segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O QUE ESCONDE A CHACINA DE ISTAMBUL

 
Na sua visão esquemática e simplista de acontecimentos graves, designadamente os relacionados com o terrorismo, a comunicação social dominante aceita como boa e natural a tese das autoridades turcas segundo as quais o recente atentado no aeroporto de Istambul foi obra o Estado Islâmico, ou Isis, ou Daesh.
E assim se enganam as pessoas, induzindo-as em raciocínios também eles esquemáticos e simplistas que escapam à realidade e confundem deliberadamente os factos.
Em relação ao atentado de Istambul existe uma diferença relevante quando comparado com os de Paris ou Bruxelas: a autoria não foi reivindicada. O facto pode não ser determinante, mas, apesar de tudo, por alguma razão o Daesh não reclamou para si a execução do massacre. Poderá ser um pormenor, mas o mais certo é que não o seja.
O que não é um pormenor, antes uma realidade comprovada pelos factos e pela informação dos satélites, é que o Daesh funciona como uma extensão do regime ditatorial e expansionista do presidente turco Recep Tayyp Erdogan. Logo, não faz qualquer sentido que o grupo tenha atacado num local tão sensível da Turquia, a não ser que isso reverta em favor do regime de Erdogan.
Por isso, mais do que a reivindicação ou até os laços conhecidos, a maneira mais apropriada de perceber a razão de ser do massacre será seguir muito de perto, e com o máximo de informação possível, os próximos passos de Erdogan e dos seus agentes.
A primeira medida conhecida revelou logo muito sobre a pouca transparência dos círculos governamentais turcos perante o crime. O AKP, o partido fundamentalista islâmico que sustenta a ditadura, rejeitou a proposta da oposição para criação de uma comissão parlamentar de inquérito ao atentado. Isso faz com que a versão do presidente, a de que foi o Daesh, seja a única admitida, funcionando como verdade oficial adoptada internacionalmente.
Sabe-se que a França de Hollande e Valls e o fundamentalismo turco estabeleceram um acordo em que Ancara promete desenvolver todos os esforços para evitar que o Daesh execute qualquer atentado em território francês durante o Campeonato Europeu de futebol. Em contrapartida, a França compromete-se a apoiar os esforços da Turquia e de Israel, com a cumplicidade dos Estados Unidos, para que seja criado um “estado curdo” no Norte da Síria, através de uma limpeza étnica contra comunidades árabes e cristãs. A manobra conta com a traição da facção Salih Muslim do grupo curdo YPG, que se aliou ao regime turco permitindo a possível transformação desse “estado curdo” no lugar para onde serão expulsos os curdos da Turquia, que Erdogan ameaça destituir da nacionalidade turca. Não seria o primeiro ataque em massa das correntes supremacistas e fascistas da Turquia contra minorias existentes nos territórios sob seu controlo. Ainda muito recentemente o Papa Francisco lembrou o genocídio de centenas de milhares de arménios, cometido há 100 anos.
Sendo o terrorismo internacional um submundo no qual os rótulos têm reconhecida volatilidade – os mercenários mudam de grupo e de obediência consoante quem lhes paga e outras vantagens e recompensas – é muito provável que nunca venha a conhecer-se a verdade sobre o atentado no aeroporto de Istambul, prevalecendo a versão sem sentido, mas chancelada como verdade oficial, posta a circular pela ditadura de Erdogan.
Para quem não gosta de ser enganado e de comer gato por lebre, a sugestão que fica é a de seguir os próximos passos do regime de Erdogan e não lhe será difícil aperceber-se de quem irá tirar proveito de mais esta chacina de inocentes.

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