terça-feira, 7 de março de 2017

Livro expõe casos de corrupção e submundos da Fifa e da CBF

O jornalista Jamil Chade faz parte da rede mundial de especialistas que combatem a corrupção, a ASK ( Anti-Corruption Solutions and Knowledge ). Foi convidado a integrar o grupo com base em seu trabalho sobre corrupção no mundo do esporte. Desde 2000, ele é correspondente do jornal 'O Estado de S. Paulo' na Europa e acumula histórias sobre esquemas ilícitos que levaram dirigentes da Fifa a juntar fortunas e a arrastar para o centro da ilegalidade outras entidades ligadas ao futebol, como, por exemplo, a CBF.

Presidente foi surpreendido por manifestante antes de coletiva pela Fifa com uma "chuva" de dinheiro em alusão aos casos de corrupção que envolvem a Fifa Foto: Philipp Schmidli / Getty Images

 
Com documentos exclusivos que expõem as entranhas do submundo do esporte, e relatos de seus encontros com os cartolas mais poderosos do planeta, Jamil reuniu material suficiente para produzir 'Politica, Propina e Futebol' (Editora Objetiva, R$ 25,50). O livro será lançado nesta terça (24), às 19 horas, na Livraria da Cultura, em Porto Alegre, e na sexta (27),  às 19h, na Livraria da Cultura de São Paulo, no Conjunto Nacional.

Ao detalhar como o futebol "foi sequestrado" por facções criminosas, Jamil questiona o excesso de dinheiro público utilizado para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, e abrange seu trabalho para mostrar como age uma rede de cúmplices, no meio politico e empresarial, que dá suporte a um sistema que se perpetua com acordos milionários e fraudulentos.
 
Nesta entrevista exclusiva ao Terra , Jamil Chade aborda temas relacionados a esse universo cada vez mais explorado pela imprensa internacional e que implicaram recentemente na prisão de parte da cúpula do futebol mundial. O jornalista mora em Genebra, na Suíça, e concedeu entrevista por email.
Terra - Um dos principais legados da Copa do Mundo de 2014 teria sido a repercussão dos questionamentos da população do pais-sede quanto aos gastos do evento?

  Jamil Chade - É de uma profunda ironia. Mas o fato de a Copa ter deixado um legado inexistente em termos de infraestrutura ou mesmo social é que gerou provavelmente seu maior legado: o fato de ter sido questionado de forma tão enfática pela população do chamado “País do Futebol”. Esse foi nosso legado. O despertar das consciências ao saque que estava ocorrendo e o fato de o Brasil ter exposto isso ao mundo. Essa Copa entrou para a história e foi um divisor de águas nos mega-eventos internacionais. Quando a Meca do Futebol questiona o principal evento do futebol, tudo muda. É como se alguém finalmente gritasse: “O Rei está nu”. E de fato ele estava. A Copa é um evento que, no Brasil, mostrou sua falência moral. Fomos, como cidadãos, saqueados. Foram 30 dias de uma festa incrível. Mas quando o circo dobrou sua lona, restou a nós contar uma dívida que levaremos anos para pagar, enquanto a FIFA e os principais cartolas deixaram o evento mais bilionários que nunca.
 
Jamil Chade cobre os bastidores da Fifa há anos e reuniu histórias e documentos que revelam novos fatos sobre o período de corrupção na entidade Foto: Reprodução/Facebook
 
 
Terra - Até que ponto isso afeta (ou afetou) a imagem da Fifa?
Jamil - O grito de “basta” que, de forma desorganizada, os brasileiros pediram em relação ao saque que estavam vivendo repercutiu de uma forma que foi muito além do “Não vai ter Copa” ou de um questionamento por parte de patrocinadores. Governos e seus serviços de inteligência observaram de forma muito cuidadosa o que ocorreu no Brasil. E, um ano depois, não foi por acaso que uma megaoperação policial em Zurique começou a derrubar um castelo construído durante décadas. Governos e procuradores viram na reação das ruas brasileiras um claro sinal de que precisariam agir. E quando a reação ocorreu, o mundo descobriu que o futebol se transformou num dos maiores meios para se lavar dinheiro no planeta. Isento por anos de qualquer controle e bajulado por líderes internacionais, o futebol ganhou o status de veículo ideal para que grupos usassem a paixão de milhões de torcedores para se enriquecer de forma criminosa. Hoje, a realidade é que nossa emoção em campo, a compra de uma camisa, a compra de uma bola a um garoto, ao ligar a televisão ou nossa busca por um ingresso de Copa alimentam a corrupção. Em meu livro, tento mostrar isso com detalhes e fazer um “chamado às armas” ao torcedor. Jamais de forma violenta. Jamais violando as instituições ou o estado de direito. Apenas não podemos mais ser chamados de “público pagante”. Chegou a hora de saber quem estamos enriquecendo cada vez que torcemos por nossos times.
 
Terra - Você mostra em 'Política, Propina e Futebol' que países em desenvolvimento não medem esforços para receber megaeventos esportivos, como Copa do Mundo e Olimpíada, e retiram muitas vezes recursos de setores essenciais da economia. Como se contrapor a isso? 

  Jamil - A Copa e Olimpíada deixaram de ser um evento esportivo. Ele passou a ser, para as economias emergentes e periferias, um instrumento diplomático para mostrar ao mundo que “estamos prontos” para assumirmos nosso papel no cenário internacional. E o movimento é claro neste sentido. Pequim sediou os Jogos de 2008, os sul-africanos tiveram a Copa de 2010, a Rússia teve os Jogos de Inverno de 2014, o Brasil teve a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, Os russos voltarão a ter a Copa de 2018,  Índia organizou os Jogos da Commonwealth e o Catar terá a Copa de 2022. Para esses países, eventos são atalhos a um status de potência, o que politicamente justifica todos os gastos. Mas não existe atalhos para o desenvolvimento social e esses eventos acabaram escancarando que, de fato, essas são potências com pés de barros. Uma segurança fora do comum foi obrigada a ser realizada para permitir que o revezamento da tocha olímpica dos Jogos de 2008 pudesse ocorrer, enquanto o mundo questiona até hoje as violações de direitos humanos na China. Os russos foram expostos em sua corrupção, os sul-africanos em seu Apartheid silencioso e o Brasil em seu saque à  população. Como se contrapor a isso? Reformando as exigências que são feitas aos países para que recebam os megaeventos. Não se pode impor uma nova constituição, como ocorreu no caso do Brasil com a lei geral da Copa. Não se pode ignorar violações de liberdade quando eventos são dados a países. Não se pode exigir que a festa seja bancada pelo povo, aquele mesmo que luta para sobreviver. O COI já iniciou sua reforma, com um projeto para tornar a Olimpíada em um projeto mais social e ecológico. Na Fifa, o teste virá entre 2017 e 2018, quando a sede da Copa de 2026 será escolhida.
 
Capa do livro "Política, Propina e Futebol", do jornalista brasileiro Jamil Chade Foto: Divulgação
 
Terra - A Copa do Mundo de 2014 trouxe algum benefício específico para o Brasil?  

  Jamil - Sim. O de termos sido obrigados a olhar para o espelho e de ter escancarado todas nossas contradições e desafios como democracia. Em termos de infraestrutura, os ganhos foram mínimos e, mesmo sem  a Copa, essas reformas e obras teriam de ter sido feitas. Portanto, não vamos agradecer ao Mundial de 2014 por elas terem sido realizadas. Mas o grande ganho foi quando a população, como uma paródia de Napoleão em 1804, tirou a coroa da mão do papa Pio VII e se autodeclarou imperador. O que eu quero dizer com isso? Se nossa emoção foi sequestrada por um grupo de criminosos, o Brasil deu um sinal ao mundo de que estava na hora de os megaeventos também serem palcos de protestos. A vingança de um população saqueada obrigou os políticos a se esconderem durante a Copa. Aqueles mesmos que haviam apostado no evento para se promoverem. Em termos financeiros e de infraestrutura, não houve ganho. O benefício foi na conscientização da população. O problema é que essa conta saiu alta.
 
 
Terra - Qual a relação da operação recente do FBI, que resultou na prisão de parte da cúpula do futebol mundial por crimes de corrupção, com a derrota dos Estados Unidos para sediar a Copa de 2022?  

  Jamil - Em 2010, eu estava em Zurique na escolha das sedes da Copa. Vi como Bill Clinton tentava seduzir os cartolas para garantir votos aos EUA. Não tenho dúvidas de que, se os americanos tivessem vencido a corrida por sediar o evento em 2022, dificilmente estaríamos vendo essa situação. Tendo dito isso, não acredito que a ação seja uma mera revanche contra a Fifa pelo governo dos EUA.  O que a derrota dos americanos permitiu foi a liberdade para se investigar e processar. E foi isso que fizeram.
 
Terra - Qual o lugar reservado à CBF no maior escândalo de corrupção do futebol mundial?  

  Jamil - Central. O Brasil fez parte do esquema corrupto do futebol desde a Era de João Havelange, que criou o atual sistema. Somos parte do problema. Somos visto pelo mundo como artífices de uma estrutura corrupta e de apropriação da bola, como caudilhos. Havelange adora dizer que foi graças a ele que o futebol ganhou o mundo e que a Fifa se transformou em uma potencia. Ouso dizer que qualquer um teria feito o seu trabalho. Qualquer um. O mundo entrava em sua fase acelerada de globalização, com a descolonização da Africa, os jogos ao vivo, as multinacionais e as tecnologias. O que esse senhor fez foi apenas seu dever. Um procurador suíço deixou muito claro: Havelange fraudou a Fifa. Ou seja, ele fraudou o futebol mundial. O maior problema é que, no Brasil, ele passou a ser visto como referência. Apoiado por uma Ditadura militar, seu estilo de gestão foi simplesmente traduzido na forma pela qual a CBF passou a ser administrada. O que vivemos hoje é apenas seu legado, o de personificar o futebol em um burocrata.  Como devem se sentir os jogadores quando sabem que um estádio ganha o nome de João Havelange e a sede da CBF não é “Leônidas”, “Zito”, “Garrincha” ou “Sócrates”, mas “José Maria Marin”?
 
Terra - Acredita que a CPI do Futebol no Senado, com foco voltado para a CBF,
pode ter resultados práticos?  

  Jamil - Talvez hoje tenhamos uma chance única de abrir caminho para que investigações tenham um efeito prático. Há 15 anos, na primeira CPI no Congresso para vasculhar o futebol, o resultado foi um fracasso. O que estará sendo testado, desta vez, é até que ponto a CBF continua sendo um ator político capaz de se blindar e comprar apoio. A entidade bancou campanhas eleitorais de deputados no passado. Agora, o que está sob o escrutínio da sociedade não é apenas as contas da entidade. Mas saber quais são os “representantes do povo” que estão agindo para proteger essa organização.
 
Terra - De onde vem esse seu interesse apaixonado de expor o submundo do esporte, mais notadamente do futebol? 

  Jamil - Atuando como correspondente internacional desde 2000, percorri mais de setenta países, viajei com papas, chefes de Estado, secretários-gerais da Organização das Nações Unidas (ONU), visitei campos de refugiados, acompanhei resgates de vítimas de conflitos, apertei a mão de criminosos de guerra e de heróis. Em praticamente todas essas ocasiões, nas diferentes culturas, religiões e línguas que conheci, sempre que eu me apresentava como brasileiro meu interlocutor abria um sorriso e fazia um comentário sobre a camisa amarela mais conhecida do planeta. Lembro-me de estar no interior da Tanzânia, um país da África Oriental, numa reportagem sobre o fato de que remédios essenciais não chegavam a uma população negligenciada de seus direitos. Mas, num bar miserável, um pôster na parede mostrava, com um orgulho surreal, a imagem de Cafu levantando a taça da Copa de 2002. Como é que aquele pôster tinha ido parar ali, se nem mesmo existiam voos ou estradas asfaltadas que levassem até o local? Nesse périplo pelo mundo, um fato sempre me surpreendeu: como nós, brasileiros, somos identificados pela nossa Seleção. Sim, trata-se de uma visão simplória, injusta, estereotipada. O Brasil é muito mais que isso. Mas essa realidade também revela que aquela camisa amarela faz parte de nossa identidade e vai muito além de representar um time de futebol. Faz parte de quem somos no mundo, gostemos ou não. O problema é que esse bem cultural, essa Seleção que se diz “nacional”, que usa nossas cores, canta o nosso hino e diz nos representar, foi apropriada por um grupo privado que enriqueceu baseado em nossa emoção. Em nossa identidade. Acredito que, como jornalistas, tenhamos um papel social. Não o de sermos ativistas. Mas o de revelar ao público o que de fato ocorre além do papel picado das comemorações. Esse livro e meu trabalho se limitam a sair em defesa do futebol. A contribuição é uma migalha. Mas as migalhas também precisam ser recolhidas.
Futebol por quem entende
Renata Fan e Marcelo Bianconi, em comentários exclusivos.
 
 

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