segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O que nos ensina Vancouver

 
Próxima da fronteira com os EUA e localizada entre o oceano Pacífico e as North Shore Mountains, uma cordilheira que se estende por 939 quilômetros quadrados da Colúmbia Britânica, Vancouver é a terceira metrópole mais populosa do Canadá. Com uma colonização baseada na exploração de madeira, atividade que durou do final do século XVIII até o começo do XX, a cidade é desde a década de 1970 o lar do maior porto de exportação de carvão mineral da América do Norte, movimentando cerca de 30 milhões de toneladas por ano. Contudo, ao mesmo tempo em que manda para fora de casa um combustível fóssil que contribui para a poluição nas atmosferas alheias, Vancouver se tornou uma das cidades mais “verdes” do mundo.  A ambição local é até 2020 ser a primeira nos diversos quesitos que compõem o título e reduzir em 33% suas emissões de CO2.
 
Em sua área metropolitana, vivem cerca de três milhões de pessoas, população que aumentou em 10% nos últimos dez anos, de acordo com dados de seu governo local. Mas apenas em metade desse período, entre 2007 e 2013, a cidade conseguiu diminuir em 9% suas emissões anuais per capita de CO2, de 4,9 toneladas para 4,4 toneladas por pessoa.  É o índice mais baixo entre as grandes cidades do continente norte-americano, deixando para trás Nova York, São Francisco e Philadelphia, respectivamente. Além disso, por cinco anos consecutivos Vancouver aparece na lista das dez cidades globais “mais habitáveis” do mundo da Economist Intelligence Unit, pesquisa da qual participam 140 centros urbanos.
 
Claro que a geografia e um pouco da cultura política canadense, renomada por ter excelentes políticas de bem-estar social, ajudam. Mas Vancouver também sentiu ao longo dos anos os efeitos danosos de um planejamento urbano voltado para o carro e a expansão dos subúrbios. O que podemos aprender dos canadenses para aplicar nas nossas cidades? E o que fizeram por lá para combinar crescimento com sustentabilidade?
 
1)     Alternativas de transporte
Vancouver desestimula o uso do carro particular por meio de incentivos às bicicletas e ambientes mais atrativos para os pedestres. Foram implantadas faixas exclusivas para ciclistas em todas as suas grandes avenidas e, a exemplo de outras cidades, a canadense lança seu primeiro programa de compartilhamento de bicicletas ainda este ano. O grande sucesso de Vancouver, porém, tem sido a promoção de programas de compartilhamento de carros híbridos, caso do Car2Go, que possui 23 mil membros e responde por mais de 825 mil viagens em toda a província da Colúmbia Britânica. Para melhorar, a prefeitura destina vagas exclusivas e gratuitas para os carros do programa no centro da cidade. Como resultado de todas essas ações, 44% das viagens feitas dentro de seu território são feitas sem carro. Os números devem diminuir ainda mais, pois o prefeito de Vancouver Gregor Robertson busca um financiamento de 3 bilhões de dólares para ampliar o serviço de metrô até 2020.
 
2)     Desenvolvimento com densidade urbana e economia de energia
A área total de Vancouver é de 114 quilômetros quadrados, o que significa 5.250 pessoas por quilômetro quadrado. Com 74% de seus habitantes morando nos subúrbios, os governantes da cidade perceberam que seu centro, dominado por arranha-céus, era praticamente uma área fantasma da cidade depois do horário comercial. O novo plano diretor da cidade desde 2007 tem obrigado as incorporadoras a concentrar a maioria dos investimentos imobiliários residenciais em áreas próximas aos corredores de trânsito e/ou voltadas para pedestres no centro da cidade. Isso ajudou a reduzir o número de viagens de carro, aumentar as vendas no comércio e, consequentemente, os empregos criados.
 
Outro ponto interessante é que os novos empreendimentos residenciais devem obedecer algumas regras de construção que evitam o alto consumo de energia. “Como não há uma barreira térmica entre as sacadas dos prédios e o chão dos apartamentos, algumas construções ficam frias no inverno e quentes no verão. Hoje, elas são obrigadas a seguir a essa norma de criar a barreira térmica para que os edifícios não desperdicem e transmitam energia de fora para dentro e de dentro para fora o tempo todo durante o inverno com calefação ou no verão com ar condicionado”, explica Gregor Robertson em uma entrevista. Essa solução permitiu uma queda média de 20% no consumo de energia nos novos edifícios de Vancouver.
 
3)     Compostagem e uso inteligente dos aterros
Enquanto ainda estudamos colocar programas de compostagem residencial em cidades brasileiras como São Paulo, Vancouver já organizou um que, inclusive, tem coleta semanal. Além disso, o lixo orgânico não-residencial, é mandado para um grande centro de compostagem municipal. O adubo resultante é vendido para jardineiros ou usado nas áreas verdes da cidade. O objetivo é que o mínimo possível seja mandado para a incineração ou o aterro sanitário, onde o metano gerado ainda é usado para aquecer estufas públicas. Como se não bastasse, a cidade também utiliza o calor gerado naturalmente pelos gases dos esgotos para aquecer casas no inverno.
 

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