domingo, 14 de setembro de 2014

Só falta ao Brasil legalizar o racismo

 Aranha durante treino: do goleiro do Santos exige-se o perdão (Foto: Ivan Storti/Santos)
 
Um historiador que pretenda contar como a sociedade brasileira lidava com o racismo após mais de um século da abolição terá no episódio envolvendo a torcida do Grêmio e o goleiro Aranha um alvo certeiro. O caso é revelador do impressionante cinismo que toma conta do país quando é preciso tratar o fato escancarado de que o racismo existe, é amplo e tem uma conexão direta com a escravidão, a condição mais abjeta à qual um ser humano pode submeter outro e que vigorou por quase 400 anos nesta terra de nosso senhor.
 
Vamos recapitular. Em 28 de agosto, Grêmio e Santos jogavam em Porto Alegre pela Copa do Brasil. No fim da partida, torcedores do clube gaúcho passaram a hostilizar Aranha, o goleiro do Santos, com algumas das mais acintosas ofensas racistas da recente história. Os torcedores foram filmados e Patricia Moreira se destacou ao ser flagrada pela ESPN Brasil chamando Aranha de macaco repetidas vezes. Desde então, os caminhos de Patricia e outros gremistas que, deixemos claro, cometeram um crime no estádio, e o de Aranha, que foi vítima deste crime, foram diferentes. Patricia experimentou solidariedade e compreensão. Aranha foi instado a ser generoso.
 
Muitos foram rápidos em avisar ao mundo que o crime não era o de racismo, mas o de injúria racista. É verdade, uma que esconde o fato de a injúria racista ser a face do racismo e estar, portanto, minimizada no Código Penal, um absurdo que o movimento negro luta para corrigir. Outros tentaram justificar o ato de Patricia e demais torcedores racistas. Alguns diretores do Grêmio cumpriram esse papel de forma triste. Outro foi Eduardo Bueno, personagem de Extraordinários, excrescência da Copa do Mundo na SporTV. Para o choque de seus parceiros Xico Sá e Hélio de la Peña, o historiador (que considera o Nordeste uma bosta) afirmou que Aranha, “um merda”, foi um “escroto” ao provocar a torcida. Não espanta que trate-se de argumento idêntico ao de um dos torcedores racistas do Grêmio em depoimento à polícia.
 
 
No programa Encontro com Fátima Bernardes, Patricia Moreira encontrou espaço para se explicar. Um desavisado concluiria que o fato de a palavra macaco ter saído da boca da jovem não foi culpa dela, mas de um “núcleo” da torcida do Grêmio que tentava desestabilizar a “inteligência emocional” de Aranha, e do córtex frontal do cérebro de Patricia, que a impelia a agir por impulso. Nem a comunidade do Facebook Patricia Moreira – Página de Apoio, que promete não deixar a torcedora só, pintaria um quadro tão positivo. Enquanto isso, exigia-se a tal generosidade de Aranha. Após a colega enfatizar o pedido de desculpas de Patricia, um comentarista na Globo do Rio Grande do Sul afirmou: “Ela pediu perdão, pediu desculpas (…) Agora cabe ao Aranha. Acho que o Aranha poderia ter esse gesto [de perdoar]“. Como o goleiro demorou a fazê-lo, configurou um absurdo, a julgar pelo pensamento, novamente, de Eduardo Bueno.
 
A solidariedade a Patricia Moreira e as tentativas de justificar os insultos são fruto óbvio do racismo entranhado na sociedade brasileira – chamar um negro de macaco não é um mero xingamento, mas manifestar a crença de que o negro é menos que um humano. A ofensa está tão incrustada que muitas pessoas nem mais conseguem reconhecer sua gravidade, e é tão comum que muitos se colocam no lugar de Patricia e pensam que poderia ter ocorrido com elas. O xingamento racista, assim, é visto como um arroubo irracional sem gravidade, e não como a face visível de um preconceito arraigado e naturalizado por um país inteiro.
 
Da mesma forma, exigir que Aranha perdoe a ofensa é uma conexão com o passado horrendo do Brasil, um no qual “eles”, os escravos, depois os libertos, depois a massa subempregada não podem ser insolentes a ponto de não aceitarem as “nossas” desculpas quando somos magnânimos e reconhecemos ter “perdido a cabeça”. É também uma forma maldosa de dizer que houve exagero e negar a ofensa. É uma ação que ignora o impacto sentido pela vítima de preconceito. “Você sente vergonha da cor da sua pele, você se sente errado, você se sente feio, você se sente menos. A pessoa vai se esforçar o resto da vida para permanecer invisível (…) pra não ser agredida”, explicou Emicida em uma entrevista um tanto didática para o site A Ponte.
 
 
Mais ainda, é uma visão de mundo que não compreende a posição inferior à qual os negros são submetidos em comparação com os brancos no Brasil – escancarada em empregos piores, salários menores e mortes em quantidade tragicamente desproporcional – e que insiste, com ignorância perturbadora, na teses de instaurar uma meritocracia a partir de condições iniciais desiguais, negando a própria existência do racismo.
 
A não ser que o Brasil esteja planejando aprovar a “Lei Patrícia Moreira” e institucionalizar a legalização do preconceito com base no “não sou racista, tenho até amigos negros”, é preciso uma mudança de rumos, de forma a não tolerar os intolerantes e não dar espaço para justificativas de um comportamento, em todos os sentidos, condenável.
 

Caso de pedofilia na República Dominicana abala o Vaticano

Arcebispo abusava de meninos que trabalhavam como engraxates na orla em Santo Domingo.
 
 
Santo Domingo, República Dominicana. Ele era uma figura conhecida dos engraxates que trabalham na orla da praia. Os meninos contam que ele chegava no fim da tarde para buscar um deles e levá-lo para a praia rochosa ou para um monumento deserto, onde fazia as vezes de um verdadeiro herói católico. Os meninos dizem que ele oferecia dinheiro para que eles desempenhassem atividades sexuais. Eles o chamavam de “o italiano”, pois ele falava espanhol com sotaque italiano.
 
Foi só depois de ser expulso do país, contam os meninos, e sua fotografia aparecer em todos os jornais, que eles descobriram sua verdadeira identidade: tratava-se do arcebispo Jozef Wesolowski, embaixador do Vaticano na República Dominicana.
 
“Ele realmente me seduziu com dinheiro”, afirmou Francis Aquino Aneury, 17, que tinha 14 anos quando o homem que ele conheceu enquanto engraxava sapatos começou a oferecer valores cada vez mais altos em troca de favores sexuais. “Eu me sentia muito mal. Sabia que aquilo não era a coisa certa, mas eu precisava do dinheiro”.
 
Essa é a primeira vez que um embaixador do alto escalão do Vaticano, também conhecido como “núncio apostólico” – que atua como um enviado pessoal do papa – foi acusado de abuso sexual de menores. Isso repercutiu por todo o Vaticano e por dois países de maioria católica que recentemente começaram a lidar com os abusos sexuais cometidos por membros da igreja: a República Dominicana e a Polônia, onde Wesolowski foi ordenado pelo arcebispo Karol Józef Wojtyla, que veio a se tornar o papa João Paulo II.
 
 
A situação também criou um teste para o papa Francisco, que afirmou que o abuso sexual de crianças “é um crime horroroso” e afirmou que traria a Igreja Católica Apostólica Romana a uma era de “tolerância zero” contra os abusos. Para padres e bispos que abusaram de crianças, afirmou a repórteres em maio, “não haverá privilégios”.
 
Wesolowski já enfrentou a pena mais dura da lei canônica da igreja, depois da excomunhão: em 27 de junho, foi expulso do sacerdócio pelo Vaticano e reduzido a um leigo. O Vaticano, que é uma cidade-Estado com sistema judicial próprio, afirmou que pretende abrir um processo criminal contra Wesolowski.
 
Wesolowski, 66, foi ordenado aos 23 anos. Em 1999, foi indicado como núncio apostólico na Bolívia e em 2002 passou pelo Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Uzbequistão. Em 2008, foi enviado à República Dominicana.
 
DESCONFIANÇA

 Receio.
O caso abalou a República Dominicana, país onde a maioria da população é católica. “As pessoas costumavam dizer que queriam que os filhos frequentassem a igreja”, afirmou o reverendo Rogelio Cruz, padre da cidade. “Agora elas dizem que jamais deixariam seus filhos em uma igreja católica”.

http://www.otempo.com.br/capa/mundo/caso-de-pedofilia-na-rep%C3%BAblica-dominicana-abala-o-vaticano-1.910270

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A era da falta d´água

 
Se você se comove quando vê imagens como esta aí no alto da página, melhor recolher as lágrimas e guardá-las. Vai piorar. O velho pesadelo dos ambientalistas de que as reservas mundiais de água doce vão entrar em colapso em algum momento do século XXI nunca esteve tão próximo de virar realidade. Um estudo das Nações Unidas divulgado este ano prevê que 2,7 bilhões de seres humanos – 45% da população mundial – vão ficar sem água no ano 2025. O problema já afeta 1 bilhão de indivíduos, principalmente no Oriente Médio e norte da África. Daqui a 25 anos, Índia, China e África do Sul deverão entrar na estatística. “Nesses lugares, as reservas deverão se esgotar completamente”, alerta o autor do estudo, o geólogo Igor Shiklomanov, do Instituto Hidrológico Estatal de São Petersburgo, Rússia.
 
O precário abastecimento d’água desses lugares vai falir, por vários motivos. “Nos últimos cinqüenta anos, a população mundial triplicou e o consumo de água aumentou seis vezes”, sintetiza o ecólogo paulista José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia. Com a população cresce também a agricultura, a atividade humana que mais consome o líquido. “Os países em desenvolvimento vão aumentar seu uso de água em até 200% em 25 anos”, disse Shiklomanov à SUPER.
 
Gente demais já basta para tornar a situação aflitiva em um terço do planeta (veja o mapa ao lado). Para piorar, a saúde dos rios – as principais fontes de água doce da Terra – está piorando. Metade dos mananciais do planeta está ameaçada pela poluição e pelo assoreamento. Só a Ásia despeja anualmente em seus cursos d’água 850 bilhões de litros de esgoto. E cada litro de sujeira num rio inutiliza 10 litros da sua água. “A humanidade sempre tratou a água como um recurso inesgotável”, explica o hidrogeólogo Aldo Rebouças, da Universidade de São Paulo (USP). “Estamos descobrindo, da pior forma possível, que não é bem assim.” Não se iluda. Vem aí a era da falta d’água.
 
Mas calma. As previsões são turvas, é verdade. Só que não estamos inexoravelmente condenados a entrar pelo cano. Os mananciais degradados podem ser despoluídos. Novas técnicas de tratamento cada vez mais reutilizam a água do esgoto em países desenvolvidos. Melhoraram, bastante, as condições técnicas e econômicas para a exploração de fontes alternativas, como a dessalinização da água do mar.
 
 
E nem só processos caros e sofisticados oferecem soluções para a crise. É o caso da remota vila de Baontha-Koyala, no noroeste da Índia. Seus habitantes não tinham uma gota d’água para beber até meados da década de 80. No final dos anos 90, recuperaram seus lençóis subterrâneos e o principal rio da região voltou a ter água. O que fizeram? Simples. Cavaram poços no quintal das casas para recolher água de chuva. É o óbvio. Mas ninguém havia feito antes. O exemplo serve para o Nordeste brasileiro. É só usar a cabeça.
 
Disneylândia toma, feliz, esgoto reciclado
 
Os moradores de Orange County, no Estado americano da Califórnia, bebem esgoto há mais de vinte anos, sem problema. Parece nojento, mas não é. O reúso foi a solução encontrada para que o lugar não secasse. Seria uma pena. Além de 2,5 milhões de habitantes, Orange County abriga o parque temático mais famoso do mundo, a Disneylândia.
 
No final da década de 60, o lençol subterrâneo que abastece a região já estava superexplorado pela irrigação de extensas plantações de laranja. Com a redução do nível do aqüífero, o sal do Oceano Pacífico começou a infiltrar-se ali, ameaçando o abastecimento. Se a fonte fosse contaminada, seria o fim. O condado fica num deserto e depende totalmente da água subterrânea.
 
Para revitalizar o manancial, os californianos criaram a Fábrica de Água 21, uma usina-piloto de tratamento especializada em purificar esgoto e injetá-lo de volta no solo (veja o infográfico), para reencher o lençol. Hoje, além do aqüífero permanentemente cheio, Orange County evita a contaminação pela água do mar e garante seu próprio abastecimento. Com esgoto? Exatamente. “No subsolo, a água do reúso, devidamente tratada, acaba se diluindo na água fresca subterrânea”, explica Aldo Rebouças, da USP. As próprias rochas do subsolo, que são porosas, ajudam a filtrar naturalmente toda a massa líquida. “Depois de um ano ela está purificada”, diz Rebouças.
 
Não é só a Califórnia que recicla água. “No Arizona, 80% do esgoto também volta às torneiras”, afirma Andy Richardson, da empresa de engenharia ambiental Greeley e Hansen, em Phoenix. “Reúso é a palavra-chave quando se fala em gestão de recursos hídricos”, ressalta o engenheiro ambiental Ivanildo Hespanhol, da USP. Reciclar água representa não só alívio para as reservas do líquido como também para o bolso do consumidor. Em países ricos e carentes de fontes naturais, como o Japão, a retirada de água fresca dos reservatórios é taxada pesadamente. Sai bem mais barato reutilizar. “Em 1997 o país reutilizou 77,9% de toda a água destinada à indústria”, afirma Haruki Tada, do Departamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional da Terra. Os rejeitos da indústria ficam por lá mesmo. São empregados também para lavar os trens e metrôs e irrigar jardins públicos. No Brasil – só pra você acordar –, tudo é feito com água potável.
 
Brasil tem escassez na fartura
 
Imagine um país que detém, sozinho, 16% do total das reservas de água doce do planeta. Que tem ao mesmo tempo o maior rio e o maior aqüífero subterrâneo do mundo. Que, para causar inveja, ainda apresenta índices recorde de chuva. Esse país existe. E, como você sabe, suas maiores cidades sofrem racionamento de água.
 
O Brasil não usa nem 1% do seu potencial de água doce. Ainda assim, metrópoles como São Paulo e Recife enfrentam colapso no abastecimento público. O que acontece? Segundo os especialistas, o problema é só mau gerenciamento. “Temos rios degradados, índices de perda assustadores nas companhias de água e um desperdício inconcebível por parte da população”, enumera José Almir Cirilo, presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, em Recife. É claro que o crescimento desordenado das cidades ajuda a piorar. “Sem planejamento não há proteção de nascentes nem dos reservatórios naturais. Isso custa caro para as companhias e para a sociedade, pois depois será preciso despoluir a água ou trazê-la de outro lugar”, diz a coordenadora do Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água, Claudia Albuquerque.
 
São Paulo, que este ano começou a racionar depois de apenas dois meses de seca, é um caso exemplar. A cidade matou sua maior fonte de água, o Rio Tietê. Hoje, é obrigada a tirar metade do que consome de uma bacia hidrográfica vizinha, a do Rio Piracicaba. A Companhia de Água e Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) fornece a cada um dos 16 milhões de moradores da região metropolitana 370 litros de água por dia – o triplo do mínimo necessário para uso humano. Só que o desperdício na rede de água chega a quase 40% – o equivalente à média brasileira –, enquanto o aceitável no mundo é metade disso! Toda essa água escapa por furos nos canos, redes defeituosas carantes de manutenção e por ligações clandestinas
 
 
São Paulo joga fora, por dia, 1 bilhão de litros de água. Isso equivale ao volume da Represa de Guarapiranga, um dos seus quatro reservatórios. Para compensar as perdas, há anos os depósitos são explorados acima da recarga média – tira-se mais água por dia do que os rios e as barragens conseguem repor. Deu no que deu.
 
O desperdício nosso de cada dia
 
Se as perdas de água na rede pública são difíceis de controlar, dentro de casa elas não podem sequer ser medidas. “O brasileiro é acostumado a uma conta de água barata e não faz o menor esforço para evitar o desperdício”, reclama o ecólogo José Galízia Tundisi. A água pode vazar pelo ladrão de caixa-d’-água com defeito. Ou ser empregada além do necessário para tarefas cotidianas. Tomando banho com o chuveiro ligado durante 15 minutos, você joga fora 242 litros de água pura – suficiente para escandalizar um israelense –, quando é possível gastar só 81 litros para isso.
 
As maiores vilãs domésticas são as válvulas convencionais de descarga. Elas usam nada menos que 40% de toda a água da casa. Cada segundo que você fica com o dedo na descarga são 2 litros de água que entram – aliás, saem – pelo cano. Seu amigo israelense ficaria louco.
 
Para combater o desperdício doméstico, muitos países precisaram baixar leis rigorosas. Nos Estados Unidos, todas as casas construídas depois de 1995 são obrigadas a ter descargas com caixas de 6 litros, bem mais econômicas. “Hoje é proibido até vender peças de descarga convencional no país”, diz Clyde Wilber, da Greenley e Hansen, em Washington. Como as novas caixas são bem mais caras, os americanos tentaram dar um jeitinho: passaram a contrabandear descargas do Canadá. O governo endureceu. “Se alguém te pega com uma válvula convecional na mala, você pode ir pra cadeia”, conta Wilber.
 
No Japão já existem programas de reciclagem dentro de casa. Além dos canos que trazem água potável, os prédios ganharam um segundo sistema hidráulico, que recolhe e trata a água para o reúso (veja o infográfico). O sistema ainda é experimental e, por enquanto, custa caro. Mas pode ser uma alternativa para aproveitar cada gota num mundo onde o líquido precioso está cada vez mais escasso. Prepare-se. Na era da falta d’água, mesmo você, felizardo brasileiro que possui 16% da reserva potável do mundo, vai pagar mais caro por ela.
 
cangelo@abril.com.br
mariana.mello@abril.com.br
mvomero@abril.com.br

Algo mais

A Terra tem 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos de água. A parte doce corresponde a míseros 2,5% desse total. Só que 68,7% disso está nos pólos, em forma de gelo, e 29,9% em lençóis subterrâneos. Os rios e lagos, de onde a humanidade tira quase toda a água, só concentram 0,26% do total disponível do líquido. É preciosa, mesmo.

Colapso planetário

Segundo o geólogo Igor Shiklomanov, metade da população mundial ficará sem água em 2025.
No norte da África, 95% das reservas de água doce já são utilizadas hoje. Em 2025 a demanda pelo líquido na região vai ultrapassar a oferta
 
Na Ásia Central, a exploração chega a 84% das reservas. Deverá ultrapassar os 100% em menos de 25 anos.

Fábrica de água fresca

Na Califórnia, esgoto tratado alimenta aqüífero.
1. A coleta
 
A maior parte da água de Orange County, na Califórnia, vem de um lençol subterrâneo. Depois do uso, o esgoto coletado das casas vai para uma estação de tratamento convencional, onde recebe uma primeira purificação.
 
2. Trato duplo
 
O esgoto é enviado para a Fábrica de Água 21. Lá ele passa por um segundo tratamento, mais complexo, que elimina elementos tóxicos, realiza diversas filtragens e adiciona cloro para matar os micróbios remanescentes.
 
3. Volta à terra
 
Depois, o esgoto é misturado à água subterrânea e injetado no aqüífero. O primeiro objetivo da recarga é manter o lençol sempre cheio, impedindo a infiltração da água do Oceano Pacífico – que está logo ali do lado e pode contaminar o reservatório com sal. Lá dentro, ele ainda será filtrado pelas rochas do subsolo. Depois de um ano estará pronto para ser bebido outra vez.

Ovo inflável

Estádio japonês colhe chuva no teto.
O Tokyo Dome não é só um dos principais cartões-postais da capital japonesa. O estádio também é um dos projetos arquitetônicos de aproveitamento de água mais criativos do mundo. O teto do Big Egg (Grande Ovo, em inglês), como é conhecido, é feito de um plástico ultra-resistente que pode ser inflado ou desinflado a qualquer momento. A cobertura funciona como uma lona gigante para colher as chuvas. A água que é captada ali vai para um tanque no subsolo, onde é tratada e distribuída para os banheiros e para o sistema de combate a incêndio do prédio. Um terço da água empregada no Tokyo Dome durante o ano inteiro chega assim, do céu. De graça.

Raízes filtrantes

Método brasileiro despolui água com plantas aquáticas.
A cidade de Analândia, em São Paulo, adotou uma maneira engenhosa de transformar seu principal curso d’água, o Córrego do Retiro, numa fonte de água potável. Inventado pelo pesquisador brasileiro Enéas Salati, o sistema wetlands usa raízes de plantas aquáticas e terra para filtrar e purificar o líquido captado no rio. Veja como funciona.
 
1. A água passa por um tanque cheio de aguapés. Parte da sujeira, incluindo metais pesados e produtos químicos, é filtrada nas próprias raízes das plantas.
 
2. Depois cai num solo filtrante que cobre uma camada de pedrinhas e um tubo furado. Sai pronta para receber um tratamento convencional.
 
 

Onde estão os furos

Incompetência provoca desabastecimento. Veja onde vai faltar água no Brasil.
1. Cuiabá
 
A capital do Mato Grosso está assentada sobre a vasta bacia hidrográfica do Rio Paraguai. É servida por rios caudalosos, o Cuiabá e o Coxipó. Chove pra burro. Ainda assim, há bairros na periferia com abastecimento irregular. E a cidade tem o maior índice de perdas do país: 53%, segundo a Companhia de Saneamento do Estado de Mato Grosso (Sanemat).
 
2. Fortaleza
 
Mesmo na seca, a capital não sofre problemas de abastecimento graças à divisão de trabalho. A cidade tem uma companhia gerenciando a água e outra cuidando dos esgotos, que, juntas, garantem um índice de perdas de 30%, abaixo da média nacional. Mas os mananciais da cidade são insuficientes para suprir a população.
 
3. Recife
 
Apesar de ter muita chuva e uma dezena de rios, a “Veneza Brasileira” convive há dois anos com o racionamento. As perdas chegam a 45%. Bairros da periferia enfrentam rodízios de até 48 horas. “A cidade cresceu, mas não foram feitos investimentos na rede”, lamenta-se o presidente da Companhia Pernambucana de Saneamento, Gustavo Sampaio.
 
4. Maceió
 
Setenta por cento dos moradores da capital alagoana têm água em casa – índice baixo, comparado com o resto do país, que fica em torno de 90%. A média de perdas é de 45%. Com o inchaço populacional, as encostas de Maceió foram ocupadas irregularmente, prejudicando o abastecimento de água das regiões altas da cidade.
 
5. Rio de Janeiro
 
A capital fluminense é suprida por um único grande manancial, o Paraíba do Sul, quase esgotado e com água de má qualidade. Para evitar mais racionamento, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos mantém o reservatório no limite, desviando o fluxo de um dos rios da região, o Guandu. Ainda assim, falta água na periferia.
 
6. São Paulo
 
O tamanho da rede hidráulica paulistana, a maior do mundo, favorece o desperdício de 40%. São 22 000 quilômetros de canos, o equivalente a duas vezes a distância entre São Paulo e Vancouver, no Canadá. A Sabesp não consegue detectar todos os vazamentos. Há ainda ligações clandestinas de todo tipo.
 
7. Curitiba
 
Basta uma estiagem mais demorada e a região metropolitana de Curitiba é ameaçada de racionamento. Por estar longe da parte mais caudalosa do Rio Iguaçu, que a abastece, a cidade tem disponibilidade limitada de água. E 45% de perdas. “Nossos mananciais são finitos e estão sendo usados acima da capacidade”, diz Carlos de Freitas, presidente da Companhia de Saneamento do Paraná.

Hidraulicamente correto

Prédio-modelo construído pela Agência Nacional da Terra do Japão, em Tóquio, em 1996, ensina a reusar água.
1. Primeira parada
 
A água potável chega ao edifício pela tubulação da rua e fica armazenada na caixa de água, de onde é distribuída para os chamados usos “nobres” – higiene pessoal e cozinha.
 
2. Caixa dois
 
O líquido coletado no ralo segue para um tanque de tratamento no próprio prédio. De lá, parte realimenta os canais da cidade e parte é despachada para uma segunda caixa de água não potável.
 
3. Na descarga
 
Uma parte da água do tanque não potável volta para os banheiros dos apartamentos – quem disse que você precisa de água pura na descarga? De lá, finalmente corre para a rede de esgoto.
 
4. A última gota
 
O restante da água não potável vai para atividades que consomem muita água, como fontes, irrigação de jardins públicos e lavagem de carros. Tudo é reaproveitado.

Espremendo nuvens

A vila de Chugungo, no litoral norte do Chile, é tão seca, mas tão seca, que seus moradores precisam espremer a neblina para ter o que beber. Parece piada, mas é exatamente o que acontece. Desde 1992, os 600 moradores do lugarejo se abastecem exclusivamente da água coletada das névoas de uma montanha a 6 quilômetros dali. Para aproveitar a umidade natural do lugar, um grupo de pesquisadores da Universidade Católica do Chile instalou redes de náilon batizadas de trabanieblas (pára-névoas, em espanhol) no alto da montanha. Em contato com elas, a neblina forma gotículas que são levadas por canos até a caixa-d’-água de Chugungo. “Chegamos a coletar 40 000 litros em um dia”, comemora a geógrafa Pilar Cereceda, que implantou o projeto. “Dá para abastecer a vila por cinco dias.”

Deserto derrotado

Ninguém entende tanto de seca quanto os israelenses. Eles moram em um deserto onde chove metade do que cai no sertão do Ceará e onde quase não há rios. A maior parte da água é coletada em lençóis subterrâneos, cada vez mais deteriorados pelo acúmulo anual de 350 000 toneladas de sal presente no solo. Ainda assim, Israel mantém uma agricultura intensiva e uma produção de 2,2 bilhões de metros cúbicos de água doce por ano. O milagre tem dois nomes. O primeiro é o reúso. “Dois terços dos esgotos do país são reciclados”, afirma Uri Shamir, diretor do Instituto de Pesquisa de Água, em Haifa. “A intenção é chegar a três quartos nos próximos anos.” As águas residuais são tratadas para irrigar lavouras e jardins públicos, e também para revitalizar os rios. A segunda parte do milagre – e, segundo os especialistas, o futuro do abastecimento do país – é a purificação da água do mar e dos depósitos salobros subterrâneos. Israel tem hoje cinqüenta usinas de dessalinização. Até a década passada, o método de dessalinização consistia em esquentar a água em câmaras metálicas até separar o sal do vapor. Custava caro pois demandava muita energia. Hoje, as dessalinizadoras funcionam usando a tecnologia da osmose reversa. Na natureza, a osmose é a passagem de um solvente para aquilo que vai ser dissolvido. A osmose reversa recupera na solução salina a água solvente. Usando uma membrana de poliéster dentro de um cilindro, onde a água é empurrada a uma pressão oitenta vezes maior que a do ar, é possível inverter o processo natural. Ou seja, faz-se o líquido atravessar a barreira e deixar o sal. A tecnologia é três vezes mais barata que a utilizada na evaporação. E consome bem menos energia.

Água no sertão

O lavrador João Pedro da Silva mal tinha o que beber até 1997. Durante metade do ano, caminhava para pegar água num açude a 40 quilômetros de seu sítio, em Ouricuri, sertão de Pernambuco. “A gente ficava até três dias sem água”, lembra-se. Hoje Silva não só tem água como também colhe até três safras anuais de feijão, arroz e mandioca. Fora as bananeiras e os cajueiros que planta. O que ele fez foi simplesmente aproveitar a chuva que cai quatro meses por ano na caatinga usando barragens para criar açudes subterrâneos. O esquema consiste em impedir que as chuvas escorram por debaixo da terra e se percam mais tarde por evaporação (veja o infográfico). A água que fica acumulada no subsolo dura meses. Pernambuco já tem 1 000 barragens subterrâneas, feitas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e por organizações não-governamentais, como o Projeto Caatinga de Ouricuri. “A agricultura está ressurgindo”, conta Everaldo Porto, da Embrapa. João Pedro da Silva que o diga.

Chuva cercada

Muro impede água de escoar.
1. A água da chuva escorre sob o solo sempre procurando os lugares mais baixos. No sertão nordestino, ela pode evaporar antes de chegar a um rio.
 
2. Barrando a enxurrada com um muro subterrâneo, é possível impedir boa parte da perda. A água acumulada se infiltra entre o solo e o subsolo rochoso típico do Nordeste, tornando a terra permanentemente úmida – ótima para o plantio.
 

Vai faltar água?

Quem vê uma foto do planeta feita do espaço pode pensar que água é algo que nunca vai faltar. Afinal, esse líquido incolor, insípido e inodoro, vital para a vida, ocupa mais de dois terços da superfície da Terra. Nada mais enganoso. A quantidade de água no planeta, de fato, não se altera. Desde que o globo se esfriou, há muitos milênios, são os mesmos 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos. Mas só podemos usar uma gota desse manancial. Primeiro porque precisamos de água doce. E só 2,5% da água do mundo é doce. Dessa pequena parte, tire dois terços, confinados nas calotas polares e no gelo eterno das montanhas. Do que sobrou, desconsidere a maior parte, escondida no subsolo. Resultado: a água pronta para beber e fácil de captar está nos rios e lagos, num total de 90 mil quilômetros cúbicos, ou 0,26% do estoque mundial. Mas nem essa porção está inteiramente disponível. Para não esgotar o precioso líquido, só podemos utilizar a água renovável pelas chuvas.
 
E aí chegamos a um limite de consumo de 34 mil quilômetros cúbicos anuais, ou 0,002% das águas do planeta. Nem uma gota a mais. Como diz em seu livro Água o jornalista canadense Marq de Villiers: “A água pode ser poluída, maltratada e mal utilizada, mas não é criada nem destruída”.
 
 
Mas o ser humano se multiplica, e muito. A população já soma 6 bilhões, e segue aumentando. O consumo de água também cresce, mas com um detalhe: em ritmo mais acelerado. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o crescimento do uso da água foi mais do que o dobro do aumento populacional no século passado, de maneira que, hoje, consumimos metade do estoque disponível. Em 35 anos, estima-se que o consumo terá dobrado, ou seja, estaremos utilizando toda a água que o planeta produz. Resumindo: não é apenas o aumento populacional que preocupa, mas também o consumo desenfreado.
 
Os problemas desse uso indiscriminado já começaram, por um problema simples: distribuição. Há muita água boa onde não mora ninguém, e pouca água saudável em áreas povoadas. Resultado: escassez. Segundo a ONU, 1,1 bilhão de pessoas, um sexto da população mundial, vivem sem água de boa qualidade. O Brasil é um exemplo de que ter água não basta. Apesar de sermos a maior potência hídrica do planeta, há muita gente vivendo situação de seca. Atualmente 31 países sofrem com sérios problemas de escassez, especialmente no Oriente Médio, no norte da África e no sul da Ásia (leia quadro na pág. 45). As projeções são ainda mais catastróficas: se o consumo não se alterar, duas em cada três pessoas estarão vivendo condições de escassez em 2025.
 
A água não serve apenas para beber. Ela é necessária também como destino final de bilhões de litros de resíduos que a humanidade produz todo dia. Para essa finalidade, a escassez é ainda pior. Há hoje 2,4 bilhões de pessoas, ou 40% da população, sem condições adequadas de saneamento básico. “De todas as crises sociais e naturais que nós humanos enfrentamos, a da água é a que mais afeta a nossa sobrevivência”, diz Koïchiro Matsuura, diretor-geral da Unesco, braço da ONU para Ciência e Educação.
 
Mas, afinal, a escassez de água pode pôr em cheque nossa sobrevivência? Há várias respostas, dependendo de quem responde. Para os ambientalistas mais radicais, a água está com os dias contados, a não ser que haja um freio no consumo. É o caso dos canadenses Maude Barlow e Tony Clarke, autores de Ouro Azul, um livro-denúncia sobre a apropriação dos mananciais por grandes empresas. “A raça humana julgou mal a capacidade dos sistemas de água da Terra de se recuperarem. E agora o mundo está sendo pressionado a tomar decisões cruciais, talvez irrevogáveis, sobre a água”, escrevem.
 
Mas há gente gabaritada que vê um cenário menos apavorante. “A ONU pintou um quadro catastrófico para provocar uma reação da população, mas a água não deve acabar”, diz o geólogo Aldo da Cunha Rebouças, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em gestão de recursos hídricos. De fato, há indícios de que o consumo começa a regredir. Segundo artigo publicado pela revista científica americana Science, na década passada usou-se metade do que se havia previsto 30 anos antes. “A quantidade de água utilizada em 2025 poderá não ser tão maior do que a usada hoje”, diz Peter Gleick, chefe da ONG Instituto Pacífico para Estudos em Desenvolvimento, Ambiente e Segurança, dos Estados Unidos.
 
 
Na Declaração do Milênio, publicada em 2000, a ONU divulgou suas metas, entre elas a de diminuir pela metade, até 2015, o número de pessoas que hoje sofrem com escassez de água e más condições de saneamento básico. De novo, há diversos caminhos para chegar lá. Em um mundo tão transformado pela ação humana, sempre haverá quem defenda novas intervenções para corrigir o estrago anterior. As soluções, nesse caso, passam por transposições de rios, exportação de água, derretimento de grandes icebergs e por aí vai. Mas, no caso da água, menos pode ser mais. Para muitos especialistas, respeitar o ambiente e tirar o dedo da ferida pode ser a melhor maneira de curar o dano causado.
 
Veja o caso da drenagem, por exemplo. Para povoar áreas desérticas, é comum retirar água do subsolo. Mas essa estratégia é perigosa, sobretudo porque esses reservatórios subterrâneos, chamados de aqüíferos, se renovam muito mais vagarosamente do que rios e lagos. O aqüífero de Ogallala, por exemplo, a maior reserva de água dos Estados Unidos, com mais de meio milhão de quilômetros quadrados, é drenado por mais de 200 mil poços, em um ritmo 14 vezes superior ao que a natureza gasta para restituí-lo. O resultado mais óbvio disso é que o poço pode secar. Tudo bem, você pode pensar. Usa-se a água enquanto ela existe. Mas os efeitos dessa retirada vão mais além. A drenagem de aqüíferos subterrâneos pode baixar o nível de rios e lagos e causar ou agravar a desertificação.
 
O transporte de água é outra intervenção humana de grande impacto. Esse, no entanto, não é um problema moderno. Terraços para cultivo, diques e aquedutos são usados há milênios. Uma das Sete Maravilhas do Mundo, os Jardins Suspensos da Babilônia, construídos por Nabucodonosor II (604 a 562 a.C.), usava água bombeada do rio Eufrates. Os mais antigos sistemas de irrigação, os qanats, mistos de poço e aqueduto, viabilizaram as civilizações da Mesopotâmia e ainda são muito usados no Afeganistão, no Iraque, no Irã e no Egito. Durante o Império Romano, entre os anos 312 e 455 d.C., foram construídos enormes sistemas de distribuição de água, muitos dos quais continuam de pé. Mas nada disso se compara ao manejo de águas desenvolvido no século 20. Em 1950, havia pouco mais de 5 mil grandes represas. Hoje, são 40 mil.
 
Não é preciso dizer que, quando se desvia ou se bloqueia um curso de água para construir uma represa, alguém rio abaixo ficará sem água, temporária ou definitivamente. Seja de animais ou de ribeirinhos, essa alteração afeta muitas vidas. De acordo com a ONU, existem 261 bacias hidrográficas transnacionais, compartilhadas por 145 nações, o que sempre deu margem a disputas, conflitos e guerras. Sem contar que, ao desviar a água de seu destino natural, pode-se romper o ciclo natural que a devolve.
 
Hoje, há mais de 500 conflitos entre países envolvendo disputas pela água, muitos deles com uso de força militar. Nada menos que 18 desses conflitos violentos envolvem o governo israelense, que vive brigando pelo líquido com os vizinhos. Cerca de 40% do suprimento de água subterrânea de Israel se origina em territórios ocupados, e a escassez de água foi um dos motivos das guerras árabe-israelenses passadas. Em 1965, a Síria tentou desviar o rio Jordão de Israel, provocando ataques aéreos israelenses que a forçaram a abandonar a tentativa. Na África também houve conflitos. As relações entre Botsuana e Namíbia, por exemplo, ficaram estremecidas depois que a Namíbia anunciou um plano de aqueduto para desviar um rio compartilhado pelos dois países. Na Ásia, Bangladesh depende da água de rios que vêm da Índia. Nos anos 70, em meio a uma escassez de alimentos, a Índia desviou o fluxo desses rios para suas lavouras. Bangladesh foi deixado a seco por 20 anos, até a assinatura de um tratado que pôs fim às disputas.
 
A qualidade da água é outro fator crucial. Nesse caso, o alarme vem soando faz tempo. Nos países em desenvolvimento, diz a ONU, até 90% do esgoto é lançado nas águas sem tratamento. Todos os anos, de 300 a 500 milhões de toneladas de metais pesados, solventes, produtos tóxicos e outros tipos de dejeto são jogados na água pelas indústrias. Cerca de 2 bilhões de toneladas de lixo são despejados em rios, lagos e riachos todos os dias. A verdade é que a maioria dos produtos químicos produzidos pelo homem mais cedo ou mais tarde acaba em um curso ou depósito de água. Uma das conseqüências disso é que 80% das doenças nos países pobres do hemisfério sul estão relacionadas com a água de baixa qualidade.
 
 
Mas, apesar de ser um recurso tão frágil e escasso, a água ainda é muito desperdiçada. De toda a água utilizada, 10% vai para o consumo humano, 20% fica com a indústria e o restante, 70%, é utilizado na agricultura. Porém o desperdício e o uso irracional são uma constante em todos esses setores. Vazamentos, métodos obsoletos e desperdício drenam cerca de 50% da água usada para beber e 60% da água de irrigação. Com a tecnologia disponível atualmente, a agricultura poderia reduzir sua taxa de uso em até 50%, as indústrias em até 90% e as cidades em um terço sem prejudicar a produção econômica ou a qualidade de vida.
 
Mas a grande questão debatida hoje sobre o futuro da água é quem deveria gerenciar as reservas e como isso deveria ser feito. Com a globalização, grandes empresas transnacionais estão ampliando sua presença em serviços de saneamento e ganhando o direito de explorar fontes de água, o que, para os ambientalistas, pode comprometer o acesso das populações mais pobres.
 
Estamos falando aqui de um choque entre ideologias completamente diferentes, com concepções de mundo antagônicas. De um lado, há os que entendem a água como um produto que se pode manejar, engarrafar, pôr preço e vender. Esse grupo acredita na tecnologia e no mercado e vê a água como uma necessidade humana que pode ser atendida eficientemente pela iniciativa privada. Para eles, a água pode e talvez deva se tornar “o petróleo do século 21”. Do lado oposto, estão os ambientalistas, para quem a água não tem preço nem dono, pois pertence a todos. Eles acreditam no resgate da relação primitiva com a natureza, na cooperação entre os povos e no manejo sustentável dos recursos naturais e vêem a água como um direito fundamental e inegociável do ser humano.
 
A despeito dessa bipolaridade, a presença da iniciativa privada avança por ter o poder do capital a seu lado. Em 1998, o Banco Mundial previa que, em breve, o comércio global da água faturaria 800 bilhões de dólares. Antes de 2001, essa projeção foi elevada para 1 trilhão de dólares. Desde 1995, o mercado de água engarrafada cresce a uma espantosa taxa de 20% ao ano. Em 2000, só esse negócio faturou 22 bilhões de dólares, com a venda de cerca de 89 bilhões de litros de água. Detalhe: o líquido engarrafado para venda é uma gota nesse mar de dinheiro que envolve a água. A fonte maior é o mercado de saneamento e de distribuição de água, um ramo com um potencial de crescimento astronômico, já que apenas 5% da população mundial recebe água fornecida por empresas privadas. As duas gigantes do setor de saneamento são as transnacionais Vivendi e Suez, que têm sede na França e respondem por 70% do faturamento do setor.
 
O fato é que a água transformou-se em uma commodity como o petróleo ou a soja, com direito a ser exportada, inclusive. O Canadá, por exemplo, exporta água para regiões sedentas do México e dos Estados Unidos. Pode parecer estranho, mas a exportação de água é uma realidade. Neste exato momento há barcaças e caminhões de grande capacidade cruzando fronteiras carregados com nada mais do que água.
A situação colocou o Brasil em uma situação estratégica, de maneira que, quando o assunto é água, o mundo todo volta seus olhos para cá. Para começar, somos o país que tem mais água disponível. Para se ter uma idéia, nossos rios reúnem 13% do volume fluvial mundial. Não bastasse toda essa abundância, temos sob nossos pés a maior reserva de água doce do mundo, o aqüífero Guarani, uma superpoça subterrânea que cruza a fronteira de sete Estados e avança pelos territórios argentino, paraguaio e uruguaio. Só ali jazem 37 mil quilômetros cúbicos de água potável, o que daria para encher até a boca 7,5 milhões de estádios do Maracanã, segundo cálculos do geólogo Heraldo Campos, especialista no aqüífero. E o Brasil só utiliza 5% desse potencial.
 
Nas discussões internacionais sobre o uso dos recursos hídricos, o Brasil é uma liderança natural, segundo o costarriquenho Manuel Dengo, Chefe da Divisão de Água, Recursos Naturais e Desenvolvimento Sustentável da ONU. “O Brasil desempenha um papel importante no cenário mundial das águas. Sua presença na maioria dos encontros intergovernamentais e outros fóruns é altamente respeitada.” Mas, como em outras áreas da vida brasileira, essa liderança deve-se mais ao nosso potencial e às nobres intenções do que às boas práticas.
 
Nossa legislação, por exemplo, é moderna e democrática, inspirada nas melhores leis ambientais do mundo. A tecnologia brasileira de tratamento de água também é destaque, caracterizada pela eficiência com baixo custo, segundo o ambientalista Leonardo Morelli, coordenador da rede de ONGs Grito das Águas.
 
Mas, quando se vê a situação dos rios que cortam as grandes cidades brasileiras, percebe-se que nosso conhecimento não se traduz em qualidade de água ou de vida. O resultado disso chega a ser paradoxal, como no caso da cidade de Manaus, incrustada na maior bacia hidrográfica do mundo e submetida a um rodízio de água entre os bairros por falta do produto. Embora moderna, a lei não funciona sozinha, e são comuns os acidentes ambientais com mortandade de peixes e contaminação das águas. Para Aldo Rebouças, o grande problema brasileiro, ironicamente, é a abundância. “Por termos muita água, a cultura do desperdício impera no país todo. Nossos problemas são de grande desperdício, baixa eficiência das companhias e degradação da qualidade da água.”
 
Faz pouco tempo que o mundo acordou para a importância econômica e estratégica da água. Mas, em meio a divergências sobre a posse e o destino da água, já aflorou um consenso mínimo. Especialistas, empresários e ecologistas concordam que a ameaça de escassez é real, mas que há tempo para evitá-la. Para isso, é preciso estancar o desperdício, recuperar as reservas poluídas, garantir o direito à água para os mais pobres e criar projetos de educação ambiental. A educação, dizem os especialistas, é importante porque a ação de cada um é maior do que qualquer intervenção que governos ou empresas podem fazer. Saber qual é verdadeira dimensão da ameaça é o primeiro passo para vencer o problema. Portanto, ao ler essa reportagem, você está fazendo a sua parte.
 
Para saber mais
Na livraria: Ouro AzulMaude Barlow e Tony Clarke, M.Books, São Paulo, 2003
Água
Marq de Villiers, Ediouro, Rio de Janeiro, 2002
Grito das Águas
Leonardo Morelli, Letradágua, Joinville, 2003
Na internet:
www.ana.gov.br
www.biodiversidadeglobal.org
www.un.org/events/water
www.waterday2003.org

 
 

domingo, 7 de setembro de 2014

CAFÉS Suspensos

SERÁ QUE UM DIA  PODEREMOS VER NOSSO PAÍS  COM ESSE PATAMAR DE  HONESTIDADE?

LEIA, É DE DAR INVEJA....
 
 


Cafés suspensos"
Entramos num pequeno café na Bélgica com um amigo meu e fizemos o nosso pedido. Enquanto estamos a aproximar-nos da nossa mesa duas pessoas chegam e vão para o balcão:
- "Cinco cafés, por favor. Dois deles para nós e três suspensos."
Eles pagaram a sua conta, pegaram em dois e saíram.
Perguntei ao meu amigo:
- "O que são esses cafés suspensos?"
O meu amigo respondeu-me:
- "Espera e vais ver."
Algumas pessoas mais entraram. Duas meninas pediram um café cada, pagaram e foram embora. A ordem seguinte foi para sete cafés e foi feita por três advogados - três para eles e quatro "suspensos". Enquanto eu ainda me pergunto qual é o significado dos "suspensos" eles saem. De repente, um homem vestido com roupas gastas que parece um mendigo chega na porta e pede cordialmente:
- "Você tem um café suspenso?"
Resumindo, as pessoas pagam com antecedência um café que servirá para quem não pode pagar uma bebida quente. Esta tradição começou em Nápoles, mas espalhou-se por todo o mundo e em alguns lugares é possível encomendar não só cafés "suspensos" mas também um sanduíche ou refeição inteira.
 
 
“Há muita gente a aderir?” A resposta do funcionário da pastelaria Clarinha, em Guimarães, é desarmante: pega na caixa de cartão e coloca sobre a balança. “1,210 kg” marcam os dígitos verdes do dispositivo eletrónico: “Se tirar os 200 gramas da caixa já temos mais de um quilo” de moedas.

É naquela caixa que os clientes têm deixado o seu contributo para a iniciativa “café suspenso” lançada nesta cidade pela Igreja Católica. A ideia nascida em Itália, e que se tem globalizado nos últimos anos, ganha cada vez mais adeptos um pouco por todo o país.
 
O princípio do café suspenso é simples: quando alguém vai tomar um café pode entregar o dinheiro de dois, deixando a bebida paga para que quando uma pessoa necessitada for ao mesmo estabelecimento possa bebê-la de forma gratuita. Esse café fica “suspenso” à espera de quem o peça. Em Guimarães, “não está a ser feito literalmente, mas é o mesmo espírito”, justifica o padre José Silvino, capelão da igreja de S. Pedro do Toural, na maior praça da cidade.

Com dúvidas quanto à forma como operacionalizar a ideia, Silvino optou por uma solução dupla. Se os donos ou funcionários do café conhecerem alguém que “está a pedir um café, mas está a precisar de um galão ou de um pão”, oferece-lhe o pedido. Nos restantes casos – que têm sido a maioria – os estabelecimentos comerciais aderentes têm caixas onde os clientes podem deixar o valor do café suspenso, o arredondamento da conta ou o troco. Esse dinheiro reverte depois para o fundo “Partilhar com esperança” da Diocese de Braga, que é gerido pela Cáritas, que se encarrega de fazer chegar os donativos a famílias com carências identificadas.

A ideia que José Silvino tem posto em prática não é sua. O padre vimaranense seguiu a sugestão da mensagem de Quaresma do Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga. O representante máximo da Igreja Católica na região chamou-lhe “caridade preventiva”. No texto o conceito original era também alargado: “Porque não falar também de um 'pão suspenso', 'refeições suspensas', 'medicamentos suspensos' ou 'roupas suspensas'?”, questionava o arcebispo, convidando os padres e instituições católicas a desenvolverem a ideia nas suas paróquias.

“Mediante este gesto de caridade, ao alcance de todos nós, creio que estaremos a combater de um modo directo a denominada pobreza envergonhada, que já afecta muita gente da classe média”, sublinha o arcebispo. Para o padre de Guimarães, o que mais o marcou na mensagem “foi a ideia de que o jejum da Quaresma não é tanto uma questão de renúncia, quase como um castigo que fazemos a nós próprios, mas de partilha”. E foi a essa mensagem que apelou junto dos proprietários das pastelarias mais próximas da igreja do Toural, e também nos bares do hospital da cidade (onde é capelão).

Apesar de a iniciativa terminar na próxima semana, com a Páscoa, José Silvino promete repetir a ideia nos próximos anos. “Para o ano quero um Toural suspenso”, brinca o padre, ilustrando a intenção de alargar a ideia a, pelo menos, todos os cafés e restaurantes nas imediações da principal praça de Guimarães.


O conceito terá nascido no Sul de Itália, na cidade de Nápoles, há cem anos e tinha força sobretudo na época do Natal. Mas o “caffè sospeso” foi desaparecendo na fase de crescimento económico após a II Guerra Mundial. A recessão dos últimos anos fê-lo recuperar força e globalizar-se, chegando a vários países da Europa, Estados Unidos e América do Sul. Em Portugal começou a dar os primeiros sinais no ano passado. A padaria Pabiru, na Lousã, foi uma das primeiras a aderir à ideia. Pouco tempo depois, a pastelaria Mordido, em Odivelas, também apresentava o seu café suspenso.

“Ouvimos falar através de um cliente e adaptamos o conceito ao nosso café”, conta Pedro Mordido, proprietário deste estabelecimento comercial, que até criou uma ementa especial de “suspensos” que além de café a preço mais reduzido  tem bens essenciais como pão, fruta ou sopa. Os clientes deixam, em média, 20 contributos por semana e “sempre que alguém pede, há dinheiro de lado para pagar o que consumirem”.

O exemplo da pastelaria Mordido levou um grupo de pessoas que tinha tido conhecimento da iniciativa a lançar uma petição online em que é defendido que este devia tornar-se um projeto de âmbito nacional. “Sem gastos excessivos ou mudanças na sua rotina, um simples gesto solidário pode melhorar o dia de um desconhecido e fazê-lo a si, dador, sentir que participa num projeto coletivo de afetos”, sublinhavam os primeiros subscritores de uma ideia que tem tido pouca adesão online (192 subscritores de momento).

http://www.publico.pt/local/noticia/caridade-preventiva-ou-bondade-inesperada-cafes-suspensos-estao-a-entrar-no-pais-1632050
 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Beatriz Cerqueira: Governo de Minas quer calar educadores. Veja por quê


Querem calar os educadores mineiros
por  Beatriz Cerqueira, no site da CUT 
 
Desde 2008, os trabalhadores em educação da rede estadual lutam pelo pagamento do Piso Salarial Profissional Nacional. Mas, a luta vai além da questão salarial. Em todas as pautas de reivindicações demandas de acesso, permanência e qualidade da educação foram apresentadas ao governo mineiro.
 
Desde que o modelo do choque de gestão foi feito no Estado, o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG) acompanhou as políticas públicas da educação (ou a sua ausência), os programas de governo e os indicadores de qualidade. Estudos feitos pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), relatórios do Tribunal de Contas do Estado, e mesmo as publicações oficiais do governo denunciam uma realidade diferente das peças publicitárias veiculadas no Estado.
 
Há anos, o Sindicato denuncia as precárias condições de trabalho do professor e dos educadores em Minas Gerais, a falta de estrutura física das escolas, a falta de vagas na educação básica, a destruição da profissão docente no Estado. Em 2014, o comportamento da entidade não foi diferente. Apresentou a pauta de reivindicações com demandas relacionadas à educação de qualidade, acesso e permanência na escola.
 
O governo estadual, a exemplo de anos anteriores, ignorou os problemas das escolas estaduais e seus educadores. Também, a exemplo de anos anteriores, o Sind-UTE/MG denunciou os problemas. Mas a denúncia da realidade, que não cita nenhum nome de candidato, incomodou a coligação encabeçada pelo PSDB que, em dois dias, já tentou impedir, por três vezes, a veiculação da campanha de informação da realidade das escolas estaduais.
 
A tentativa de censurar os trabalhadores em educação demonstra a forma como fomos tratados nos últimos anos: a mordaça como pedagogia do medo enquanto se destrói a escola pública mineira.
Na campanha de informação, conforme divulgamos a seguir, não falamos nenhuma novidade.
 
Acompanhe o que o governo de Minas fez contra a educação mineira
 
· Não dá autonomia para os professores avaliarem o processo de aprendizagem dos alunos, impondo a aprovação automática
 
· Manipula as informações sobre qualidade da educação, divulgando apenas o Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (IDEB). Outros indicadores que apontam os problemas não são repassados à população
 
· O programa Fica Vivo não diminuiu a violência. A taxa de homicídio em Minas aumentou 80% de 2001 a 2011. Nossos jovens estão morrendo!
 
· Os programas do Governo são apenas para propaganda, não atingem a maioria dos municípios mineiros. O Poupança Jovem, por exemplo, atende apenas nove municípios
 
· Faltam 1.010.491 de vagas no Ensino Médio
 
· Somente 35% das crianças mineiras conseguem vaga na Educação Infantil
 
· Não tem nenhuma política preventiva sobre violência nas escolas. Professores são agredidos, alunos assassinados e nada é feito
 
· Não paga o Piso Salarial Profissional Nacional aos profissionais do Magistério, conforme determinado pela Lei Federal 11.738/08 e decisão do Supremo Tribunal Federal (STF)
 
· Efetivou, sem concurso, mais de 98 mil servidores, colocando estas pessoas numa situação de fragilidade jurídica
 
· Congelou a carreira de todos os trabalhadores em educação até dezembro de 2015
 
· Não cumpre acordos que assina
 
· Acabou com o Fundo de Previdência dos Servidores Estaduais (Funpemg), que já tinha capitalizado mais de R$3 bilhões para aposentadoria dos servidores.
 
Mas parece que o que incomodou foi a possibilidade da população ser lembrada sobre os problemas da escola, durante o período eleitoral. Qual o medo? Vamos fazer o debate público sobre a realidade da educação mineira? Porque a censura é o instrumento de uma ditadura, não de um Estado democrático.
Quem quer ser gestor tem que aprender a conviver com quem pensa diferente.
 
Beatriz Cerqueira, presidenta da CUT/MG e coordenadora-geral do Sind-UTE/MG

Por que a Alemanha reformou seu futebol enquanto o Brasil perde espaço

 Em Gana, em 2002, durante a Copa da Coreia e do Japão: o segundo time de todos eles era o Brasil
por Luiz Carlos Azenha

Muito se falou, especialmente depois da goleada histórica da Alemanha sobre o Brasil, da reforma pela qual passou o futebol alemão desde 2000, quando o país passou por um fiasco na Eurocopa. Resumo de uma reportagem da Deutsche Welle:
Temendo um vexame nacional na Copa do Mundo realizada em casa seis anos depois, os alemães botaram a mão na massa e resolveram tratar do problema pela raiz, criando um programa nacional, inédito no mundo, de formação de jovens craques, que obrigou os 36 clubes profissionais alemães a fundarem escolinhas de futebol. Para montar os centros de formação, a Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla alemã) enviou especialistas para visitar escolas de futebol francesas, holandesas e espanholas. Hoje, o país exibe uma rede de cerca de 390 centros de treinamento, ligados aos clubes, supervisionados pela DFB e distribuídos em diversas cidades alemãs. Desde 2002, mais de meio milhão de euros foram investidos na formação de futuros jogadores. Um detalhe importante é que seleção dos talentos é feita explicitamente sem priorizar “qualidades alemãs”, como força e disciplina, mas observando sobretudo a habilidade das crianças e adolescentes no tratamento da bola.
Mas, os alemães estariam apenas interessados em resgatar o orgulho nacional? Com certeza, mas não apenas isso. Apontamos abaixo cinco outras razões:
 
1. A INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO
 
O entretenimento é uma indústria de ponta, do futuro. Quando cresce a renda, as pessoas tendem a gastar mais com a qualidade — ou o que presumem ser a qualidade — de suas horas livres. O futebol se encaixa nisso tanto quanto o cinema.
 
Os bilhões de dólares recolhidos por Hollywood para a economia americana crescentemente vem de fora dos Estados Unidos, como mostra o gráfico abaixo da revista britânica Economist:


 A linha azul escura mostra o crescimento das vendas de Hollywood fora dos Estados Unidos, em relação ao mercado doméstico. Não estamos falando em trocados, mas na casa dos R$ 80 bilhões de reais anualmente. O entretenimento é uma grande indústria, com a vantagem também de exportar os valores culturais de um país.

No estádio do Kashima Antlers, em Kashima, no Japão, em 2001, com Zico de diretor e Toninho Cerezzo de treinador: eles evoluíram e nós ficamos parados?

2. BOLAS, CAMISETAS E EMPREGOS
 
A Alemanha tem a maior indústria global de material esportivo, com Adidas e Puma empregando cerca de 60 mil pessoas e faturando perto de R$ 50 bilhões anualmente. É uma indústria com altíssima taxa de retorno, já que numa camiseta de futebol ela vende muito mais que tecido, mas identidade com atletas, clubes e nações. A Alemanha tem quatro entre os 20 clubes mais valiosos do mundo, segundo a revista Forbes. Na ponta da lista estão Real Madrid, Barcelona, Manchester United e Bayern de Munich. Estes clubes tem um grande potencial de faturamento no Exterior, como fonte de atração de compradores de suas camisetas, para não falar da valorização da marca para os patrocinadores globais.
 
3. DIREITOS DE TV
 
Os direitos de transmissão de TV são o coração do futebol. São a principal fonte de renda dos clubes, além de bombar o patrocínio da e a venda de camisetas e aumentar o faturamento com o público nos estádios. É esse dinheiro que permite aos clubes manter escolinhas de futebol, bons elencos e competir com adversários. Mas não basta a um clube ter uma boa escolinha de futebol se ele não pode manter os jogadores que desenvolve e é dominado pela praga dos empresários do futebol.
 
Um clube sem acesso à TV é um clube praticamente morto. A venda de direitos domésticos de TV rende aos clubes alemães cerca de R$ 2 bilhões anuais. Na Alemanha tanto as emissoras públicas ARD e ZDF quanto a Sky detém direitos, ou seja, não existe monopólio. Quem define prioridades são a federação e os clubes, exatamente o inverso do Brasil, onde quem tem a faca e o queijo é o conluio Globo-CBF. Quando o clube dos 13 tentou desafiar isso, como descrevemos detalhadamente em O Lado Sujo do Futebol, foi esmagado!
 
Os jogos da Bundesliga, a liga alemã, são transmitidos para 204 países no mundo. Com isso aumenta o faturamento dos clubes alemães com a venda de patrocínios, camisetas e propagandas em placas nos estádios.
 
Existe uma tremenda competição entre as principais ligas europeias pela venda de direitos de TV. As cincos maiores delas — Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha — recolhem o equivalente a R$ 15 bilhões anuais, segundo a Bloomberg.
 
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A lista acima é a dos clubes que mais faturam com a venda de direitos de TV, em euros. Real Madrid e Barcelona lideram porque, dos cinco países acima citados, só na Espanha os direitos não são vendidos coletivamente. Juntos, eles faturam metade dos direitos de todo o futebol espanhol, às custas de um maior desequilíbrio do campeonato. O mesmo acontece hoje no Brasil, com domínio completo de Corinthians e Flamengo.
 
Porém, como disse Sean Hamil, professor do centro de negócios do esporte de uma universidade de Londres, à Bloomberg, uma forma mais equitativa de distribuição garante que qualquer clube possa ganhar de outro no campeonato. A fórmula de sucesso de qualquer competição é o equilíbrio, que traz emoção a cada rodada e evita as disparadas de líderes inalcançáveis. É por isso que todas as ligas dos Estados Unidos, de basquete, futebol americano e beisebol (NBA, NFL e MLB) trabalham pelo equilíbrio entre os clubes e o desenvolvimento de mercados locais onde o clube do coração tenha relação direta, cotidiana, com os moradores da cidade ou região. Um campeonato equilibrado fortalece o conjunto dos clubes.
 
Hoje, a final da Champions League já é vista por cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo. Na África, vi pessoalmente em Freetown, Serra Leoa, em Beira, Moçambique e até na maior favela do mundo, em Kibera, Nairobi, no Quênia: pequenos empresários montando cinemas improvisados para ver os jogos de campeonatos europeus.
 
O futebol tem imenso potencial nos negócios do entretenimento do futuro, especialmente quando Índia e China forem incorporados plenamente a ele, e os alemães estão de olho em uma fatia cada vez maior deste bolo.
 
E há, além de tudo, grande potencial de segmentação. Aguardem: é questão de tempo até que os grandes jogos sejam transmitidos em cinemas de altíssima definição ou pela internet, como se faz hoje com as óperas do Metropolitan de Nova York e da Filarmônica de Berlim.
 
4. TURISMO ESPORTIVO
 
Infelizmente esta pauta escapou à mídia brasileira durante a Copa, talvez por desconhecimento. Existe uma legião dos assim chamados mochileiros do futebol. Não, não são os argentinos acampados no sambódromo de São Paulo. São fãs do bom futebol, não necessariamente desta ou daquela seleção. Vi pessoalmente sete jogos da Copa no Brasil. Poloneses, tunisianos, chineses, malaios, indianos… Na Índia, em 2002, fui à casa do craque Barreto, desconhecido no Brasil mas goleador do campeonato local. Era praticamente um centro de peregrinação de Kolkata, a antiga Calcutá. Fui a uma partida do time dele, o Mohun Bagan, em Goa, um espetáculo inesquecível (para delírio da torcida local, o time de Barreto tomou uma virada inacreditável, vencia por 2 a 0 e perdeu de 4 a 3).
 
E a Índia nunca disputou uma Copa do Mundo… ainda.
Eu não sei se ainda é, mas o Brasil até recentemente era campeão absoluto de torcedores na África, Ásia e Oriente Médio.
 
O chamado “turismo futebolístico” tem imenso potencial de crescimento e independe da Copa do Mundo. O viajante vem ao Rio de Janeiro e inclui ver uma partida no Maracanã no roteiro, assim como o brasileiro que vai a Nova York quer ver pelo menos um show da Broadway. Os alemães também estão correndo atrás disso.

Ronaldo (à direita, atrás do repórter) num blindado, chega ao estádio de Porto Príncipe para um jogo diplomático: foi 6 a 0 para o Brasil, em 2004

5. DIPLOMACIA INTERNACIONAL
 
É óbvio e não é de hoje o esforço da Alemanha para projetar uma nova imagem no mundo. Neues Museum, em Berlim. Minha filha Ana Luisa me leva para ver uma exposição sobre a relação de altos e baixos entre Alemanha e Rússia. Os “baixos” significam uma guerra atroz em que morreram 20 milhões de soviéticos; em que, na sua contra-ofensiva, soldados soviéticos cometeram milhares de estupros. Ou seja, não é nada comparável à rivalidade entre Brasil e Argentina. Mas, de fato, a relação entre alemães e russos é muito mais ampla que uma guerra devastadora.
 
Dou uma olhada no catálogo da exposição. A mostra é promovida por entidades ligadas diretamente ao governo alemão, parte de um esforço diplomático de reaproximação com os russos.
 
Hoje a Alemanha se propõe a ser a ponte entre o ocidente europeu e a Eurásia, através de Moscou. Existem sólidos negócios entre os dois países.
 
Mas, no campo das relações humanas, as memórias associadas a Hitler são impeditivas desta relação.
No livro German Genius, o jornalista Peter Watson descreve em algum detalhe o esforço dos alemães para mudar sua imagem no Reino Unido com o objetivo de atrair turistas, estudantes, investimentos e gente interessada em aprender alemão. Registre-se que, em todo o planeta, os alemães das novas gerações são campeões no conhecimento do inglês: 97% tem conhecimento básico e 25% são fluentes.
 
O futebol dispensa o idioma. É linguagem praticamente universal. É um poderosíssima arma diplomática. Atravessando de automóvel a Jordânia, a caminho do Iraque, minha equipe de televisão correu risco até se identificar: “Ah, brasileiros, o Ronaldinho!”.
 
O diretor de marketing da seleção alemã, que acompanha a delegação ao Brasil, em entrevista à ESPN Brasil, admitiu o que sempre me pareceu óbvio: as atividades de jogadores alemães no Brasil foram programadas para apresentá-los aos brasileiros como pessoas comuns, interessadas em nossa cultura. Ele falou isso com todas as letras.
 
Eu acrescentaria: talvez para desfazer a imagem de alemães frios, calculistas, cruéis e autômatos, que foi espalhada pelo mundo nos filmes de Hollywood durante e depois da Segunda Guerra Mundial.
 
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Nas minhas viagens mais recentes à África, notei um fenômeno curioso: agora, as camisetas amarelas da seleção brasileira dividem espaço com as do Barcelona e do Manchester United. Estamos perdendo espaço. O campeonato brasileiro, por outro lado, tem mínima expressão internacional: é dominado por jogos sofríveis.
 
Como demonstrado acima, o futebol não é apenas um patrimônio cultural do Brasil. Ainda que mal explorado, é também um importante patrimônio econômico e diplomático, como ficou explícito quando o Brasil levou a seleção para jogar no Haiti. Eu estava lá e vi em Porto Príncipe uma das cenas mais impressionantes de minha carreira jornalística: Ronaldo pendurado em um blindado, acompanhado nas ruas por imensa multidão de torcedores do Brasil.
 
No Mineirão, cercado de turistas estrangeiros cujas seleções nem se classificaram para a Copa, vi gente incrédula que veio ver o Brasil jogar se perguntando: o que está acontecendo? Há alguma briga entre os jogadores? Algum motivo obscuro para tamanho vexame?
 
Talvez a Alemanha perca a final da Copa para a Argentina por 7 a 0. Ou o Brasil goleie a Holanda por 8 a 0. Talvez os 7 a 1 tenham sido apenas um desastre fortuito, coisa do Sobrenatural de Almeida.
 
Mas minha impressão de leigo é de que, enquanto a Alemanha trabalhou para reconstruir seu futebol, o Brasil está a caminho de destruir um patrimônio importante de nossa jovem civilização. Tudo indica que teremos mais do mesmo. Muda-se o treinador, mas permanecerá uma estrutura que favorece cartolas pilantras, uma entidade “sem fins lucrativos” milionária — que comanda clubes majoritariamente falidos — e um grupo midiático que age como dono do futebol brasileiro.
 
PS do Viomundo: Obviamente que a tendência de uma mídia quase tão fraca quanto nosso futebol é de focar no acessório e esquecer do essencial, por motivos políticos, econômicos ou por pura incompetência.

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