domingo, 30 de novembro de 2014

Relembrando os 5 desafios do Papa Francisco em 2014


O Papa Francisco tem pela frente a reforma da cúria romana, o sínodo mundial sobre a família, a canonização de João Paulo II e João XXIII, a viagem à Terra Santa. Mas a tarefa central com a qual ele está fazendo história é mais profunda ainda: ajudar as pessoas a se aproximarem de Deus.

Passados os primeiros meses da surpresa da sua eleição, o Papa Francisco começa a enfrentar o ano de 2014, sem dúvida um dos mais decisivos e difíceis do seu pontificado. Apresentamos, a seguir, os cinco desafios mais importantes de Francisco para os próximos doze meses.

1. Reforma da cúria romana

A reforma dos organismos da Santa Sé e da Cidade do Vaticano, que assistem o Papa no exercício do seu ministério como sucessor do apóstolo Pedro, é sem dúvida o desafio que gerou mais expectativa.

Como ele mesmo confessou aos jornalistas na volta da sua viagem ao Brasil, o Papa deu prioridade temporal às reformas administrativas e econômicas da cúria romana, devido aos problemas objetivos que surgiram já desde antes de sua eleição.

Em particular, esperam-se passos decisivos na reforma do chamado Banco do Vaticano, por parte da comissão pontifícia para o Instituto para as Obras de Religião (IOR), verdadeiro nome desta instituição.

Por outro lado, começarão a ser vistos os resultados da comissão pontifícia sobre a organização da estrutura econômica e administrativa da Santa Sé, composta por sete especialistas em administração e finanças, de prestígio internacional, assistidos por um sacerdote.

Pessoas próximas a Francisco nos confirmaram que ele está dedicando muito tempo e energia para garantir que a Santa Sé tenha uma organização econômica transparente.

Os resultados desta tarefa do Papa não demoraram em chegar: no mês de dezembro, Moneyval, órgão de controle do Conselho da Europa contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo, reconheceu os “significativos esforços” do Vaticano para incorporar os padrões internacionais e seu compromisso com a transparência financeira.

Mas a comissão consultiva mais importante para a reforma da cúria romana é a conhecida entre os jornalistas como “G-8”, por estar composta por 8 cardeais, coordenados por Óscar Rodríguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa.

Esta comissão, que já se reuniu em outubro (analisando em particular a reforma do Sínodo dos Bispos) e em dezembro (para analisar as instituições que compõem a Santa Sé), tem como tarefa ajudar o Papa a reescrever a constituição apostólica que estabelece o papel da secretaria de Estado, bem como das congregações, tribunais, conselhos e outros organismos da Santa Sé.

A última constituição sobre o tema, “Pastor bonus”, foi redigida por João Paulo II em 1988.

Na última reunião da comissão, foi informado que o Papa decidiu aceitar a proposta dos cardeais de criar uma quarta comissão, que terá como objetivo específico evitar decidida e permanentemente qualquer caso de pedofilia dentro dos ambientes eclesiais.

Segundo explicou o cardeal Maradiaga, devido à grande tarefa confiada, a comissão para a reforma da cúria romana ainda precisará de tempo. O mais provável é que não termine em 2014. Não se trata somente de uma reforma interna da cúria romana, mas também de assegurar os instrumentos de comunhão entre a Sé de Pedro e as igrejas locais, incluindo as conferências episcopais.

A terceira reunião do conselho de cardeais acontecerá de 17 a 19 de fevereiro, antes do consistório dos cardeais do mundo inteiro, previsto para os dias 20 e 21. No dia seguinte, o Papa criará novos cardeais.

Se o Papa se ativer às normas deverá nomear pelo menos 14 novos cardeais, pois, em 22 de fevereiro, os cardeais eleitores (que ainda não cumpriram 80 anos) serão 106, e o número previsto é de 120.

O nome dos cardeais escolhidos será um novo elemento indicativo para compreender a reforma que o Papa está trazendo à Igreja.


2. Sínodo dos bispos sobre a família

Outro grande desafio que o Papa terá este ano é o sínodo dos bispos, representantes de todos os continentes, sobre a família, que se realizará no Vaticano de 5 a 19 de outubro. O Papa considera a metodologia do sínodo muito protocolar e pouco colegial. Por este motivo, ele pretende recuperar o caráter consultivo e operativo do sínodo, como acontecia na Igreja primitiva.

E já tomou as primeiras providências para isso. Antes de tudo, ao contrário do que se fazia até agora, não há encarregado da redação de um documento base que oriente (e implicitamente condicione) os temas a serem tratados; o Papa enviou a todas as dioceses do mundo um questionário de 38 perguntas, para que seja respondido não só pelos bispos, mas por todos: leigos, padres, religiosos, religiosas etc.

A secretaria de Estado reunirá as respostas em um documento tecnicamente chamado de “instrumentumlaboris”, que será a base para as discussões do sínodo.

O questionário já apresenta alguns dos temas de debate do sínodo, como, por exemplo, a situação dos divorciados que voltam a se casar, o aumento dos casais de fato, a atitude da Igreja diante das uniões entre pessoas do mesmo sexo, a educação dos filhos em situações matrimoniais irregulares.

Como explicou na apresentação do questionário o cardeal Peter Erdö, arcebispo de Budapeste e relator geral deste sínodo, a assembleia episcopal “não mudará a doutrina, e sim adotará atitudes pastorais diferentes”.

3. Canonização de João XXIII e João Paulo II

O evento do Papa que convocará o maior número de pessoas (e poderá bater um recorde histórico) já está anotado na agenda há meses: no dia 27 de abril, serão canonizados dois dos papas mais amados da história: João XXIII e João Paulo II.

Será um momento particularmente emotivo para Francisco: KarolWojtyla o nomeou como arcebispo de Buenos Aires e depois como cardeal. Por outro lado, Bergoglio nunca escondeu sua admiração por João XXIII, especialmente pela sua simplicidade e pela abertura que ele trouxe à Igreja Católica com a convocação do Concílio Vaticano II.

Apesar de ainda não estar confirmado, esta cerimônia poderia ser o primeiro ato público do qual participaria o Papa Emérito Bento XVI, um dos colaboradores mais próximos de João Paulo II.

4. Viagem à Terra Santa

Este Papa parece não ter a intenção de fazer muitas viagens internacionais, mas sem dúvida as que ele fizer serão particularmente importantes. Depois de ter reunido 3,5 milhões de pessoas na Jornada Mundial da Juventude, no Brasil, sua segunda viagem fora da Itália como Papa terá como destino a Terra Santa (Israel e os Territórios Palestinos).

O Papa anunciou no último domingo que viajará nos dias 24 a 26 de maio, em três etapas: Amã, Belém e Jerusalém.

Esta viagem é especial por três motivos. Em primeiro lugar, servirá para impulsionar a fraternidade entre cristãos e judeus, uma das tarefas que Bergoglio guarda particularmente no coração, como demonstrou em seus primeiros gestos como papa, bem como quando era arcebispo em Buenos Aires.

A fraternidade entre muçulmanos e cristãos é o segundo objetivo desta viagem e este é um tema central em alguns cantos do planeta, nos quais estas relações se degradaram, como no caso da República Centro-Africana.

Finalmente, a viagem é decisiva para a minoria cristã na Terra Santa e no Oriente Médio, vítima do fogo cruzado dos conflitos sanguinários da região.

5. Ser pastor espiritual da aldeia global

O último desafio do Papa neste ano é confirmar seu papel de pastor espiritual no mundo globalizado. O Bispo de Roma não é um pároco global, pois isso significaria não respeitar as realidades locais (paróquias), tema com o qual Francisco se preocupa especialmente. Não estamos falando disso.

O Papa, em sua tarefa de comunhão da Igreja universal como sucessor de Pedro, pode oferecer um serviço de guia espiritual para todas as pessoas que veem em sua palavra um motivo para aproximar-se de Deus.

Esta talvez seja a missão mais importante e surpreendente que o Papa começou a realizar nestes primeiros meses do seu pontificado, e que explica a sua popularidade. Suas homilias diárias são motivo de meditação cotidiana para milhões de pessoas na internet, particularmente nas redes sociais.

Até agora, os participantes destas missas eram os funcionários da Santa Sé. Mas, a partir deste ano, os convidados das missas do Papa serão fiéis das paróquias, começando pelas de Roma. Dado que a capela é pequena, cada missa terá 25 convidados.

A Eucaristia diária dará ao Papa, portanto, a oportunidade de manter-se em contato com os fiéis comuns, evitando esse isolamento no Vaticano, que ele tem evitado desde o começo do pontificado.

Por outro lado, o enorme impacto que suas palavras e atos tiveram nestes primeiros meses fez deste Papa um grande guia espiritual para milhões de pessoas, inclusive não católicas, na aldeia global.

Papa Francisco ordena destituição de padre argentino acusado de pedofilia

Desde que chegou ao Vaticano, Francisco expressou sua vontade de enfrentar a pedofilia na instituição 

 Buenos Aires- O Papa Francisco ordenou a destituição da Igreja Católica do sacerdote argentino José Antonio Mercau, condenado em 2011 a 14 anos de prisão por abuso sexual de cinco crianças, informou uma fonte eclesiástica.

"O Santo Padre decretou a destituição do padre Joseph Mercau do estado clerical", informou em um comunicado a diocese de San Isidro, à qual pertencia. Mercau "perdeu automaticamente seus direitos do estado clerical, sendo privado de todo o exercício do ministério sacerdotal", diz o texto no site da diocese.

Desde que chegou ao Vaticano, em março de 2013, Francisco expressou sua vontade de enfrentar a pedofilia na instituição. "Não há lugar na Igreja para aqueles que cometem estes abusos, e me comprometo em não tolerar os danos causados a uma criança por qualquer pessoa", declarou o líder da Igreja Católica.

Mercau foi considerado culpado de "subjugação e abuso sexual agravado" contra cinco crianças entre 7 e 15 anos que estavam sob seus cuidados em uma casa paroquial em Tigre, periferia norte de Buenos Aires. De acordo com o tribunal, os abusos foram cometidos entre 2000 e 2005. Todos os casos foram admitidos pelo réu. Condenado em 2011, foi libertado em março deste ano depois de cumprir metade da pena.
 

O Papa abriu a porta para discutir o celibato

No avião, retornando para Roma, Francisco disse que o celibato não é um dogma, que não haverá nenhum privilégio para os abusadores de menores e que ainda está se investigando a suposta má administração dos fundos do banco vaticano.


O celibato não é um dogma, ou seja, pode ser discutido. “A Igreja Católica tem padres casados. Católicos gregos, católicos coptas, também há no rito oriental. Não se está debatendo sobre um dogma, mas, sim, sobre uma regra de vida que eu aprecio muito e que é um dom para a Igreja. Por não ser um dogma de fé, a porta sempre está aberta”, disse o papa Francisco, referindo-se ao celibato, na tradicional coletiva de imprensa no avião de retorno a Roma, que o trazia da Terra Santa.
 
A reação não demorou por parte da Igreja Católica do Paraguai e da Costa Rica. O presidente da Conferência Episcopal do Paraguai, dom Claudio Giménez, sustentou que “se pode dialogar sobre o tema do celibato, já que foi conversado a esse respeito durante o Concílio Vaticano II”, para, em seguida, esclarecer que por essa ocasião foi decidido que essa condição continuaria para os sacerdotes católicos do Ocidente. Giménez avaliou o debate. “Pode-se discutir para conhecer os prós e contras, porque, caso contrário, permanece na penumbra”. Na mesma linha de dom Giménez, o arcebispo de San José, dom José Rafael Quiroz, manifestou estar de acordo em que se abra uma porta para discutir o assunto e que, em relação à Costa Rica, fará uma reflexão sobre o tema.
 
É preciso lembrar que, algumas semanas atrás, um grupo de 26 mulheres que mantinham relação com sacerdotes ou gostariam de ter, escreveu uma longa carta ao Papa, solicitando-lhe que eliminasse o celibato. Dessa forma, poderiam concretizar o amor que elas e os sacerdotes sentiam, mas sem obrigá-los a deixar a batina.
 
O que você fará com sacerdotes ou bispos que não respeitam as normas em matéria de abusos sexuais contra menores?”, perguntaram ao Papa, durante a coletiva de imprensa. Francisco respondeu: “Na Argentina, dizemos aos privilegiados: ‘este é um filho de papai’. Pois bem, neste problema não haverá ‘filhos de papai’. Neste momento, há três bispos que estão sendo investigados: um já está condenado e está se estudando a pena que é preciso lhe atribuir. Não existem privilégios. O sacerdote que faz isto trai o corpo do Senhor, porque ao invés de conduzi-los à santidade, abusa. E isto é gravíssimo! É como... farei uma comparação: é como uma missa negra, porque ao invés de conduzi-lo à santidade, leva-o a um problema que durará por toda a vida”. Além disso, o Papa disse que, em breve - não fixou ainda a data, precisou o Vaticano -, será feita uma missa em Santa Marta - a residência onde o Pontífice vive e em cuja capela celebra missa todos os dias -, com oito vítimas de abusos sexuais.
 
Sobre a suposta má administração de fundos, da qual é suspeito o ex-secretário de Estado - ou seja, aquele que foi o número dois do Vaticano -, o cardeal Tarcisio Bertone, Francisco disse que ainda está se investigando. Trata-se de 15 milhões de euros do banco vaticano, que não se sabe muito bem onde foram parar. Também disse que sua campanha em tornar o banco vaticano, o IOR, uma instituição transparente, provocou o fechamento de 1.600 contas bancárias. Porém, alguns problemas subsistem porque ainda há membros da Igreja de Roma “que não o veem com clareza”. Escândalos na Igreja? “Sempre haverá algum. São inevitáveis”. A questão é colocar limites, explicou, “mas contradições sempre existirão, porque somos pecadores”.
 
Interrogado sobre o que faria se algum dia não tiver mais forças para continuar, disse: “farei o que o Senhor me disser”. “Há 70 anos, não existiam os bispos eméritos. Agora há muitos. O que acontecerá com os papas eméritos? Bento XVI abriu uma porta, a dos papas eméritos. Se haverá mais, apenas Deus é quem sabe. Contudo, essa porta está aberta. Acredito que um bispo de Roma, que sinta que suas forças diminuem, deve se fazer as mesmas perguntas que o papa Bento fez”.
Francisco também não fez rodeios quando propôs a Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, e ao presidente de Israel, Shimon Peres, que venham ao Vaticano para rezar juntos pela paz e conversar, correndo o risco de que esses governos considerassem uma ingerência em assuntos políticos. Por suas atitudes durante a viagem, sem considerar inconveniente visitar lugares sagrados, tanto para os judeus como para os muçulmanos, além de cristãos, e por sua dedicação em insistir na luta pela paz, foi elogiado na Europa e no Oriente Médio.
 
Os jornalistas também lhe perguntaram sobre o anunciado encontro com Abbas e Peres no Vaticano. “O encontro no Vaticano será um encontro de oração, servirá para fazermos uma meditação. Depois, cada um voltará para sua própria casa”, disse, explicando que também haverá um rabino e um muçulmano. A data do encontro, segundo o Vaticano, ainda não foi estabelecida. “A paz não se compra, nem se vende”, disse o Papa em Amã, na primeira etapa de sua viagem pela Terra Santa, que depois o levou aos territórios palestinos e a Israel. E pediu para que se faça tudo o que for possível para encontrar uma “solução urgente e pacífica” para o Oriente Médio e a Síria.
 
A Liga Árabe o elogiou dizendo que seu pedido pela paz “tem um significado político importante”. “Construir a paz é difícil. Porém, viver sem ela é um tormento”, disse Francisco. E Shimon Peres, pelo visto, também avaliou positivamente a tentativa do pontífice, porque de fato aceitou vir a Roma.
Quem não estaria muito de acordo, segundo a imprensa europeia, é o primeiro-ministro, de linha dura, Benjamin Netanyahu. O presidente da Itália, Giorgio Napolitano, em uma mensagem enviada a Francisco, disse que está “seguro que o convite feito por Sua Santidade tocará o coração de todos os que nessas terras desejam um futuro de paz e de fecunda convivência”.
 

''Como Jesus, vou usar o bastão contra os padres pedófilos.'' Entrevista com o Papa Francisco

"A pedofilia é uma lepra que há na Igreja e também afeta os bispos e os cardeais. Alguns sacerdotes passam por cima do fenômeno mafioso: a denúncia pública é rara".

A reportagem é de Eugenio Scalfari, diretor do jornal La Repubblica, 13-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
 
São as 17 horas da quinta-feira, 10 de julho, e é a terceira vez que eu encontro o Papa Francisco para conversar com ele. Sobre o quê? Sobre o seu pontificado, que começou há pouco mais de um ano e que, em tão pouco tempo, já começou a revolucionar a Igreja; sobre as relações entre os fiéis e o papa que vem do outro lado do mundo; sobre o Concílio Vaticano II concluído há 50 anos e apenas parcialmente implementado nas suas conclusões; sobre o mundo moderno e a tradição cristã e, sobretudo, sobre a figura de Jesus de Nazaré.
 
Finalmente, sobre a nossa vida, sobre os seus afãs e as suas alegrias, sobre os seus desafios e o seu destino, sobre o que nos espera em um esperado além ou sobre o nada que a morte traz consigo.
 
Esses nossos encontros foram desejados pelo Papa Francisco, porque, entre as tantas pessoas de todas as condições sociais, de todas as fés, de todas as idades que ele encontra no seu apostolado cotidiano, ele também desejava trocar ideias e sentimentos com um não crente.
 
E eu o sou; um não crente que ama a figura humana de Jesus, a sua pregação, a sua lenda, o mito que ele representa aos olhos de quem reconhece uma humanidade de excepcional densidade, mas nenhuma divindade.
 
O papa considera que uma conversa com um não crente do gênero é reciprocamente estimulante e, por isso, quer continuá-la; digo isso porque foi ele quem me disse. O fato de eu também ser jornalista não o interessa especificamente; eu poderia ser engenheiro, professor escolar, operário.
Interessa-lhe falar com quem não acredita, mas gostaria que o amor ao próximo professado há 2.000 anos pelo filho de Maria e de José fosse o principal conteúdo da nossa espécie, enquanto, infelizmente, isso acontece muito raramente, dominado pelos egoísmos, por aquilo que Francisco chama de "cobiça de poder e desejo de posse".
 
Ele definiu isso em uma nossa conversa anterior como "o verdadeiro pecado do mundo, do qual todos somos afetados", e representa a outra forma da nossa humanidade, e é a dinâmica entre esses dois sentimentos que constrói, para o bem ou para o mal, a história do mundo.
 
Ela está presente em todos, e, além disso, na tradição cristã, Lúcifer era o anjo predileto de Deus, portador de luz até que se rebelou contra o seu Senhor, tentado a tomar o seu lugar, e o seu Deus o precipitou nas trevas e no fogo dos condenados.
 
Falamos dessas coisas, mas também das intervenções do papa nas estruturas da Igreja, das adversidades que ele encontra. Devo dizer que, para além do extremo interesse dessas conversas, nasceu em mim um sentimento de afetuosa amizade que não modifica em nada o meu modo de pensar, mas de sentir, isso sim. Não sei se é correspondido, mas a espontaneidade desse muito estranho sucessor de Pedro me faz pensar que sim.
 
Agora, estou esperando-o há alguns minutos na pequena sala no piso térreo de Santa Marta, onde o papa recebe os amigos e os colaboradores. Ele chega pontualíssimo, sem ninguém que o acompanhe. Ele sabe que eu tive nos últimos dias alguns problemas de saúde e, de fato, logo me pede notícias a respeito. Coloca a sua mão sobre a cabeça, uma espécie de bênção, e depois me abraça. Fecha a porta, ajeita a sua cadeira na frente da minha e começamos.
* * *
Pedofilia e máfia são os dois temas sobre os quais Francisco falou nos últimos dias e que levantaram uma onda de sentimentos e também de polêmicas dentro e fora da Igreja. O papa é muito sensível tanto em relação a um quanto ao outro assunto e já tinha falado, em várias ocasiões, mas ainda não os tinha tomado tão a peito, sobretudo sobre os pontos referentes ao comportamento de uma parte do clero.
 
"A corrupção de uma criança", diz, "é o que de mais terrível e imundo se possa imaginar, especialmente quando, como indicam os dados que eu pude examinar diretamente, grande parte desses fatos abomináveis ocorrem dentro das famílias ou mesmo de uma comunidade de velhas amizades. A família deveria ser o sacrário onde a criança e depois o menino e o adolescente são amorosamente educados ao bem, encorajados no crescimento estimulado a construir a própria personalidade e a se encontrar com a dos seus coetâneos. Brincar juntos, estudar juntos, conhecer o mundo e a vida juntos. Isso com os coetâneos, mas, com os parentes que os colocaram no mundo ou que os viram entrar no mundo, a relação é como o de cultivar uma flor, um canteiro de flores, cuidando-o do mau tempo, desinfetando-a dos parasitas, contando-lhes as fábulas de vida e, enquanto o tempo passa, a sua realidade. Essa é ou deveria ser a educação que a escola completa e a religião coloca no plano mais alto do pensar e do crer no sentimento divino que se assoma às nossas almas. Muitas vezes, transforma-se em fé, mas, mesmo assim, deixa uma semente que, de algum modo, fecunda aquela alma e a volta para o bem."
 
Enquanto fala e diz essas verdades, o papa se aproxima de mim ainda mais. Fala comigo, mas é como se refletisse consigo mesmo, desenhando o quadro da sua esperança que coincide com a de todas as pessoas de boa vontade.
 
Provavelmente – digo eu – isso é uma grande parte do que acontece. Ele me olha com olhos diferentes, que de repente se tornaram duros e tristes. "Não, infelizmente não é assim. A educação como nós a entendemos parece quase ter desertado as famílias. Cada um é tomado pelas próprias incumbências pessoais, muitas vezes para assegurar à família um padrão de vida suportável, às vezes para buscar o seu próprio sucesso pessoal, outras vezes por amizades e amores alternativos. A educação como tarefa principal em relação aos filhos parece ter fugido das casas. Esse fenômeno é uma gravíssima omissão, mas ainda não estamos no mal absoluto. Não apenas a educação inexistente, mas também a corrupção, o vício, as práticas torpes impostas à criança e, depois, praticadas e atualizadas cada vez mais gravemente, assim que ela cresce e se torna moço e, depois, adolescente. Essa situação é frequente nas famílias, praticada por parentes, avós, tios, amigos da família. Muitas vezes, os outros membros da família estão conscientes disso, mas não intervêm, enredados por interesse ou por outras formas de corrupção".
 
Eis a entrevista.
Para o senhor, Santidade, o fenômeno é frequente e generalizado?
 
"Infelizmente, é e é acompanhado por outros vícios, como a disseminação das drogas."
 
E a Igreja? O que a Igreja faz em tudo isso?
 
"A Igreja luta para que o vício seja debelado e a educação, recuperada. Mas nós também temos essa lepra em casa."
 
Um fenômeno muito generalizado?
 
"Muitos dos meus colaboradores que lutam comigo me tranquilizam com dados confiáveis que avaliam a pedofilia dentro da Igreja em nível de 2%. Esse dado deveria me tranquilizar, mas devo lhe dizer que realmente não me tranquiliza. Ao contrário, eu o considero gravíssimo. Os 2% de pedófilos são sacerdotes e até bispos e cardeais. E outros, ainda mais numerosos, sabem, mas se calam, punem, mas sem dizer o motivo. Eu acho insustentável esse estado de coisas, e a minha intenção é enfrentá-lo com a severidade que exige.
 
* * *
 
Lembro ao papa que, na nossa conversa anterior, ele me disse que Jesus era o exemplo da doçura e da mansidão, mas, às vezes, pegava o bastão para derrubá-lo nas costas dos velhacos que sujavam o Templo moralmente.
 
"Eu vejo você se lembra muito bem das minhas palavras. Eu citava as passagens dos Evangelhos de Marcos e de Mateus. Jesus amava a todos, até mesmo os pecadores que ele queria redimir, dispensando o perdão e a misericórdia, mas, quando usava o bastão, empunhava-o para expulsar o demônio que tinha se apossado daquela alma."
 
As almas – isso também o senhor me disse no nosso encontro anterior – podem se arrepender depois de uma vida de pecados, mesmo no último momento da sua existência, e a misericórdia estará com elas.
 
"É verdade, essa é a nossa doutrina, e esse é o caminho que Cristo nos indicou."
Mas pode ocorrer que alguns arrependimentos no último minuto de vida sejam interessados. Talvez inconscientemente, mas interessados em se garantir um possível além. Nesse caso, a misericórdia corre o risco de acabar em uma armadilha.
 
"Nós não julgamos, mas o Senhor sabe e julga. A sua misericórdia é infinita, mas nunca cairá em uma armadilha. Se o arrependimento não é autêntico, a misericórdia não pode exercer o seu papel de redenção."
 
O senhor, Santo Padre, no entanto, lembrou várias vezes que Deus nos dotou com o livre arbítrio. O senhor sabe bem que, se escolhermos o mal, a nossa religião não exerce misericórdia para conosco. Mas há um ponto que eu gostaria de destacar: a nossa consciência é livre e autônoma. Pode, em perfeita boa fé, fazer o mal convencida, porém, de que, a partir desse mal, nascerá um bem. Qual é, diante de casos desse tipo, que são muito frequentes, a atitude dos cristãos?
 
"A consciência é livre. Se escolher o mal, porque está segura de que dele derivará um bem do alto dos céus, essas intenções e as suas consequências serão avaliadas. Nós não podemos dizer mais, porque não sabemos mais. A lei do Senhor é o Senhor que estabelece, e não criaturas. Nós sabemos somente porque foi Cristo que nos disse que o Pai conhece as criaturas que criou, e nada para ele é misterioso. Além disso, o livro de examina a fundo esse tema. Recorda-se que falamos disso? Seria preciso examinar a fundo os livros sapienciais da Bíblia e o Evangelho quando fala de Judas Iscariotes. São temas de fundo da nossa teologia subjacente."
 
E também da cultura moderna que vocês querem compreender a fundo e com a qual querem debater.
 
"É verdade, é um ponto capital do Vaticano II, e devemos enfrentá-lo o mais rápido possível."
 
Santidade, ainda é preciso falar sobre o tema da máfia. O senhor tem tempo?
 
"Estamos aqui para isso."
 
* * *
 
"Não conheço a fundo o problema das máfias. Sei, infelizmente, o que elas fazem, os crimes que são cometidos, os enormes lucros que as máfias administram. Mas me escapa o modo de pensar dos mafiosos, os chefes, os gregários. Na Argentina, como em todos os lugares, há os delinquentes, os ladrões, os assassinos, mas não as máfias. É esse aspecto que eu gostaria examinar, e vou fazer isso lendo os tantas livros que foram escritos a respeito e os muitos testemunhos. Você é de origem calabresa, talvez possa me ajudar a entender."
 
O pouco que posso dizer é isto: a máfia – seja calabresa, seja siciliana, seja a camorra napolitana – não são acólitos desviados de delinquentes, mas são organizações que têm leis próprias, códigos de comportamento próprios, cânones próprios. Estados no Estado. Que não lhe pareça paradoxal se eu lhe disser que elas têm uma ética própria. E que não lhe pareça anormal se eu acrescentar que elas têm um Deus próprio. Existe um Deus mafioso.
 
"Entendo o que você está dizendo: é um fato que a maior parte das mulheres ligadas à máfia por vínculos de parentesco, as esposas, as filhas, as irmãs, frequentam assiduamente as igrejas das suas cidades, onde o prefeito e outras autoridades locais muitas vezes são mafiosos. Essas mulheres pensam que Deus perdoa os horríveis crimes dos seus parentes?"
 
Santidade, os mesmos parentes muitas vezes frequentam as igrejas, as missas, os casamentos, os funerais. Não acredito que se confessem, mas muitas vezes comungam e batizam os recém-nascidos. Esse é o fenômeno.
 
"O que você diz é claro, e, além disso, não faltam livros, pesquisas, documentações. Devo acrescentar que alguns sacerdotes tendem a passar por cima do fenômeno mafioso. Naturalmente, condenam os crimes individuais, honram as vítimas, ajudam como podem as suas famílias, mas a denúncia pública e constante das máfias é rara. O primeiro grande papa que a fez, justamente falando nestas terras, foi Wojtyla. Devo dizer que o seu discurso foi aplaudido por uma multidão imensa."
 
O senhor pensa que nessa multidão que aplaudia não havia mafiosos? Pelo que eu saiba, havia muitos. O mafioso, repito, aplica um código próprio e uma ética própria: os traidores devem ser mortos, os desobedientes devem ser punido, às vezes o exemplo é dado com o homicídio de crianças ou de mulheres. Mas esses, para o mafioso, não são pecados, são as suas leis. Deus não tem nada a ver, muito menos os santos padroeiros. O senhor viu a procissão de Oppido Mamertina?
 
"Eram milhares os participantes. Depois, a estátua de Nossa Senhora das Graças parou na frente da janela do boss que está sob custódia em prisão perpétua. Justamente, tudo isso está mudando e vai mudar. A nossa denúncia das máfias não será feita de vez em quando, mas será constante. Pedofilia, máfia: a Igreja, o povo de Deus, os sacerdotes, as comunidades, dentre outras tarefas, terão essas duas questões muito principais."
 
* * *
 
Passou uma hora, e eu me levanto. O papa me abraça e me deseja que eu melhore o mais rápido possível. Mas eu lhe faço ainda mais uma pergunta:
 
O senhor, Santidade, está trabalhando assiduamente para integrar a catolicidade com os ortodoxos, com os anglicanos...
 
Ele me interrompe continuando: "Com os valdenses, que eu considero como religiosos de primeira ordem, com os pentecostais e, naturalmente, com os nossos irmãos judeus".
 
Pois bem, muitos desses sacerdotes ou pastores são regularmente casados. Quanto esse problema vai crescer com o tempo na Igreja de Roma?
 
"Talvez você não saiba que o celibato foi estabelecido no século X, isto é, 900 anos depois da morte de nosso Senhor. A Igreja católica oriental tem a faculdade, desde já, de que os seus presbíteros se casem. O problema certamente existe, mas não é de grande entidade. É preciso tempo, mas as soluções existem, e eu as encontrarei.
 
* * *
 
Já estamos fora do portão de Santa Marta. Abraçamo-nos de novo. Confesso que me comovi. Francisco acariciou minha bochecha, e o carro partiu.
 

Vaticano cria conselho para lidar com casos de pedofilia dentro da igreja católica

Parece que o Vaticano está avançando em alguns aspectos, um sinal disto foi o anúncio da criação de um Conselho judicial para lidar com crimes graves, como abuso sexual de menores. A medida entrará em vigor nesta terça-feira e pretende acelerar os procedimentos internos da Igreja Católica.
 
 
O Conselho será composto por sete cardeais ou bispos escolhidos pelo papa Francisco. Serão analisados os recursos referentes aos crimes cometidos contra a moral e referentes à celebração dos sacramentos católicos.
 

 
O Conselho será ligado à Doutrina da Fé, que por não estar dando conta dos recursos passará os itens pendentes. As decisões tomadas no Conselho serão passadas em sessão ordinária para a Congregação.
 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

20 de Novembro - Dia Nacional da Consciência Negra

Monumento a Zumbi dos Palmares em Salvador, Bahia*
 
O Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, foi instituído oficialmente pela lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. A data faz referência à morte de Zumbi, o então líder do Quilombo dos Palmares – situado entre os estados de Alagoas e Pernambuco, na região Nordeste do Brasil. Zumbi foi morto em 1695, na referida data, por bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho. Maiores informações podem ser consultadas no texto História do Quilombo de Palmares.
 
A data de sua morte, descoberta por historiadores no início da década de 1970, motivou membros do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial, em um congresso realizado em 1978, no contexto da Ditadura Militar Brasileira, a elegerem a figura de Zumbi como um símbolo da luta e resistência dos negros escravizados no Brasil, bem como da luta por direitos que seus descendentes reivindicam.
 
Com a redemocratização do Brasil e a promulgação da Constituição de 1988, vários segmentos da sociedade, inclusive os movimentos sociais, como o Movimento Negro, obtiveram maior espaço no âmbito das discussões e decisões políticas. A lei de preconceito de raça ou cor (nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989) e leis como a de cotas raciais, no âmbito da educação superior, e, especificamente na área da educação básica, a lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira, são exemplos de legislações que preveem certa reparação aos danos sofridos pela população negra na história do Brasil.
 
A figura de Zumbi dos Palmares é especialmente reivindicada pelo movimento negro como símbolo de todas essas conquistas, tanto que a lei que instituiu o dia da Consciência Negra foi também fruto dessa reivindicação. O nome de Zumbi, inclusive, é sugerido nas Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana como personalidade a ser abordada nas aulas de ensino básico como exemplo da luta dos negros no Brasil. Essa sugestão orienta-se por uma das determinações da lei Nº 10.639, que diz no Art. 26-A, parágrafo 1º: “O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.”
 
A despeito da comemoração do Dia da Consciência Negra ser no dia da morte de Zumbi e do que essa figura histórica representa enquanto símbolo para movimentos sociais, como o Movimento Negro, há muita polêmica no âmbito acadêmico em torno da imagem de Zumbi e da própria história do Quilombo dos Palmares. As primeiras obras que abordaram esse acontecimento histórico, como as de Edison Carneiro (O Quilombo dos Palmares, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 3a ed., 1966), de Eduardo Fonseca Jr. (Zumbi dos Palmares, A História do Brasil que não foi Contada. Rio de Janeiro: Soc. Yorubana Teológica de Cultura Afro-Brasileira, 1988) e de Décio Freitas (Palmares, a guerra dos escravos. Porto Alegre: Movimento, 1973), abriram caminho para a compreensão da história da fundação, apogeu e queda do Quilombo dos Palmares, mas, em certa medida, deram espaço para o uso político da figura de Zumbi, o que, segundo outros historiadores que revisaram esse acontecimento, pode ter sido prejudicial para a veracidade dos fatos.
 
Um dos principais historiadores que estudam e revisam a história do Quilombo dos Palmares atualmente é Flávio dos Santos Gomes, cuja principal obra é De olho em Zumbi dos Palmares: História, símbolos e memória social (São Paulo: Claro Enigma, 2011). Flávio Gomes procurou, nessa obra, realizar não apenas uma revisão dos fatos a partir do contato direto com as fontes do século XVI e XVII, mas também analisar o uso político da imagem de Zumbi. Segundo esse autor, o tio de Zumbi, Ganga Zumba, que chefiou o quilombo e, inclusive, firmou tratados de paz com as autoridades locais, acabou tendo sua imagem diminuída e pouco conhecida em razão da escolha ideológica de Zumbi como símbolo de luta dos negros.
 
Além dessa polêmica, há também o problema referente à própria estrutura e proposta de resistência dos quilombos no período colonial. Historiadores como José Murilo de Carvalho acentuam que grandes quilombos, como o de Palmares, não tinham o objetivo estrito de apartar-se completamente da sociedade escravocrata, tendo o próprio Quilombo dos Palmares participado do tráfico e do uso de escravos. Diz ele, na obra Cidadania no Brasil: “Os quilombos que sobreviviam mais tempo acabavam mantendo relações com a sociedade que os cercava, e esta sociedade era escravista. No próprio quilombo dos Palmares havia escravos”. (CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 48).
 
As polêmicas partem de indagações como: “Se Zumbi, que foi líder do Quilombo de Palmares, possuía escravos negros, a noção de luta por liberdade nesse contexto era bem específica e não pode colocá-lo como símbolo de resistência contra a escravidão”. A própria história da África e do tráfico negreiro transatlântico revela que grande parte dos escravos que a coroa portuguesa trazia para o Brasil Colônia era comprada dos próprios reinos africanos que capturavam membros de reinos ou tribos rivais e vendiam-nos aos europeus. Essa prática também ressoou, como atestam alguns historiadores, em dada medida, nos quilombos brasileiros.
 
Nesse sentido, a complexidade dos fatos históricos nem sempre pode adequar-se a anseios políticos. Os estudos históricos precisam dar conta dessa complexidade e fornecer elementos para compreender o passado e sua relação com o presente. Entretanto, esse processo precisa ser cuidadoso. O uso de datas comemorativas como marcos de memória suscita esse tipo de polêmica, que deve ser pensada e discutida criteriosamente, sem prejuízo nem das reivindicações sociais e, tampouco, da veracidade dos fatos.
 
* Créditos da imagem: Commons
Por Me. Cláudio Fernandes
 

"Negro ainda é visto como supostamente inferior", diz ministra

No Dia da Consciência Negra, Luiza Barrios, ministra da Promoção e Igualdade Racial (Seppir), fala ao iG sobre racismo, cotas e preconceito,

Quando aceitou o convite da presidente Dilma Rousseff em 2011 e assumiu o cargo de ministra da Promoção e Igualdade Racial (Seppir), a gaúcha Luiza Barrios já tinha 32 anos de atuação no movimento de defesa ao negro.
Ela começou em 1979, quando ingressou no Movimento Negro Unificado (MNU), em Salvador após concluir o curso de Administração Pública e Administração de Empresas, na Universidade Federal do Rio Grande de Sul.
No MNU, foi eleita em 1991 a primeira coordenadora nacional da organização, cargo que exerceu até 1994.
 
 
RafaB/Gabinete Digital-PR
Ministra da Secretaria da Igualdade Racial Luiza Barrios
 
Antes de assumir o ministério, Luiza ainda comandou a Secretaria de Promoção da Igualdade do Estado da Bahia (SEPROMI), que tratava de políticas para mulheres e de igualdade racial. Sua experiência no movimento negro inclui ainda a criação do Projeto Raça e Democracia nas Américas, em parceria com a organização norte-americana Conferência Nacional de Cientistas Políticos Negros, na Universidade Federal da Bahia, onde atuou como pesquisadora.
 
Nestes 32 anos, a ministra avalia que uma das principais conquista do movimento negro foi levar a questão racial para um cenário nacional e conquistar direitos como a criação da lei anti-racismo, na Constituição de 1988, e a implementação da Seppir, em 2003, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ministra conversou com o iG sobre o racismo, as cotas e a situação da mulher negra na sociedade brasileira.
 
iG: A senhora sempre teve a atuação ligada ao movimento de defesa ao negro no Brasil. O que mudou desde 1979, quando a senhora começou a sua militância?
 
Luiza Barrios: Mudou muito. No início do movimento negro contemporâneo, que se deu na segunda metade dos anos 1970, o que se colocava era a necessidade de se transformar a questão racial em uma questão nacional. Isso foi conseguido, na medida em que hoje no Brasil, essa questão racial faz parte do debate público. Ao longo do tempo, uma legislação foi criada para dar respaldo da definição da Constituição de que o racismo é um crime. Por outro lado, o governo assumiu a sua responsabilidade em combater os efeitos do racismo sobre a parcela negra da população com a criação da Seppir. Tem a questão colocada para além do movimento negro, não apenas no Poder Executivo, mas também no Judiciário, no Executivo. Todos os poderes envolvidos em debates e decisões relativas a esse tema.
 
O que mudou em relação ao negro desde que a secretaria foi criada, em 2003? Quais os avanços promovidos pela secretaria?
 
São muitos. A Seppir foi, ao longo do tempo, se consolidando porque era uma estrutura nova dentro do governo. Ela nasceu com a função de articular ações dentro do governo e isso eu considero novo dentro da administração pública. A Secretaria foi criando as condições necessárias para o seu funcionamento, como a definição de uma politica nacional de promoção da igualdade racial, a existência das conferências nacionais, como fórum de consulta para o estabelecimento de diretrizes para essa política. Teve ainda um trabalho bastante ativo no processo de aprovação pelo Congresso Nacional do Estatuto da Igualdade Racial. Com a aprovação do estatuto, foram criadas condições que nós precisávamos para consolidar essa pauta dentro do governo. Foi possível criar o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, que define melhor as competências das três esferas na execução da política nacional. Mais do que isso, o estatuto prevê uma séria de obrigações e dá o caminho para que o setor público assuma determinadas responsabilidades em vários campos da vida social. Tudo que se refere na questão do trabalho, da educação, dos meios de comunicação. Isso facilitou para que nós pudéssemos, em consequência, ampliar a presença da promoção da igualdade dentro do Plano Plurianual do governo, fazendo com que cada vez um número maior de ministérios assuma responsabilidades dentro dessa pauta.
 
Os negros ainda têm os empregos com salários menores, são maiorias no sistema penitenciário e minoria nas universidades. Isso prova que existe muito preconceito, mesmo que velado na nossa sociedade. Como coibir isso?
 
São duas dimensões com as quais a gente trabalha. Uma dimensão é a do enfrentamento ao racismo. Em relação a isso, nós podemos dizer que a sociedade ainda tem muito a fazer para combater esses mecanismos que fazem com que a pessoa negra seja vista como supostamente inferior. A outra dimensão é essa onde o governo atua mais diretamente que é a da igualdade racial, na qual temos feito progressos significativos. Ao longo do tempo aumentou a presença de pessoas negras no ensino superior, as diferenças em termos de escolaridade entre brancos e negros, embora ainda existam, são bem menores do que já foram há 10 ou 15 anos. Por conta das escolhas que o governo fez, do ponto de vista do desenvolvimento do País, tem hoje uma maior presença negra no mercado formal. O que tem de se levado em consideração é que o ponto de partida dos negros, no momento em que essas politicas de inclusão começam a ser adotadas era muito desfavorável. Para que se compensem desvantagens históricas leva um tempo muito maior. Por isso tem se dado uma ênfase muito grande às ações afirmativas para acelerar esse processo de diminuição das diferenças entre brancos e negros. As ações afirmativas que são agora universalizadas, nas universidades federais, nos institutos técnicos, em médio prazo vão causar um impacto positivo do ponto de vista da igualdade. Do mesmo modo que essa última decisão tomada pelo governo de reserva de vagas para negros em concursos públicos também ajuda a aumentar a presença de negros nas posições mais valorizadas do mercado de trabalho.
 
Movimentos de defesa do negro defendem as cotas, mas elas ainda não são vistas como unanimidade. Um dos argumentos é dizer que ao dar vagas por meio das cotas, você está implicitamente dizendo ao negro que ele não tem capacidade de competir de igual para igual com um branco. Como o Ministério encara essa questão?
 
Esse tipo de argumento vai sempre existir porque geralmente é colocado por pessoas que não acreditam que o racismo provoca desvantagem na vida das pessoas negras, do mesmo modo que ele cria privilégios para as pessoas brancas. Esse é o ponto de partida principal. Se a pessoa não acredita nisso nunca vai concordar com as cotas, em qualquer setor. Isso é um tipo argumento que a tendência é que com o tempo se desgaste. A adoção das cotas em várias áreas da vida social, especialmente da educação, no ensino superior, tem provado que os estudantes negros não têm diferenças significativas do ponto de vista de desempenho comparativamente aos estudantes que não se utilizaram desse recurso. O outro aspecto é que a cota no ensino superior, por exemplo, não está sendo considerada apenas para negros. A lei define 50% de cotas para egressos da escola publica, e considera qualquer estudante independente do pertencimento racial. Não existe da parte das pessoas nenhum tipo de problema para estudante de escola pública. Então, elas não são contra as cotas como um principio, elas são contra quando as cotas estão vinculadas à população negra. 
 
Quais as diferenças entre racismo e injuria racial? A senhora concorda que a torcedora gremista Patrícia Moreira tenha sido indiciada por injuria racial ao chamar o Aranha, o goleiro do Santos, de macaco?
 
É uma controvérsia no campo do direito que já dura há algum tempo. Os crimes de injúria são quando a prática racista se dirige a uma pessoa específica e o racismo como crime se caracteriza por ter uma abrangência, é algo que é dirigido a um público mais difuso. Na verdade é algo que tem a ver com um processo de maior debate que nós temos que estabelecer entre os profissionais de direito para que não exista a possibilidade de sistematicamente se colocar como injúria crimes que na verdade são de racismo. No caso da torcedora, era evidente que aquela atitude atingiu a todas as pessoas negras. Mas esse não tem sido o entendimento e nós temos, inclusive, uma dificuldade grande dentro judiciário. Além disso, há um percentual bastante alto de casos que são desconsiderados. Pesquisas mostram menos de 40% dos crimes que são julgados pelos tribunais em 1ª e 2ª instâncias acampados pelos juízes. O resto eles consideram que a denúncia não se sustenta.
 
As mulheres negras ainda têm um papel subalterno na sociedade brasileira. Frequentemente são retratadas como empregadas domésticas ou "mulata gostosa, produto exportação". Há algum projeto específico da Secretaria, com foco no empoderamento da mulher negra no Brasil?
 
De uma maneira geral, se tem uma ideia dessa subordinação das negras, que eu pessoalmente, não subscrevo. Em termos dos progressos feitos pela população negra nos últimos dez anos, chama muito atenção o fato de que as mulheres negras foram efetivamente aquelas que souberam se aproveitar melhor das oportunidades abertas, especialmente na educação. Agora, obviamente, como qualquer outro segmento da população negra, enfrenta o racismo, que contribui para que ela não consiga realizar todo o seu potencial no interior da sociedade. Esse é o primeiro aspecto. A gente tem de sair um pouco desse lugar em que a mulher negra é vista como vítima. Embora efetivamente, ela esteja colocada nas funções de menor salário, ela é uma força muito grande no interior da população negra e é fundamental para puxar para o conjunto da população negra um processo de mobilidade social ascendente.
 
O que a senhora quer dizer ao afirmar que a mulher negra soube aproveitar melhor as oportunidades?
 
Elas é que deram os maiores saltos. A proporção de mulheres negras em curso superior entre 2001 e 2012 subiu mais de 100%. Por isso que eu digo que tem um recurso dentro da comunidade negra que está muito atento para as possibilidades de inserção social e econômica na sociedade. A questão do racismo é o que impede que isso se dê de uma forma mais efetiva, de maneira a provocar no conjunto da população negra estímulos mais positivos. Quando você tem um processo de mobilidade social dentro da população negra, a tendência é procurar levar junto com você outras pessoas do grupo familiar. Esse processo do racismo impede um pouco isso porque os obstáculos a que o racismo coloca continuam existindo apesar dessa abertura de oportunidades na direção da igualdade racial.
Quais ações da Secretaria para a mulher?
 
Nós temos na Seppir um programa chamado Ações Integradas para Mulheres Negras, no qual nós procuramos atuar no sentido de fortalecimento político das mulheres apoiando as iniciativas das organizações de mulheres negras porque são essas organizações que fazem o trabalho de combate ao racismo e ao sexismo. É mais fácil e a apropriado que as organizações da sociedade civil, e não o governo, atuem nessa direção. Tem sido muito importante possibilitar esse apoio para organizações de mulheres para que elas façam o trabalho de empoderamento de outras mulheres negras. Agora, dentro do governo existem vários programas que colocam a mulher como referencia principal. Em um programa como o Bolsa família, a titular do cartão, na maioria dos casos, é a mulher, o programa Minha Casa, Minha Vida se dá preferência à mulher como titular da propriedade, o programa de agricultura familiar tem vertente voltada para as mulheres, que são pequenas agricultoras rurais. Tem uma série de outros programas reforçam esse protagonismo que se atribui às mulheres no processo de inclusão social no Brasil.
 
Recentemente, ouvimos casos de crianças impedidas de professar a fé em matrizes africanas nas escolas. Um caso recente aconteceu no Rio de Janeiro, quando um aluno foi impedido de entrar na escola com guias de candomblé. Como a senhora vê isso?
 
Na verdade, é uma decorrência de um processo que tem duas faces. Até pouco tempo vivia-se no Brasil uma situação em que as pessoas que pertencem a essas comunidades de matrizes africanas escondiam a condição para evitar a discriminação, que estava latente. Elas não mostravam suas guias, não usavam roupas, que eventualmente só são usadas quando estão dentro das comunidades. Na medida em que conseguiu fazer crescer um sentimento de orgulho por ser negro, também as pessoas ligadas a essas comunidades passaram a usar publicamente o seu pertencimento. As reações que acontecem a isso demostram o incômodo com o fortalecimento dessa identidade negra. Esse incômodo é demonstrado porque paralelamente tivemos e temos assistido a um crescimento do fundamentalismo religioso. São essas visões fundamentalistas que querem impedir a pluralidade das manifestações culturais. Isso que estamos vivendo no País. Essas são questões que emergem em função da afirmação cada vez maior do negro dentro da sociedade brasileira. Embora pareça contraditório é o problema que decorre do fortalecimento da consciência negra no País. O que importa é que esse problema emerge no momento que temos instrumentos para contrapor a isso.
 
Quais seriam esses instrumentos?
 
Você tem organizações negras preparadas para apresentar essas denúncias, para defender os direitos que essas crianças têm de irem para escola do jeito que elas quiserem ir, você tem profissionais negros preparados, profissionais do Direito que desenvolveram varios argumentos na defesa desse direito de manifestação cultural, manifestação religiosa. As coisas acontecem, e são efetivamente problemáticas, mas a nossa capacidade de lidar com elas também aumentou.
 
Como o preconceito nas redes sociais é encarado pelo Ministério? Há formas de punição? A senhora percebe que esse tipo de preconceito tem uma disseminação mais abrangente na rede?
 
Nós temos trabalhado com a Polícia Federal, que tem um setor que monitora essas ocorrências dentro das redes sociais. O racismo e a intolerância na rede são crimes novos. Estamos, na sociedade, no governo, aprendendo a lidar com isso. Estamos nos preparando para lançar uma iniciativa nesta direção, de como melhor tratar esses crimes de ódio pelas redes sociais. Neste 20 de novembro, a Seppir, a Secretaria de Direitos Humanos e o Ministério da Justiça estarão lançando uma iniciativa nesta direção. É uma coisa nova, mas é muito importante que a gente tenha essa preocupação. A Polícia Federal tem feito um trabalho bom em relação a isso. As denúncias que recebemos encaminhamos para ela diretamente. O Ministério Público Federal também dispõe de um lugar onde as denúncias podem ser feitas. Vamos ver como a gente vai trabalhando cada vez melhor nisso que é uma coisa nova.
 
Falando sobre cultura, o iG tem uma pergunta de Aloysio Terra, do grupo Baque Bolado. Segundo ele, o grande responsável pela inserção do negro é a aceitação e o reconhecimento de sua negritude. Essa identificação, diz ele, vem da inclusão de ícones negros e a cultura negra na sociedade. Ele diz, no entanto, que são poucos os projetos que promovem essa inserção de forma popular e gratuita. Ele pergunta se há um projeto integrado entre ministério do Desenvolvimento Social, Ministério da Cultura e Ministério de Promoção da Igualdade Racial, visando a promoção dessas culturas?
 
Existe sim. Ainda ontem [18], participei na Câmara Federal de uma audiência pública sobre essa questão da cultura e arte negra e o financiamento das iniciativas culturais e artísticas. Uma coisa que se observou foi o seguinte: em primeiro lugar, demos um salto muito grande no sentido de viabilizar recursos que são voltados para o apoio exclusivo de manifestações culturais e artísticas negras. Nós demos início a isso em 2012, em uma parceria da Seppir com o Ministério da Cultura, quando lançamos os primeiros editais voltados para produtores e artistas negros. Isso causou uma polêmica extremamente grande, muita controversa. Ficamos com esses editais embargados pela Justiça por um tempo até que conseguimos provar a importância da democratização aos recursos para cultura. Até porque era possível perceber, ainda não de modo estatístico, mas pela observação empírica, que a maioria dos editais voltados para cultura não conseguiam aprovar projetos de artistas e produtores culturais negros. De lá para cá, quando conseguimos convencer a Justiça de que essa era uma iniciativa legitima, os editais já foram lançados, voltados não só para grupos artísticos, mas para comunidades quilombolas, de matriz africana, ciganos. Acho que nós conseguimos neste último período um avanço muito grande nesta direção. A lei que vai instituir o Pró-Cultura está tramitando na Câmara Federal. Existem setores vinculados à cultura negra que estão acompanhando essa tramitação e com uma disposição muito grande de garantir dentro do Pró-Cultura mecanismos de apoio às expressões, às manifestações culturais e artísticas negras. Acho que é um caminho que já começamos a trilhar.

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-11-20/negro-ainda-e-visto-como-supostamente-inferior-diz-ministra.html

Campus de discriminados

Tentando, dá para esquecer um monte de ofensas colecionadas ao longo da vida, para ignorar o passado e até acreditar que o país vive uma democracia racial. Tentando, até dá para fazer isso. Mas tem gente que não deixa, que fica o tempo inteiro reforçando a divisão social covarde e obscura entre negros e brancos. Dentro dos lugares menos imagináveis. Por exemplo, na universidade pública, local de diversidade, produção de conhecimento e troca de saberes. Entre elas, está a federal mineira, a respeitada UFMG, envolta em cortina, de silêncio e omissão, que esconde uma prática cotidiana de discriminação racial e até mais que isso.
 
As histórias são muitas. Vem de professores, alunos, servidores. As vozes, poucas. Um e outro se aventura a falar, a dizer “sim, aconteceu comigo; sim, fui vítima de racismo”. Por vergonha, por constrangimento, por medo. “Eu fiquei muito tempo sem conseguir falar desse assunto”, conta uma das poucas vozes que ousou se manifestar. É de Alysson Armondes da Costa, 28 anos, aluno de ciências sociais. “A primeira vez que fui apontado como negro foi dentro da UFMG”, diz. Foi de uma forma inesperada para ele, mas que revelaria, a partir de então, ideologias, crenças, preconceitos e conceitos que fazem parte da mente dos produtores de conhecimento.
 
 
Após uma intervenção à fala do professor, ainda no início do curso, Alysson ouviu de um dos colegas de sala: “Tinha de ser negro”. O resto da turma riu. Alysson paralisou. “Não consegui reagir. Aquilo me incomodou profundamente.” E assim ficou por muito tempo, sem tocar no assunto. Foi quando a ficha caiu a respeito da forma como ele era visto pelo mundo exterior e o fez entrar para a militância, na esperança de mudar com palavras e ações uma realidade em vigor, que não está apenas em situações expressas, verbalizadas. Como em outro momento em que ele e dois amigos voltavam de uma festa dentro do campus da Pampulha, conversando alto e brincando. Os outros dois brancos, apenas ele negro. “Eu era o que estava mais quieto, mas os policiais vieram em cima de mim. Como eu já estava mais politizado, acabei discutindo com eles e até chamaram o chefe da segurança.”
 
Alysson não está sozinho no grupo dos que vivem um cotidiano universitário racista, muitas vezes mascarados por piadinhas ou argumentos de tratamento igual a todos. No dia 18 de março, uma das faces desse tipo de discriminação foi revelada com o trote pregado pelos veteranos do curso de direito. Pintaram os novatos de preto. Um deles, mulher, presa a corrente puxada por um veterano, teve de carregar placa em que estava escrito “Caloura Chica da Silva”, referência à ex-escrava que viveu em Diamantina, no século 18. Outro foi amarrado em uma pilastra e, junto a três alunos, que fizeram a saudação nazista.
 
Logo depois disso, um estudante do mesmo curso deu entrevista em que disse que não é racista e que tem até amigos negros, inclusive, o símbolo da Atlética dele é um macaco. Em seguida, uma série de manifestações, em tom de brincadeira, começaram a ser divulgadas, como nas músicas da charanga do direito, que atacam mulheres e estudantes de instituições privadas. Essas primeiras divulgações revelaram ferida aberta dentro da universidade e, ao mesmo tempo, uma espiral do silêncio compactuada até pelas autoridades acadêmicas.
 
Estudante da pós-graduação, negra e mulher, Joyce Santos, 29 anos, decidiu entrar na discussão a respeito das manifestações discriminatórias do direito, em um grupo do Facebook. Foi incisiva, protestou, argumentou contra quem acha que não passou de brincadeira. Não ficou por menos. Em questão de minutos, um perfil fake entrou no grupo e começou a postar mensagens de agressão aos negros. O nome dele era Ethan White e, apesar de ser o mesmo nome de jogador negro, dos Estados Unidos, tinha a foto de uma criança branca e loura. A primeira postagem foi um banner com a foto do político José Serra e os dizeres “Adoro negros. Pena que pararam de vender”. Depois desse, outro banner foi postado. Tinha um cachorro pastor alemão dirigindo veículo e os dizeres: “Negros a vista. É hora de acelerar”. Embora estivesse discutindo com alunos do direito no momento, Joyce prefere não atribuir o perfil a um dos membros.
 
“Estou considerando o benefício da dúvida. Podem ter colocado isso lá porque acharam engraçado, sem a intenção de agredir, mas, independentemente da motivação, são mensagens racistas”, observa Joyce. Diante da agressão explícita, ela foi a todas as instâncias que podem investigar e punir os responsáveis: no site de crimes pela internet e no da Polícia Federal, na Delegacia de Crimes Cibernéticos, no Ministério Público estadual e federal, no Movimento de Juventude Negra Nacional, na ouvidoria da UFMG e em um grupo de direitos humanos do Rio de Janeiro. Também já acionou advogado.
 
Articulada e militante, Joyce diz que essa é apenas uma das manifestações que já presenciou e a primeira diretamente contra ela dentro da universidade. No entanto, já perdeu a conta do número de denúncias que recebeu. Muitos dos ataques vêm pela internet. “Existem manifestações muito sutis e outras que são feitas como coisa normal, por exemplo, as piadinhas. Fora as tentativas de tentar diminuir a inteligência dos negros, de quem passou no vestibular por cotas ou bolsas.” Até contra deficientes físicos, a estudante já viu dentro da universidade.
 
Coordenadora do programa Conexão de Saberes – que oferece bolsas de pesquisa para estudantes de trajetória popular –, a professora de psicologia social Cláudia Mayorga confirma a existência de manifestações de discriminação dentro da UFMG. Ela mesma, quando fazia pesquisa sobre a trajetória dos alunos negros dentro da universidade, recebeu a denúncia de uma aluna, negra e de baixa renda, que é de chocar. A jovem contou que deixaram uma banana em cima da carteira dela. “Chegam muitos casos semelhantes”, afirma Cláudia. Além de racismo, de homofobia, de assédio de professores contra alunos, de discriminação por gênero. E, em volta disso tudo, impera o silêncio. “Quando você diz que está disponível para ajudar, a pessoa não quer denunciar. Isso demonstra que a UFMG não garante uma permanência bem-sucedida de determinado segmento na universidade.”
 
Episódios do tipo levantam a questão, conforme a professora, do papel que a universidade exerce, ao permitir que atos desse e outros, como o trote, aconteçam. Na opinião dela, deveria haver punição rigorosa. “Tem de jubilar”, defende. Para ela, o fato de a UFMG não nomear essas atitudes e de não assumir a existência da discriminação cria uma barreira para o combate desses problemas. Ela exemplifica com a campanha Bocado de gentileza, criada para desestimular o trote, substituindo-o por bom recebimento dos calouros. “Não estamos falando de gentileza, mas de racismo. E racismo é crime. O trote é a ponta de um iceberg.” Acredita que a instituição deve criar uma política permanente para atacar essas situações e preveni-las.
 
Dois fatores estariam por trás das manifestações discriminatórias dentro da universidade, conforme a professora. A primeira delas é o fato de a academia ter se firmado ao longo dos anos como o lugar da neutralidade, o que tem consequências sérias, como o de silenciar as pessoas. A segunda é o momento de mudança, no caso das federais, com a implantação do Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão (Reuni) – na UFMG, em 2008 – e dos sistemas de bônus (2008) e cotas (2013). Essas ações têm ampliado a diversidade dentro da instituição, mas não na mesma medida do aumento do debate sobre essas políticas, o que acaba levando aos atos violentos de negação à democratização do espaço. A falta de diálogo e de posicionamento da universidade sobre o assunto faz com que outras formas de discriminação surjam, contra os alunos vindos de bônus, cotas e de cursos do Reuni. Como este é o primeiro ano de cotas na UFMG, os boatos que correm entre os alunos é de que os calouros estão sendo pintados de preto em referência aos cotistas. A informação não foi confirmada. O que se sabe apenas é que um cotista que participou do trote do direito foi chamado para falar na comissão de sindicância que foi organizada pela UFMG para investigar o caso e que tem até 19 de maio para apresentar seu relatório.
 
Alysson Armondes, que sofreu discriminação durante uma aula: “não consegui reagir”.
 

 Recém-formada em ciências do estado – que surgiu com o Reuni –, Cecília Reis Aquino, 22 anos, relata como o curso e os alunos dele foram discriminados quando chegaram à UFMG, especialmente porque ele foi instalado no prédio da Faculdade de Direito, no centro, e funcionava na parte da tarde. “Tentaram a todo custo tirar a gente de lá. Diziam que ciências do estado não era curso, mas disciplina do direito.”
 
Cecília foi da primeira turma do curso e acompanhou todos os embates. Dentre os episódios, ela se lembra de que os estudantes de direito diziam que os elevadores iam ficar muito cheios por causa do ciências do estado. Também se recorda das festas com som alto. “Eu, várias vezes, desci ao pátio para pedir para abaixarem, porque estavam atrapalhando.” Segundo ela, muitas denúncias foram feitas, mas providências não eram tomadas. “É ridículo a UFMG dizer que não sabia de nada. Lá é um território livre.”
 
E não foram somente dos alunos do direito que as agressões chegaram aos de ciências do estado. De professores, também. Cecília Reis Aquino conta que um dia duas colegas de sala dela tinham passado bilhetinho uma para a outra. O professor viu e disse, interrompendo a explicação: “Esse é o problema do Reuni”. Em seguida, continuou a aula. “Na hora, eu não acreditei. Depois é que nós fomos debater isso.” Segundo ela, professores e alunos de cursos tradicionais discriminam os do Reuni.
Um estudante do sexto período de direito – que pediu para não ser identificado – diz que já presenciou manifestações de professores contra cotistas e bonistas. “Um colega da minha sala fez pergunta e o professor respondeu: que pergunta idiota! Parece até que você é cotista.” Ele conta que se manifestou na hora, questionando o professor, mas foi uma reação solitária. Segundo ele, a questão das cotas é polêmica entre os estudantes do curso, sendo que a maioria se manifesta contra o sistema. Da mesma forma, afirma que a comunidade está dividida sobre a ocorrência e repercussão do trote de cunho racista, sexista e nazista. “Há os que veem uma oportunidade para a faculdade repensar sua postura e tem os que acham que é sensacionalismo da mídia e, logo, todo o mundo esquece e as coisas voltam ao normal.”
 
O trote de cunho nazista despertou surpresa em parte da comunidade acadêmica e das pessoas que estão fora dela, mas não é surpresa para muitos. “Esse aluno (um dos que faz gesto nazista) sempre se manifestou abertamente como sendo da extrema direita. Agora a gente só não sabe até que ponto ele está engajado em movimentos, se somente simpatiza com a ideologia ou se manifesta para chamar a atenção”, diz. O aluno, G. S., que é o que se manifesta como membro da ultradireita, aparece em fotos disponíveis nas redes sociais com um símbolo do movimento Pátria Nostra Brasile (MPN), de extrema direita, que já teve o primeiro encontro em Belo Horizonte, sob o nome Movimento Pátria Brasil, conforme o jornal italiano A tutta destra.
 
Professora de história social na UFMG e ativista, Regina Helena Alves da Silva não se surpreende com o fato. “Muitos ex-alunos meus me procuram para me pedir ajuda porque eles vão dar aula e encontram alunos com pensamentos neonazistas e não sabem como lidar.” Segundo ela, não é novidade existir núcleos ultradireitistas na UFMG. “Tudo o que tem fora da universidade tem dentro.” O que deve haver, de acordo com ela, é uma manifestação clara da instituição, dizendo que não admite discriminação e intolerância de qualquer tipo.
 
Regina também acredita que está havendo incremento nas manifestações devido à maior democratização da academia. “O que estamos vendo é o acirramento da disputa entre os que se julgam privilegiados contra aqueles que eles não consideram. Isso se chama nazismo. Nada mais que isso.” Ela refuta o argumento de que os alunos que vêm de rede pública, cotas e bônus têm menor condição de fazer os cursos. “A universidade não trabalha com conteúdo, mas com produção de conhecimento. Há pesquisas que mostram que esses estudantes têm até melhores notas.”
Ela também já presenciou manifestações de discriminação dentro da UFMG. Um deles era um famoso trote em que estudantes de engenharia iam até a Fafich para gritar, na cantina: “Um, dois, três, quatro, aqui só tem veado; quatro, três, dois, um, eles dão para qualquer um”. Professores e alunos passaram pedindo a proibição dele à reitoria, até que conseguiram tirá-lo. Outra situação de que se lembra ocorreu quando apareceu o primeiro travesti. “Houve uma onda leve de gente querendo três banheiros.”
 
A ideia de que existe um grupo superior a outro dentro da UFMG também se manifesta na delicada relação entre professores e alunos, na forma de assédio, moral ou sexual. A reportagem teve conhecimento de pelo menos três professores com investigação contra eles por causa desse crime. Um deles leciona sociologia na Faculdade de Educação (FAE); outro é do Departamento de Sociologia e Antropologia; e o terceiro é professor de direito penal. Os nomes foram preservados porque a UFMG se recusou a informar seu posicionamento a respeito das denúncias.
O da FAE teria denúncias por discriminação e preconceito; o da sociologia, por assédio sexual a alunas; o de direito por assédio a alunos. Este último chegou a ser expulso da universidade após a conclusão das investigações. No entanto, ele prestou concurso novamente e retornou às salas de aulas. Alunos do curso contam que a banca que o aprovou era formada somente por ex-alunos dele e que não foi a primeira vez.
 
Outro grupo que sofre pressão cotidiana é o dos alunos intercambistas, especialmente os que vêm do continente africano. V. B, 25 anos, natural do Benin, formou-se na instituição e agora cursa o mestrado. “O preconceito aqui é oculto. Todo o mundo diz que não tem, mas, na convivência, você acaba vendo.” Com ela, nunca houve manifestação direta, mas indireta era recorrente. “Eu via que, quando tinha trabalho em grupo, ninguém me chamava. Não posso acusar, mas é a impressão que passa.” Também questionam o motivo de os africanos estarem lá.

 Servidores técnico-administrativos também têm queixas contra professores. “Tratam como se fôssemos invisíveis e querem decidir nossa vida. Isso ficou muito claro com a imposição do ponto eletrônico para a gente e, para eles, não”, diz a presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Instituições Federais (Sindifes-MG), Cristina del Papa.
 
Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-MG, William Santos observa que o crime de racismo é imprescritível e inafiançável. “Isso quer dizer que, daqui a 10 anos, a pessoa pode responder ainda. E também não dá para pagar fiança, pode ser presa em flagrante”, diz. Segundo ele, o problema é que os policiais são despreparados para receber as denúncias e, assim, classificam como injúria racial, e o crime pode ser convertido em prestação de serviço à comunidade.
 
A reportagem procurou a UFMG por três dias seguidos – 25, 26 e 27 de março. No entanto, a instituição não forneceu respostas sobre as denúncias. Informou apenas o número de africanos: 70 na graduação. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Escolares, existem 58.605 alunos negros nas instituições federais do país, em universo de 1.032.936 (cerca de 5%). Na UFMG seriam 3%, conforme o Coletivo de Estudantes Negros, que também há apenas uma professora-titular negra. Mas a reportagem apurou outra aprovada recentemente.
 
Trotes na UFMG com conteúdo discriminatório
 
Racismo, sexismo e nazismo: dois alunos, um homem e uma mulher, foram pintados de preto por veteranos. A menina foi acorrentada e carregou placa com os dizeres “Caloura Chica da Silva”; o menino foi aprisionado em uma pilastra; os três veteranos que o acompanhavam fizeram saudação nazista; todos estavam com bigode em referência a Hitler
 
Sexismo: alunas do curso de engenharia tiveram que simular sexo oral em cassetetes revestidos por preservativos
 
Homofobia: alunos de engenharia invadiam a Fafich, cantando: “Um, dois, três, quatro, aqui só tem veado; quatro, três, dois, um, eles dão para qualquer um”

http://igual.ig.com.br/negratividade/campus-de-discriminados/

Campanha Novembro Azul 2014

 Novembro Azul: campanha nacional de conscientização sobre o câncer de próstata
O Instituto Lado a Lado pela Vida idealizou o movimento Novembro Azul e, em parceria com a Sociedade Brasileira de Urologia, promove uma campanha nacional a favor da saúde masculina
O câncer de próstata é o câncer mais frequente no sexo masculino, ficando atrás apenas do câncer de pele não menaloma. Estatísticas apontam que a cada seis homens, um é portador da doença. A estimativa é de que, em 2014, 69 mil novos casos sejam diagnosticados, ou seja, a descoberta de um caso a cada 7,6 minutos.
 
No intuito de conscientizar a população masculina sobre a doença, visando a diminuir a taxa de mortalidade, que ainda é alta, o Instituto Lado a Lado pela Vida e a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) desenvolvem o Novembro Azul, uma iniciativa que já faz parte do calendário nacional das campanhas de prevenção no Brasil. O objetivo é combater a doença e, principalmente, motivar a população masculina a fazer exames preventivos.
 
O calendário de atividades do Novembro Azul 2014 conta com diversas ações em todos os estados brasileiros, que contemplam a iluminação de pontos turísticos e monumentos, palestras informativas para leigos, ações em estádios, intervenções em eventos populares e pedágios em locais de grande circulação, além de um fórum no Congresso Nacional e no Senado Federal.
 
"A campanha tem sido referência na missão de orientar a população masculina a cuidar melhor da saúde e procurar o médico com mais frequência. Os homens são mais resistentes à ideia de ir regularmente ao médico e, por isso, acabam descobrindo a doença em estágio já avançado", diz Marlene Oliveira, presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida.
 
"Depois do aparecimento dos sintomas, mais de 95% dos casos de câncer de próstata já se encontram em fase avançada. Por isso, é importante o exame regular através do toque retal e do PSA periodicamente", afirma Carlos Corradi Fonseca, presidente da SBU.
 
A SBU recomenda que homens a partir de 50 anos procurem seu urologista para discutir a prática e a realização da avaliação. Aqueles com maior risco da doença (história familiar, raça negra) devem procurar o urologista a partir dos 45 anos. Os exames consistem na dosagem sérica do PSA e no exame digital retal, com periodicidade anual.
Esta prática está relacionada à diminuição de cerca de 21% na mortalidade pela doença em estudos de grande porte e longo seguimento.
 

Sobre o Câncer de Próstata

 
A próstata é uma glândula do aparelho reprodutor masculino, que pesa cerca de 20 gramas, de forma e tamanho semelhantes a uma castanha. Ela localiza-se abaixo da bexiga e sua principal função, juntamente com as vesículas seminais, é produzir o esperma.
No Brasil, o câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais frequente em homens, após os tumores de pele. A doença pode demorar a se manifestar, exigindo exames preventivos constantes para não ser descoberta em estágio avançado e potencialmente fatal. Ela acontece quando as células deste órgão começam a se multiplicar de forma desordenada. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de próstata é o sexto tipo mais comum de câncer no Brasil.

Dados:

- A estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para o câncer de próstata em 2014 é de 68.800 novos casos, ou seja, a descoberta de um caso a cada 7,6 minutos.
- Número de mortes em 2011: 13.129, ou seja, um óbito a cada 40 minutos.
- No Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens (atrás apenas do câncer de pele não-melanoma).
- Em valores absolutos é o sexto tipo mais comum no mundo e o mais prevalente em homens, representando cerca de 10% do total de cânceres.

Dúvidas:

- Quais são os exames para detectar a doença?

A recomendação da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) é que homens a partir de 50 anos procurem seu urologista para discutir a prática e a realização da avaliação. Aqueles com maior risco da doença (história familiar, raça negra) devem procurar o urologista a partir dos 45 anos. Os exames consistem na dosagem sérica do PSA e no exame digital retal, complementares para o diagnóstico, com periodicidade anual.

- Por que não posso só fazer o exame de sangue?



Porque cerca de 10 a 20% dos casos não são detectados pela dosagem de PSA no sangue. O exame de toque e o PSA são complementares.

- Quais são os fatores de risco para o câncer de próstata?

• Idade (cerca de 62% dos casos são de homens a partir dos 65 anos)
• Histórico familiar
• Raça (maior incidência entre os negros)
• Alimentação inadequada, à base de gordura animal e deficiente em frutas, verduras, legumes e grãos
• Sedentarismo
• Obesidade

- É possível prevenir?

Evitar a doença, não. Mas é possível diagnosticá-la precocemente, quando as chances de cura são de cerca de 90%.

- Quais são os sintomas?

Na fase inicial, quando as chances de cura são maiores, não há qualquer sintoma. Por isso a importância dos exames. Na fase avançada, quando a cura é mais difícil, o paciente pode sentir: vontade de urinar com urgência, dificuldade para urinar e levantar várias vezes à noite para ir ao banheiro, dor óssea, queda do estado geral, insuficiência renal, dores fortes.

- Quais são as opções de tratamento?

De acordo com a fase do tumor e as características do paciente, o médico poderá definir quais as melhores formas de tratamento. Nos estágios iniciais da doença (tumores localizados e localmente avançados) a prostatectomia radical é o tratamento padrão. Consiste em uma cirurgia para retirada da próstata e apresenta altos índices de cura.
 

Sobre o Instituto Lado a Lado pela Vida

 
O Instituto Lado a Lado pela Vida é uma instituição brasileira sem fins lucrativos, qualificada como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), idealizada em 2008. Desenvolve conceitos e projetos, além de apoiar e implantar ações voltadas ao campo da humanização em saúde e da atenção integral ao cidadão em diferentes fases da vida.
 
Preocupado com a saúde do homem, o Instituto criou em 2008 a campanha "Um Toque, Um Drible", que tem o objetivo de promover uma mudança de paradigmas em relação à ida do homem ao médico para a realização de exames preventivos. A campanha permanece ativa durante o ano todo e, em novembro de 2012, criamos o Novembro Azul. Em 2013, o Novembro Azul superou todas as expectativas, sendo um marco norteador no País. Foram mais de 260 ações realizadas em 23 estados, com a distribuição de 1,5 milhão de folders e o impacto de mais de 30 milhões de pessoas. Site: www.ladoaladopelavida.org.br
 

Sobre a Sociedade Brasileira de Urologia

 
A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) é uma associação científica sem fins lucrativos, representativa dos médicos brasileiros especializados em urologia, especialidade clínica e cirúrgica responsável pelo diagnóstico e pelo tratamento das enfermidades do sistema urinário de ambos os sexos e do sistema genital masculino.

A entidade foi fundada em 13 de maio de 1926 e possui hoje 27 seccionais espalhadas pelo Brasil, com a função de coordenar e monitorar a atividade urológica nas unidades federativas. A SBU congrega cerca de 5 mil profissionais. Site: www.sbu.org.br/publico