar o bem da fé, da esperança, da caridade, do amor pelos inimigos. A lei da cruz é formidável. Ela tem uma eficácia soberana no reino do espírito e é aplicável a todas as vicissitudes humanas. É o mistério do Reino de Deus, é o mistério do Evangelho. Não é uma lei aceitável pela simples inteligência natural humana. Ela não pode ser demonstrada, caso prescindirmos da pessoa de Cristo. A inteligência natural humana a recusa, não é capaz de entendê-la sem o auxílio da fé (MARTINI, 1998, p. 231).
 
Jesus é o Cordeiro sacrifical único e eterno
 
O projeto de Jesus se completa na sua morte, sinal de amor até o fim. Jesus assume a cruz com liberdade e revela seu amor incondicional por nós. Ele é o “Cordeiro que tira o pecado do mundo” (Ap 5,12; Jo 1,29). Pelo seu sangue é selada a nova aliança. Nessa perspectiva, a morte de Jesus faz parte do grande projeto de Deus. “Por acaso não vou beber o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18,11). É o grande mistério de, em Cristo, reconciliar todas as criaturas e libertar os seres humanos da escravidão e do pecado. Jesus, em seu amor redentor, assumiu-nos na condição de pecadores, tornando-se solidário a nós. “Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou a todos nós” (Rm 8,23), a fim de que fôssemos reconciliados com ele pela morte de seu Filho (Rm 5,10). Este é o exemplo de supremo amor de Deus para conosco. Jesus é o “novo Adão”. Por meio dele todos se tornarão justos. Vista na perspectiva da ressurreição, a morte de Jesus é o novo êxodo, o início da nova Páscoa. O último dia de Jesus é o primeiro a partir do qual o mundo foi redimido. Da cruz de Cristo nasce novo mundo, baseado na vitória sobre o pecado, a qual possibilita ao ser humano chamar a Deus de Pai, e sobre a morte, pois este é o caminho para a ressurreição; na libertação da lei, pois esta foi submetida pelo amor, e na ruptura do reinado de Satanás, pois Cristo o venceu. Enfim, a morte de Jesus é o selo da nova aliança. É o sacrifício pascal único da nova aliança. Depois dele, já não são necessários sacrifícios expiatórios, pois Jesus é o verdadeiro Cordeiro pascal. Todos os sacrifícios anteriores chegam à sua plenitude com a morte de Jesus na cruz (Hb 7,26). Na última ceia, Jesus disse que seu corpo seria entregue pelos pecados dos homens, seu sangue seria derramado para o perdão dos pecados e nele surgiria nova aliança (Lc 22,19s; Mc 14,26s). Jesus é a vítima do sacrifício que, com seu sangue, recoloca o ser humano em comunhão com Deus. Portanto, no sangue de Jesus na cruz é selada a nova aliança. Assim como no Antigo Testamento a aliança era concluída com um banquete e com a aspersão do sangue de animais sacrificados, a nova aliança, em Jesus Cristo, é firmada no sangue e realizada na ceia pascal, na qual ele mesmo se oferece como Cordeiro sacrifical único e eterno. O Crucificado desmascara as mentiras, as covardias e as artimanhas do poder opressor. [1] “A partir do silêncio da cruz, ele é o juiz firme e manso do aburguesamento de nossa fé, de nossa acomodação ao bem-estar e de nossa indiferença diante dos que sofrem” (PAGOLA, 2012, p. 347). Assim sendo, a cruz se torna o início da vida nova. “A cruz se torna a prova plena, incompreensível e irrefutável, do amor de Deus Pai pela humanidade” (GRUPO FONTE, 2013, p. 154).
 
BIBLIOGRAFIA
GRUPO FONTE. Manancial de vida. Exercícios espirituais. Porto Alegre: Pacartes, 2013.
______. O caminho de Jesus. Exercícios espirituais. Porto Alegre: Pacartes, 2012.
MARTINI, Carlo Maria. Reencontrando a si mesmo: há um momento em que devemos parar e procurar. São Paulo: Paulinas, 1998.
PAGOLA, José Antonio. Jesus: aproximação histórica. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
______. O caminho aberto por Jesus. Petrópolis: Vozes, 2012.
RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a ressurreição. São Paulo: Planeta, 2011.
______. Jesus de Nazaré: primeira parte: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007.
ROCCHETTA, Carlo. Teologia da ternura: um “evangelho” a descobrir. São Paulo: Paulus, 2002.
RUBIO, Alfonso Garcia. O encontro com Jesus Cristo vivo. São Paulo: Paulinas, 1994.
SUSIN, Luiz Carlos. Jesus: Filho de Deus e filho de Maria: ensaio de cristologia narrativa. São Paulo: Paulinas, 1997.

 [1]Simplesmente repete a sentença anterior, com suave mudança de perspectiva, achei que poderia ser suprimido. Verificar.

Paulo César Nodari

Padre da Diocese de Caxias do Sul-RS, onde é vigário paroquial da Paróquia São Pelegrino; doutor em Filosofia pela PUC-RS; mestre na mesma área pela UFMG e graduado em Filosofia (UCS) e Teologia (PUC-RS). Atualmente é professor na Universidade de Caxias do Sul.
E-mail: paulocesarnodari@hotmail.com

http://www.vidapastoral.com.br/artigos/cristologia/o-sentido-da-condenacao-e-morte-de-jesus/#

Dom Odilo debate temas polêmicos que envolvem a Igreja.


Em entrevista à TV Cultura, Dom Odilo debate temas polêmicos que envolvem a Igreja. 
O arcebispo de São Paulo Dom Odilo Scherer realizou uma entrevista, no dia 26, ao programa Roda Viva da TV Cultura, onde debateu aos jornalistas e estudiosos de religião temas polêmicos na Igreja Católica. Abaixo, estão listadas as principais ideias de Dom Odilo sobre temas como contraceptivos, pedofilia, aborto, entre outros.
 
Aborto
 
A Igreja católica é expressamente contra qualquer tipo de aborto, isso é claro à todos os cristãos. Na entrevista, Dom Odilo citou a posição católica sobre aborto de Anencéfalo(quando na gestação a criança é diagnosticada com essa grave doença e possui grande possibilidade de não sobreviver) e disse que a Igreja também é contra ele “Ainda que se conheça a deficiência não se pode tirar a vida de um feto. As poucas horas que ele tem devem ser preservadas”, destaca o arcebispo.
 
Métodos Contraceptivos
 
Sobre métodos contraceptivos a Igreja católica também se posiciona de maneira contrária. Segundo Dom Odilo “ A Igreja é um sujeito na sociedade. Ela não impõe, mas traz sua convicção de atitudes que considera boas e corretas. A Igreja diz que é bom que se preserve antes do casamento”, disse. Dom Odilo admitiu que os casos de HIV diminuíram com o uso do preservativo, mas ressaltou que o uso da camisinha trouxe a gravidez precoce e a promiscuidade sexual.
 
União de Homossexuais
 
Quando questionado sobre a união estável de homossexuais, não aceita pela Igreja, o arcebispo de São Paulo foi sucinto “A Igreja Católica entende a homossexualidade como um fato. Mas, entende que a natureza não errou ao fazer dois sexos e é sábio quem respeita o feito dela”, ressaltou.
 
Arquidiocese de São Paulo e seus desafios
 
A Arquidiocese de São Paulo é a terceira maior do mundo. Dom Odilo destacou os desafios que ela tem por fazer parte de uma região macro urbana “ Não achamos ainda adequadamente o jeito urbano de viver na cidade grande. E como consequência precisamos ainda encontrar a cada dia novas maneiras de evangelizar”. Odilo destacou que os desafios moram justamente na multicultura da cidade grande na correria da vida cotidiana.
 
Campanha da Fraternidade 2012
 
A Saúde Pública é tema da Campanha da Fraternidade que já acontecendo. Dom Odilo destacou que é a segunda vez que uma campanha da Igreja fala sobre a saúde e disse que há muito que se melhorar no Sistema Único de Saúde “ O SUS é ótimo, mas deficiente. Não há atendimento para todos que o procuram”, comentou. O arcebispo ainda ressaltou que durante essa campanha a Igreja está trabalhando em conjunto com o governo, buscando melhorias na saúde e também mais investimentos nas Santas Casas.
 
Pedofilia
 
A Pedofilia de padre com menores é um caso grave que teve um triste aumento nos últimos anos. Dom Odilo destacou que os bispos da CNBB debatem orientações e estão sendo inclusive mais rígidos na escolha do clero “ O religioso deve ter equilíbrio moral e mental”, acrescentou. Quando estão diante de casos de pedofilia na Igreja, Odilo falou que as autoridades eclesiásticas buscam a rigorosa investigação do padre, e, se confirmado o caso, o religioso é retirado de sua função e processado inclusive pela Igreja.
 
Aline Rodrigues Imercio
 

sábado, 19 de março de 2016

Como a confirmação das ondas gravitacionais ajuda a compreender o universo?

Um buraco negro é tão denso e compacto que nem a luz poderia escapar de sua atração gravitacional

A primeira observação da colisão e fusão de um par de buracos negros foi observada em 14 de setembro de 2015 pelos dois detectores do Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser (Ligo, na sigla em inglês), marcando o começo de uma nova era em astronomia e abrindo uma nova janela de observação do universo sob a forma de ondas gravitacionais.
 
As ondas gravitacionais são oscilações do espaço-tempo causadas por alguns dos fenômenos mais violentos do cosmos, como colisões e fusões de estrelas massivas compactas, cuja existência foi prevista por Einstein em 1916, quando ele mostrou que objetos massivos acelerados distorciam o espaço-tempo causando a irradiação de ondas na forma de radiação gravitacional. Essas oscilações viajam à velocidade da luz através do universo, levando informações sobre suas origens, ou sobre a natureza da gravidade.
 
Nas últimas décadas, os astrônomos têm acumulado fortes evidências de que as ondas gravitacionais existem, principalmente por estudar seu efeito em órbitas próximas de pares de estrelas de nêutrons em nossa galáxia.
 
No mesmo ano em que Einstein previu a existência das ondas gravitacionais, o físico Karl Schwarzschild mostrou que o trabalho de Einstein falou também sobre a existência de buracos negros, objetos estranhos tão densos e compactos que nem mesmo a luz poderia escapar de sua atração gravitacional.
 
Embora não possamos “ver” um buraco negro, astrônomos reuniram evidências de sua existência, estudando os efeitos de candidatos a buracos negros na área circundante a eles. Por exemplo, acredita-se que a maioria das galáxias, incluindo a Via Láctea, contém um buraco negro supermassivo no seu centro – com massa de milhões ou até bilhões de vezes maior que a do Sol. Também existem evidências de buracos negros com massas muito menores (de até uma dúzia de vezes a massa do Sol), restos de estrelas mortas que sofreram uma explosão cataclísmica chamada de colapso do núcleo supernova.
 
O Ligo é o maior observatório de ondas gravitacionais e nele foi realizado um dos mais sofisticados experimentos de física do mundo. Composto por dois grandes interferômetros a laser localizado a 3 mil km de quilômetros de distância, um em Livingston, Louisiana, e outro em Hanford, no estado americano de Washington, o Ligo utiliza as propriedades físicas da luz e do espaço para detectar ondas gravitacionais.
 
Os interferômetros, como os do Ligo, consistem de dois braços de 4 km perpendiculares em que um feixe de laser é enviado e refletido pelos espelhos no final dos braços. Quando uma onda gravitacional passa pelo feixe, a ampliação e o encolhimento do espaço fazem com que os braços do interferômetro se alonguem e encolham alternadamente, um fica menor enquanto o outro fica maior e vice-versa. Como os braços alteram de comprimento, os feixes de laser viajam distâncias diferentes através dos braços, e é produzido o que chamamos de padrão de interferência. É por causa disso que nos referimos aos detectores LIGO como “interferômetros”.
 
A diferença entre o comprimento dos dois braços é proporcional à intensidade da onda gravitacional que está passando, chamada de amplitude de deformação da onda gravitacional, sendo essa amplitude extremamente pequena.
 
A comparação dos dados de amplitude com as previsões teóricas permite testar que a relatividade geral é a teoria correta para descrever o evento e estimar características físicas específicas do evento GW150914, ou seja, a onda gravitacional detectada em 15 de setembro de 2014. O fenômeno aconteceu a uma distância de mais de 1 bilhão de anos-luz da Terra, e os dois buracos negros se fusionando têm massas de aproximadamente 36 e 29 vezes a massa do Sol, sendo que o buraco negro remanescente teria uma massa ao redor de 62 vezes a do Sol – a junção converteu aproximadamente três vezes a massa do Sol em energia na forma de ondas gravitacionais, a maioria emitida em uma fração de segundo. Além disso, conclui-se que o buraco negro remanescente está girando – a teoria de 1963 do matemático Roy Kerr já tratava da rotação de buracos negros.
 
Desde a evolução da frequência do sinal, pode-se deduzir que os dois componentes estiveram separados por algumas poucas centenas de quilômetros imediatamente antes de se fundirem, ou seja, quando a frequência da onda gravitacional era de aproximadamente 150 Hz.
 
Os projetos futuros incluem melhorias nos detectores Ligo avançados, e a extensão da rede global de detectores para incluir o Virgo Avançado, o Kagra, e um possível terceiro detector Ligo na Índia, o que tende a melhorar significativamente a nossa capacidade de localizar posições de fontes de ondas gravitacionais no céu e estimar suas propriedade físicas. Parece, então, que o novo campo da astronomia de ondas gravitacionais tem um futuro brilhante pela frente.
 

Professor, a peça-chave do aprendizado

"Se quisermos responsabilizar os professores, é preciso antes oferecer a formação adequada", aponta a especialista
 
Toda vez que uma família entrega uma criança para a escola, um voto de confiança está sendo feito. Cabe, pois, aos educadores honrar esse pacto. Com essa observação, a americana Katherine Merseth, diretora do Programa de Formação de Professores de Harvard, dá a dimensão do papel do professor na vida de seus alunos e familiares.
 
Em visita a São Paulo, onde participou do debate “Como transformar a carreira de professor no Brasil”, promovido pelo Instituto Península na quinta-feira 17, a estudiosa ganhadora de diversos prêmios de ensino e pesquisa e com mais de 30 anos de experiência como docente, frisou a importância da figura do professor comprometido e capacitado para uma educação de qualidade.
 
“Todo mundo sabe que a educação tem uma missão transformadora. E o que muitas pesquisas mostram é quando falamos sobre o quanto um aluno consegue aprender, o maior determinante nesse aspecto é o professor. O sucesso do estudante tem como seu maior fator influenciador a figura do docente”, diz.
 
Eis a importância de formar bem o professor. Escolas de alta qualidade são aquelas que têm a expectativa em mesma medida que responsabilidade para com seus alunos e educadores. “Nos Estados Unidos, nós responsabilizamos o professor, mas não o formamos adequadamente. Se quisermos responsabilizá-los é preciso antes oferecer formação”.
 
 
A especialista ressalta que o professor precisa ter um conhecimento muito sólido sobre a disciplina que está lecionando, ou seja, do conteúdo curricular, mas também precisa ter conhecimento dos métodos de ensino. “A gente aprende a ser professor na sala de aula, mas precisamos de um coach. É preciso saber o que funciona e o que não funciona”.
 
Segundo Katherine, nos Estados Unidos, já é sabido que algumas estratégias não são eficazes como reduzir o tamanho da classe de 30 para 15 alunos por professor ou desmembrar escolas maiores em núcleos menores. “A Gates Foundation [maior fundação de caridade do mundo mantida pela família de Bill Gates] gastou 2 bilhões de dólares ao longo de 10 anos transformando grandes escolas de Ensino Médio em escolas pequenas de 400 alunos cada. E isso não melhorou o desempenho dos alunos”.
 
Outro mito é que professores não necessariamente se tornam mais eficientes quanto maior for o tempo que estão ensinando. “Se não houve um trabalho de planejamento e acompanhamento, isso não se torna verdade”. Além disso, gastar mais dinheiro em educação nem sempre se traduz em melhores resultados. “Os Estados Unidos gastaram 73% mais na escolarização em 2005 em relação a 2004 e mesmo assim o aprendizado dos alunos não teve melhora significativa”.
 
Então quais são as estratégias que trazem, de fato, melhorias para a educação? Gravar boas aulas para depois assisti-las, exemplifica Katherine. “É importante que o professor se observe e observe outros mais experientes que ele. Assim ele vai conseguir visualizar situações do tipo ‘aquela hora que fiz isso, o aluno reagiu daquela maneira’ e aprender. É como um esporte, é preciso treinar para ficar cada vez melhor. Na Harvard, a formação inicial de professores passa por 500 horas de supervisão”.
 
Para que essa prática seja bem-sucedida, a cultura da escola também precisa ser de colaboração. “Os professores precisam se visitar, ter salas de aula abertas, dizer para os outros ‘venha ver como dou aula’”, defende a especialista.
 
Katherine, no entanto, é receosa quando se trata de falar sobre políticas de bonificação. “Pagar o professor pelo desempenho dos alunos é algo polêmico e não é uma estratégia de incentivo efetiva, durável”, pondera. “Tem resultados a curto prazo apenas. Não posso recomendar, mas é o que estão fazendo nos Estados Unidos.”
 

Por que 8 de março é o Dia Internacional da Mulher?

Mulheres protestam em Lesotho por direitos iguais no Dia Internacional da Mulher (2008)
 
Como surgiu o Dia Internacional da Mulher?
 
Comemora-se o Dia Internacional da Mulher em 8 de março por causa de um episódio histórico. Nesse mesmo dia em 1911 as funcionárias de uma fábrica da Triangle Shirtwaist Company em Nova York, nos Estados Unidos, entraram em greve reivindicando melhores condições de trabalho. Elas pediam uma jornada de trabalho menor (de 16 para 10 horas diárias), que seus salários fossem iguais aos dos homens e melhor tratamento no ambiente de trabalho.
 
E o que aconteceu?
 
Ainda que não exista consenso sobre o que de fato ocorreu, sabe-se que no dia 25 de março houve um incêndio na fábrica, do qual nem todos os operários escaparam. A maioria dos 600 trabalhadores conseguiu sair da fábrica, mas 146, sendo 125 mulheres, morreram.
 
Quando esse dia passou a ser o Dia da Mulher?
 
Só em 1977, quando a ONU declarou o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher, para homenagear as lutas feministas por igualdade, justiça e respeito. Desde o começo do século XX, no entanto, movimentos sociais já vinham promovendo datas internacionais de debate sobre os direitos das mulheres. Um dos mais conhecidos aconteceu em 1911 em Copenhague, na Dinamarca, quando um encontro realizado no dia 19 de março discutiu igualdade de gêneros, sufrágio feminino e outras questões envolvendo direitos das mulheres.
 
Isso já faz muito tempo. Ainda precisamos desse dia?
 
Sim. Segundo a Organização das Nações Unidas, o salário das mulheres ainda é 27% menor dos que o dos homens que ocupam a mesma função. Isso vale para o mundo de maneira geral. A proporção de mulheres que ficam e casa e cuidam de afazeres domésticos não remunerados é duas vezes e meia maior do que a de homens.
 
 

Gilmar Mendes suspende a posse de Lula

Gilmar Mendes suspendeu a posse de Lula no cargo de ministro-chefe da Casa Civil
 
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu nesta sexta-feira 18 suspender a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no cargo de ministro-chefe da Casa Civil. O ministro atendeu a um pedido liminar do PPS, em uma das 13 ações que chegaram ao Supremo ontem (17) questionando a posse de Lula.
 
A primeira decisão que barrou a posse foi proferida ontem pelo juiz federal Itagiba Catta Preta Neto, da 4ª Vara da Justiça Federal do Distrito Federal, logo após a cerimônia realizada no Palácio do Planalto.
 
Após a decisão, o ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), José Eduardo Cardozo, recorreu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que reverteu a decisão proferida pelo juiz. Em seguida, outras decisões no Rio de Janeiro e em São Paulo suspenderam a autorizaram para a posse.
 
Na mesma decisão, Mendes decidiu que os processos que envolvem Lula na Operação Lava Jato devem ficar sob a relatoria do juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal em Curitiba. Na quinta-feira 17, Moro decidiu enviar os processos ao Supremo em função da posse do ex-presidente no cargo de ministro da Casa Civil, fato que faz com que Lula tivesse direito ao foro por prerrogativa de função.
 
Lula é investigado na Lava Jato por suposto favorecimento da empreiteira OAS na compra de uma cota de um apartamento no Guarujá e por benfeitorias em um sítio frenquentado pelo ex-presidente.
 
 


A legalidade das decisões de Moro está na berlinda

Sergio Moro (foto) pode ter cometido crime; essa é a opinião do ministro da Justiça, Eugênio Aragão

Na quarta-feira 16, o juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, retirou o sigilo de gravações de áudio feitas pela força-tarefa da Operação Lava Jato que envolvem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, suspeito de receber benefícios provenientes de corrupção na Petrobras.
 
A divulgação dos áudios suscitou debates a respeito da legalidade das ações de Moro. Para professores de direito e advogados, os grampos não poderiam ter perdido o sigilo por dois motivos. Primeiro porque, quando um dos participantes da conversa tem prerrogativa de foro, cabe à primeira instância enviar as provas para a Corte competente.
 
A presidenta Dilma Rousseff e o ministro Jaques Wagner, por exemplo, que aparecem nas gravações, só podem ser julgados pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
 
O novo ministro da Justiça, Eugênio Aragão, sugeriu nesta quinta-feira que Moro cometeu um crime. "Se houve alguma conversa da senhora presidente que merecesse atenção jurisdicional, não caberia ao juiz de primeira instância nem sequer aquilatar o valor daquela prova e muito menos dar-lhe publicidade", disse Aragão.
 
Se o Supremo entender que o grampo contra Dilma é ilegal, as gravações podem ser anuladas. No entanto, para o professor de direito da FGV do Rio de Janeiro Joaquim Falcão, se o conteúdo do áudio mostrar "obstrução de Justiça" e "falta de decoro", a presidenta pode se prejudicar.
 
"A presunção de inocência era a favor de Dilma. Ela não teria, até então, cometido nenhum ato que justificasse o impeachment. Agora existem indícios que derrubam essa presunção de inocência. Encontraram o fato", disse Falcão à Folha de S.Paulo.
 
Além da questão do foro privilegiado, especialistas apontam que a quebra de sigilo telefônico do advogado Roberto Teixeira, que defende Lula, viola as prerrogativas da advocacia e pode anular o grampo.
 
Para Pedro Estevam Serrano, advogado, professor de direito constitucional da PUC-SP e colunista de CartaCapital, o fato é um perigoso "atentado à advocacia". "A relação entre advogado e cliente é intangível para o Ministério Público, para a polícia, sob pena de destruir as bases do Estado de Direito", disse ao Conjur.
 
Ao se justificar, Moro afirma que não identificou “com clareza relação cliente-advogado a ser preservada entre o ex-presidente e referida pessoa (Roberto Teixeira)”.
 
Grampos ilegais?
 
Outro ponto controverso é o fato de que Moro divulgou os áudios mesmo sabendo que a ação seria ilegal. A suspeita é levantada devido aos horários em que os áudios foram captados, conforme foi divulgado pela própria Justiça Federal do Paraná.
 
O despacho em que Moro determina a interrupção das gravações foi registrado às 11h13 de quarta-feira 16. Já os comunicados às operadoras de telefonia foram emitidos às 12h17 e às 12h18. A conversa entre Lula e Dilma, no entanto, ocorreu às 13h32.
 
“Se havia um despacho dele mesmo mandando cessar as interceptações, qualquer gravação feita depois disso é ilegal”, disse Gustavo Badaró, professor de processo penal da USP, ao Conjur. Dessa forma, diz Badaró, as gravações não poderão ser usadas, independentemente do conteúdo da conversa.
 
Para o advogado Cezar Bitencourt, professor de direito penal da PUC-RS, houve "má-fé" do juiz Moro e essa "falta administrativa" deve ser investigada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
 
Em nota, a OAB do Rio de Janeiro manifestou repúdio às escutas. Segundo a entidade, o procedimento é "típico de estados policiais" e coloca em risco a soberania nacional.
 
Show midiático
 
Professor livre-docente de direito penal da USP, Alamiro Velludo Salvador Netto diz estranhar o fato de que o conteúdo de uma intercepção seja veiculado pela imprensa poucas horas depois de sua divulgação. Em entrevista ao Nexo Jornal, Salvador Netto afirma que não vê utilidade jurídica na publicação dos áudios, mas, sim, uso político.
 
"A interceptação telefônica normalmente serve a um processo, não se destina a uma divulgação por si só. Essa divulgação não parece ter função processual alguma, mas um uso político", disse.
 
A fala do próprio Sergio Moro, ao ressaltar que não há indícios de que os citados tenham agido "de forma inapropriada", endossa a análise. "Em alguns casos, sequer há informação se a intenção em influenciar ou obter intervenção chegou a ser efetivada", observou o juiz no despacho que retirou o sigilo das gravações. Para o advogado Cristiano Zanin Martins, que também defende Lula, tal arbitrariedade estimula a "convulsão social".
 
Armando de Oliveira Costa Neto, advogado criminalista no escritório Toron, Torihara e Szafir, concorda. "(A divulgação do grampo) é um vazamento seletivo como todos os outros que ocorreram ao longo da operação. É uma tentativa de legitimá-la aos olhos da opinião pública”, disse ao Nexo.
 

‘Oi, mãe’: Britânico com síndrome rara quebra silêncio após 16 anos

Tobii Dynavox / Gina Walker / BBC
James Walker encontrou na tecnologia assistiva um meio efetivo de comunicação
 
"Oi, mãe". Essas foram as primeiras palavras de um adolescente de 16 anos que, portador de uma grave deficiência, nunca havia conseguido falar na vida. Ele conseguiu quebrar o silêncio de mais de uma década ao usar um aparelho de comunicação digital. 
 
James Walker é um fã de rúgbi, gosta de música pop, vive com os país em Hull, na Inglaterra, e tem uma namorada, Emily. 
 
O jovem possui uma doença que lhe causou centenas de convulsões por dia quando criança. 
Conhecida como síndrome de Lennox-Gastaut, a enfermidade o deixou com um transtorno de aprendizagem severo e sem capacidade para andar ou se mover. E até pouco tempo ele também não conseguia falar. 
 
Hoje ele diz ser "divertido" poder se comunicar com amigos e família após tanto tempo em silêncio e, como define, "aprender algo empolgante". 
 
Usando os olhos como cursor, ele aprendeu a clicar em palavras e imagens para construir frases com seu computador portátil, um modelo chamado Tobii Eye Gaze. 
 
O sistema tem milhares de expressões e frases na memória, coisas que James pode usar dia a dia. Ele hoje está treinado para usar cerca de 60 palavras, e espera aumentar esse número com o tempo. 
 
Cadeirante com movimentos limitados nos braços, James responde "gosto engraçado" (I like funny) ao ser questionado sobre seu tipo de conversa favorito. Soma um "eu gosto" sobre como fez sua mãe feliz ao dizer suas primeiras palavras a ela. 
 
Tobii Dynavox / Gina Walker / BBC
James e a mãe, Gina Walker, que nunca esperou que o filho pudesse se comunicar efetivamente
 
Gina Walker nunca esperou que seu filho pudesse falar. Quando o professor de James a chamou recentemente à escola, ela não sabia o que esperar. A mãe não sabia que o filho estava aprendendo a usar softwares para comunicação, porque todos haviam decidido manter o trabalho em segredo. 
 
"As primeiras palavras que ele disse foram 'oi, mãe", e foi tão fantástico que chorei", conta ela.
"É surpreendente ouvir seu filho falar pela primeira vez, ainda que seja uma voz gerada por computador. Eu fiquei arrepiada, e é maravilhoso poder conversar com ele." 
O novo computador de James proporcionou um nível de vocabulário que ele não tinha e, pela primeira vez, seus pensamentos e opiniões podem ser conhecidos. 
 
Como diz a mãe: "Ele agora me disse que não gosta das minhas cantorias, e sua personalidade e senso de humor estão vindo à tona." 
 
Quando o vestia pela manhã, Gina costumava mostrar ao filho duas opções, e escolhia aquela que ele olhava. "Mas eu não tinha ideia se ele olhava por aprovação ou por não gostar. Hoje ele diz 'eu não gosto' e eu o troco novamente." 
 
"Neste momento é tão bom ouvir a voz dele que fazemos qualquer coisa por ele", afirma a mãe. 
Na casa da família Walker hoje há paciência de sobra com brigas entre irmãos - simplesmente porque elas agora são possíveis. "A irmã, Tash, coloca música no rádio ou na TV e ele pede para abaixar, o que é ótimo."