domingo, 31 de janeiro de 2016

Pobreza e Misericórdia

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

 
No dia 20 de setembro de 2015, o Papa Francisco celebrou em Havana, pela manhã, a Missa de Abertura de sua viagem apostólica, e à tarde teve um encontro com os sacerdotes, religiosos, religiosas e seminaristas. Os temas abordados estão ligados ao tema da misericórdia cujo ano estamos a celebrar.
 
Nesse dia, na primeira Missa do Papa Francisco em Havana, ele disse: “O santo povo fiel de Deus, que caminha em Cuba, é um povo que ama a festa, a amizade, as coisas belas. É um povo que caminha, que canta e louva. É um povo que, apesar das feridas que tem como qualquer povo, sabe abrir os braços, caminhar com esperança, porque se sente chamado para a grandeza”, declarou na homilia da Missa que reuniu milhares de pessoa na Praça da Revolução, na capital de Cuba.
 
 
Francisco recordou, neste contexto, os mais frágeis e necessitados, advertindo os cubanos para os perigos de “projetos que podem parecer sedutores”, mas acabam por desinteressar-se de quem está ao lado de cada um. O Papa assinalou que para “ser cristão comporta servir a dignidade dos irmãos, lutar pela dignidade dos irmãos e viver para a dignificação dos irmãos”. “Servir significa, em grande parte, cuidar da fragilidade. Cuidar dos frágeis das nossas famílias, da nossa sociedade, do nosso povo. São os rostos sofredores, indefesos e angustiados que Jesus nos propõe olhar e nos convida concretamente a amar”.
 
Na parte da tarde, com um discurso de improviso, ele falou sobre a questão da pobreza e misericórdia. Como estamos no ano santo do Jubileu da Misericórdia será muito oportuno recordar um pouco desse pronunciamento do Santo Padre.
 
Foi significativa a Oração das Vésperas, rezada na Catedral da Imaculada Conceição e São Cristóbal de Havana, em que o Papa fez um apelo aos sacerdotes, religiosos e seminaristas para que “amem a pobreza como mãe”! Todo o discurso significativo do Papa Francisco foi baseado no binômio “Pobreza e Misericórdia, aí está Jesus”. Palavras profundas, de improviso, diante da fala de uma religiosa e de um padre que o precederam.
 
O Papa Francisco disse que: “Quando falam os profetas – e todos os sacerdotes são profetas, todos os batizados e os consagrados são profetas”,  “devemos ouvi-los, por isto entrego a homilia preparada ao cardeal e depois podem lê-la e meditá-la”, disse o Papa.
 
O mundo do transitório, do descartável e da busca desenfreada pelo poder e pelo ter é refratário à pobreza, porque esta incomoda. “O espírito mundano – observou Francisco – não a conhece, não a quer, a esconde, não por pudor, mas por desprezo. E se tem que pecar e ofender a Deus para que não chegue a pobreza, o faz. O espírito do mundo não ama o caminho do Filho de Deus, que se fez pobre, se fez nada, se humilhou para ser um de nós”.  “A pobreza, tentamos escamoteá-la, seja por coisas razoáveis, mas falo de escamoteá-la no coração”: “Os bens são dom de Deus. Mas quando entram no coração e começam a conduzir a vida, perdeste. Não és como Jesus. Tens a segurança onde a tinha o jovem triste”.
 
 
Relembrando o episódio bíblico do jovem rico que deveria doar seus bens para seguir Jesus, o Papa Francisco disse que: “Quantas almas destruídas, almas generosas, como a do jovem entristecido, que começaram bem e depois foram apegando o amor a esta mundaneidade rica e terminaram mal, medíocres, sem amor, pois a riqueza empobrece, e empobrece mal, nos tira o melhor que temos, nos faz pobres na única riqueza que vale a pena, para colocar a segurança em outro”.
 
O Papa fez um desabafo sobre o juntar dinheiro pelas instituições religiosas: “E quando uma Congregação religiosa começa a juntar dinheiro, economizar, economizar, Deus é tão bom que manda um ecônomo desastrado, que a faz quebrar: são as melhores bênçãos de Deus à sua Igreja, os ecônomos desastrados, porque a fazem livre, a fazem pobre. Nossa Santa Mãe Igreja é pobre, Deus a quer pobre, como quis pobre a nossa Santa Mãe Maria. Amem a pobreza como mãe”.
 
O Santo Padre chamou a atenção dos presbíteros sobre a vivência da pobreza “à nossa vida consagrada, à nossa vida presbiteral, perguntar-se:  “Como está meu espírito de pobreza? Como está meu despojamento interior”? recordando a primeira das Bem-aventuranças: “Felizes os pobres de espírito, os que não estão apegados à riqueza, aos poderes deste mundo”. “Existem serviços pastorais que podem ser mais gratificantes do ponto de vista humano, sem serem maus ou mundanos, porém, advertiu, quando alguém busca a preferência interior ao mais pequeno, ao mais abandonado, ao mais doente, ao que não conta nada, ao que não quer nada, ao mais pequeno, e serve ao mais pequeno, está servindo a Jesus de maneira superlativa. A vós mandaram onde não querias ir”.
 
Como vemos, o tema da Misericórdia é uma constante na vida do Papa Francisco e, sem dúvida, podemos aprofundá-lo desde a escolha do seu lema episcopal até chegarmos ao amadurecimento do tempo oportuno da convocação do ano santo do Jubileu da Misericórdia, passando por todos os pronunciamentos e posicionamentos de um tema tão importante para a Igreja: o nome de Deus é misericórdia, e o Seu rosto é Jesus Cristo. Nós, Igreja, somos chamados a anunciar esse rosto misericordioso que conduz ao Pai.
 
Através dessa proposta do Ano da Misericórdia, o Papa quer levar o amor aos corações e quebrar a barreira existente entre as pessoas e as civilizações. Em conclusão, rezemos pelo Papa para que ele continue tendo saúde e todas as luzes necessárias do Espírito Santo para reger essa grei de Cristo.
 

'Eu não vou te matar': um retrato da violência doméstica

No primeiro dia do ano, mais uma amostra de um sistema falido que parece ter como objetivo desencorajar a vítima a fazer uma denúncia.

A polícia pergunta secamente o que aconteceu, num tom quase de desconfiança. Não há compaixão

No meio do mato, no dia 1° de janeiro de 2016, eram cerca de 21h. Estamos Jean e eu numa pousada agradável, num refúgio ecológico no sul de São Paulo, lendo na cama. Ouço vozes no quarto ao lado. Vozes agressivas. Será que estão discutindo?
 
De repente, uma pancada seca na parede. Um som que lembra o de um martelo. Depois outro. Consigo distinguir uma voz feminina: “Eu tô com medo”. Uma voz masculina responde: “Eu não vou te matar”. 
 
Pergunto se o Jean ouviu. Então ele ouve: “Sua vagabunda”.
 
O Jean toma a iniciativa de sair do quarto. Damos de cara com a janela do banheiro do quarto vizinho. Sim. Eles estão lá. A voz masculina acaba de ganhar um corpo. E as mãos desse corpo prensam a dona da voz feminina contra o box de vidro. Na sequência, essas mãos lhe dão um tapa na cara
 
Sinto um mal estar súbito. O chão parece que sumiu. O que fazer? O que fazer? Tudo isso parece tão distante de mim que me sinto perdida e desorientada.
 
Chamar os donos da pousada. É isso. Corro para procurá-los. O dono aparece logo. Com a boca seca, nervosa, conto o que acabamos de ver. Ele desacredita. Peço para que comprove indo até a janela do banheiro. 
 
Ele comprova: o homem arma o soco e dá na carne dela. 
 
O dono da pousada corre. Desaparece. O que ele foi fazer? Sinto um nó na garganta. Estamos sozinhos novamente? Quero arrombar a porta, quero gritar que estou ouvindo e vendo tudo. O Jean também. Mas é preciso calma. E se o homem estiver armado? 
 
O dono da pousada volta. Felizmente foi buscar reforço. Agora, ao todo, são seis homens do lado de fora. E eu.
 
Toc toc toc. “Tá tudo bem aí?”, o dono da pousada pergunta, se esforçando para parecer firme. A porta, ao contrário do que eu esperava, abre rapidamente. Os dois estão pelados. “Que bom que vocês vieram”, a voz feminina diz aliviada e tremendo – e corre para se trocar.
 
Quando entro no quarto ela já está trocada. Vejo melhor o seu rosto. Reconheço: ela estava na mesa ao lado no jantar de Réveillon da noite anterior. Mas agora tinha lágrimas nos olhos. Muitas lágrimas. “Ele estava batendo em você?”, pergunto. Ela responde apenas com a cabeça: sim.
 
Do outro lado do quarto, o homem está cercado pelos outros homens. Está intimidado. Manso. Ele se desculpa. “Desculpa, desculpa”, repete o tempo todo para todos – menos para a sua namorada agredida. 
 
Do lado de cá do quarto, pergunto se ela quer que chamemos a polícia. Mais uma vez ela diz que sim com a cabeça.
 
A polícia então chega e o que se segue é uma sequência de acontecimentos que parece ter como único objetivo desencorajar a vítima a fazer uma denúncia contra o seu agressor.
 
Na chegada da polícia, apenas homens. Perguntam secamente para a mulher o que aconteceu, num tom quase de desconfiança. Não há compaixão. Não há delicadeza com a pessoa agredida. Apenas mais grosseria.
 
A delegacia:
 
Agressor e a vítima ficam em salas próximas. O agressor fica o tempo inteiro provocando a vítima, em voz alta: “Você tem certeza de que quer fazer isso, V*?”, “Olha lá o que você vai fazer!”. Os policiais, novamente todos homens, demoram a interferir e a colocar o agressor numa cela. 
 
A cela:
 
Não há porta divisória entre a sala onde está a vítima e a cela do agressor. Ele continua o seu jogo psicológico por algumas horas, gritando: “Tá vendo o que você fez comigo, V*?”, “Eu não fiz nada pra você e você tá me tratando como um bicho! Eu não sou bicho! Eu trabalho, pago os meus impostos!”
 
“É isso o que você faz com a pessoa que diz que ama?” E, então, num jogo baixíssimo, ele bate a cabeça na grade com força até sangrar. Ela, com acesso liberado à cela, ouve e vê tudo. Vê o sangue escorrendo pela cara dele, vê a raiva nos seus olhos, sente medo. Os policiais não interferem. 
 
O exame de corpo-delito:
 
Um médico. Mais um homem. Entro junto para não deixá-la só e vejo uma das pessoas mais grosseiras que já cruzei na vida em ação. Ele pede para ela mostrar os machucados. Pede para ela tirar a roupa, numa sala cujo ar condicionado está em 16 graus Celsius.
 
Peço para aumentar a temperatura. Ele resmunga e aponta o controle com os olhos que me dizem “Aumenta aí”. Pergunto, então - porque é uma dúvida legítima e tenho o direito de perguntar -, se ele notifica também os golpes que não deixaram marcas, como a pancada na cabeça contra a parede e os socos na cara dela. Ele responde em tom de deboche: “Não posso fantasiar coisas e nem inventar o que eu não sei se aconteceu”.
 
Quatro horas depois:
 
Já são quase 2 horas da manhã e o delegado ainda não apareceu. Nos repetem, desde que chegamos, que “em 10 minutos o delegado deve chegar”. Estamos exaustos. Quem foi espancada está ainda mais.
 
Ela tem os olhos inchados de chorar, as costas doendo dos golpes e o coração partido de tanto ouvir as agressões que continuam a vir da cela. Ainda por cima, sente vergonha de mim e do Jean. Ela insiste para que a gente vá embora descansar. Resistimos. Mas ela – e o escrivão, que já tomou os nossos depoimentos e as nossas assinaturas – nos dizem para ir.
 
Na manhã seguinte:
 
Ficamos sabendo pela dona da pousada, pois a vítima teve que voltar para pegar as suas coisas e contou que, quando o delegado chegou, deu a desencorajada final. Cataplau! Disse que tinha conversado com o namorado dela, que “ele estava bastante arrependido” e perguntou se ela queria levar aquilo mesmo adiante e processá-lo. Ela, por fim, desistiu. Pediu para no mínimo segurá-lo preso por mais duas horas, até que ela pudesse “Fugir pra São Paulo”.
 
Desde então faz dias que não consigo dormir direito. Acordo à noite e tenho insônia com medo de um agressor maluco que, numa das minhas idas à cela para tirar a vítima de perto dele, também me ameaçou. Acordo e fico pensando nesse sistema falido que mascara números e faz a violência doméstica parecer menor do que é.
 
Quando conto essa história, tenho ouvido de algumas pessoas: “Dá até raiva de ter ajudado, né? No fim ela retirou o B.O. e se bobear até vai voltar pra ele”.
 
Não, não dá raiva. Pra mim é óbvio que essa mulher e esse homem vivem numa relação doentia há oito meses (é o tempo que estão juntos) e que, apesar de ter sido a primeira vez que ele realmente bateu nela (segundo ela) não vai ser em uma noite que ela vai conseguir se livrar dessa relação.
 
Eu não tinha a menor esperança de que ela nos visse como heróis e que nos agradecesse por ter salvado a vida dela naquele momento. Seria muita arrogância pensar isso. Romper com uma relação viciada dessas leva tempo e muita terapia.
 
Mas o que eu esperava e desejava e que deveria ser óbvio ululante é uma Polícia Estadual eficiente. Com um sistema que protege a vítima do contato com o agressor, uma vez que eles estão na delegacia, que agiliza o boletim de ocorrência para que a vítima não seja pressionada a mudar de ideia e que ofereça, aos dois envolvidos, o mínimo de ajuda psicológica. 
 
Enquanto isso não acontece, torço para que esse relato se espalhe e que mais pessoas possam ajudar a outras V* a dar um passo para escapar da violência. Um passo ainda sem a ajuda do sistema, mas um passo que, pelo menos momentaneamente, pode salvar vidas.
 
*Mariana Borga é diretora de criação, atriz e restauradora de móveis nas horas vagas, e feminista.
 

O pecado abunda no motel do mundo virtual

A barafunda hipersexualizada da internet mandou para o beleléu neste fim de ano duas “revistas masculinas”.

Não existe pecado do lado de baixo do Equador (Chico Buarque e Ruy Guerra, em Calabar)

–Fala! - intima o poeta, letrista, grande produtor e agitador cultural Wally Salomão, tendo ao fundo uma provável floresta amazônica. 
 
A pessoa intimada por Wally é uma mulher que aparenta ser de algum tipo de classe média não muito alta do Norte do País, simpática, bem fornida de carnes e sorridente. A sequência que narro está no filme Pan-Cinema Permanente (2008), de Carlos Nader, um documentário sensacional sobre Wally Salomão, feito cinco anos depois da morte do poeta. 
 
Como Wally, a mulher tinha acabado de descer de uma Kombi com vários passageiros bem diante de uma placa fincada à beira de uma estrada lamacenta, indicando o Hemisfério Norte, pra cima, e o Hemisfério Sul, pra baixo, com setinhas. E é rindo que ela responde ao poeta:
– Mas, eu vou falar o quê?
 
– Fale da sua emoção de estar diante da placa que demarca a linha do Equador!
– Não, eu tenho muita vergonha - responde a mulher.
 
– Tem muita vergonha de estar na linha do Equador?! - retruca Wally, performático como nunca.
– Você não sabe que não existe vergonha abaixo da linha do Equador?
 
Inflamado, o autor das letras de alguns clássicos da MPB, como Vapor Barato, e de aclamados volumes de poesia (Gigolô de Bibelôs, por exemplo), explica à sua companheira de viagem que os cronistas e viajantes da época colonial, ao verem os índios peladões sob a “luz crua” dos trópicos, acreditavam no que mais ou menos diziam as bulas papais expedidas para justificar a infrene exploração colonial dos povos primitivos pelas metrópoles europeias: “Não existe pecado do lado de baixo do Equador”.

 Barlaeus, historiador do império holandês no Brasil, chamava isso de "vício" (Giannni Dagli Orti/AFP)
 
Caspar Barlaeus, teólogo holandês do século XVII que escreveu História do Império Colonial Holandês no Brasil, sobre o período em que Maurício de Nassau sentou praça em Pernambuco, acreditava que, por aqui, tudo se passava como “se a linha que divide o mundo em dois hemisférios também separasse a virtude do vício”. 
 
Se isso é verdade, vivemos todos, os brasileiros, chafurdando no vício, uma vez que o nosso país se situa quase todo abaixo da linha do Equador, que atravessa a calha norte do território nacional, passando pelo norte do Amazonas, sul de Roraima, norte do Pará e sul do Amapá. Nesse último estado, aliás, a mítica linha imaginária passa por Macapá, a única capital brasileira que pode se orgulhar de ser dona de um trechinho dela.  
 
Vale lembrar que o estádio de futebol local, o Zerão, tem um campo cuja divisória central foi desenhada bem em cima da linha do Equador, criando uma situação de alto poder alegórico das ambiguidades morais brasileiras, pois, ao se confrontar, os dois times se alternam obrigatoriamente nos campos da “virtude” e do “vício”.
 
Folclore futebolístico e historiográfico à parte, porém, o fato é que, no mundo pós-colonial e pós-internético, essa linha divisória, de caráter geopolítico, se deslocou para uma dimensão extraterritorial, embora não haja carnaval no velho patropi em que a galera não rebole ao som do clássico frevo composto por Chico Buarque e Ruy Guerra no começo dos anos 70 para a peça Calabar, o elogio da traição, assinada por ambos, e que começava justamente com Não existe pecado do lado de baixo do Equador...
 
Hoje, a verdadeira linha que separa a virtude do vício – ou o sexo domesticado da fornicação desbragada – é a mesma que separa o mundo real da barafunda hipersexualizada da internet, na qual o pecado abunda (e axota e apica), livre, solto e sem limites, como já estamos cansados, mas nunca saciados, de saber.

Maitê Proença, vítima do desvairio erótico online (AFP)

Não por outra razão, ao menos duas “revistas masculinas”, que por décadas prodigalizaram seus leitores com fotos de moças desnudas ou com pouquíssima roupa, foram pro beleléu neste fim de ano: a Playboy e a Status, e nesta última mantive uma coluna sobre sexo durante quatro divertidos anos. Diante da concorrência desbragada da putaria internética, nem o ótimo conteúdo editorial das duas publicações deu conta de segurar um contingente mínimo de pecadores, digo, de leitores, para se manter economicamente viáveis em tempos de crise braba – prova de que seu grande apelo era mesmo o erótico, não o jornalístico. 
 
Essa foi a principal razão alegada pelos editores para fechar as duas revistas, embora eu, cá do meu recatado canto, continue pensando que o leitor de uma revista como a Playboy ou a Status queria ver pelada não qualquer mulher, mas sim aquela já vista de roupa na telenovela, no cinema, na propaganda, na capa das revistas não eróticas, no programa de calouros, no reality show, e sabe-se lá mais onde. Porque, não é exatamente na nudez, mas no desnudamento que, a meu ver, mora o xis da questão.
 
Lembro, a propósito, a observação do grande etnógrafo potiguar Câmara Cascudo, de que, nas sociedades urbanas, as pessoas sempre se apaixonam vestidas, embora desejem se ver em pelo na primeira oportunidade. A roupa seria, pois, a antessala do pecado rasgado, suado, a todo vapor, donde seu alto prestígio como fator de sedução erótica.
 
Já na internet, terreno supraequatorial para onde se mudaram de mala e cuia os pecadores do planeta, a mais escancarada nudez vem pronta para consumo, sem deixar espaço para a imaginação desejante. Mas vá você brandir esse argumento diante da libido imediatista dos nossos contemporâneos, abaixo ou acima do Equador, os quais, em dois cliques de mouse, obtêm com que se lambuzar de pecado virtual até o enjoo. 

http://www.cartacapital.com.br/revista/882/o-pecado-abunda-no-motel-do-mundo-virtual

Qual é o futuro do Fórum Social Mundial?

Futuro e relevância do FSM dependem de sua capacidade de reinvenção e rearticulação.

Futuro e relevância do FSM dependem de sua capacidade de reinvenção e rearticulação

De Porto Alegre

Terminou no sábado 23 a edição temática do Fórum Social que, além de celebrar os 15 anos do processo iniciado 2001, no Rio Grande do Sul, também se propôs a debater, com seriedade, as perspectivas para a continuidade desta articulação global. A reflexão não começou agora. Já há quatro anos as organizações que integram o Conselho Internacional do FSM (CI) constataram que o espaço vinha perdendo relevância e a capacidade de pautar agendas e articulações de impacto global.
Muito diferente do que aconteceu em 2003, quando um chamado internacional pela paz saiu dos palcos do FSM em Porto Alegre, às vésperas da invasão no Iraque, e levou milhões às ruas em todo o mundo, hoje os obstáculos são muitos. 
 
O mundo mudou bastante neste período, assim como as formas de organização da sociedade civil e movimentos populares. O FSM, entretanto, não conseguiu acompanhar de perto essas transformações. Atualmente, além das dificuldades internas de aglutinação do campo progressista, o chamado movimento altermundista enfrenta uma conjuntura externa muito mais complexa. E um inimigo cada vez mais forte.
 
“A velocidade de cruzeiro que o capitalismo alcançou em sua expansão está levando o mundo para o precipício. O sistema se transformou numa máquina de produção enlouquecida, insaciável. Uma máquina que, para produzir e ter lucro, destrói o que tem pela frente. Se a barragem estoura em nome do lucro, não tem problema”, avalia Chico Whitaker, da Comissão Justiça e Paz, um dos construtores do processo do FSM, em referência ao crime ambiental da Samarco, em Mariana/MG.
 
“É um sistema que está em crise, mas que domina a comunicação global e assim faz todo mundo acreditar que outro mundo não é possível nem necessário, que não há o que se fazer, que não estamos fazendo nada”, acrescenta. 
 
No que pese os percalços do capitalismo, ele ainda é a força que detém hegemonia política, econômica e ideológica, acredita Givanilton Pereira, secretário de relações internacionais da CTB.
Na última mesa de convergência da programação deste Fórum Temático, o sindicalista lembrou que foi contra esses propósitos que o FSM se articulou, produzindo denúncias e mobilizações.
 
“Socializamos consciência crítica para que os povos lutem e resistam contra a barbárie do capital. E a diretiva 'outro mundo é possível' se tornou inspiração para as lutas em todo o planeta”, afirmou.
Visões divergentes no seio do Fórum e as mudanças na conjuntura global têm, entretanto, dificultado a capacidade de produção de uma resposta à altura dos atuais desafios. 
 
Para Oded Grajew, outro ativista dos primórdios deste processo, hoje na Rede Nossa São Paulo, o FSM está em crise, assim como as associações que dele participam. Reconhecer esta crise deve ser o primeiro passo para enfrentá-la e encontrar saídas que permitam ao “mundo do Fórum” dar um salto político. 
 
“Temos que reconhecer nossa responsabilidade sobre essa crise. Só conseguiremos reerguer as forças do outro mundo possível e enfrentar o neoliberalismo se reconhecermos nossos erros, fizermos uma reflexão sincera sobre eles e construirmos outras formas de dar legitimidade às nossas ações. Se não conseguirmos mudar, haverá muito poucos conosco”, alerta Grajew.
 
Caminhos possíveis
 
O diagnóstico é duro, mas há caminhos possíveis. A presença de 15 mil pessoas nas atividades em Porto Alegre ao longo desta semana comprova que, apesar de todos os seus limites, o FSM é um legado antineoliberal e acumulou o patrimônio de articular organizações e movimentos com profundo conhecimento teórico e político dos campos em que atua, além de grande experiência prática, como lembrou Pereira.
 
Para o dirigente da CTB, com uma estratégia bem definida, esta importante frente política social pode jogar um papel maior na luta contra o capitalismo. “Mas para isso devemos ampliar a base política do FSM e forjá-la com objetivos comuns. Isso poderá maximizar sua energia, aumentar a capacidade aglutinadora do Fórum e elevar sua força transformadora. Essa é uma necessária atualização tática, para melhor se posicionar frente à transição geopolítica em curso”, analisa.
 
“Temos que considerar que existem novos sujeitos políticos se organizando, como os jovens que ocuparam as escolas em São Paulo, os jovens que vão à luta contra o aumento das passagens de transporte público, que lutam na África e na América Latina contra todas as formas de opressão", diz Dennis de Oliveira, professor da Universidade de São Paulo e membro do coletivo de ativistas anti-racistas Quilombação. "É importante que se absorva essa rica experiência e é necessário que o FSM seja o espaço de articulação de todas essas lutas”, ressalta. 

Em 22 de janeiro, Marcha pela Vida e Liberdade Religiosa marcou, em meio ao Fórum Social, o Dia de Combate à Intolerância Religiosa em Porto Alegre

O momento seria, portanto, de envolver no processo do Fórum e dar visibilidade aos inúmeros e plurais sujeitos que têm protagonizado a resistência dos povos nos territórios e que têm ampliado as agendas de lutas. Dar conta dessa tarefa nada simples depende das opções que forem feitas no caminho.
 
Uma delas, sempre motivo de polêmica, é se o FSM deve ou não ser um espaço de tomada de decisão, com encaminhamentos e orientações concretas a seus participantes feitas após os encontros mundiais – que agora ocorrem a cada dois anos, mudança feita no curso desses 15 anos já como uma resposta às dificuldades políticas e financeiras dos movimentos se encontrarem anualmente em escala global.
 
“Buscamos novos formatos para que o Fórum possa, além de reivindicar, também incidir concretamente e, quiçá, até implementar diretamente algumas de suas propostas. Os sonhos têm que ter suas próprias ferramentas. Esperamos que o FSM tenha a possibilidade de construir sua própria ferramenta de incidência”, almeja Cesare Otonini, da AIH/Itália.
 
Questões internas e externas
 
O desafio, porém, ultrapassa a inclusão de novos atores e de processos decisórios. Passa, de certa forma, por todo o funcionamento do Fórum, incluindo as responsabilidades de cada organização membro do Conselho Internacional (composto por mais de 100 entidades) e a democracia interna do órgão.  
 
“É possível oxigenar este espaço. E já estamos avançando neste sentido, com boa parte da organização do próximo Fórum Social Mundial sendo feita por jovens no Canadá, visto que o desafio de oxigenação no CI passa pela juventude”, acredita Rogério Pantoja, dirigente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e integrante do CI.  
 
Por fim, será preciso também relacionar os desafios internos com o processo externo vivenciado por governos progressistas em âmbito global – e sobretudo na América Latina –, que chegaram ao poder com apoio significativo das organizações e movimentos que participam do processo do FSM.
 
“Não podemos desvincular nossas questões dos impasses, conflitos e  limites que esses governos tiveram, e que agora estão implicando nas derrotas que estamos tendo na região. Tais impasses são fruto de uma relação contraditória desses governos com a ordem geral capitalista, que se utilizou das ferramentas do capital para implementar uma série de políticas públicas”, critica Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres.
 
“Assim, não temos apenas uma rearticulação das forças imperiais para combater em nosso continente, mas também a incorporação e cooptação das nossas demandas no discurso do capitalismo”, aponta.
Que a energia militante e a vontade de construir lutas lado a lado, que animaram as discussões nos últimos dias em Porto Alegre, sejam a base para a condução deste complexo e também conflituoso processo de transição. “O futuro dependerá de como articulamos todas essas questões”, concluiu Nalu.
 

Terceiro protesto contra a tarifa termina com bombas no metrô

Atos do MPL foram encerrados de forma pacífica, mas tumulto levou Polícia Militar a soltar bombas após dispersão na região da Paulista.

Ao menos três ficaram feridos e oito foram detidos após dispersão do ato na Avenida Paulista

Cumprindo a exigência do governo do Estado de São Paulo para que informassem o itinerário das manifestações contra a tarifa do transporte público, o Movimento Passe Livre (MPL) conseguiu encerrar de forma pacífica dois protestos simultâneos contra o aumento no preço das passagens, nesta quinta-feira 14.
 
Após a dispersão do grupo que havia chegado à Avenida Paulista, no entanto, ao menos três bombas foram soltas na região. De acordo com a Polícia Militar, o tumulto começou depois que manifestantes depredaram os vidros da estação Consolação do metrô. Ainda segundo a PM, um manifestante atirou um rojão dentro da estação. Ao menos três pessoas ficaram feridas e oito foram detidas.
 

Em busca do nono planeta

Uma possível descoberta nos confins do Sistema Solar ecoa a busca por novos astros e planetas ao longo da história.

Concepção artística da vista do planeta
 
Na quarta-feira 20, os astrônomos Konstantin Batygin e Michael E. Brown, do California Institute of Technology, divulgaram um estudo no qual concluem pela existência de um planeta desconhecido nos confins do Sistema Solar.
 
Não um “planeta anão” como Plutão, Éris ou Sedna, mas um gigante, com massa pelo menos dez vezes superior à da Terra, ou seja, comparável, no mínimo, a Urano e Netuno e extremamente distante.
 
Sua órbita teria uma excentricidade de 0,6 e um semieixo de 700 unidades astronômicas, o que significa que no ponto da órbita mais próximo do Sol, o periélio, estaria a uma distância em torno de 280 unidades (cerca de 42 bilhões de quilômetros) e no mais distante, o afélio, a 1.120 unidades (168 bilhões de quilômetros).
 
Sua volta em torno do Sol deve demandar quase vinte mil anos. A inclinação de sua órbita em relação à eclíptica deve ser de 30 graus, maior que qualquer outro grande planeta.
 
Isso nada tem a ver, vale notar, com o imaginário Nibiru de Zecharia Sitchin. Este teria um período de 3.600 anos e um semieixo de 235 unidades astronômicas, cujo periélio passaria próximo da Terra, o que implica uma excentricidade de 0,996. Se um planeta gigante com essas características existisse, o Sistema Solar teria se desarticulado há muito.
 
Vale lembrar como a existência de Netuno foi deduzida em 1846 pelo matemático francês Urbain Le Verrier em função de perturbações da órbita de Urano e confirmada meses depois pelas observações do astrônomo britânico James Challis, na região do espaço apontada e com as características esperadas.
 
Desde então, muitos tentaram repetir a façanha. No fim do século XIX e início do XX, supostas perturbações adicionais da órbita de Urano e do próprio Netuno levaram vários astrônomos, inclusive o excêntrico Percival Lowell, a prever a existência de um ou mais planetas a distâncias de 38 a 72 unidades astronômicas do Sol.
 
A busca pelo “Planeta X” de Lowell acabou por levar à descoberta de Plutão por Clyde Tombaugh em 1930, mas por pura coincidência. Como se comprovou nos anos 1970, Plutão é pequeno demais para as supostas discrepâncias orbitais que deveria explicar.
 
Outras tentativas de buscar o “Planeta X” nos anos 1970 e 1980 fracassaram. Em 1993, uma medição mais exata da massa de Netuno pela sonda Voyager 2 comprovou que ela era ligeiramente menor do que se calculara e isso explicava as aparentes anomalias orbitais sem a necessidade de um planeta adicional.
 
Desde 1992, cerca de dois mil corpos celestes foram descobertos para além de Plutão, um deles (Éris) de massa até um pouco maior. Certamente se confirmarão ou descobrirão muitos outros, mas nenhum em condições de ser considerado um “verdadeiro” planeta desde que, em 2006, a União Astronômica Internacional redefiniu o termo e criou a nova categoria de “planeta anão” para incluir os maiores deles ao lado de Plutão, de Éris e do asteroide Ceres.
 
Outra busca fracassada foi a do suposto planeta Vulcano, deduzido de perturbações da órbita de Mercúrio e que existiria entre este e o Sol. O mesmo Le Verrier tentou calcular sua órbita em 1843, sem sucesso.  
 
Após o sucesso com Netuno, voltou ao tema, fez um novo estudo em 1859 e novamente fracassou. Alguns astrônomos do século XIX julgaram tê-lo descoberto, mas certamente se enganaram. Em 1915, Albert Einstein demonstrou que as perturbações de Mercúrio não eram causadas por um corpo desconhecido, mas por um efeito colateral da teoria da relatividade. Nunca se descobriu sequer um asteroide entre o Sol e Mercúrio.
 
Outra especulação descartada foi a proposta de 1984 de uma estrela anã vermelha ou anã marrom apelidada Nêmesis a uma distância de 95 mil unidades astronômicas do Sol e com um período de 26 milhões de anos.
 
Ela responderia por perturbações massivas nas órbitas de cometas e por extinções em massa resultantes da queda de alguns deles na Terra (como no fim da era dos dinossauros). Apesar do tamanho suposto, jamais foi encontrada e desde então, análises mais precisas das extinções do passado rejeitaram a tese de que elas ocorreram a intervalos regulares de 26 milhões de anos.
 
Outra proposta, de 1999, sugeriu um planeta supergigante apelidado Tique (nome grego da deusa Fortuna) com massa cinco vezes maior que a de Júpiter, a 15 mil unidades astronômicas e com período de 1,8 milhão de anos que responderia por um viés na distribuição de cometas de longo período. A NASA tentou verificar essa hipótese e a descartou em 2014, com a garantia de que não existe nenhum planeta maior que Júpiter em um raio de 26 mil unidades.
 
A hipótese de Batygin e Brown tem um argumento semelhante ao usado para Tique, mas um tanto mais bem fundado. Baseia-se em um estudo das órbitas já calculadas de corpos para além de Plutão, meia dúzia das quais mostra um viés em uma direção definida, que faz supor sua perturbação por um corpo massivo na direção oposta. Segundo os astrônomos, a probabilidade de isso se dever ao acaso é de 0,007%. Caberia perguntar se isso poderia ser resultado da preferência de astrônomos por observar certas regiões do espaço, mas segundo os autores, esses corpos foram descobertos de maneira independente e não há nenhum viés observacional “óbvio”.
 
Além disso (embora o estudo não mencione esse detalhe), essa hipótese se encaixa bem no chamado “modelo de Nice” proposto em 2005 pelo Observatoire de la Côte d'Azur, na França, para explicar com bastante sucesso os detalhes da formação do Sistema Solar tal como o conhecemos hoje.
Em sua última versão, de 2011, explica a atual exata disposição das órbitas com um planeta gigante adicional entre Saturno e Urano que teria sido expelido para os confins do Sistema ou mesmo para o espaço interestelar.  
 
Crédito: Caltech/R. Hurt - IPAC)
 
Nada está garantido, porém, até que as observações confirmem ou descartem a existência de um corpo com as dimensões esperadas (duas a quatro vezes o diâmetro da Terra) na direção apontada.
 
Supondo que a descoberta seja confirmada, qual seria o nome mais adequado para o novo planeta? Tradicionalmente, apenas nomes de divindades greco-romanas foram aceitos para planetas propriamente ditos (embora nomes de outras mitologias ou literários tenham sido aplicados a satélites naturais, grandes asteroides e “planetas anões” e outros mais caprichosos para os pequenos asteroides). 
 
Ao descobrir Urano em 1781, o leal súdito britânico William Herschel deu-lhe o nome de “Georgiano” em homenagem a seu rei George III, mas o nome foi rejeitado por outras nações e acabou por se impor o nome do deus do céu proposto pelo colega alemão Johann Bode. O brilhante, mas egocêntrico Le Verrier quis dar o próprio nome à sua descoberta, mas os astrônomos não franceses rejeitaram a pretensão e ficaram com sua segunda opção, a do deus do mar.
 
O jornalista Ross Andeson, da revista estadunidense The Atlantic, sugeriu Nox, “Noite”, nome latino da deusa da noite grega Nyx, por ser tão distante do Sol que estaria mergulhado em noite perpétua. Sugerimos algumas alternativas, talvez mais interessantes:
 
Minerva. Achamos preferível um nome feminino, visto haverem apenas dois entre os planetas (Terra e Vênus) ante seis masculinos. Embora existam asteroides nomeado com seus sinônimos gregos Palas (número 2) e Atena (número 881), é a nosso ver Minerva é a mais importante deusa do Olimpo que ainda não tem um corpo celeste com seu nome latino. É também o nome de um planeta imaginário para além de Plutão em um conhecido romance de ficção científica, O Décimo Planeta, de Edmund Cooper (1973).
 
Vulcano. Além de ser o nome de um deus greco-romano importante e do planeta-fantasma buscado por Le Verrier dentro da órbita de Mercúrio, é frequente para planetas ficcionais dentro ou fora do Sistema Solar, inclusive a pátria do mais famoso alienígena da ficção científica, o Sr. Spock. Os fãs de Star Trek provavelmente aprovariam.
 
Prosérpina. O nome da poderosa esposa mitológica de Plutão foi frequentemente atribuído a planetas imaginários nos confins “sombrios” do Sistema Solar, assim como seu equivalente grego Perséfone. Este último já foi usado, porém, para um pequeno asteroide (o número 399 do catálogo, descoberto em 1895).
 
Líber. Quando a versão de 2011 do modelo de Nice acima referido foi formulada, vários nomes foram propostos para o hipotético quinto planeta gigante: Hades (sinônimo de Plutão), Mefítis (uma obscura divindade romana das doenças e miasmas) e Líber (um equivalente romano de Baco ou Dioniso). Dessas, a última é sem dúvida a divindade mais importante. Os nomes Baco e Dioniso são mais conhecidos, mas foram dados a pequenos asteroides (números 2063 e 3671, respectivamente). Tem a seu favor também o fato de que a filosofia de Friedrich Nietzsche popularizou a ideia de Apolo e Dioniso como princípios contrários, e o novo planeta, tão distante do Sol (tradicionalmente identificado com Apolo) é de certa maneira seu oposto.
 

A crise dentro da crise

O mundo vive novamente o temor de uma hecatombe.
 
O preço do petróleo despenca
 
As fragilidades da economia mundial parecem confirmar algumas previsões quanto ao risco de se ter uma década perdida. Na melhor das hipóteses, seriam anos de letargia econômica, analisa o Nobel de Economia Joseph Stiglitz. 
 
O cenário inspira cautela. O aumento das instabilidades ocorre quando os países ainda se recuperam dos estragos da crise de 2008, desencadeada com a quebra do Banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos, e ampliada pelos desdobramentos na Europa, em 2010, e nos paí­ses emergentes, nos últimos anos.
 
Não faltam sobressaltos. Na quarta-feira 20, as principais Bolsas sofreram perdas. A Bolsa de Valores de São Paulo caiu 1,08% e as ações preferenciais da Petrobras desvalorizaram 4,94%, para 4,43 reais, após quedas sucessivas nos dias anteriores.
 
Os mercados de ações refluíram 2,81% na Alemanha, 3,45% na França, 4,83% no Reino Unido, 3,71% no Japão e 3,82% na China. Nos EUA, a Nasdaq fechou em baixa de 0,08%. Na tarde da quarta-feira 20, o Índice Dow Jones caía 1,52% e o S&P 500 mostrava uma variação negativa de 1,14%.
 
As baixas foram provocadas, entre outros motivos, pela queda da cotação do petróleo para 30 dólares o barril no dia 11, o que não acontecia há 12 anos. No dia 20, a commodity fechou a 26,53 dólares o barril.
 
O problema é político, não econômico, diz o Nobel de Economia
 
A esse preço, todas as empresas do setor de óleo e gás que investiram com a perspectiva de continuidade de cotações até quatro vezes maiores sofrem uma queda brusca das receitas e estão sob risco. As notícias do crescimento do PIB da China de 2015 em 6,9%, o mais baixo dos últimos 25 anos, e das dificuldades enfrentadas pelos países emergentes aumentaram as incertezas.
 
A onda recente de instabilidades avolumou-se quando o Royal Bank of Scotland aconselhou seus clientes, no dia 10, a se prepararem para “um ano cataclísmico” no mundo. O petróleo pode desabar para 16 dólares, avisou o banco.
 
“Venda tudo, exceto títulos de alta qualidade. Há muitos investidores com posições compradas e as portas de saída são estreitas”, recomendou em um comunicado. Os bancos Morgan Stanley e Goldman Sachs preveem uma queda do petróleo para 20 dólares o barril. A cotação poderá cair para 10 dólares na projeção do Stanley Chartered. 
 
Uma combinação de causas empurrou o preço da commodity para baixo, a começar pela queda do consumo forçada pela estagnação econômica mundial, os estoques elevados, as temperaturas mais altas do inverno europeu e o aumento da eficiência no uso de combustíveis.
 
O crescimento da produção de petróleo nos Estados Unidos em 66% nos últimos cinco anos e a pressão baixista da Arábia Saudita para inviabilizar economicamente a exploração do xisto naquele país contribuíram para derrubar as cotações, assim como a revogação do embargo europeu à compra do petróleo do Irã.
 
Os problemas da economia se multiplicam. “O comércio global e os empréstimos têm se contraído, um coquetel indigesto para os balanços e os lucros”, disse o economista-chefe do RBS para a Europa, Andrew Roberts.
 
O pânico dos investidores e a onda de vendas de ativos fizeram o Bank of America “inverter as ordens de compra”. Pela primeira vez em sete anos, o JP Morgan Chase pressionou os clientes a “venderem as suas ações por qualquer oferta”.
 
Só 27% dos executivos entrevistados em uma pesquisa da PwC realizada em dezembro e apresentada no Fórum Mundial em Davos acreditam que a economia mundial vai melhorar nos próximos 12 meses.
 
Albert Edwards, estrategista do Banco Société Générale, disse que “o Ocidente está prestes a ser atingido por uma onda de deflação das economias dos países emergentes”. Os bancos centrais, segundo Edwards, não aprenderam as lições da bolha imobiliária que conduziu à crise financeira e à recessão em 2008-2009.
 
“Não entenderam o sistema, portanto, não perceberam que fazem tudo errado novamente. A deflação está aí e os bancos centrais não conseguem vê-la.”
 
A situação atual “questiona a avaliação predominante no Brasil de que a crise era chinesa e a economia dos Estados Unidos estava se recuperando. Essa visão desconsidera que China e EUA constituíram nos últimos 30 anos um sistema econômico”, aponta o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.
 
De Mônaco a Bangladesh, 62 privilegiados têm a mesma riqueza de 3,6 bilhões de deserdados (Valery Hace/AFP e Yuri Gripas/Reuters)
 
O peso da economia chinesa e o impacto da sua retração no resto do mundo são óbvios, mas considerá-la frágil e sem rumo contraria os fatos. O crescimento do ano passado ficou só um décimo abaixo da meta projetada de 7%, a mostrar considerável grau de controle do processo pelos executores da política econômica. E há uma “mudança da composição” dessa evolução.
 
Segundo Louis Kuijs, da Oxford Economics, o PIB chinês sofre “pressões para baixo dos setores de imóveis e de exportações, mas o consumo robusto e os investimentos em infraestrutura evitam uma queda aguda”, apesar de ainda existir capacidade ociosa em todos os setores. 
 
Já a situação dos Estados Unidos estaria muito pior do que o Federal Reserve pensa. “Assistimos a uma expansão massiva de crédito naquele país, para financiar não a atividade econômica real, mas as recompras de ações das empresas”, segundo Edwards.
 
A austeridade fiscal, a valorização do dólar e a má distribuição de renda vão descarrilar a economia dos EUA, alerta o Instituto Levy de Economia. Algumas das fragilidades do sistema financeiro evidenciadas em 2008 parecem persistir.
 
Segundo o Escritório de Pesquisa Financeira do governo americano, a “atividade financeira e os riscos migraram para fora do perímetro regulado e a liquidez do mercado parece ter ficado mais frágil nos últimos anos, enquanto as interconexões entre as empresas financeiras e os mercados evoluem de modos não compreendidos plenamente”. O escritório vê “elevado e crescente risco de crédito nas transações não financeiras nos Estados Unidos e em muitos mercados emergentes”.
 
A vulnerabilidade específica dos bancos estadunidenses com financiamentos às empresas exploradoras do petróleo do xisto é preocupante. O volume de crédito concedido às firmas de fracking ou injeção de água sob alta pressão para fragmentar o mineral e extrair as reservas de óleo e gás cria outra bolha nos Estados Unidos, segundo vários analistas.  
 
Afirma Jim Rickards, consultor de investimentos na Austrália e editor da newsletter The Daily Reckoning: “Somam cerca de 5,4 trilhões, isso mesmo, trilhões, de dólares, os custos incorridos nos últimos cinco anos para infraestrutura e exploração do gás e do óleo do xisto nos Estados Unidos financiados com dinheiro das empresas e endividamento bancário”.
 
Quando diversos produtores recorreram a empréstimos, os modelos financeiros levaram em conta preços do petróleo “entre 80 e 150 dólares o barril”. Nenhuma empresa esperava uma queda como a atual e isso significa que aquelas dívidas “terão de sofrer uma baixa contábil”, ou seu lançamento na conta de despesas e prejuí­zos.
 
Rickards considera a baixa contábil necessária para ao menos 50% das dívidas. “De modo conservador, se 20% forem lançados como prejuízos, as perdas totalizarão 1 trilhão de dólares. Um fiasco maior do que a crise das hipotecas imobiliárias nos Estados Unidos em 2007.” No topo dos maus empréstimos estão os derivativos. 
 
As Bolsas de Valores também despecam.
 
A conta de Rickards bate com aquela do Goldman Sachs quanto à existência de “1 trilhão de investimentos no setor de petróleo virtualmente sem valor enquanto os preços continuarem tão baixos”.
 
Os bancos Citigroup, Wells Fargo e BofA informaram perdas consideráveis com créditos a empresas do setor petrolífero. Para o JP Morgan Chase, o maior dos Estados Unidos, se o petróleo permanecer em torno de 30 dólares o barril, seria necessário adicionar 750 milhões de dólares às suas reservas para devedores duvidosos.
 
O Federal Reserve de Dallas percebeu que a situação é insustentável e dias atrás reuniu-se com bancos e mandou parar de marcar a mercado, isto é, desvalorizar os ativos ligados ao setor de petróleo segundo o seu valor atual. A autoridade fiscalizadora aceitará, portanto, os valores registrados nos balanços, assumidos quando as projeções levavam em conta uma estabilidade das cotações altas do petróleo.
 
Em entrevista à CNBC durante o encontro de Davos, Ray Dalio, fundador do Bridgewater Associates, o maior hedge fund do mundo, administrador de 155 bilhões de dólares, previu que o Fed “reverterá seu curso e fará mais quantitative easing ou compra de títulos para abastecer o mercado com dinheiro”.
 
Para Dalio, os trilhões colocados na economia para enfrentar as crises sucessivas conduziram os preços dos ativos para o “território das bolhas” e criaram um efeito riqueza negativo. “Todos os países necessitam de uma política monetária mais expansionista e os bancos centrais agora têm menos espaço para ajudar.”
 
Mais preocupantes que a China, neste ano, são as economias emergentes do Brasil, África do Sul, Tailândia e Turquia, apon­ta o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia. Com seus altos níveis de dívida de curto prazo, são vulneráveis a crises das suas moedas, potencialmente causadoras de colapsos econômicos. “Os investidores perceberão que a situação da China está sob controle e os problemas reais estão em outros lugares.” 
 
No Brasil, as autoridades mantêm os juros altos e não querem ouvir falar de nada diferente de equilíbrio orçamentário e cortes de gastos, investimentos públicos incluídos. A principal medida do governo para estimular a economia foi o anúncio da intenção de aumentar o crédito dos bancos públicos, feito pelo ministro Nelson Barbosa. Ação bem-vinda, mas tímida diante da envergadura da recessão. E ainda no campo das promessas. 
 
A força da política econômica conservadora, posta em dúvida em outros países, ficou evidente na rejeição da mídia e de ex-dirigentes do Banco Central, entre outros, à iniciativa do presidente Alexandre Tombini de revelar preocupações com as economias brasileira e mundial um dia antes da reunião do Comitê de Política Monetária, no dia 20, para decidir a taxa de juros.
 
Tombini fez referência à revisão, pelo Fundo Monetário Internacional, das estimativas de crescimento global, de 3,1% no ano passado para 3,4% em 2016 e 3,6% em 2017, mais gradual que em outubro. As projeções para o PIB do Brasil passaram de -1,0% para -3,5% em 2016 e de +2,3% para 0% em 2017.
 
A preocupação externada por Tombini pode ter influenciado a decisão do Copom de manter a taxa de juros em 14,25%. É muito diante da situação de inadimplência crescente de empresas e o desemprego. Em entrevista a blogueiros no mesmo dia, o ex-presidente Lula disse que “o governo precisa se mexer e mobilizar recursos para os investimentos públicos”.
 
Diferente da situação de Tombini é aquela do presidente do BC do México, Agustín Carstens, que defendeu dias atrás um quantitative easing nos países emergentes para fazer frente “a choques potencialmente severos” na economia. 
 
O principal empecilho para uma política de recuperação é a obsessão com o equilíbrio dos orçamentos nacionais, aponta o economista Robert Skidelsky, professor da Universidade de Warwick, no Reino Unido. “É o momento ideal para o governo investir na economia.
 
Cer­ta­mente aumentará o déficit, mas isso é tão inquestionável quanto uma empresa emprestar dinheiro para construir uma fábrica na expectativa de que o investimento pague o financiamento.” 
“Os obstáculos enfrentados pela economia global não estão enraizados na economia, mas na política e na ideologia”, diz Stiglitz. “A inércia econômica é fácil de entender e há remédios imediatamente disponíveis. O mundo enfrenta uma deficiência de demanda agregada, resultante de uma combinação de desigualdade crescente e uma onda irracional de austeridade fiscal.”
 
O aumento da desigualdade no mundo saiu do controle, segundo a ONG Oxfam. A quantidade de indivíduos com riqueza igual àquela da metade da população mundial (3,6 bilhões de habitantes) passou de 388 em 2010 para 80 em 2014 e 62 no ano passado. Nos últimos 25 anos, o rendimento médio anual dos 10% mais pobres aumentou menos de 3 dólares.
 
As observações de Stiglitz e Ski­d­elsky fazem sentido também no Brasil, mas é difícil encontrar aqui quem lhes dê ouvidos. 
 
 
 

Zika nas Américas

Não há vacinas. Combater os focos do mosquito é ainda a melhor prevenção.
 
"Em situação de poço, a água equivale a uma palavra em situação dicionária" João Cabral de Melo Neto
 
A pandemia explosiva do vírus zika que ocorre nas Américas do Sul, Central e Caribe é uma das quatro doenças virais transmitidas por artrópodes a chegar inesperadamente no Hemisfério Ocidental.”
 
Assim começa a revisão publicada pelo The New England Journal of Medicine, sobre a doença causadora da tragédia das microcefalias.
 
A primeira das quatro epidemias citadas é a dengue, que se insinuou no hemisfério durante décadas, para atacar com mais vigor a partir dos anos 1990. A segunda, o vírus do Oeste do Nilo, emergiu para estes lados em 1999, o chikungunya em 2013 e o Zika em 2015.
 
O vírus zika foi descoberto incidentalmente em 1947, num estudo-sentinela com mosquitos e primatas, na floresta do mesmo nome, em Uganda. Permaneceu décadas confinado às regiões equatoriais da África e da Ásia, infectando macacos e mosquitos arbóreos e poucos seres humanos.
Há anos pesquisadores africanos notaram que o padrão de disseminação do zika em macacos selvagens acompanhava o do chikungunya, entre os mesmos animais. Essa característica repetiu-se em populações humanas, a partir de 2013.
 
Dengue, chikungunya e zika são transmitidos principalmente pelo Aedes aegypti, o mesmo das epidemias devastadoras de febre amarela, no passado. Esses mosquitos emergiram em aldeias do Norte da África há milênios, em épocas de seca, quando os habitantes precisavam armazenar água. A adaptação ao convívio doméstico possibilitou a transmissão para o homem e, mais tarde, a disseminação para as Américas e Europa pelo tráfico de escravos.
 
Os sintomas da infecção pelo zika são inaparentes ou semelhantes aos da dengue atenuada: febre baixa, dores musculares e nos olhos, prostração e vermelhidão na pele. Em mais de 60 anos de observação, não foram descritos casos de febre hemorrágica ou morte.
 
Não haveria gravidade não fossem os 73 casos de problemas motores relacionados à síndrome de Guillain-Barré, descritos originalmente na Polinésia Francesa, e a epidemia de microcefalias identificada rapidamente em Pernambuco.
 
Ainda não há testes laboratoriais rotineiros para a identificação dos casos de zika. Quando circulam ao mesmo tempo infecções por dengue e chikungunya o diagnóstico diferencial ganha importância, especialmente em grávidas e na identificação precoce dos casos de dengue hemorrágica, responsáveis pelas mortes associadas à doença.
 
Não existem vacinas contra o zika, embora algumas plataformas possam ser adaptadas em pouco tempo. No entanto, como os casos surgem de forma esporádica e imprevisível, vacinar populações inteiras pode ser proibitivo pelos custos e pela inutilidade de imunizar milhões de pessoas em regiões poupadas pelo vírus.
 
Além de combater os focos do mosquito transmissor, à população restam os recursos que já demonstraram eficácia: repelentes, tela nas janelas, ar condicionado para os que dispõe do equipamento e adiar a gravidez nas regiões assoladas pelo vírus. 
 

"Prisões são um desastre para segurança pública"

Para a diretora da Human Rights Watch, sociedade deve entender que presídios brasileiros, além de violarem direitos, são negativos para a segurança.
 
"A sociedade construiu alguns mitos em relação à maioridade penal. É preciso quebrá-los"
 
Na quarta-feira 27, a Human Rights Watch (HRW) divulgou seu relatório anual sobre a situação dos direitos humanos no mundo e, apesar de constatar alguns avanços no caso brasileiro, condenou a situação catastrófica da segurança pública e do sistema prisional.
 
A retomada dos trabalhos do Congresso em fevereiro, o mais conservador desde a ditadura, trará à tona novamente a discussão de pautas que envolvem direitos humanos e o sistema penitenciário, como a redução da maioridade penal e a revogação do Estatuto do Desarmamento. Para Maria Laura Canineu, diretora do escritório Brasil da organização, o debate no Brasil sobre o tema de direitos precisa evoluir e a sociedade perceber que as prisões não são muito mais do que escolas do crime. 
CartaCapital: Mesmo com as notícias sobre as condições precárias em presídios, a população e o Congresso continuam a incentivar a redução da maioridade penal, que mais pessoas sejam presas. De onde vem este impulso?
 
Maria Laura Canineu: A sociedade tem este impulso porque construiu alguns mitos em relação à maioridade penal. É preciso quebrá-los. Em primeiro lugar, os defensores da proposta afirmam que reduzir a maioridade penal diminuirá a criminalidade. Contudo, é provável que esta medida aumente ainda mais a criminalidade.
 
Nos Estados Unidos, onde há pelo menos 30 anos adolescentes acima de 16 anos vêm sendo tratados como adultos na esfera criminal, estudos apontam que essa prática não serviu para reduzir o crime: pelo contrário, é mais provável que adolescentes julgados como adultos reincidam na conduta criminosa e passem a cometer crimes mais graves em comparação com aqueles que são mantidos nos centros de detenção juvenis.
 
Os defensores da proposta também dizem que a simples ameaça de ser julgado como adulto fará com que os adolescentes fiquem com medo de cometer crimes e que dessa forma, a criminalidade caia. No entanto não há nenhuma evidência disso. Estudos psicológicos demostram que os adolescentes têm uma perspectiva de mais curto prazo que os adultos e atuam mais por impulso.
Por fim, os defensores da proposta dizem que os adolescentes que cometem crimes desfrutam de plena impunidade no Brasil, o que não é verdade. Eles são julgados e podem ser obrigados cumprir medidas socioeducativas.
 
A partir dos 12 anos, adolescentes já são processados e julgados pelas varas de infância e juventude e encaminhados para os estabelecimentos socioeducativos se condenados em até três anos por atos infracionais graves.
 
CC: O presidente norte-americano, Barack Obama, recentemente proibiu jovens de ficar em solitárias e reduziu o tempo máximo para adultos. Que elementos faltam em nossa sociedade para que esse debate também possa ser feito aqui?
 
MLC: Nos Estados Unidos, que é o país com o maior número de presos do mundo, está ocorrendo uma enorme mudança. Políticos de ambos os partidos e até delegados de polícia hoje concordam que o encarceramento em massa não aumenta a segurança pública. Também existe um reconhecimento crescente dos prejuízos de manter penas excessivamente duras.
 
No Brasil, o número de presos aumentou quase sete vezes nos últimos 25 anos, alcançando mais de 600 mil pessoas, que são mantidas em instalações com vagas para 377 mil. Esse crescimento explosivo levou o sistema prisional à beira do colapso, tornando as cadeias focos de violência, doenças e corrupção e de graves violações dos direitos humanos.

Não há assistência médica adequada e as doenças se espalham rapidamente (Human Rights Watch)
 
Trancafiar suspeitos de crimes não violentos juntamente com condenados por homicídio e membros de facções criminosas, como acontece atualmente no Brasil, equivale a enviar novatos à escola do crime. As prisões do Brasil não são só um desastre de direitos humanos, mas também um desastre enquanto política de segurança pública. É preciso que esse tema seja tratado com prioridade por todos os agentes públicos responsáveis pelo assunto prisional.
 
CC: Um governo supostamente progressista está no poder há mais de uma década e o encarceramento em massa foi aprofundado neste período. A HRW tem alguma opinião sobre o que pode acontecer caso um governo mais conservador assuma o poder? 
 
MLC: As graves violações de direitos humanos no sistema carcerário brasileiro são um problema crônico; nem governos de esquerda nem de direita mostraram vontade política de realizar a profunda reforma que é necessária.
 
Os direitos humanos não são uma questão de partido político. Políticas que se baseiam no respeito aos direitos humanos são necessárias não só como reconhecimento da dignidade de todo ser humano, mas também porque levam a políticas de segurança pública muito mais efetivas e eficientes.
 
CC: Para a HRW a privatização do sistema penitenciário é algo que pode melhorar a situação das prisões brasileiras? 
 
MLC: O trabalho da HRW é o de documentar as piores violações de direitos humanos e fazer recomendações para que se dê um fim nos abusos. No sistema penitenciário brasileiro temos documentado graves violações relacionadas com a superlotação, a violência, a falta de controle dos presídios por parte do estado, e situações de graves crimes cometidos dentro do sistema prisional como estupros coletivos.
 
No Maranhão, a segurança do complexo penitenciário de Pedrinhas estava praticamente em mãos privadas no governo anterior e o resultado foi muito negativo. Os terceirizados não recebiam treinamento adequado para trabalhar em um presídio, tinham salários muito abaixo do que os agentes penitenciários do estado, além de condições de trabalho precárias. Essa falta de treinamento colocava em risco a segurança deles e dos próprios detentos. O governo atual está tentando reverter essa situação.

Nesta cela, 60 homens dividem espaço originalmente destinado a seis pessoas (Human Rights Watch)
 
Em Pernambuco existe uma “privatização” perversa, uma vez que o controle dos pavilhões dentro dos presídios está nas mãos de alguns presos, chamados “chaveiros”, e não do próprio Estado.
 
Além disso, a privatização de presídios introduz na gestão empresas cujos interesses econômicos são que o Brasil mantenha os maiores níveis possíveis de encarceramento. Nesse contexto, qualquer reforma para promover medidas alternativas à prisão é mais difícil.
 
Para nós, o melhor modelo de gestão prisional é aquele que garanta a vida, a dignidade, a integridade física, a segurança e a saúde do preso.
 
CC: O Estatuto do Desarmamento vai voltar para a pauta do Congresso em breve. Como a HRW enxerga alterações neste Estatuto?
 
MLC: Os governos têm a responsabilidade de proteger os cidadãos de ações de outras pessoas que ameaçam direitos básicos, como o direito à vida e o direito à segurança, segundo o direito internacional. A violência facilitada pela disponibilidade de armas é uma ameaça para esses direitos fundamentais.
 
O Comitê de Direitos Humanos da ONU tem pedido aos países membros “proteger a sua população contra os riscos pela disponibilidade excessiva de armas de fogo”. As propostas no Brasil para debilitar o Estatuto do Desarmamento vão na contramão dessa recomendação.
 
No Brasil tem um estudo do economista Daniel Ricardo de Castro Cerqueira que demostra que a aplicação do Estatuto do Desarmamento levou à diminuição nos crimes violentos, em particular nos homicídios, no estado de São Paulo entre 2001 e 2007. O título do estudo é representativo: “Menos armas, menos crimes”.
 
 

Profetas da Misericórdia

Dom Alberto Taveira Corrêa

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará

 
Jesus viveu na cidade de Nazaré, dentro de todas as relações sociais de uma vilazinha habitada por pessoas briguentas e implicantes com as outras, com relações mais provincianas do que aquelas ainda encontradas em nossos dias, malgrado o crescimento, a técnica, comunicações e outros acréscimos mais oferecidos pela cultura corrente. Ali, quando alguém, criado nas vielas e no meio da criançada e depois juventude, aprendiz de carpinteiro, certamente amigo de tanta gente, volta e se faz realizador das profecias, o fato suscitou reações fortes que chegaram aos limites do ódio, com o qual muitos pretenderam eliminá-lo. Jesus teve que passar pelo meio da multidão, escapando para não ser lançado no precipício (Cf. Lc 4, 21-30). Entretanto, sua presença deixou estupefatos os habitantes de Nazaré: “Seus discípulos o acompanhavam. No sábado, começou a ensinar na sinagoga, e muitos se admiravam. ‘De onde lhe vem isso? ’, diziam. ‘Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E esses milagres realizados por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E suas irmãs não estão aqui conosco? ’ E mostravam-se chocados com ele. Jesus, então, dizia-lhes: ‘Um profeta só não é valorizado na sua própria terra, entre os parentes e na própria casa’. E não conseguiu fazer ali nenhum milagre, a não ser impor as mãos a uns poucos doentes. Ele se admirava da incredulidade deles. E percorria os povoados da região, ensinando” (Mc 6, 1-6).
 
 
Por onde passava, o povo experimentava a alegria: “Cheios de grande admiração, diziam: Tudo ele tem feito bem. Faz os surdos ouvirem e os mudos falarem” (Mc 7, 37). O Senhor Jesus só fez o bem e manifestou a infinita misericórdia do Pai, não deixando passar perto de si os cegos, os coxos e estropiados, mudos, paralíticos, marginalizados e pecadores de todo tipo. Justamente por isso foi julgado, condenado e morto, para depois ressuscitar glorioso ao terceiro dia. Perto dele se encontravam os discípulos, começando pelos apóstolos, para alargar cada vez mais o círculo, chamando homens e mulheres do meio das multidões que se multiplicam pelos séculos afora. A porta é sempre a do perdão e da misericórdia. As testemunhas mais significativas são justamente aquelas que foram banhadas pelo óleo do perdão e acolhidas com o abraço do pastor, que vai ao encontro da ovelha perdida e a traz sobre os ombros. Há poucos dias, o Papa Francisco abençoou os carneirinhos dos quais é tirada a lã para confeccionar os pálios dos Arcebispos nomeados a cada ano, chamados justamente a serem sinais do amor misericordioso, que busca quem está perdido.
 
Mas esta é a vocação de todos os cristãos, feita também matéria do exame a ser aplicado no fim dos tempos, a prova da misericórdia. Se a Igreja e os cristãos são julgados, quem sabe condenados, perseguidos e incompreendidos, que seja pela prática da bondade e da misericórdia. Nas “nazarés” de todos os tempos, permita o Senhor que todos os discípulos de Jesus passem fazendo apenas o bem, e que suas mãos não se manchem com a iniquidade e eles não sejam motivo de escândalo para os pequeninos.
 
Como a fragilidade humana acompanha nossa história pessoal e de Igreja, a proclamação contínua da misericórdia, mormente em tempos transformados em “Jubileu”, somos convidados a acorrer ao trono do perdão ilimitado do Senhor. Ponto de partida é o reconhecimento sincero e honesto das fraquezas e pecados cometidos, para que assim o Espírito Santo encontre corações abertos à unção do perdão. Quem se julga mais perfeito do que os outros, espécime superior diante do comum dos mortais, fecha a porta para a experiência magnífica do perdão misericordioso de Deus e para o consequente crescimento na virtude. Daí a insistência da Igreja, no Ano da Misericórdia, convidando à peregrinação, oração, sacramento da Penitência, tudo isso simbolizado na passagem pelas muitas portas santas da Misericórdia abertas por toda parte.
 
 
Entretanto, a Igreja convida a espalhar a misericórdia, através das chamadas “Obras de Misericórdia”, para que todos experimentem a alegria de ser misericordiosos como o Pai. A Arquidiocese de Belém, inspirada pela proposta feita pelo Papa Francisco aos jovens que se preparam à Jornada Mundial da Juventude, convida todos os irmãos e irmãs que se sentem tocados pela graça do Jubileu, a colocarem em prática, pouco a pouco, estes gestos corporais e espirituais, durante o ano corrente. Para o mês de fevereiro, desejamos juntos praticar duas obras de misericórdia espirituais: Dar bom conselhos e ensinar os que precisam.
 
Aconselhar é orientar e ajudar a quem precisa. O Salmista nos convida a rezar: “Bendigo o Senhor que me aconselhou; mesmo de noite meu coração me instrui” (Sl 16, 7). Jesus nos orientou e aconselhou a não sermos cegos guiando cegos (Cf. Mt 15, 14), e também a primeiro tirarmos a trave do nosso olho, para depois tirar o cisco do olho do irmão (Lc 6, 39). Dar bons conselhos e não qualquer conselho. Para isso, é preciso mergulhar na graça do Espírito Santo e perceber os sinais de Deus que nos auxiliam na compreensão dos fatos. Aconselhar não é pretender adivinhar o futuro, muito menos projetar nossas angústias; é ajudar, à luz da oração e do conhecimento da vontade de Deus, a quem nos pede um discernimento nas opções e decisões a serem tomadas. 
 
Ensinar os que precisam não é apenas transmitir conhecimentos, ensinar os valores  do Evangelho, formar  na doutrina e nos bons costumes éticos e morais. A história da salvação é sem dúvida uma instrução contínua e interrupta da parte de Deus para com a humanidade. Nossa tarefa é instruir as pessoas, começando pelo nosso exemplo, chegando à Palavra e os ensinamentos sistemáticos. À comunidade dos Colossenses Paulo diz: “A palavra de Cristo permaneça em vós com toda sua riqueza, de sorte que com toda sabedoria possais instruir e exortar-vos mutuamente.” (Cl 3, 16). Toda instrução que brota  da caridade, oração e paciência gera frutos em abundância.