sábado, 28 de março de 2015

Polícia Federal investiga fraude de até R$ 19 bilhões na Receita Federal




Na manhã desta quinta-feira (26) a Polícia Federal deflagrou a Operação Zelotes, responsável por desarticular organizações criminosas que podem ter rendido um prejuízo de até R$19 bilhões à Receita Federal. Os 41 mandados de busca e apreensão serão cumpridos em Brasília, São Paulo e no município de Juazeiro do Norte, no interior do Ceará.
 
O esquema de corrupção ocorria no Carf (Conselho de Administração de recursos Fiscais), órgão que realiza julgamento de recursos administrativos de autuação promovidas pela Receita Federal.
 
Cerca de 180 policiais federais e mais 55 fiscais da Receita Federal integram a operação. As investigações, que se iniciaram ainda em 2013, mostraram que servidores do órgão estariam manipulando o trâmite de processos e até mesmo o resultado de julgamentos junto ao conselho. Segundo a PF, o prejuízo de R$ 5,7 bilhões já foi confirmado.
 
As informações são de que o esquema buscava corromper conselheiros para diminuir ou anular multas aplicadas. Os servidores envolvidos repassavam informações para escritórios de assessoria, consultoria e advocacia nas localidades envolvidas para captar clientes e oferecer facilidades no órgão da Receita.
 
Os investigados devem responder por crime de advocacia administrativa fazendária, tráfico de influência, corrupção passiva, corrupção ativa, associação criminosa, organização criminosa e lavagem de dinheiro, penas que se somadas podem chegar a mais de 50 anos de prisão.
 
 

domingo, 15 de março de 2015

Desmatamento na Floresta Amazônica aumenta mais de 400%

Aumento aconteceu em comparação a novembro de 2013.
Dado foi divulgada pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia
 
 
Levantamento de uma ONG do Pará mostra a devastação da Floresta Amazônica. Segundo o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), só em junho do ano passado uma área do tamanho de uma capital foi desmatada na floresta.
 
A área que desapareceu da floresta no ano passado é tão grande que caberiam nela quase 406 mil campos iguais ao do Maracanã. Foram destruídos 2.898 km². Árvores e mais árvores foram derrubadas. Pouco mais da metade dessa área desapareceu no primeiro semestre de 2014. Em junho, mais de 800 km² de verde sumiram, a maior taxa do ano passado. Comparando com uma capital do país, pode-se dizer que uma área do tamanho de São Luís, no Maranhão, foi toda destruída.
 
 
Agora é tempo de chuvas na Amazônia e fica mais difícil monitorar o desmatamento. É por isso que o boletim do Imazon preocupa. Mesmo com o céu encoberto por muitas nuvens, os satélites revelaram que, em novembro de 2014, a destruição da floresta aumentou em 427% em relação a novembro de 2013.

O Mato Grosso (18%) e o Pará (70%) foram os estados que mais desmataram. Em Mato Grosso, para aumentar a produção de soja e milho. Já no Pará, são as obras de infra-estrutura e a construção de usinas hidrelétricas que vêm contribuindo para a especulação de terras públicas e a derrubada da floresta.

“Essas obras de infra-estrutura que estão sendo implementadas na região têm atraído um volume muito grande de pessoas para cá. Isso acaba favorecendo a ação de grileiros na região,  que tentam tomar posse através do desmatamento de novas áreas, para tentar regularizar e, posteriormente, tentar vender essas áreas”, afirma Antônio Fonseca, pesquisador Imazon.

“O que a gente tem feito como medida para conter isso é basicamente publicar uma lista com áreas embargadas, porque aí eu impeço e crio uma restrição em cima dessas áreas, eu impeço que haja financiamento público, através dos órgãos de financiamento do estado, eu impeço que haja uma regularização fundiária. São medidas para combater e impedir o desmatamento”, explica Hildemberg Cruz, secretário adjunto do Meio Ambiente.
 
 
Segundos os pesquisadores do Imazon, esse aumento significativo é explicado principalmente porque em novembro de 2013 a área analisada foi menor, por causa da grande concentração de nuvens na região. Na medição de 2014, os satélites registraram novos focos de desmatamento, especialmente no nordeste do Pará, que não tinham sido detectados antes, pois a área de abrangência do satélite estava encoberta.
 
O Ministério do Meio Ambiente não comenta dados de desmatamento da ONG Imazon por não se tratar de informações oficiais. Os dados oficiais do desmatamento na Amazônia são do Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélites, do Inpe.
 
 

Segurança Pública brasileira é improdutiva, violenta e reproduz desigualdades

 Relatório final da Comissão da Verdade paulista sistematiza historicamente o viés repressivo da polícia e pede a desmilitarização e a unificação das polícias
 
 
Apenas a polícia brasileira foi responsável por seis mortes por dia, em 2013, reflexo da ideologia militar da corporação, segundo o relatório da Comissão. Hoje, o Brasil é responsável por um em cada dez homicídios no mundo
 
"A Polícia Militar tem uma organização e formação preparada para a guerra contra um inimigo interno e não para a proteção. Desse modo, não reconhece na população pobre uma cidadania titular de direitos fundamentais, apenas suspeitos que, no mínimo, devem ser vigiados e disciplinados, porque assim querem os sucessivos governantes, ontem e hoje." Essa é a conclusão do capítulo sobre a militarização da polícia brasileira, presente no relatório final da Comissão da Verdade "Rubens Paiva", divulgado nesta quinta-feira 12.
 
Através de um estudo histórico, que recupera a formação das polícias brasileiras desde o período colonial, o relatório sistematiza o modelo escolhido pelo Brasil para formar seus policias e sugere uma profunda reforma da Segurança Pública a fim de acabar com o crescimento recorde de mortes de civis e policiais e com a "improdutividade" das corporações, que hoje estão divididas em duas polícias, cada uma com duas carreiras.
 
O debate sobre a necessidade de reformar a Segurança Pública brasileira não é exclusividade da Comissão da Verdade. Segundo pesquisa DataFolha de 2014, a segurança já é a segunda maior preocupação dos brasileiros. E não é à toa. Hoje, o Brasil é responsável por um em cada dez assassinatos cometidos no mundo. Diariamente, 154 pessoas são mortas no País. Por outro lado, fontes extraoficiais estimam que o número de pessoas presas no Brasil já beira 600 mil pessoas, o que faz do País o terceiro maior em população carcerária do mundo, apenas atrás de Estados Unidos e China. Em doze anos, o crescimento carcerário brasileiro foi de mais de 620%, enquanto o populacional foi em torno de 30%.
 
Uma das causas deste cenário de caos reside, segundo o relatório, na incapacidade da Polícia Militar se adaptar ao regime democrático. "A Polícia Militar foi e continua sendo um aparelho bélico do Estado, empregada pelos sucessivos governantes no controle de seu inimigo interno, ou seja, seu próprio povo, ora conduzindo-o a prisões medievais, ora produzindo uma matança trágica entre os residentes nas periferias das cidades ou nas favelas", afirma o texto. Segundo o documento, a concepção militar da polícia é voltada para o controle político e não para a prevenção da violência e criminalidade. A avaliação do relatório é reforçada por levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Anistia Internacional. Segundo estas organizações, a polícia brasileira matou, em média, seis pessoas por dia, em 2013. No ano anterior, 30 mil jovens brasileiros foram mortos, sendo 77% deles, negros.
 
A alta letalidade policial e suas práticas repressivas não foram, no entanto, as únicas marcas deixadas pela ditadura na gestão da segurança pública brasileira. Em depoimento prestado à Comissão, o ex-funcionário da Secretaria Nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares revelou que, até meados dos anos 2000, policiais militares ainda recebiam aulas de tortura nas corporações. "Nós nos esquecemos que a transição (democrática) passou de forma insuficiente pelas áreas da Segurança Pública", disse. “Até 1996, na formação da Polícia Civil do Rio de Janeiro havia aulas sobre como bater. Não é defesa pessoal, porque é indispensável, é como bater. O Bope oferecia, até 2006, aulas de tortura. E não estou me referindo, portanto, apenas às veleidades ideológicas de um e de outro, nós estamos falando de procedimentos institucionais”, completou Soares, que também é ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro.
 
Assim como no período ditatorial, os assassinatos e a tortura exercidos pelos agentes públicos seguem, na maioria dos casos, impunes. A ONG Conectas Direitos Humanos analisou, em 2014, 455 decisões de todos os Tribunais de Justiça do Brasil sobre denúncias de torturas. Ao final, o levantamento constatou que policiais e funcionários do sistema prisional condenados em um primeiro julgamento foram absolvidos, na segunda instância, em 19% dos casos. Entre agentes privados, o índice de absolvição cai praticamente pela metade (10%).
 
A dependência da polícia por parte de órgãos investigativos e de perícia, como o Instituto Médico Legal (IML), é uma das razões para a impunidade em casos de violência policial. "É como se um colega produzisse provas contra outro, o que implica em conflitos de interesse", afirma Vivian Calderoni, advogada da Conectas. O mesmo raciocínio é utilizado pelo documento da comissão em relação às mortes decorrentes de conflito com a polícia, os chamados autos de resistência. "Não há investigação sobre os autos de resistência, o que garante, através da impunidade, a permissividade dos crimes, com aval e promoção institucional", afirma o documento. Atualmente, existem diversos projetos pelo fim dos autos de resistência no Congresso, porém, todos estão emperrados na burocracia do parlamento.
 
Levantamentos como o da ONG Conectas revelam que a cultura de uma polícia repressiva e, muitas vezes, impune, é uma realidade nacional. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a tropa mais letal do País é a do Rio de Janeiro, seguida pela de São Paulo, depois Bahia e Pará, "estados governados por partidos políticos diferentes, o que sugere que essa cultura carcerária é compartilhada por diversas forças políticas", diz a comissão.
Por outro lado, o Brasil também possui o recorde de policiais assassinados no mundo: 490 em 2013, 43 a mais do que em 2012. Por conta disso, a proposta de desmilitarização policial encontra grande aceitação entre os policiais de baixa patente. Uma pesquisa da FGV, de 2014, mostra que 73,7% dos policiais apoiam a desmilitarização. Segundo a mesma pesquisa, entre os policiais militares, o índice sobe para 76,1%.
 
Ao todo, estima-se que os custos ligados à violência, em 2013, giraram em torno de 258 bilhões de reais, sendo que a maior decorreu da perda do capital humano, com mortes e invalidez, representando 114 bilhões de reais.
 
Uma história de repressão
 
Do ponto de vista da organização e instrução, a polícia brasileira, do Brasil Colônia até a República, se constituiu como uma força militar, com a finalidade de garantir a ordem interna e, por vezes, ser o exército da elite do estado ou província. No Brasil colônia, por exemplo, uma das funções da polícia era garantir a submissão dos escravos. Já na República, a polícia paulista era caracterizada como uma força militar estadual, ou seja, um pequeno exército a serviço da elite cafeeira.
 
No entanto, foi em 1967, com o decreto da Doutrina de Segurança Nacional, que se fortaleceu a ideia das polícias como forças repressivas com o intuito de combater um inimigo interno, no caso, o comunismo ou a subversão. "Com a criação da Doutrina de Segurança Nacional se criou a figura do inimigo interno. O Exército tem o seu inimigo externo, mas na Doutrina de Segurança Nacional se cria a figura do inimigo interno, que é para fazer o combate à luta armada", afirma o coronel reformado da Polícia Militar Fábio Gonçalves, em depoimento.
 
Em 1969, o presidente ditador Costa e Silva, outra vez por meio de decreto, reorganiza as polícias militares. No mesmo ano, tem início a Operação Bandeirante, um órgão de repressão política criado por acordo entre as Forças Armadas e a Polícia Militar paulista, sob ordem do governo estadual e com apoio político e material de empresários. No ano seguinte, a relação entre militares e policiais militares se intensifica e cria-se o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna), que posteriormente terá sua atuação nacionalizada com órgãos semelhantes fora do estado de São Paulo.
 
Segundo o relatório, é neste bojo que acontece a unificação da Força Pública e Guardas Civis Estaduais, consolidando a Polícia Militar como a conhecemos hoje. "[Graças ao] golpe dentro do golpe [AI5] que se militarizam ao extremo as forças de segurança, centraliza-se o comando, o controle, a coordenação do sistema", diz o relatório.
 
Nesse sentido, o relatório sugere a desmilitarização e unificação das polícias, com o fim da duplicidade das carreira policiais, como medida fundamental para reverter o carácter repressivo das forças de segurança civil. Além disso, pede-se a revogação dos decretos que integra a P/2 das Polícias Militares ao Serviço Secreto do Exército, produtos legais também da ditadura civil-militar.
 

Brasil vive dia de protestos massivos contra Dilma

PM estimou 1,4 milhão de manifestantes em mais de 70 cidades brasileiras, mas número de manifestantes em São Paulo pode ter sido sobrevalorizado. Governo promete pacote anticorrupção
 
Apesar da divergência nas estimativas, o Brasil viveu um dia de protestos massivos. Segundo a Polícia Militar, os atos contra o governo de Dilma Rousseff (PT) e a corrupção reuniram 1,4 milhão de pessoas em 16 estados e o Distrito Federal. Somente em São Paulo, a PM estimou um público de 1 milhão às 15h40. Os números das autoridades podem estar sobrevalorizados. O Datafolha estimou um público de 210 mil na avenida Paulista, que seria o maior na cidade desde o das Diretas-Já, quando cerca de 400 mil se reuniram na Praça da Sé em 1984. Em resposta às manifestações, o governo federal anunciou que irá apresentar um pacote de medidas contra a corrupção nos próximos dias.
 
O Datafolha estimou um público de 210 mil na avenida Paulista, inferior ao da Diretas-Já, que reuniu cerca de 400 mil na Praça da Sé em 1984
 
Os atos ocorreram em mais de 70 cidades brasileiras. Os protestos, convocados pela internet e pelo Whatsapp, foram encabeçados pelos movimentos Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre e Revoltados Online, grupos que se dizem apartidários e se caracterizam pela pauta anti-corrupção -- no caso dos dois últimos, defendem o impeachment de Dilma.
 
Cartazes com pedidos por intervenção militar no País multiplicaram-se nos atos, embora a maioria dos manifestantes não defendesse a medida. Na avenida Paulista, dois dos caminhões de som envolvidos no ato pediram explicitamente um golpe de Estado para remover o PT e Dilma do poder. Os veículos eram dos grupos S.O.S Forças Armadas e Movimento Alô Brasil, Acorda. Do alto de um dos carros, um ativista comemorou. "1964 está mais vivo do que nunca". Também estiveram presentes no protesto na Paulista organizações de extrema-direita. Vinte integrantes do grupo de skinheads "Carecas do Subúrbio" foram conduzidos ao 2º D.P. por porte de explosivos.
 
Apesar de serem maioria nas ruas, a manifestação na capital paulista não se resumiu às classes média e alta. CartaCapital entrevistou trabalhadores de baixa renda descontentes com a corrupção e a situação econômica do País. Durante uma entrevista com uma das lideranças do Movimento Brasil Livre, nossa equipe de reportagem sofreu ofensas de um grupo de manifestantes e teve de ser escoltada para sair com segurança do local (assista ao vídeo no final da reportagem).
 
O protesto na capital paulista foi precedido por diversos atos em cidades interioranas e do litoral do estado. Em Ribeirão, 40 mil pessoas foram às ruas, de acordo com as autoridades. Em Santos, a PM estimou a presença de 10 mil na Praça da Independência. Em Campinas, foram registrados 15 mil manifestantes.
 
Em Brasília, o número de manifestantes surpreendeu os organizadores. A Polícia Militar estimou cerca de 50 mil protestantes na Esplanada dos Ministérios. O gramado em frente ao Congresso Nacional ficou praticamente tomado na parte da manhã. Os manifestantes jogaram 3 mil flores no espelho d’água em frente ao Parlamento. A manifestação foi conduzida por três carros de som e dispersou-se por volta das 13h. A capital federal vive uma crise dupla: além do descontentamento com o governo federal, nítido na expressiva vitória de Aécio Neves no Distrito Federal nas eleições de 2014, o PT local está desacreditado. O ex-governador petista Agnelo Queiroz deixou um rombo bilionário nos cofres públicos após sair do cargo no ano passado.
 
No Rio de Janeiro, a PM estimou que 15 mil estiveram presentes ao ato na avenida Atlântica, em Copacabana. O tucano Aécio Neves, que estava em seu apartamento em Ipanema, não marchou com os manifestantes, mas vestiu uma camisa da Seleção Brasileira e acenou de sua janela, com um dos filhos gêmeos no colo. "Depois de refletir muito, eu optei por não estar nas ruas neste domingo, para deixar muito claro quem é o grande protagonista destas manifestações", afirmou o tucano, em sua conta no Facebook. "Ele é o povo brasileiro, o povo cansado de tantos desmandos, de tanta corrupção. Mas, por isso, não vamos nos dispersar!"
 
Durante o ato em Copacabana, houve uma briga entre manifestantes e um senhor que usava uma camisa vermelha do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia. Aos gritos de "Vai para Cuba", o homem decidiu retirar a camisa. Além das faixas a pedir intervenção militar e o impeachment da presidenta, o STF também foi alvo de protestos dos cariocas. Manifestantes ostentavam em Copacabana uma faixa com os dizeres "Fora Supremo, Fora Dilma. Queremos apenas o Ministério Público e a Polícia Federal".
 
O bom senso surgiu de um local inesperado. O trineto de Dom Pedro II, dom João de Orleãs e Bragança, participou do ato no Rio, mas se disse contra o impeachment. "A presidente ganhou as eleições legitimamente", afirmou. Na parte da tarde, cerca de 2 mil pessoas se reuniram na Candelária, centro da cidade.
 
Em Belo Horizonte, o protesto reuniu 24 mil pessoas na Praça da liberdade, segundo a Polícia Militar. Embora tenha ganho a eleição em Minas Gerais, o PT perdeu a disputa presidencial em Belo Horizonte para Aécio Neves, ex-governador do estado. Massivo pela manhã, o protesto fragmentou-se na parte da tarde.
 
Na região Sul do País, os protestos foram relevantes. Em Curitiba, 80 mil foram às ruas protestar contra o governo federal, segundo as autoridades. Em Porto Alegre, a PM estimou que 100 mil participaram do protesto no Parcão. No Nordeste e no Norte, que votaram em peso em Dilma Rousseff nas eleições de 2014, a presença do público foi mais tímida. A maior parte dos atos concentrou-se na parte da manhã. Em Salvador, apenas 2 mil foram ao protesto no Farol da Barra. Em Recife, 8 mil foram às ruas, segundo a Polícia Militar.
 
Os ministros José Eduardo Cardozo, da Defesa, e Miguel Rossetto, secretário-geral da Presidência, foram escalados para anunciar a apresentação nos próximos dias de um pacote de medidas contra a corrupção elaborado pelo governo federal. "Na manifestação de sexta-feira e de hoje, há um ponto de identidade: o desejo dos brasileiros e brasileiras de um combate firme e rigoroso à corrupção", afirmou Cardozo, que defendeu ainda a necessidade de uma ampla reforma do sistema político-eleitoral e o veto a doações empresariais em campanhas eleitorais.
 
Rossetto defendeu a necessidade de se ampliar o diálogo com a sociedade sobre os ajustes ficais realizados pelo ministro Joaquim Levy. O ministro citou o diálogo com o Congresso para aprovar o reajuste da tabela do Imposto de Renda de forma escalonada como prova de que é possível negociar com os setores descontentes. Rossetto afirmou ainda que o protesto foi conduzido por aqueles que não votaram em Dilma em 2014.
 

Milhares saem às ruas gritando “Fora Dilma” e “Lula na cadeia”

 
Milhares de pessoas lotaram hoje a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para pedir o impeachment de Dilma Rousseff.
 
A manifestação foi majoritariamente da classe média branca que vive na Zona Sul da cidade.
“Na nossa bandeira, não tem a cor vermelha”, cantavam.
Também foram ouvidos gritos de “o povo acordou”.
 
 
A música “Pra Não Dizei que não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, um clássico geralmente associado à esquerda, também foi utilizado durante a manifestação.
 
O movimento “Vem pra Rua”, que se diz apartidário, conduziu um carro de som que acompanhou a passeata. Uma oradora disse que “o primeiro objetivo de um tirano é dividir o povo entre vermelhos e azuis. Não sou azul, nem vermelha, sou brasileira”.
 
Houve ecos de 64 na manifestação, com menções a Hugo Chávez, a Cuba e a outros símbolos do que os manifestantes acreditavam representar o “perigo vermelho”.
 
Saindo de Copacabana, foram em direção ao Leme, recebendo adesões de moradores que desciam de seus apartamentos.
 
 
Um pequeno grupo pedia abertamente a intervenção militar, cantando hinos das Forças Armadas. Foram discretamente vaiados. Um manifestante solitário carregou a bandeira do movimento integralista, pedindo o fim dos partidos e dos sindicatos.
 
Os maiores alvos foram a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula.
“Fora Dilma” e “Lula na cadeia” foram repetidos durante todo o trajeto.
 
Análise de Igor Fellipe, do MST, sobre a cobertura da Globo: “A Globo está, claramente, convocando a população para os atos em todo o Brasil, criando um clima de comoção nacional contra a Dilma. Em todos os comerciais do Esporte Espetacular, faz um panorama nacional dos protestos, descreve as roupas usadas, músicas cantadas. Dá grande destaque para o local dos atos, trajetos e pontos finais”.
 

Papa anuncia um Jubileu extraordinário: Ano Santo da Misericórdia


Cidade do Vaticano (RV) - Um Jubileu extraordinário, Um  Ano Santo da Misericórdia: foi o anúncio que o Papa Francisco fez na tarde desta sexta-feira, na Basílica Vaticana, durante a homilia da celebração penitencial com a qual o Pontífice abriu a iniciativa “24h para o Senhor”. Um anúncio acolhido com o aplauso dos presentes.

“Decidi convocar um Jubileu extraordinário centralizado na misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia. Queremos vivê-lo à luz da palavra do Senhor: “Sede misericordiosos como o vosso Pai” (cfr Lc 6,36). Este Ano Santo – explicou o Papa – terá início na próxima solenidade da Imaculada Conceição e se concluirá em 20 de novembro de 2016, Domingo de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do universo e rosto vivo da misericórdia do Pai.”

Durante a homilia Francisco ressaltou a riqueza da misericórdia de Deus evidenciando “com quanto amor Jesus olha para nós, com quanto amor cura o nosso coração pecador”.
Francisco vê o Jubileu extraordinário como uma oportunidade mediante a qual “a Igreja pode tornar mais evidente a sua missão de ser testemunha da misericórdia”.

Confio a organização deste Jubileu ao Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, a fim de que possa animá-lo como uma nova etapa do caminho da Igreja em sua missão de levar a toda pessoa o Evangelho da misericórdia. Estou certo de que toda a Igreja poderá encontrar neste Jubileu a alegria para redescobrir e tornar fecunda a misericórdia de Deus, com a qual todos somos chamados a dar consolação a todo homem e toda mulher de nosso tempo.

 O Santo Padre dedicou toda a homilia ao tema da misericórdia: como recorda o apóstolo Paulo – disse Francisco, referindo-se à primeira leitura –, “Deus jamais cessa, ao longo dos séculos, de mostrar a riqueza da sua misericórdia.

“O Evangelho – continuou – “nos abre um caminho de esperança e de conforto”. Atendo-se ao trecho que narra o episódio da pecadora que lava os pés de Jesus e os enxuga com seus cabelos, beija-os e os unge com óleo perfumado, enquanto Simão, o dono da casa que convidou o Mestre à sua mesa, a julga uma pecadora, o Papa ressaltou duas palavras que retornam com insistência: amor e juízo.
“Há o amor da mulher pecadora que se humilha diante do Senhor; mas antes ainda há o amor misericordioso de Jesus por ela, que a impele a aproximar-se.”

 “Cada gesto desta mulher fala de amor e expressa seu desejo de ter uma certeza inquebrantável em sua vida: a de ter sido perdoada. E Jesus lhe dá essa certeza: acolhendo-a demonstra-lhe o amor de Deus por ela, justamente por ela! O amor e o perdão são simultâneos: Deus lhe perdoa muito, tudo, porque “muito amou” (Lc 7,47).

 Esta mulher verdadeiramente encontrou o Senhor. No silêncio, abriu-lhe o coração; na dor, mostrou-lhe o arrependimento por seus pecados; com seu choro, apelou à misericórdia divina para receber o perdão. Para ela não haverá nenhum juízo a não ser o que vem de Deus, e este é o juízo da misericórdia. O protagonista deste encontro é certamente o amor que vai além da justiça.”

Simão o fariseu, pelo contrário – frisou o Santo Padre –, “não consegue encontrar o caminho do amor”. “Em seus pensamentos invoca somente a justiça, e assim fazendo, erra. Seu juízo sobre a mulher o distancia da verdade e não lhe permite nem mesmo compreender quem é o seu hóspede. Deteve-se na superfície, não foi capaz de olhar para o coração.”

 “O chamado nos impele cada um de nós a não ficar na superfície das coisas, sobretudo quando temos diante de nós uma pessoa. (...) Ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus; todos conhecem o caminho para ter acesso a ela e a Igreja é a casa que a todos acolhe e a ninguém rejeita. Suas portas permanecem escancaradas – concluiu Francisco –, a fim de que aqueles que são tocados pela graça possam encontrar a certeza do perdão.”

Trata-se de um acolhimento que encontra sua imagem simbólica justamente no rito inicial do Jubileu extraordinário anunciado: a abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro, em 8 de dezembro próximo. (RL)


FONTE: RADIO VATICANO
 

Escolher a Cristo

 
Jesus frustrou as expectativas de muita gente. Depois de terem visto o sinal que Ele realizou, as pessoas disseram: ”Este é mesmo o Profeta que devia vir ao mundo” e quiseram pegá-lo para fazê-lo rei, mas Jesus fugiu sozinho para as montanhas.

Depois desse episódio, o Evangelho de João apresenta um longo discurso de Jesus, com o objetivo de desfazer mal-entendidos. Sua fala, em resumo, consiste em: na pessoa de Jesus, Deus oferece à humanidade um pão que sustenta para sempre. Esse pão é a pessoa de Jesus, o maior presente que o Pai fez ao mundo.

Quem recebe esse pão e o assimila (Eucaristia), descobre que Deus lhe confia uma tarefa, que é a adesão a Jesus, tornando-se, também, pão partilhado para a vida de todos. Não há meio termo: quem recebe Jesus como pão não pode eximir-se da responsabilidade de ser, como Ele, pão para a vida dos outros. A Eucaristia e a encarnação põem as pessoas diante de uma decisão. E aqui surgem muitas crises e abandonos.

João nos informa que muitos dos discípulos de Jesus se escandalizaram e ele fala justamente de discípulos. O texto reflete a situação da comunidade de João no final do primeiro século. Nessa comunidade, já não se acreditava mais que a Eucaristia - encarnação de Jesus em nossa realidade – supõe e exige que nos tornemos pão para os outros.

Jesus decepcionou muita gente, pois Ele não procurou a glória das pessoas (recusa-se a ser rei), nem prometeu glória a quem pretende segui-lo. A realeza de Jesus consiste em doar-se até esgotar a própria vida. Em outras palavras, é preciso que nos doemos aos nossos irmãos, à semelhança do Filho do Homem, que se fez pão.

Sabemos que o pão não tem fim em si mesmo. Ele existe para ser consumido, para devolver vida a quem esteja com fome. Assim é Jesus. Assim deverão ser seus seguidores.
O Espírito é força que animou Jesus na tarefa de ser pão para a vida do mundo. Ele é a força do amor. Os que amam sabem que a vida não tem sentido se não se traduzir em pão, isto é, em dom a ser partilhado com os outros: ”É o Espírito que dá a vida, a carne não serve para nada. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida”.

O ser humano sozinho não compreende e não consegue ser pão para os outros, pois, em geral, as pessoas buscam, sim, a vida, mas na maioria das vezes, procuram a vida somente para si. O Espírito de Jesus, ao contrário, mostra que a vida é para ser partilhada e a morte pode se tornar a maior expressão de amor. Jesus e o Espírito não dispensam as pessoas de amar até a doação da vida.

Ele afirma: “Ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai. Através do Evangelho, ficamos sabendo que o Pai entregou tudo a Jesus e que é por meio de Jesus que o Pai atrai a si as pessoas. Para aderir ao Pai, as pessoas precisam se aproximar de Jesus. É por isso que, mais adiante, Ele se define como o Caminho. Jesus é o Caminho para a vida que o Pai quer para todos. Não há outra alternativa: ou fazemos como Jesus e assim chegamos ao Pai da vida, ou abandonamos Jesus e nos comprometemos com o projeto de morte. É por isso que a palavra de Jesus é dura e muitos discípulos voltam atrás.

Mas cada um de nós deve seguir e exemplo de Pedro. Não temos a quem ir. Só Cristo tem palavras de vida eterna.
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 

Especialistas debatem governança da água no Brasil

chamada

Representantes da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) se reúnem de 9 a 11 de março, em Brasília, para discutir assuntos como governança da água, alocação negociada e o Pacto Nacional pela Gestão das Águas. Também participam do evento representantes do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), de instituições do Singreh e de sistemas estaduais de gerenciamento de recursos hídricos.
Durante o encontro, será analisado e debatido entre os presentes o relatório produzido pela OCDE no âmbito do projeto “Diálogo Político OCDE-Brasil sobre Governança da Água”, parceria entre a ANA e a OCDE para o fortalecimento do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh).
O Diálogo Político OCDE/Brasil sobre Governança da Água é baseado na análise da realidade do País e na troca de experiências internacionais sobre o tema. O trabalho busca fornecer diretrizes e orientações para melhorar a capacidade de se lidar com um ambiente institucional e territorial complexo e variado – como é o caso do Brasil –, demanda competitiva pela água e necessidade de segurança hídrica.

O Diálogo vem sendo desenvolvido sob dois pilares: alocação de água e o Pacto Nacional pela Gestão das Águas. O trabalho vem sendo realizado pela equipe da OCDE, composta por funcionários da Organização, especialistas internacionais de Portugal e Austrália e três revisores-pares vindos de países considerados referência no tema (Canadá e África do Sul) e da Comissão Europeia.
A última rodada de reuniões entre ANA e OCDE aconteceu em 2014.
OCDE
Criada em 1961, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico busca promover políticas que aperfeiçoem o bem-estar econômico e social das pessoas ao redor do planeta. A OCDE é um fórum que proporciona a governantes o compartilhamento de experiências e a busca por soluções para problemas em comum. Com sede em Paris, França, a instituição conta com 34 países-membros e também atua conjuntamente com países emergentes, como Brasil, China e Índia.
Pacto Nacional pela Gestão das Águas
Lançado pela Agência Nacional de Águas em 2013, o Pacto Nacional pela Gestão das Águas tem como objetivo estimular a gestão de recursos hídricos junto aos estados e ao Distrito Federal. O Pacto disponibilizará para cada unidade da Federação R$ 3,75 milhões, divididos em cinco parcelas, a partir do cumprimento de metas para aperfeiçoar a gestão e promover o uso sustentável da água. Todos os Estados e o Distrito Federal aderiram ao Pacto.
Texto:Carol Braz, Ascom/ANA

Foto: Natália Sampaio / Banco de Imagens ANA
 

Qual a visão cristã a respeito do suicídio? O que diz a Bíblia a respeito do suicídio?

 
A Bíblia menciona seis pessoas específicas que cometeram suicídio: Abimeleque (Juízes 9:54), Saul (1 Samuel 31:4), o escudeiro de Saul (1 Samuel 31:4-6), Aitofel (2 Samuel 17:23), Zinri (1 Reis 16:18) e Judas (Mateus 27:5). Cinco deles eram homens pecadores e perversos (não se sabe o suficiente sobre o escudeiro de Saul para fazer um julgamento a respeito de seu caráter). Alguns consideram Sansão um exemplo de suicídio (Juízes 16:26-31), mas o seu objetivo era matar os filisteus e não a si mesmo. A Bíblia enxerga o suicídio da mesma forma que assassinato, pois isso é exatamente o que é - auto-assassinato. Cabe a Deus decidir quando e como uma pessoa deva morrer.

De acordo com a Bíblia, o suicídio não é o que determina se uma pessoa ganha ou não acesso ao céu. Se um descrente cometer suicídio, ele não fez nada mais do que “acelerar” a sua jornada para o lago de fogo. Entretanto, no fim das contas, a pessoa que cometeu suicídio estará no inferno por ter rejeitado a salvação através de Cristo, não por ter cometido suicídio. O que a Bíblia diz sobre um cristão que comete suicídio? A Bíblia ensina que podemos ter a garantia da vida eterna a partir do momento em que verdadeiramente crermos em Cristo (João 3:16). Segundo a Bíblia, os cristãos podem saber que possuem a vida eterna sem qualquer dúvida (1 João 5:13). Nada pode separar um cristão do amor de Deus (Romanos 8:38-39). Se nenhuma "criatura" pode separar um cristão do amor de Deus, e até mesmo um cristão que comete suicídio é uma "coisa criada", então nem mesmo o suicídio pode separar um cristão do amor de Deus. Jesus morreu por todos os nossos pecados e se um cristão verdadeiro, em um momento de crise e fraqueza espiritual, cometer suicídio, esse pecado ainda seria coberto pelo sangue de Cristo.

O suicídio ainda é um grave pecado contra Deus. Segundo a Bíblia, o suicídio é assassinato; é sempre errado. Deve-se ter sérias dúvidas sobre a autenticidade da fé de qualquer pessoa que afirmava ser um cristão, mas mesmo assim cometeu suicídio. Não há nenhuma circunstância que possa justificar que alguém, especialmente um cristão, tire a sua vida própria. Os cristãos são chamados a viver suas vidas para Deus e a decisão de quando morrer pertence a Deus e somente a Ele. Embora não esteja descrevendo o suicídio, 1 Coríntios 3:15 é provavelmente uma boa descrição do que acontece com um Cristão que comete suicídio. "Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo."

http://www.gotquestions.org/Portugues/

Reforma política já!


Selvino Heck
 
Adital
Fui candidato seis vezes. Em 1982, fui o candidato a deputado mais votado do Partido dos Trabalhadores, não eleito porque o partido não atingiu o quórum mínimo (o voto então era vinculado; quem votava em deputado era obrigado a votar no governador do mesmo partido, e vice-versa). Fui eleito deputado estadual constituinte gaúcho, com um mandato popular voltado prioritariamente para os problemas urbanos, habitação, participação social e popular, reforma urbana. Depois, fui mais quatro vezes candidato, mas como sempre digo brincando "o povo (eleitor) não me quis mais”. Nem mesmo meus apoiadores mais próximos, amigos/companheiros/família ‘guentavam’ minha insistência.
 
Eram campanhas difíceis, mas bonitas, cheias de energia e sonhos. Em 1986, campanha para a Constituinte, no meio de uma grande mobilização social, o hoje senador Paim e eu rodamos o Rio Grande do Sul. Eu dirigia ‘o velho fusquinha verde de guerra’ (eternizado por Paim numa cartilha na sua campanha a senador), Paim era meu caroneiro. Parávamos nas casas de companheiras/os, ou sindicalistas, ou padres, ou agentes de pastoral, nossa base política, comíamos em suas casas, onde também fazíamos reuniões e debates.
 
Os recursos para a campanha vinham do próprio bolso, de contribuições voluntárias de apoiadores, ou de alguma promoção (jantas, rifas) entre amigos e militantes (ano passado o então presidente do BANRISUL, Túlio Zamin, lamentou não ter guardado o caderno onde anotava as contribuições como tesoureiro da campanha de 1986).
 
A vida e os tempos mudaram. Hoje, um candidato como eu, vindo das lutas populares, morador dos vilas populares da Lomba do Pinheiro, sem maiores articulações e conexões, tem muita dificuldade de lançar uma candidatura com chances eleitorais. Como e onde conseguir milhões para se se eleger? Como disse João Pedro Stédile, da direção nacional do MST em entrevista à TV Brasil, "o poder econômico e financeiro sequestrou o Parlamento”.
 
É preciso mudar. Não se trata de voltar para o que já passou – os tempos são outros, hoje há as mídias sociais, a relação do eleitor com seu representante tem elementos da atualidade, etc. - mas de recuperar a política, os políticos, os partidos para o seu sentido original: a relação com a pólis, a cidade, a sociedade, o bem comum.
 
Por isso, a reforma política, entre outras reformas, é a mais urgente e necessária. Sem uma reforma política profunda será o caos, diz João Pedro Stédile. E continuaremos vendo as notícias do caixa 2, da corrupção que se generaliza, dos mandatos sequestrados pelo poder econômico, das obras públicas que só acontecem se acompanhadas de propinas. Na sequência as investigações, seguidas de prisões e CPIs. Resultado: a degradação da política na visão da sociedade, que identifica cada vez mais todos os políticos como ladrões, o que não é verdade.
 
O ministro Miguel Rossetto, da Secretaria Geral da Presidência da República, disse, em reuniões com a sociedade civil: "É preciso repensar a forma como as campanhas e os partidos são financiados no nosso país, no sentido de fortalecer a capacidade de acompanhamento e de fiscalização da sociedade sobre os eleitos. Nós acreditamos que as organizações partidárias se deem através de grandes projetos ideológicos, das grandes opiniões existentes na sociedade brasileira. É importante a mobilização da sociedade civil diante da urgência da reforma política. O fim do financiamento privado aos partidos e às campanhas eleitorais é decisivo para a democracia e a sociedade brasileira.”
 
De acordo com o ministro Rossetto, além do fim do financiamento privado de campanha, o projeto da Coalizão pela Reforma Política Democrática tem como prioridades a instituição do voto partidário no país, a adoção de uma política forte de gênero, que estimule a maior participação das mulheres, além de um conjunto de iniciativas que estimulem instrumentos de democracia direta como plebiscitos, referendos e consultas populares.
 
Sem reformas estruturantes, que mudem as regras do jogo, estabeleçam limites, o modelo vigente se perpetua, porque não interessa mudar a quem é o dono da bola. Luis Fernando Veríssimo escreveu em ‘Bolsos fundos’: "Os maiores interessados em que não vingue uma reforma eleitoral são os que têm acesso aos bolsos mais fundos da nação, e têm mais a oferecer na defesa dos interesses dos maiores pagadores” (O Globo, 12.03.15).
 
A sociedade brasileira, como fez nas Diretas-Já e na Constituinte nos anos 1980, está se mobilizando. Houve um Plebiscito Popular por uma Constituinte exclusiva pela reforma política, com participação de quase oito milhões de eleitoras/es. Há uma Coalizão pela Reforma política democrática, recolhendo assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular, com participação de centenas de entidades da sociedade, como CNBB e OAB. Há uma Plataforma dos Movimentos sociais pela Reforma política.
 
A cidadania livre e consciente, a mobilização social e popular podem, sim, apontar para a esperança e o futuro. E libertar a política, os partidos, os governos das amarras dos sequestros políticos e da corrupção. De novo, nas palavras de Veríssimo: "Claro que a simples existência de uma lei para controlar a influência do dinheiro na política não vai impedir que ela continue. Estamos, afinal, no país do dá-se um jeito. Mas só coibir e criminalizar a farra já será um progresso.”
É um longo caminho, mas não há outra estrada a trilhar. A hora é agora.
 
FONTE:http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=84362

Papa tem boa vontade, mas não pode revolucionar papel da mulher da igreja

O movimento feminista teológico no mundo vem ganhando espaço a partir dos ventos reformadores impulsionados com as reformas do papado de Francisco. Para Ivone Gebara, teóloga, estudiosa e referência nacional em Teologia Feminista, não devemos, entretanto, esperar mudanças na estrutura masculina da Igreja Católica. "O Papa Francisco tem boa vontade (...) mas não tem condições de, vivendo dentro de uma tradição sagrada masculina, dar passos revolucionários para, de fato, promover a inovação necessária ao mundo de hoje”.
 

reproducao
Teóloga feminista Ivone Gebara afirma que tradição masculina da Igreja ainda é muito forte.

Ivone esclarece, inclusive, ser errôneo falar em ‘uma maior participação da mulher na Igreja’, como se as mulheres não estivessem entre aqueles que a constroem diariamente. "Não se trata, portanto, de reinserção das mulheres na Igreja, como se as mulheres tivessem que inserir-se num lugar que não é o seu. Dá até a impressão de que a Igreja é uma realidade fora de nós”.

Para além da discussão sobre feminicídio e outras formas de violência contra a mulher no Brasil, a estudiosa mostra que essa análise não deve ser superficial, mas chegar à raiz da questão. "[Os estados e as religiões] Não percebem que a reprodução da violência contra as mulheres está ainda muito presente nos processos educacionais (...) O que nós, pensadoras feministas, fazemos é alertar as pessoas para não estabelecerem modelos teóricos e idealistas e mostrá-los como metas absolutas a serem alcançadas. Isto não funciona”.

Para o Dia Internacional da Mulher de 2015, celebrado domingo passado, 08 de março, apesar do aparente retrocesso observado no mundo, nesses últimos anos, é preciso reconhecer as conquistas e os avanços do movimento feminine, na visão da teóloga. "[Neste 08 de março de 2015] Temos que celebrar os enfrentamentos políticos de muitas mulheres que não hesitam em levantarem suas vozes contra a violência da ‘cultura política’ vigente. Temos que celebrar as inúmeras redes feministas que continuam seu labor de denunciarem os abusos dos poderosos e a manipulação dos nossos corpos. Temos que celebrar as mulheres que frequentam as igrejas e que são capazes de dizerem ao padre ou ao pastor ‘não estou de acordo com o senhor’".

Confira a entrevista que a teóloga Ivone Gebara concedeu com exclusividade à Adital.

Adital: Observamos pronunciamentos do Papa Francisco em apoio a uma maior participação da mulher na vida sacerdotal, embora saibamos que, em muitos casos, sua vontade esbarra no conservadorismo da Cúria Romana. Podemos esperar alguma mudança concreta nesse sentido para seu papado?
 
Ivone Gebara: Creio que, antes de falarmos dos pronunciamentos do Papa Francisco sobre as mulheres, é preciso lembrar três pontos para que tenhamos um pouco mais de clareza sobre a situação atual da Igreja Católica Romana. O primeiro deles tem o objetivo de recordar que a função das leis eclesiásticas e dos dogmas é de também exercerem uma certa contenção na vida dos fiéis. Determina-se o que deve ser objeto de crença para evitar a multiplicidade de interpretações e conflitos, que fragmentaram e fragmentam a comunidade de fiéis. Entretanto, não se pode esquecer que leis, dogmas e interpretações nascem em contextos históricos determinados. Estes são mutáveis e nunca deveriam ser estabelecidos como normas absolutas ou como vontade divina, como tem acontecido. Decorre daí o segundo ponto que se refere ao fato de se legitimarem essas novas leis e crenças como vontade de Deus ou de Jesus Cristo. Essas vontades, segundo muitos, são imutáveis. Estabelece-se assim um argumento de autoridade pronunciado ou promulgado pelo magistério da Igreja. E o último ponto que pode ser claramente observado é que esse magistério é masculino e, em geral, idoso e celibatário. As mulheres não participam diretamente dele como se, por ordem divina, elas devessem ser excluídas. Essa estrutura e interpretação patriarcal, considerada sagrada, dificulta mudanças mais significativas na atual cultura eclesiástica transmitida ao povo. A partir daí, se pode situar a questão em relação às mulheres.

O Papa Francisco tem boa vontade, procura entender algumas reivindicações vividas pelas mulheres, mas não tem condições de, vivendo dentro de uma tradição sagrada masculina, dar passos revolucionários para, de fato, promover a inovação necessária para o mundo de hoje. Ele é fruto do seu tempo, da sua formação clerical e dos limites que a englobam. Ouso dizer que é a comunidade cristã e, no caso, a católica romana, espalhada por tantos lugares, que deveria, a partir de suas vivências, ir exigindo de seus líderes mudanças de comportamento. Começar por baixo, embora os de cima também possam ajudar, na medida em que forem mais sensíveis e acolhedores aos sinais de cada tempo e de cada espaço, é um caminho para nos ajustarmos às necessidades atuais das mulheres e dos homens do nosso tempo.

Adital: Em seu novo livro "Evangelho e instituição", o monge Marcelo Barros afirma que a Igreja Católica deveria retornar a suas origens (primeiros séculos), quando as mulheres exerciam um papel mais ativo na Igreja. Na sua opinião, como deveria ser essa reinserção?
 
Ivone Gebara: Penso que a ideia de "retorno", no caso, retorno às origens cristãs, deve ser revisitada, pois, muitas vezes, podemos cair em anacronismos, mesmo involuntários. A referência às origens é uma espécie de saudade de algo bom que se gostaria de ter. É uma esperança em forma de discurso sobre as origens. Em geral, pensamos que o antes, o passado, as origens são sempre mais coerentes e verdadeiras. A volta ao útero materno, por exemplo, é uma aspiração de pretensa paz do desejo humano, como se 'naquele tempo' tudo estivesse bem. Na realidade, nas origens, podemos encontrar muitas coisas, inclusive aberrações e inadequações para o nosso tempo. Cada tempo é um tempo e tem suas grandezas e suas misérias. O tempo "que se chama hoje" é o nosso tempo real e é nele que devemos buscar novas formas de convivência, tendo ciência de que este é, como outros, um tempo limitado. Não se trata, portanto, de reinserção das mulheres na Igreja, como se as mulheres tivessem que inserir-se num lugar que não é o seu. Aliás, a linguagem eclesiástica e a linguagem de muitos de nós evidencia a dificuldade de acolhermos a Igreja como comunidade de irmãs e irmãos vivendo na diversidade de situações. Às vezes, tenho a impressão de que o termo igreja significa, para muitos, prioritariamente, a hierarquia, as funções de poder e autoridade.


É preciso afirmar que o que está acontecendo hoje tem a ver com um movimento cultural e social mundial, que vem mostrando um protagonismo e um papel feminino diferente daquele que conhecíamos até poucos anos atrás. Ser apenas mãe, ou filha ou esposa ou ocupar-se de prendas domésticas já não corresponde à realidade atual das mulheres. As identidades femininas estão passando por uma mutação muito grande. Outro aspecto importante é o de perceber os limites da pergunta sobre em que Igreja nós mulheres queremos nos inserir ou reinserir. Dá até a impressão de que a Igreja é uma realidade fora de nós. Por isso, muitos afirmam que "nós somos Igreja" e querem viver na prática esta afirmação. Seria ela apenas retórica? A meu ver, sim e não. Sim, na medida em que o discurso de muitos não corresponde aos comportamentos vividos no cotidiano das relações humanas. Não, na medida em que se percebe o compromisso de muitos em buscar caminhos de maior participação e igualdade nas relações da comunidade eclesial. A questão da igualdade entre os seres humanos é insolúvel.


Falar em igualdade significa buscar, a cada novo contexto e a cada novo momento da história, sanar o egoísmo visceral que nos leva a preferir sempre nossos interesses em detrimento dos outros. Criamos a escravidão de todos os tipos, estabelecemos cores e etnias superiores umas às outras, sexos superiores a outros, orientações sexuais mais normais do que outras. E quem está do lado do poder e da normalidade não hesita em manter relações excludentes e culpabilizar "os diferentes" por muitos males do mundo. Não há uma pré-definição da igualdade. O que nós pensadoras feministas fazemos é alertar as pessoas para não estabelecerem modelos teóricos e idealistas e mostrá-los como metas absolutas a serem alcançadas. Isto não funciona. O que parece que tem surtido algum efeito é colocarmo-nos em estado de educação contínua, uma educação que desperte em nós o valor de cada ser, sem a tentação de querer justificar a partir de visões hierárquicas pré-estabelecidas.

 
Adital: O que é a Teologia Feminista? Como essa corrente de pensamento entende o mundo atual? Quais os desafios nesse início de século XXI?
 
Ivone Gebara: O grande esforço da maioria das teologias feministas tem sido o de denunciar o absolutismo das interpretações bíblicas e teológicas do passado e ainda vigentes na maioria das Igrejas. Interpretações absolutistas são aquelas que usam Deus e as Escrituras para justificarem sua ideologia de manutenção de poderes e privilégios religiosos, muitas vezes disfarçados com capas de santidade e solidariedade. Esses poderes são exercidos em nome de Deus e são controladores dos corpos femininos, tanto em nível individual quanto cultural e social. O controle religioso dos corpos se dá, em primeiro lugar, no interior da dimensão simbólica da vida simbólica, ou seja, na estrutura subjetiva, em que valores e culpas se entrelaçam e tornam a pessoa cativa de um imaginário imposto de fora para dentro. Jogar com a vontade de Deus para manipular corpos querendo manter uma ordem imaginária denominada divina é impedir o direito ao pensamento e à liberdade.


Afirmar Deus como masculino, afirmar que existe uma vontade poderosa pré-existente, justificar o sacerdócio masculino a partir do sexo de Jesus, valorizar o corpo masculino como o único capaz de representar o corpo de Deus são afirmações teológicas ainda vigentes que tocam, de forma especial, os corpos femininos. Estas afirmações são, muitas vezes, produtoras de violência, de exclusão e do cultivo de relações de submissão ingênua à autoridade religiosa. Infelizmente, nesse começo de século, o espaço dado às teologias feministas é bem restrito. Seu acesso aos centros de formação teológica oficial na América Latina é bastante limitado. Por isso, está havendo uma migração significativa dos lugares de produção teológica para fora das instituições oficiais, visto que as formas de controle eclesiástico parecem desconhecer os avanços vividos pelas mulheres em nível nacional e mundial.
 
 

aleteia.org.
Para Ivone Gebara, o espaço na igreja para as teologias feministas ainda é muito restrito.

 
Adital: O mundo ainda convive com os feminicídios (muitos dos quais acabam impunes), mutilações genitais, pouca participação feminina na política... Quais os principais obstáculos para a plena dignidade feminina hoje?
 
Ivone Gebara: A produção da violência cultural e social contra grupos considerados inferiores por razões as mais diversas é uma constante nas culturas humanas. A afirmação da superioridade de uns em relação aos outros, as hierarquias de raça, gênero, cultura, de saberes e poderes são parte da história humana. As mulheres foram e são, em muitas culturas, consideradas seres subalternos, dependentes, objetos da vontade masculina, muito embora, hoje, os discursos oficiais dos Estados e das religiões falem de igualdade na diferença. Muitos adeptos dos discursos igualitários são capazes se denunciarem, por exemplo, a mutilação genital, sem dúvida, uma aberração e um crime, mas não são capazes de perceberem a produção da violência contra os corpos femininos nos discursos de bondade veiculados pelas diferentes expressões do Cristianismo. Denunciam os assassinatos de mulheres, a violência física direta, os feminicídios, mas não percebem que a reprodução da violência contra as mulheres está ainda muito presente nos processos educacionais.


A marca hierárquica excludente, presente em nossas relações, sem dúvida, necessária à continuidade da atual forma de capitalismo, mantém socialmente essa violência. Precisa dela e de outras para continuar a fabricar novas formas de privilégio e exclusão social. As mulheres apesar das muitas conquistas dos últimos anos ainda são no imaginário da cultura capitalista econômica e social bons bodes ou cabras expiatórias para serem acusadas de incompetência nos assuntos públicos. Essa cultura excludente, presente nas instituições sociais e culturais, é, sem dúvida, obstáculo para que homens e mulheres construam novas relações e reconheçam seus diferentes dons e saberes.


Adital: Alguns movimentos feministas, de forma a obterem espaço, utilizam, como estratégia, chocar a sociedade, expondo o corpo nu, autodenominar-se de "vadias"... Como você entende essa forma de protesto? É válida, válida com ressalvas ou colabora negativamente com o movimento feminista?
 
Ivone Gebara: Há uma ingenuidade dos analistas dos movimentos sociais na medida em que pretendem limitar os protestos e reivindicações às suas próprias concepções de decência, do permitido e do proibido. É claro que nos chocamos com a quebradeira dos grupos nas manifestações de rua e reclamamos quando isso atrapalha a nossa vida cotidiana. É claro que o diálogo sobre as reivindicações seria o melhor caminho. Mas nem sempre o sistema capitalista reconhece o melhor caminho e ele mesmo incita à violência sem controle, aquela que deixa sair o pior de nós contra os outros, aquela que é capaz de bombardear campos de arroz e destruir obras de arte milenares, aquela que me leva a roubar meu melhor amigo e mandar matar aquele que atrapalha meus planos políticos. Muitas formas radicais de protesto das mulheres chocam-nos porque não estamos habituados a um comportamento público das mulheres, sobretudo quando expõem o corpo nu como forma de protesto.


O corpo nu das mulheres continua sendo exposto para vender mercadorias masculinas, para excitar desejos, mas esse nu é suportável pela maioria. Esse nu aprovado pelo mercado dá dinheiro e favorece empreendimentos econômicos, pode ser no máximo criticado por alguns religiosos puristas. Entretanto, quem se perguntou por que esse grupo de mulheres se autodenominou de "vadias"? Qual a sua história? Do que reclamam com sua irreverência? O Google pode até dar uma resposta breve a essas pertinentes perguntas. Essas formas de protesto, penso, não atingem o movimento feminista mundial, visto que este é plural e tem formas variadas de expressão.


Adital: Durante as últimas eleições brasileiras, alguns analistas políticos afirmaram que uma das razões enfrentadas por Dilma Rousseff para sua reeleição deveu-se ao fato dela ser mulher. A afirmação soa um pouco estranha, haja vista a presença de mulheres na Presidência de países como Argentina, Chile, Alemanha... Na sua opinião, essa afirmação faz sentido? Nós, brasileiros, ainda somos um país machista?
 
Ivone Gebara: Creio que, na maioria dos países do mundo, mesmo as figuras femininas tradicionais fortes como Margaret Tachter e Indira Gandhi viveram os limites do poder impostos pela condição feminina. De fato, há um certo susto de se ter uma mulher no topo do poder de uma nação. De reclusa nos limites da vida privada para a ascensão pública o percurso é grande demais. Talvez o título de rainha seja até mais suportável porque envolvido com todos os aspectos fantasiosos do passado e da atual diminuição real desse poder. Nesse sentido, é quase espontâneo se atribuir ao governo de uma mulher deficiências, fraquezas e outras coisas no estilo.


Dilma Rousseff enfrenta, como outras mulheres, as dificuldades de estar no topo político da nação. Entretanto, o que a maioria das pessoas não vê é que a política de um país não depende apenas da/do presidente, mas depende, igualmente, das forças econômicas e políticas em jogo, assim como da participação dos cidadãos. Combinar políticas e propinas, interesses corporativos e bem comum, partidos de interesses sectários com a administração de um país de proporções continentais é um difícil jogo de xadrez. De fato, o machismo persiste no Brasil, mas a falta de caráter e de visão do bem comum é uma doença bem mais difundida e perigosa. Assola políticos e empresários, contagia a classe média e as classes populares, se instala nas instituições sociais e nas igrejas como praga a ser combatida diariamente.


Adital: No fim do ano passado, assistimos à infeliz declaração de um parlamentar brasileiro, que afirmou que "não estupraria" uma colega parlamentar "porque não queria". Como você analisa esse e outros casos parecidos?
 
Ivone Gebara: A falta de caráter e de visão do bem comum torna homens e mulheres cegos a qualquer visão humanista de respeito a cada ser humano na igualdade e diferença de uns em relação aos outros. O parlamentar brasileiro que usou essa e outras expressões durante sessões da Câmara mantém-se no poder porque a cultura política brasileira permite. Ele é útil ao' vale tudo', que se pode assistir nas ações e discursos dos políticos. A falta de decorro parlamentar é moeda de troca de privilégios políticos e satisfaz aqueles que buscam a justiça e a injustiça com as próprias mãos. Nessa situação, as mulheres não estão isentas desses pecados, embora os cometam com menor intensidade pública. Somos todas e todos essa mistura contraditória e paradoxal e é dentro dela que podemos encontrar caminhos que tornem a vida cidadã mais respeitada.


FONTE:http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=84349

Celibato dos padres: as diversas cartas na mão de Bergoglio


A vontade de ter mulher e filhos falou mais alto e o Pe. Antônio Andrade deixou o ministério há 19 anos  e casou com Aíla e têm dois filhos: Dimarco e Theodoro.


Quarta, 04 de março de 2015

A nota é de Giovanni Panettiere, publicada no blog Pacem in Terris, 02-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


 Da África do Sul ao Brasil, trata-se de teses levantadas na ótica de encontrar soluções credíveis para o antigo problema da crise vocacional e para a urgência de garantir a missa dominical em cada comunidade católica.

 Na Amazônia, por exemplo, de acordo com dados oficiais, em 800 realidades eclesiais, contam-se apenas 27 presbíteros para 700 mil fiéis. A Eucaristia é celebrada duas ou três vezes por ano, enquanto a confissão é uma miragem.

 O que fazer? Recentemente, no tradicional encontro quaresmal do papa com o clero romano, o reitor da igreja de San Giovanni Battista dei Genovesi, padre Giovanni Cereti, sugeriu a Bergoglio um caminho para reintegrar aqueles padres que, com a autorização e a bênção da Igreja, escolheram o caminho do matrimônio, participam da vida da Igreja, mas estão proibidos de celebrar a missa. No mundo, estima-se que eles sejam mais de 100 mil (fonte:ildialogo.org).

 Inclinado há décadas em favor da readmissão à comunhão dos divorciados em segunda união – ajudou o cardealWalter Kasper na redação do controverso relatório introdutório ao consistório sobre a família –, Cereti propõe uma forma de indulgência para esses “ex-sacerdotes”. Ou, ao menos, para alguns deles.

“Na Igreja antiga – argumenta o teólogo – a indulgência era dada para remover a penitência depois da absolvição. Hoje, se ela fosse aplicada aos muitos padres casados que desejam voltar, eles poderiam ser readmitidos ao ministério, avaliando caso a caso. Seria uma solução que curaria a ferida da dolorosa falta de tantos coirmãos que escolheram a vida matrimonial, embora não querendo abandonar o sacerdócio.”

Foto Oficial MFPC - XX 2015
XX Encontro Nacional do Movimento das Famílias dos Padres casados do Brasil – MFPC – jan. 2015
 
A perspectiva de referência para Cereti remete ao Concílio Vaticano II, “que autorizou o diaconato mesmo para quem não é célibe, preparando assim o caminho para a constituição de um clero uxorado [casado] também na Igreja de rito latino”.

O discurso é diferente para o catolicismo oriental, em que os padres com família são uma realidade indiscutível.

 Mais do que uma “ferida”, para o papa, a questão dos padres casados é “uma chaga”. Ao reitor da San Giovanni Battista, um Bergoglio particularmente atento e consciente do problema teria confidenciado que, “até agora, a Igreja não encontrou um caminho para curar essa chaga e, para ser sincero, não sei se encontrará”.

Palavras prudentes que, mesmo assim, não impedem que Francisco lance sinais de fumaça particularmente encorajadores para os novatores. Como na missa em Santa Marta no dia 10 de fevereiro passado, na qual também participaram cinco presbíteros casados. Uma novidade absoluta dentro dos muros leoninos.

 O pontífice também deixa aberta a porta do debate sobre a ordenação dos chamados viri probati, homens casados de comprovada fé e retidão. “Sobre isso, proponham sugestões”, teria dito ele ao episcopado brasileiro. A ocasião foi a audiência concedida, em abril passado, a Dom Erwin Kräutler, bispo da diocese de Xingu, na Amazônia.

 Recebido o convite, a Conferência dos Bispos verde-amarela imediatamente se pôs a trabalhar. Há meses, de fato, o cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e grande apoiador de Bergoglio no conclave, está dialogando com a Congregação para o Clero justamente sobre os viri probati.
Brux jun 8
Encontro de Lideranças da Federação Europeia de Padres casados – Bruxelas – Jun 2014
 
Hummes, assim como o pontífice, não considera um dogma o celibato dos padres e, há algum tempo, quando era o número um do ministério dos clérigos (2006-2010), tentou abrir algumas frestas. Mas sem sucesso.

 Não teve um melhor destino, em 2008, o documento conclusivo do 12º Encontro Nacional de Presbíteros brasileiros. No texto, fazia-se o pedido à Santa Sé para “possibilitar outras formas de ministério ordenado, que não seja o celibatário”.

Essa reivindicação, junto com outras relacionadas com os divorciados em segunda união e às nomeações episcopais, depois, fora retirada por decisão do Conselho Permanente do episcopado brasileiro. Melhor não criar tensões com o pontífice da época, Joseph Ratzinger, devem ter pensado os bispos do país sul-americano.


 Durante o encontro com Kräutler, Francisco definiu como “interessante” a tese de um prelado alemão, por muito tempo bispo na África do Sul.
 

Dom Fritz Lobinger, este é o nome do pastor, 85 anos, de 1988 a 2004 à frente da diocese de Aliwal, defende a necessidade de ter na Igreja dois tipos de presbíteros.

 Os atuais, célibes e assalariados pelas dioceses, e os “anciãos” que teriam uma profissão própria, uma família e não exerceriam o seu mandato de forma individual, mas em uma equipe de três ou mais. Estes últimos não seriam nem mesmo pagos pela Igreja e, dado central, seriam ordenados dentro das comunidades que iriam administrar. Um pouco como acontecia nos tempos dos Atos dos Apóstolos.

Viri probati, dupla tipologia de padres


 Qualquer reforma que fosse aprovada, mesmo que apenas para o caso específico do Brasil – não nos esqueçamos de que Francisco defende uma descentralização do poder/serviço eclesial em benefício de uma maior autonomia das Conferências Episcopais nacionais (Evangelii gaudium, 34) –, ainda seria uma exceção à norma plurissecular – introduzida definitivamente pelo Concílio de Trento (1545-1563) – que proíbe, na Igreja de rito latino, a ordenação sacerdotal de homens casados.
Seria uma revolução por si só de resultados imprevisíveis, dada a firme oposição da galáxia tradicionalista, ainda particularmente representada no Sacro Colégio.

 Em suma, além da reorganização da Cúria Romana, da transparência das finanças vaticanas, da luta sem descontos contra a pedofilia, da atualização da pastoral familiar, o papa também está lidando com outro canteiro de obras muito delicado.

 O risco é de que os trabalhos não cheguem nunca ao fim. E que quem hoje celebra o clima mais propício ao debate na Igreja, até mesmo sobre um assunto espinhoso como o celibato eclesiástico, continue profundamente decepcionado.

 Até porque a última reforma, em ordem de tempo, no campo do clero uxorado no Ocidente se deve a Bento XVI, à sua constituição apostólica Anglicanorum coetibus (2009), que permite que grupos de fiéis, leigos e pastores anglicanos, desejosos de se converterem ao catolicismo, entrem na Igreja de Roma, mantendo a sua identidade. Incluindo o matrimônio para os ministros de culto. Quem diria?

http://padrescasadosceara.blogspot.com.br/2015/03/celibato-dos-padres-as-diversas-cartas.html

Segundo governo Dilma: A consolidação de uma derrota. Entrevista especial com Pablo Ortellado

“É preocupante ter uma demanda forte e uma insatisfação, e não ter um ator político capaz de organizar essa insatisfação”, pontua o pesquisador.
 
Foto: Grabois.org
 
“A volta a políticas liberais ortodoxas não é uma necessidade de equilibrar as contas, mas é uma derrota política, fruto da incapacidade de implementar um modelo econômico alternativo”, pondera Pablo Ortellado em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone. Para ele, “a reversão da política econômica do primeiro mandato”, que tem gerado inúmeras críticas à segunda gestão do governo Dilma, demonstra que o “modelo intervencionista”, proposto pela presidente, “não foi adotado integralmente porque foi derrotado no meio do caminho”.
 
Na interpretação do professor da Universidade de São Paulo - USP, a segunda gestão do governo Dilma “está sendo refém do sistema financeiro e não tem força para enfrentá-lo e mudá-lo, como havia ensaiado. Por isso ela perdeu a batalha e não conseguiu ir adiante na política de reduzir os juros, na política de aumentar o subsídio das tarifas públicas, que foi o modelo iniciado por ela”.
 
Para ele, a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda é um sinal dessa derrota. Contudo, outras nomeações ministeriais polêmicas, como a de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura e de Gilberto Kassab para o Ministério das Cidades, têm outro significado. “A nomeação de Kátia Abreu não destoa do pensamento da presidente; ela é uma desenvolvimentista, acha que o agronegócio é uma peça importante, e Kátia Abreu é uma grande representante desse setor. A nomeação do Kassab tem mais a ver com questões políticas para conseguir alianças; ele é um grande articulador político, fundou um partido político que é importante para a governabilidade”, comenta.
 
Na avaliação dele, apesar das “surpresas” da nova gestão, o modelo neodesenvolvimentista iniciado no governo Lula e levado adiante pela presidente Dilma ainda é sustentável, embora tenha sofrido um “revés justamente na política econômica”.  Para os próximos quatro anos, vislumbra, “vai haver um embate no qual o resultado será uma política mista, predominantemente liberal, mas com alguns elementos desenvolvimentistas. As agendas de proteção ao meio ambiente e de política indigenista vão por água abaixo, porque não têm nenhum espaço dentro do governo”, conclui.
 
Pablo Ortellado é graduado e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo – USP. É professor do curso de Gestão de Políticas Públicas e orientador no Programa de Pós-graduação em Estudos Culturais da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação - Gpopai.
 
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line - Como o senhor está vendo as mudanças anunciadas pela presidente Dilma nos dois primeiros meses do seu segundo mandato? Os anúncios estão surpreendendo?
 
Foto: iea.usp.br
Pablo Ortellado – Acho que todos estão surpresos porque houve uma reversão da política econômica do primeiro mandato. Isso é ainda mais surpreendente porque contraria toda a escola de pensamento na qual a própria presidente foi formada, na Unicamp. A escolha de um ministro da Fazenda formado pela Escola de Chicago, os cortes de direitos trabalhistas para equilibrar o orçamento e o aumento das tarifas públicas, tudo isso caminhando para um arrocho, inclusive, contraria todo o discurso feito na campanha de reeleição, que foi totalmente baseada em assustar o eleitorado, dizendo que o outro candidato adotaria esse tipo de política. Essas mudanças surpreenderam a todos, ainda mais pelo fato de a presidente as ter feito de maneira tão agressiva.  
 
IHU On-Line - O que essas mudanças mostram em relação ao primeiro governo da presidente Dilma e aos dois governos do ex-presidente Lula? As políticas adotadas não foram sustentáveis, ou hoje o Brasil enfrenta outras dificuldades?
 
Pablo Ortellado – Acho que se trata de uma reversão de estratégia de política econômica, caminhando para um modelo mais parecido com o adotado no governo do ex-presidente Lula, em que se tinha uma política econômica mais ortodoxa combinada com políticas de distribuição de renda e aumento do consumo. A presidente Dilma, no primeiro mandato, tinha ensaiado outro caminho, o de enfrentar a política de juro dos bancos, mexer com a política do superávit primário, mas ela perdeu politicamente essa batalha. Foi uma disputa política muito dura e, ao que tudo indica, os primeiros meses do segundo mandato demonstram a consolidação dessa derrota. É uma consolidação que deve ter sido muito difícil, porque tenho certeza de que a presidente não acredita nesta política; ela está sendo contrariada.
 
IHU On-Line – O senhor sugere que ela está sendo refém de alguma situação?
 
Pablo Ortellado – Ela está sendo refém do sistema financeiro e não tem força para enfrentá-lo e mudá-lo, como havia ensaiado. Por isso ela perdeu a batalha e não conseguiu ir adiante na política de reduzir os juros, na política de aumentar o subsídio das tarifas públicas, que foi o modelo iniciado por ela, mas que fracassou porque ela não teve força de implementá-lo por conta da influência do sistema financeiro tanto na política quanto na economia.
 
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"Hoje a presidente já é refém de uma política econômica que não é a dela, na qual ela não acredita e para a qual ela não foi eleita, e ela passa agora a ser refém também de um Congresso que está controlado por um setor do PMDB que é independente"

 

IHU On-Line – Que outras dificuldades o governo tende a enfrentar com Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados?  
 
Pablo Ortellado – As dificuldades serão enormes, mas de outro tipo. Eduardo Cunha é oposição. Hoje a presidente já é refém de uma política econômica que não é a dela, na qual ela não acredita e para a qual ela não foi eleita, e ela passa agora a ser refém também de um Congresso que está controlado por um setor do PMDB que é independente. Embora o PMDB seja a base do governo, Eduardo Cunha e as forças que ele reúne e articula são independentes do governo. Isso significa que a aprovação de todo tipo de política vai encontrar empecilhos.  
 
IHU On-Line - Deve haver uma mudança na postura do PMDB em relação ao governo?
 
Pablo Ortellado – O PMDB não tem unidade e é uma federação de muitas correntes e interesses. E esse grupo capitaneado por Eduardo Cunha é forte política e economicamente, porque Eduardo Cunha é grande intermediador de verbas de campanha, é ligado a setores empresariais muito fortes, como o setor de telecomunicações. Isso significa que nada ligado a telecomunicações vai avançar, ou seja, a regulamentação do Marco Civil pode encontrar problemas, a lei de proteção de dados pessoais e a reforma da lei de direitos autorais vão encontrar problemas, sem falar em toda a agenda ligada a questões morais, porque ele também é ligado ao setor evangélico. Então, questões relacionadas ao aborto, combate à homofobia e toda a agenda ligada aos direitos humanos vão sofrer um revés.
 
IHU On-Line - O senhor relaciona a atual conjuntura econômica com o fato de a presidente ser refém do sistema financeiro. Como avalia, em contrapartida, as nomeações feitas por ela: Kátia Abreu no Ministério da Agricultura e Gilberto Kassab no Ministério das Cidades? A presidente está sendo refém de outra situação nesses dois casos?
 
Pablo Ortellado – A nomeação de Kátia Abreu é bem consistente com o que a presidente pensa acerca de modelos de desenvolvimento. Essa nomeação não destoa do pensamento da presidente; ela é uma desenvolvimentista, acha que o agronegócio é uma peça importante e Kátia Abreu é uma grande representante desse setor. A nomeação do Kassab tem mais a ver com questões políticas para conseguir alianças; ele é um grande articulador político, fundou um partido político que é importante para a governabilidade, e ele entra nessa chave.
 
IHU On-Line – O modelo neodesenvolvimentista iniciado no governo Lula e levado adiante no governo Dilma ainda é sustentável?
 
Pablo Ortellado – Com certeza. Esse modelo sofreu um revés justamente na política econômica, porque Dilma está implementando políticas com o Joaquim Levy que são contrárias ao que ela acredita que seja de fato um modelo de desenvolvimento econômico. O que vamos ver, provavelmente, é uma mescla entre a política desenvolvimentista com uma agenda, num marco mais geral, profundamente liberalizante. É isso que Joaquim Levy vai fazer: aumentar o superávit primário, aumentar a política de juros, aumentar o preço das tarifas públicas, cortar mais gastos sociais. Essa política está sendo implementada, mas ela é contrária a uma política desenvolvimentista de proteção da indústria nacional, de estímulo a setores industriais, ao agronegócio. Vai haver um embate no qual o resultado será uma política mista, predominantemente liberal, mas com alguns elementos desenvolvimentistas. As agendas de proteção ao meio ambiente e de política indigenista vão por água abaixo, porque não têm nenhum espaço dentro do governo.
 
IHU On-Line – Em que medida os ajustes feitos neste ano estão relacionados com políticas desenvolvidas nos governos anteriores?
 
Pablo Ortellado – Depende de como se lê essa questão. Pode-se dizer que esse modelo de política mais intervencionista adotado pela presidente no primeiro mandato fracassou e é preciso voltar para uma política liberal forte para corrigir o rumo desse desvio e, portanto, estamos num momento de ajustes com recessão e baixo crescimento. Outra chave de leitura, contrária à anterior — que deve ser a da presidente —, é de que o modelo intervencionista não foi adotado integralmente, porque ele foi derrotado no meio do caminho e o resultado é este que estamos vendo. A volta a políticas liberais ortodoxas não é uma necessidade de equilibrar as contas, mas é uma derrota política, fruto da incapacidade de implementar um modelo econômico alternativo.
 
IHU On-Line - A última medida anunciada pelo governo Dilma é uma negociação com sindicatos e centrais sindicais para acabar com o fator previdenciário. Como vê essa proposta?
 
Pablo Ortellado – O fator previdenciário é uma medida que se mostrou totalmente inócua para o objetivo de retardar as aposentadorias. Só está trazendo prejuízos para os trabalhadores, sem ter nenhum efeito prático no retardamento da solicitação das aposentadorias. Não vejo por que a reversão dessa política teria impacto hoje.   
 
IHU On-Line - Como deve se dar a relação da presidente Dilma com os movimentos sociais em seu segundo mandato? Vislumbra algo diferente em comparação com a primeira gestão, já que agora inclusive movimentos sociais estão criticando mais pontualmente o governo dela?
 
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“A presidente vai escutar, mas não vai ouvir”

Pablo Ortellado – No primeiro mandato a relação da presidente com os movimentos foi de escuta, mas com pouca incorporação de demandas. O ministro Miguel Rossetto vai manter sua política de escuta, que está muito ligada à sua trajetória. Mas num cenário em que a presidente tinha maior controle da política econômica, ela não conseguiu incorporar nada. Nesse cenário ela perdeu o controle e a incorporação de demandas será ainda menor. Assim, a presidente vai escutar, mas não vai ouvir. 
 
IHU On-Line - O senhor disse que ao fim das manifestações de 2013, a sociedade estava mais mobilizada. Vislumbra a ocorrência de mais manifestações diante da atual conjuntura? Quais pautas são potenciais para gerar novas manifestações?
 
Pablo Ortellado – Este ano vamos ver mobilizações grandes de algumas pautas. Em São Paulo e no Rio de Janeiro a questão da água vai gerar manifestações, porque a situação da água é extremamente crítica, e é impossível não haver. Ainda não sabemos de que tipo serão essas manifestações, mas a falta de água empurra as pessoas para situações extremas e gera desespero. Esse é um tema que vai dominar a agenda dos movimentos sociais neste ano. Por outro lado, o escândalo da Petrobras vai gerar muitas manifestações tentando desmobilizar o governo, pedindo o impeachment da presidente. Vai ser um ano com muita mobilização.
 
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"A falta de água empurra as pessoas para situações extremas e gera desespero. Esse é um tema que irá dominar a agenda dos movimentos sociais neste ano"

 
IHU On-Line - Há mais razões para manifestações hoje do que se teve em 2013? O que vislumbra?
 
Pablo Ortellado – Não basta ter motivo, precisa ter organização e um ator político capaz de ajudar a sociedade a expressar essa insatisfação. O Movimento Passe Livre - MPL ocupou esse papel em 2013 e no começo deste ano, nas manifestações que ocorreram em São Paulo por conta do aumento da tarifa do transporte público. Não consigo ver um ator político com essa capacidade de mobilização para outras agendas, como o aumento da tarifa de energia. Do mesmo modo, a discussão sobre a crise hídrica também não tem um ator político capaz de gerar mobilização, o que é um problema, porque a crise é grande e a água é um recurso fundamental para o dia a dia. É preocupante ter uma demanda forte e uma insatisfação, e não ter um ator político capaz de organizar essa insatisfação. Por isso corre-se o risco, quando a crise se agravar ainda mais, de haver revoltas sem orientação política, como aconteceu em Itu. Essa revolta pode resultar em saques, quebra-quebra desorganizado. Por isso é importante que se tenha um ator que consiga orientar essa insatisfação para um objetivo político, para uma reivindicação factível.
 
IHU On-Line – A falta desse ator político implica que não surja no Brasil algo como o Podemos e o Syriza?
 
Pablo Ortellado – Nós estamos muito longe disso. O Podemos e o Syriza são movimentos muito distintos. O Syriza é um grupo de coalizão de partidos tradicionais de esquerda. Ele seria, guardadas todas as diferenças, algo como o PSOL e o PSTU. O Podemos, por outro lado, é uma expressão das mobilizações de rua, algo parecido com o MPL ou novos movimentos que surgem. Contudo, estamos muito distantes da criação de algo parecido no Brasil porque os movimentos que surgem não estão interessados em criar partidos. Por outro lado, PSOL e PSTU estão longe de ganhar essa preeminência que se teve na Grécia, com o Syriza.   
 
IHU On-Line - Como vê as articulações para a campanha presidencial de 2018, que sugerem o retorno do ex-presidente Lula à Presidência, como uma alternativa política?
 
Pablo Ortellado – Isso ocorre porque Dilma começou seu mandato de maneira desastrosa. Não só porque o Brasil está numa crise econômica muito clara, como do ponto de vista social ela está aquém de todas as expectativas. O processo eleitoral foi muito polarizado entre a esquerda e a direita, com a esquerda mobilizada, prometendo se não avanços sociais, no mínimo a consolidação dos ganhos e avanços sociais do passado. Contudo, os primeiros atos do governo dela foram cortes de direitos trabalhistas, seguido de aumento das tarifas públicas, da nomeação de Levy. A popularidade dela está muito baixa e não há perspectiva de reversão desse cenário. De novo Lula acaba reaparecendo dentro do campo da esquerda para reorientar essa política ou retomar os ganhos sociais do passado. Esse é o significado e a especulação em torno da volta do ex-presidente.
 
IHU On-Line - O que se pode esperar para os próximos quatro anos de mandato?
 
Pablo Ortellado – Tudo é possível, mas o quadro mais provável é de ficar nessa situação de uma política econômica liberal, recessiva, com arrocho e com uma perspectiva ruim em relação às políticas sociais conquistadas. A presidente não tem força no Congresso, perdeu a queda de braço com o sistema financeiro, e não vejo de onde ela tiraria elementos para uma mudança de governo. Vai ser um governo difícil para ela e para nós, que estamos sob a administração dela.
 
(Por Patricia Fachin)
 
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/540184-segundo-governo-dilma-a-consolidacao-de-uma-derrota-entrevista-especial-com-pablo-ortellado