quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O professor na encruzilhada: entre estudantes e a instituição escolar

 
 
Lúcio Alves de Barros*
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A Justiça de Minas Gerais colocou fim na discussão jurídica sobre o assassinato do professor e mestre em educação física Kassio Vinicius Castro Gomes, de 39 anos. O estudante Amilton Loyola Caires, de 24 anos, foi considerado inimputável com base em um laudo de sanidade mental o qual comprovou que o estudante possui esquizofrenia. O crime aconteceu em dezembro de 2010 no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, considerado uma das mais tradicionais redes de ensino em Belo Horizonte. Explicar a família o desfecho da história será um problema e não creio que a justificativa possa apagar o giz do quadro dramático que, certamente, não teve início naquela organização escolar. De todo modo é bom sempre lembrar o acontecimento, não somente pela crueldade e pelo motivo torpe, mas principalmente devido aos inúmeros acontecimentos de violência(s) que vem acontecendo nas escolas (públicas e privadas), faculdades e universidades. Um argumento me parece bastante forte.
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Longe da esquizofrenia do garoto, há tempos assistimos o descaso, a desvalorização e o desrespeito com o professor. A mercantilização da educação que inegavelmente levou o “curso superior” a muitos estudantes não deixou de produzir efeitos perversos e inesperados. Como é próprio da natureza das relações de mercado, quem possui o capital pode pagar (quase) tudo. Dito de outra forma, caso o estudante faça parte daqueles que tem o dinheiro em abundância e se interesse por um diploma de “nível superior” pode ele facilmente ser médico, advogado, engenheiro e tudo mais. E vejam que somente citei as profissões que no passado eram consideradas nobres e que hoje penam com sua também banalização. Com a porta de entrada aberta qualquer cachorro entra na igreja e esse é o caso do ensino superior. Já não existe seleção: é preciso antes somente saber se o candidato à vaga pode realmente pagar a mensalidade. Se ele pode bancar o custeio e ainda mostrar que mantém o pagamento sem maiores dificuldades o mercado cuida do resto. Aparece aqui a figura potente do cliente, um ser flexível, líquido, medíocre, perigoso, cheio de desejos e poder que devido ao dinheiro faz questão de bradar a velha frase: “estou pagando”. E aqui se encontra uma grande barreira no campo da educação. Esta barreira formada por alunos novos e velhos que sabem o valor do capital e das relações que ele é capaz de tecer. E como fazer para reprovar um cliente/capital sem possibilidades de ser violentado simbolicamente ou pragmaticamente. Impossível!
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O docente, diante do muro do mercado formado por várias vozes que colocam em xeque o professor, assiste atônito a perda de sua autoridade, o respeito e o equilíbrio emocional e torna-se questão de tempo para que sua economia psíquica termine em tristeza, cansaço, desilusão e desistência. E basta uma palavra, uma reflexão com base em anos de estudos e pesquisas ou uma chamada de atenção por causa de um celular ligado e uma conversa informal e lá se foi mais uma mercadoria que deve ser ensacada e colocada frente ao vendedor para sofrer a recauchutagem ou a imediata troca. Este cliente é perigoso, não importa se o docente tem família, história de vida, mérito no trabalho, etc. O discente de hoje não quer colocar em prática os próprios esforços. Ele não busca o mérito e a excelência, busca o diploma - o canudo como se diz - e pronto. E quem atrapalha esses denominados estudantes clientes? A mercadoria falante e romântica chamada professor e que decidiu não abrir mão de sua autoridade, sapiência, integridade, dignidade, anos de estudos, méritos e princípios éticos.
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Esse muro do mercado de diplomas, no qual vemos o professor funcionar como cerca elétrica e cacos de vidro, que o cliente aluno tenta ultrapassar sem dificuldades ainda sofre de outro problema. Como é de natureza do mercado, o "cliente tem sempre razão" e nesse caso nada como operar com a dúvida. Ao plantar a dúvida, raramente não aceita pelos gerentes, coordenadores, supervisores e diretores, os verdadeiros avatares do capital, o professor recebe a roupagem da culpabilidade que, em geral, é legitimada pelo aparelho autoritário e sem escrúpulos dos proprietários do mercado. O que causa mal-estar, talvez, nem seja os proprietários desses novos e velhos meios de produção de diplomas, mas os próprios docentes que acabam dando uma se pequena burguesia e operando em desfavor daqueles que antes eram iguais. A dúvida colocada, construída, trabalhada e legitimada acaba em cansaço, em atos litigiosos, discussões, fofocas sem fim e muita tristeza e resignação. O docente, de mera cerca e caco de vidro passa pela incrível metamorfose de ser o único culpado de todas e das várias mazelas e problemas que ainda vão estourar em salas de aula. A educação, definitivamente perdeu a essência do cuidado, do respeito ao outro, da diferença e da necessária emancipação humana na busca de mais e mais reconhecimento. Não deve ser por acaso que educadores reconhecidos já decretaram o fim da educação.
As relações sociais, latentes e manifestas, como a do caso do professor assassinado, no mercado educacional hoje são bem claras e só não percebe quem não deseja. De um lado os estudantes, entendidos como clientes, observadores do marketing educacional e que buscam um local no qual lhes garantirão menores custos e maiores benefícios em busca do título. Afinal, estão pagando e quanto mais barato, fácil e rápido melhor, não importando a qualidade e o conhecimento que se transformou em obstáculo na voz e nas ações pedagógicas levadas a efeito pelo professor. Do outro lado, temos os proprietários dos estabelecimentos de ensino e de sua pequena guarda burguesa, não raramente composta por professores incumbidos da função de limpar a área, chamar atenção dos "companheiros”, atender o cliente da melhor maneira possível, dar vida maior à dúvida quando jogada no ar, mostrar serviço forjado por ele mesmo e ganhar o dinheiro como se dono ele também fosse da organização. Neste campo, abre-se mão dos regulamentos internos, das hierarquias tácitas e das formais. A ideia é legitimar um culpado, um herege e nada melhor do que aquele que se encontra no meio do processo e que na verdade não passa de um apêndice da organização que pode mudar quantas vezes quiser as peças do xadrez. Em geral, os professores não nadam contra a maré, a maioria observa o sofrimento do outro e espera sua caída. A desgraça alheia é o meio eficaz para que o igual se sinta melhor e com possibilidades de crescimento em um mercado que não é competitivo, é seletivo. E seletivo porque deve ficar nele somente os que conseguem navegar em tais relações sem que elas atinjam em cheio suas subjetividades. Esta seleção é socialmente produzida. Não adianta ser verdadeiro, competente, honesto, ter um currículo respeitável, etc.
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Em jogo, está a manutenção da clientela e não é por acaso que um dos problemas que vem enfrentando as organizações do ensino privado é a evasão dos estudantes. Na economia esta questão é simples: com muitos clientes mantem-se alto os preços, inclusive o nível do professorado, com menos clientes diminuem-se os preços e o nível de formação dos docentes. Na educação a lógica é a do entra qualquer um, mas não vão sair todos aqueles que entraram. E não saem não é porque não suportam a qualificação dos docentes ou o saber organizacional, é porque simplesmente não dão conta de pagar ou usaram do poder da clientela de buscar produtos sempre mais baratos e fáceis de achar no mercado.
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De qualquer forma, na caixa de pandora que se transformou a educação superior no Brasil, o docente se vê em uma encruzilhada tensa e perigosa. De um lado, muitos e muitos alunos, salas ainda lotadas e heterogêneas nas quais não se tem sequer o tempo de saber o nome e a historia do estudante. A educação é em massa e certamente Henry Ford ficaria feliz em ralação a isso. De outro lado, aparece a figura fantástica e fantasmagórica desse sujeito taylorista, capitão do mato e capataz encontrado no meio dos próprios professores que - pelo menos na teoria - sofrem os mesmos constrangimentos. E a violência daqueles que nos é igual é sempre pior, pois eles sabem dos jogos, relações e mecanismos da profissão. Não creio que a presente situação vai mudar tão cedo. Muito pelo contrário, as relações estão ficando mais tensas e uma espécie de violência simbólica, de uma educação superior paranoica tem se forjado porque o docente, encarcerado no meio do mudo é como cego em meio a tiroteio. Vai ele tomar bala para todo lado, algumas perdidas outras encontradas. Ele vai cair e como bêbado vai se levantar e continuar a buscar novos muros. Tudo termina quando no coração covardemente é cravada uma faca e sem forças ele cai deixando-nos surpreendidos e na espera da próxima vítima.
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* é professor e sociólogo. Organizador dos livros, “Polícia em Movimento”.  Belo Horizonte: Ed. ASPRA, 2006 e “Mulher, política e sociedade”. Brumadinho, MG: Ed. ASA, 2009.
 

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