sexta-feira, 15 de abril de 2016

Divorciados e o acesso aos sacramentos. O plano secreto do papa

 
O Papa Francisco aborda o tema da comunhão aos divorciados. O pontífice encarregou Dom Vincenzo Paglia de redigir um texto.
 
A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 25-04-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
 
De pé, em círculo, como se fosse um encontro de escoteiros. Assim o Papa Francisco recebeu nos últimos dias diversos bispos italianos em visita ad limina. Das suas vozes, um pedido explícito: encontrar novas soluções para os divorciados em segunda união, que, hoje, não são admitidos a receber a Eucaristia.
 
Francisco escutou em silêncio e, depois, recebendo em audiência no sábado passado Dom Vincenzo Paglia, chefe do “ministério” vaticano que se ocupa da família, dirigiu a ele o pedido dos bispos. Isso significa que, nos próximos meses, o “ministério” da família liderado por Paglia – que já está trabalhando em um texto referente aos “namorados” – deverá trabalhar na redação de um documento para encontrar “novas soluções para os divorciados em segunda união”, porque é demais o sofrimento das famílias que perderam a unidade por causa de divórcios ou separações.
 
O caminho parece ser o da avaliação “caso a caso”, no rastro de uma abertura já desejada por Bento XVI em uma conversa com os padres da diocese de Aosta em 2005: muitos daqueles que passaram para uma segunda convivência provavelmente contraíram um primeiro matrimônio eclesiástico “sem fé”. Nulo o primeiro casamento, eles podem voltar à prática cristã e ser admitidos à comunhão.
 
Entre os prelados recebidos pelo papa, também estava Benvenuto Italo Castellani, arcebispo de Lucca, que explica que, com Francisco, discutiu-se “a perspectiva de pôr em estudo, na busca de possíveis novas soluções, a situação do sofrimento das famílias que perderam a unidade, porque os cônjuges são divorciados ou recasados, assim como o esforço por um compromisso renovado da comunidade cristã para a iniciação à vida cristã das jovens gerações, associado ao zelo missionário a ser encontrado por parte dos fiéis leigos, tudo sem cair na tentação de clericalismo que pode afligir tanto os presbíteros quanto os próprios fiéis leigos”.
 
A Igreja está firme em 1994. À época, a Doutrina da Fé, na Carta aos bispos da Igreja católica a respeito da recepção da comunhão eucarística por fiéis divorciados novamente casados, assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger, reafirmava o motivo da não admissibilidade para receber a comunhão: “Por fidelidade à palavra de Jesus Cristo, a Igreja sustenta que não pode reconhecer como válida uma nova união, se o primeiro matrimônio foi válido”. Além disso, “se os divorciados se casam civilmente, ficam em uma situação objetivamente contrária à lei de Deus”.
 
Agora, alguma coisa pode mudar. Senão nos conteúdos, ao menos na forma. Além disso, é o próprio Francisco que diz no livro Cielo e Terra que “o tema do divórcio é diferente da questão do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. A Igreja sempre repudiou a lei sobre o divórcio vincular, mas também é verdade que esse caso se fundamenta em antecedentes antropológicos diferentes”. Em suma, enquanto sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo a Igreja não transige, sobre o divórcio a abordagem é diferente.
 
Que novas medidas serão adotadas? É difícil responder. No início de fevereiro, Ratzinger ainda havia dado um sinal de abertura, assim comentado por Paglia: “O papa pediu para estudar, e os estudos continuam ou, melhor, estão até acelerados para ajudar pro veritate a compreender o que aconteceu no momento do matrimônio”, ou seja, se foi contraído fielmente à Igreja e é, portanto, anulável.
 
“Não é bom que se prolonguem demais os processos de nulidade somente por técnicas que poderiam ser abreviadas”. Um desejo não por acaso expressado por diversos prelados, também no Sínodo dos Bispos de outubro passado, em que o tema da família explodiu: “Mais de uma centena de intervenções – disse Paglia – mostraram que na sensibilidade dos bispos essa questão está realmente na pauta. Conforta-me ainda mais para acelerar o passo”.
 
Antes o querigma, depois os princípios. Primeiro, em suma, o anúncio de que o cristianismo é acolhida e misericórdia, depois os ditames. Esse parece ser o coração do novo pontificado. O que não significa negar a doutrina, mas sim ter em mente que não pode haver regras sem amor. Bergoglio, quando arcebispo de Buenos Aires, havia escrito um Vademecum para o acesso aos sacramentos, em que ele se mostrava mais condescendente para com a possibilidade de que os divorciados em segunda união se aproximassem da comunhão. E Ratzinger, no Dia Mundial das Famílias em Milão do ano passado, também dissera que “a Igreja ama essas pessoas. A grande tarefa” das comunidades e das paróquias é “fazer realmente todo o possível para que se sintam amadas, aceitas e não se sintam ‘fora'”.
 

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