segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Rodrigo Alvarez sobre Fábio de Melo: “É um padre que está trazendo a religião para o nosso tempo”

A vida sofrida ao lado da família em Formiga (MG), o caminho percorrido para ser tornar o sacerdote e as polêmicas agora reveladas, como a quebra dos votos de castidade por conta de uma paixão. Todas essas histórias do padre Fábio de Melo estão no livro Humano Demais (Ed. Globo), escrito pelo jornalista Rodrigo Alvarez, da TV Globo. O autor e o biografado participam hoje, às 19 horas, do lançamento da obra na Fnac do shopping Flamboyant. Rodrigo Alvarez nunca deixou Goiânia de fora dos seus lançamentos. Em 2014, veio à cidade para sessão de autógrafos de Aparecida: A Biografia da Santa que Perdeu a Cabeça, Ficou Negra, Foi Roubada, Cobiçada pelos Políticos e Conquistou o Brasil; e no ano passado, Maria – A Biografia da Mulher que Gerou o Homem mais Importante da História, Viveu um Inferno, Dividiu os Cristãos, Conquistou Meio Mundo e É Chamada de Mãe de Deus. “É impossível não ir para Goiânia, sou casado com uma goiana; então, criei uma afinidade como se fosse minha segunda terra. É um lugar que sempre quero visitar”, conta em entrevista por telefone ao POPULAR. Confira o bate-papo com o jornalista, que contou um pouco mais sobre o processo de produção da obra.

O jornalista Rodrigo Alvarez e o padre Fábio de Melo lançam livro hoje em Goiânia

Como surgiu o seu interesse em escrever a biografia do padre Fábio de Melo?
Vinha trabalhando com temas religiosos desde 2011. Fiz uma pesquisa sobre Nossa Senhora Aparecida e foi o primeiro livro que publiquei sobre o tema. Em 2014 e no começo do ano passado estava terminando de escrever Maria e fui fazer uma reportagem do Jornal Nacional sobre uma peregrinação de centenas de brasileiros em Jerusalém da qual ele participou. Eu não conhecia o padre Fábio de Melo e a gente conversou por muito tempo sobre os assuntos que eu estava trabalhando. Fiquei muito interessado nas visões que ele tem sobre temas religiosos e a forma como ele apresentava isso. Fiquei tão curioso e espantado que eu perguntei para ele se tudo que ele estava me dizendo ele falava em público porque era uma visão que destoava do lugar comum da igreja, dos padres convencionais. Fiquei interessado de ver que era possível haver um padre desse tipo no Brasil. Depois de uma semana, achei que a história dele era muito interessante e quis escrever enquanto ele estivesse no auge. A gente se encontrou em diversos lugares diferentes, como na República Checa, em Belém do Pará, na Paraíba, fomos a Gaza juntos. O que não era possível fizemos por telefone. Ficamos conversando durante um ano e meio.
 
O que mais surpreendeu você no processo de pesquisa?
Foi muito chocante ver a tragédia que foi a vida dele na infância. Era quase impossível que ele existisse dentro daquela família. O pai, alcoólatra, pedreiro, quase analfabeto, com dificuldades financeiras e desempregado toda hora. A mãe lavadeira ganhando quase nada de dinheiro. Cada dois irmãos dividindo uma mesma cama de solteiro, um para cada lado porque não cabia na casa. Às vezes faltando comida, só comendo frango no fim de semana porque no resto da semana não era possível. Nenhum dos irmãos foi para a escola e é surpreendente como um deles estudou durante 28 anos, com mestrado, duas faculdades, numa família com essas condições. Isso foi o primeiro choque e fui na tentativa de descobrir como isso era possível. Ao longo do livro você vai descobrindo alguns anjos que pegaram na mão dele.
 
Uma coisa que sempre cerca a imagem do biografado é a polêmica da figura do padre galã. Como você trata do tema no livro?
Em vários momentos aparece isso. De fato, por ele ser um cara bonito e, quando ele era seminarista, isso fez com que as meninas fossem atrás dele. Como os amigos diziam, as garotas pegavam no pé do padre e ele cedeu à tentação. Primeiro, ele teve um amor platônico, teve pequenos namorinhos, apaixonava-se toda hora, isso era comum entre seminaristas. Ele era o bonitão da turma e chovia menina em cima dele. Quando ele já tinha feito o voto de castidade, ele conta isso no livro, teve um namoro muito intenso com todas as cores que você possa imaginar, teve relação sexual, vivia na casa dessa namorada, que era um pouco mais velha que ele, ela tinha 25 anos e ele, 22. Ele quase desistiu de ser padre e chegou ao ponto de pensar como seria sua vida casado. Ela o convidou para morar na casa dela. Ele só não desistiu de ser padre porque ela desistiu dele. Depois disso, ele fez um corte de nunca mais fazer isso e decidiu seguir o caminho de padre. Aí, ele virou um pregador que atrai multidões e passou a falar para os não católicos também. Isso me interessou porque ele não é um padre que está repetindo dogmas, é um padre que está trazendo a religião para o nosso tempo.
 
Quais foram as ponderações do padre depois do livro pronto? Teve alguma censura?
A revisão que ele quis fazer foi dos capítulos em que o conteúdo teológico era mais intenso. Como a gente fez entrevistas e acaba caindo em uma informalidade quando conversamos, ele quis ler as partes em que ele fala sobre Jesus Cristo, pensamentos sobre a igreja, porque ele já foi muito vítima de distorções e tinha preocupação que uma frase curta demais escrita por mim pudesse criar uma interpretação errada sobre a maneira que ele entende a religião. Ele leu com atenção três capítulos e me pediu para falar mais sobre alguns temas, não para mudar. Não teve nenhuma censura, tanto que tem muita coisa que é desagradável para ele. Muita gente critica o padre por ele ser vaidoso, mas ele não esconde que é vaidoso, ele gosta de se vestir bem, arrumar o cabelo. Ele sempre foi ligado à estética, como ele diz, tem uma aptidão para o belo.
 
Como surgiu o seu interesse por temas religiosos?
Eu me interessei pelo fenômeno cultural de Aparecida, queria entender como o Brasil tinha uma santa que era um símbolo tão importante quanto nossa bandeira e hino. O que fez Aparecida ser o que ela é? O que fez o brasileiro se identificar tanto? Então, olhei sempre para os temas com um olhar histórico e cultural e as relevâncias que eles têm para o mundo. Aparecida para o Brasil, Maria para o mundo. Aí quando você entra no assunto acaba se especializando nele. Eu gosto muito desse assunto, de história da religião, o efeito que ela tem sobre as pessoas. A fase que passei como correspondente em Jerusalém também me enriqueceu. Na época que escrevi Maria cada lugar que estava pesquisando podia ir até lá. Viajei para oito países para escrever aquela obra. Eu estava onde as coisas aconteceram e respirando aquilo. Assim, o papel que me proponho a fazer também é de trazer o passado para o entendimento do nosso presente.
 
PERFIL
 
Rodrigo Alvarez começou a trabalhar como repórter em 1999, no Jornal das Dez, da Globonews, até que se tornou jornalista da TV Globo em Nova York. Em 2010, voltou para o Brasil e passou a fazer reportagens para o dominical Fantástico. Ele foi correspondente da TV Globo no Oriente Médio, se destacando na cobertura dos conflitos na região e atualmente atua em Berlim (Alemanha).
 

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