segunda-feira, 1 de maio de 2017

Entrevista: O atual momento político brasileiro

Quem acompanha o noticiário atualmente tem motivos para estar confuso. A grande imprensa, em grande parte, faz campanha para o afastamento da presidente Dilma e mais: quer atingir o ex-presidente Lula, para que não seja candidato na próxima eleição. Uma ou outra revista, como a Carta Capital, tem posição oposta. Denuncia a campanha orquestrada para acabar com o governo do PT e o próprio partido. 
Em busca de análise que ajude a entender a crise política atual, falamos com o professor de História e Mestre em História Social, Diego Amaro de Almeida.
 

Padre César Moreira: A existência da crise política é patente?

Prof. Diego Amaro de Almeida: A crise política é evidente. Notamos diariamente este cenário problemático ao acessarmos informações na grande mídia. Sendo veículos de comunicação de concessão do governo ou particulares. Estão nítidas a confusão instaurada e a perda de identidade da política. Há um pensamento a respeito que talvez explique em parte esta crise. "Não estou mais no poder para ser referência do povo, mas sim para meus próprios interesses". Este péssimo processo transforma a política em demagogia. Enfraquece o Estado e a população. Com isso, passamos a achar que a solução está na volta daquilo que aparentemente foi “menos” pior.
Em um momento onde surgem ideias como aquela: “fulano é bom, rouba mas faz”. Ou, ao meu ver, um pior: “Nos tempos do regime militar que era bom! ” Tudo isso é sinal de uma crise instaurada, na qual as pessoas não têm a mínima consciência do que se pode fazer para melhorar. Tanto é, que na busca pela melhoria, é aceito qualquer tipo de governo, só para sair do atual cenário vivido atualmente. Uma situação perigosa em que “aventureiros” tomam o poder de uma nação e a levam a crises ainda piores que a atual vivenciada, e caminhos que talvez levem mais de 25 anos para serem derrubados.
 
Padre César Moreira: Quais os objetivos? 
                           
Prof. Diego Amaro de Almeida: A crise desacredita o povo e a força inerente à esta grande massa da população de todos os níveis sociais.  Entretanto, penso que ela não tem um objetivo específico, mas sim é resultado de uma má administração. Neste processo, entendo que a crise é resultado. O resultado é quebrar a crença que a população tem no processo democrático político.

Padre César Moreira: Quais são os personagens desta atual crise?   
                        
Prof. Diego Amaro de Almeida: Não há como não pensar em algumas referências negativas da política apontadas pela própria mídia. Nomes como Dilma Rousseff, Eduardo Cunha, Lula, entre tantos outros que têm aparecido cotidianamente em meio a esse “mar de lama imunda” que, por muitas vezes, não acreditamos que vá diminuir.
No entanto, eu costumo comparar toda essa situação a um esquema de “dedetização”, quando vamos purificar algum ambiente por termos a impressão que ali existe alguma praga, o que acontece? Surgem pragas das quais nem imaginávamos que poderia ter e em grande quantidade. Em seguida, conquistamos um ambiente limpo. Talvez tudo que está acontecendo seja o sinal de uma grande mudança. Para eliminar estes personagens que tanto destroem nossa crença na política e no país.
 
Padre César Moreira: Derrubar Dilma e enfraquecer o PT é solução para a situação atual do Brasil?
 
Prof. Diego Amaro de Almeida: Não creio que está seja a solução. Pois estamos em um cenário em que todos são vistos como corruptos. Como eu posso retirar uma presidente do poder com argumento de corrupção, sendo que o antecessor também responde pelo mesmo crime, a exemplo do antecessor presidencial? Com tudo isso, temos os problemas de caráter econômico. Não há como confiar em alguém que só "mente" nas manchetes da mídia. Não há como investir em uma nação desacreditada em seus líderes. Não há como colocarmos nosso produto de má qualidade em uma prateleira para competir com outros de alto padrão.
Chega a ser desleal! Não é a primeira vez que enfrentamos um cenário caótico neste nível. Na saída do Figueiredo e seguida entrada de Sarney, o país vivia uma crise econômica. Sarney chega a tentar vários planos econômicos em busca da estabilização do país. No entanto, isto não funciona. Só encontramos uma solução na criação do Plano Real, com Itamar Franco/Fernando Henrique Cardoso (FHC). O nosso grande equívoco é dividir o governo por pessoas (como se fossem os únicos responsáveis por aquilo que de “mau” ou de “bom” aconteceu e acontece neste país).
O voto é o chamado grande poder, devemos acreditar neste poder individual que cada um de nós temos em mãos, e, assim, votar de forma consciente, ou seja, saber que a minha escolha é um bom caminho. 
O Brasil é uma continuidade, cada representante é a continuidade do outro, e assim eles fizeram. Sei o quanto é complicado não pensar que situação “X” é responsabilidade de um partido, porém é preciso entender que entre erros e acertos, o que temos neste cenário é uma continuidade de ações, isso para além dos planos políticos e um dado governo, até recentemente o processo de crescimento caminhava de uma forma "saudável". Falhou apenas no governo Dilma. Reflexo de uma sucessão de erros, que vieram do governo Lula. Não há como culpar uma pessoa pelos erros no governo, é tudo uma continuidade. É o processo de construção de uma nação, de uma história.
Se eu pudesse deixar uma mensagem aqui, eu diria o seguinte, o melhor caminho que temos para mudar ou melhorar alguma coisa neste cenário é o voto. O voto é o chamado grande poder, devemos acreditar neste poder individual que cada um de nós temos em mãos, e, assim, votar de forma consciente, ou seja, saber que a minha escolha é um bom caminho. Se o candidato vai ganhar ou perder não importa, o essencial é a busca pela mudança e renovação. Depois do voto na urna e candidato eleito, começa outro processo mais importante: cobrar melhorias coletivas e apoiar as que têm frutos positivos.
Agora não é o momento de derrubar o governo Dilma. Com Collor foi possível, mas era outra circunstância. A princípio, nós tínhamos confiança em nossos parlamentares, o que nos levava a crer que seria melhor para o Brasil. A exemplo da década de 90, hoje se repetíssemos os protestos e a queda do governo, entraríamos em um cenário ainda pior que este que estamos vivendo. Um país com tantas incertezas entraria em um cenário caótico e em descrença total.
 
Padre César Moreira: Em que a presidente Dilma tem errado? Afinal, Lula a apoia ou quer enfraquecer sua afilhada?
 
Prof. Diego Amaro de Almeida: O grande erro de Dilma está em não se desvencilhar da imagem de Lula. Ele tem sido um grande problema para ela. A presidente não pode atribuir a responsabilidade dos erros do governo de seu antecessor, pois é o mesmo partido e ela fez parte desse cenário equivocado. Ao tentar colocar a culpa em alguém evidencia ainda mais um cenário de descontrole. Dilma responsabiliza FHC pelos erros atuais, mas há de se lembrar que são 12 anos desde o governo tucano para o petista atual. Muito tempo para apontar erros, estes deveriam vir a toma no governo que o sucedeu, já que houve uma mudança brusca de partidos.
Ao tentar defender o ex-presidente Lula, Dilma se compromete ainda mais, já que é evidente que existem grandes erros no governo do seu amigo e padrinho político. Talvez Dilma realizasse um governo sóbrio se afastasse desta figura. Pois hoje antes de ser petista ela é a presidente desta nação, e deveria tomar algumas atitudes para controlar a intervenção do seu partido em suas decisões.
 
Padre César Moreira: E oposição? Como tem se portado? Ou ela inexiste no cenário de
esvaziamento de credibilidade nos políticos?

Prof. Diego Amaro de Almeida: Eu não consigo enxergar uma oposição. Entendo a luta pelo poder como um cenário futebolístico. Não vemos mais uma busca ideológica. Não há como negar que esses partidos representam o mesmo seguimento social. Um partido é da social democracia e o outro é dos trabalhadores, ambos representam a sociedade e seus níveis mais carentes.
Entretanto, percebo que há uma confusão de identidade política já iniciada na década de 90 entre Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva. Ao se afastarem daquilo que defendiam e não deixarem claras as suas posições ideológicas, ofertam aos atuais parlamentares a herança de um país confuso e sem ideal no cenário político.
 
Padre César Moreira: Analistas entendem que a crise econômica vai perdurar até o final de 2016. E a crise política? Termina antes?
 
Prof. Diego Amaro de Almeida: A crise política é anterior à crise economia, e foi uma que levou a outra, país nenhum sobreviveria economicamente em meio a tanta corrupção, cedo ou tarde entraria em um colapso financeiro.
Hoje não conseguimos, ainda, vislumbrar uma solução para a crise política, pois para acontecer esta mudança toda a população teria que passar por um processo de reeducação política. Parlamentares precisam compreender suas verdadeiras e reais funções e até onde podem ir, de que forma eles podem atuar. Eleitores necessitam aprender a cobrar e conhecer o seu verdadeiro papel na política e o quanto ela pode somar para o seu cotidiano. Não é tarefa fácil, e ainda teremos que caminhar muito para alcançar, aquilo que desejamos como política.
Muitas vezes escuto pessoas dizendo que “política não se discute”, política se discuti sim! E tem mais, se aplica. Enquanto a população ficar esperando em “berço esplêndido” que um herói surja e salve a nossa nação, nada vai acontecer, nós precisamos ser a mudança que desejamos, e temos o dever de impedir que nosso país continue sendo vilipendiado.
 
Padre César Moreira: Em meio às crises políticas o fantasma da intervenção militar e da ditadura costuma dar as caras. Fala – se nisso atualmente ou não?

Prof. Diego Amaro de Almeida: Nós vivemos em um cenário que relembra e muito o que estava acontecendo no final do governo João Goulart. Jango que era visto como uma ameaça comunista. Com isso, vários setores da sociedade queriam retirá-lo do poder a qualquer custo, por não entenderem a sua real intenção. O que o fazia passar por comunista. Acreditava que através das chamadas reformas de base, a economia voltaria a crescer e haveria redução das desigualdades sociais. Neste projeto estava incluso as reformas agrária, tributária, administrativa, bancária e educacional.
No dia 13 de março de 1964, Jango realiza um grande comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, lá anunciou a mais de 300 mil pessoas que daria início as reformas. Este foi mais um motivo para que a oposição o acusasse de comunista. Neste cenário é que acontece um golpe que leva o Brasil a um regime militar de 25 anos.
De alguma forma, o que está acontecendo hoje tem traços do passado, mas a história não se repete. No entanto, é de extrema importância estarmos atentos aos sinais, neste governo nos deparamos com discursos próximos daqueles que foram proferidos antes do golpe, e não podemos nos esquecer que assim como Jango, Dilma é vista como comunista. Em meio a este contexto problemático, ela tem recebido inúmeros ataques por parte da população, e claro que muito disso vem por influência das elites.
 
Colunista - Padre César Moreira
 
 

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