segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

″Quero hackear a política″

 
Pia Mancini, argentina de 32 anos, criou um aplicativo que traduz para a linguagem comum as propostas de lei votadas no Congresso e permite que todo mundo vote junto. Agora, ela fundou um partido para eleger candidatos que votem como a população quer.
 
Não faz sentido escolher um desconhecido a cada dois anos e delegar a ele o poder de decidir sobre a sua vida. Chegou a hora de participar da política o tempo todo.
 
 
Por que você resolveu fundar um partido?
Sinto que o sistema político está completamente dessintonizado com os nossos tempos. Nós estamos acostumados a nos organizar de forma colaborativa, peer-to-peer, sem intermediários, e com a possibilidade de nos expressar sobre qualquer assunto a qualquer hora. A política é o contrário disso. O sistema político se modifica em um ritmo glacial - não mudou nem um pouco nos últimos 200 anos. Isso obviamente traz problemas: faz com que as pessoas se sintam apáticas e sem vontade de participar. Queria mudar isso.

Qual é a ideia do seu partido?
O Partido de la Red nasceu há dois anos em Buenos Aires. Somos um partido local, algo que é permitido na Argentina e é bem mais fácil de ser fundado do que aqui no Brasil. Entendemos que, se quiséssemos conversar sobre a política que queremos ter, teríamos que fazer parte do sistema para entender como ele funciona. É um pouco parecido com a maneira como hackers trabalham. Temos um software chamado DemocracyOS (no qual as pessoas podem votar pelos seus telefones nos projetos de leis que estão sendo discutidos no Congresso), e decidimos que os candidatos do nosso partido vão sempre votar de acordo com o que os cidadãos decidirem. É uma maneira de aumentar a participação política, e não restringi-la a uma vez a cada dois anos.

Não é complicado deixar todo mundo palpitar em todas as questões? Minorias não podem ser atropeladas?
Nossa proposta não é a democracia direta. Nossa proposta é um complemento ao que já existe, e funciona apenas no Poder Legislativo, onde é necessária uma maioria para que as propostas sejam aprovadas. É no Congresso que as discussões são feitas, e é aí que queremos abrir um espaço novo. Não estamos dizendo que queremos uma democracia direta - definitivamente não - e não dizemos que decisões executivas deveriam sempre ser referendadas com os eleitores, assim como não queremos passar por cima do Judiciário. Queremos apenas abrir um espaço no Congresso.

Isso quer dizer que vocês não têm uma agenda própria?
Não, temos uma agenda positiva que quer envolver os cidadãos na política. Defendemos um acesso maior às informações, queremos diminuir o gap digital e discutir a transparência do governo. Temos também uma proposta para fazer um reboot no sistema educacional. Acreditamos que, do jeito que as coisas estão, ensinamos as nossas crianças a serem agentes passivos do Estado e temos de ensiná-los a ser agentes, designers de decisão, membros ativos da sociedade.

Como foi a sua campanha?

Tivemos um bom desempenho: ganhamos 1,2% e cerca de 22 mil votos. Nossa campanha não se limitou apenas ao mundo digital. Construímos um enorme cavalo de Troia de madeira, de 4 metros de altura, e o levamos para a frente do Congresso. Dissemos que dentro de sua barriga estavam as ideias de milhares de pessoas que queriam palpitar no processo político. Dirigimos o cavalo pela cidade toda, o que teve uma grande cobertura da mídia. Também tivemos grande participação nas redes sociais, mas acreditamos em misturar estratégias online e offline. Política é feita olhando nos olhos das pessoas e garantindo a elas de que estamos ouvindo. Isso é insubstituível.
 

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