terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Mais uma tragédia anunciada

Por trás da tragédia de Rio Doce, existe a catástrofe empresarial

história empresarial está cheia de tragédias. De 1938 a 1968, a Chisso Corporation despejou mercúrio na Baía de Minamata, no Japão. Estima-se que mais de 3 mil pessoas foram afetadas e apresentaram sintomas graves de envenenamento e deformidades. Muitos morreram. Em 1976, um acidente na planta da Union Carbide em Bhopal, na Índia, lançou gases venenosos na atmosfera. O número de mortes é estimado entre 4 mil e 20 mil pessoas.
 
Em 2010, a explosão em uma plataforma operada pela BP no Golfo do México matou 11 trabalhadores e espalhou óleo por toda a área. Em 2012, em Daca, Bangladesh, o incêndio em um prédio que abrigava uma indústria têxtil matou 112 empregados. Neste ano, na cidade portuária chinesa de Tianjin, explosões relacionadas à estocagem de gases tóxicos em uma área de armazenagem de contêineres mataram mais de cem pessoas e provocaram ferimentos em centenas. 
 
Agora, a Samarco, mineradora controlada pela brasileira Vale e pela anglo-australiana BHP-Billiton, adiciona o seu nome à infame e crescente lista. No dia 5 de novembro, dois reservatórios da empresa com subprodutos de mineração cederam e liberaram uma lama que destruiu o distrito de Bento Rodrigues e poluiu o Rio Doce, fonte de água de muitos municípios.
 
A catástrofe macula uma história de quase quatro décadas de sucesso. Em 2013, a empresa participou da premiação do anuário Melhores e Maiores, da revista Exame, e foi eleita mais uma vez a melhor mineradora do Brasil. Na ocasião, o diretor-presidente Ricardo Vescovi explicou as razões do sucesso da empresa: qualidade da gestão, prática de valores empresariais, priorização da vida, cultura de planejamento e nível educacional dos empregados. A empresa voltou a ser premiada em 2014 e 2015, por crescer em situação econômica desfavorável. Pouco antes do acidente, foi escolhida uma das 150 melhores empresas para trabalhar no Brasil, em pesquisa promovida pela revista Você S.A.
 
As raízes do problema são fincadas na cultura empresarial inconsequente (ANEL – Assembleia Nacional dos Estudantes Livres).
 
Tragédias desse tipo costumam ser seguidas por notável circo. O drama humano e ambiental é amplamente explorado pela mídia. Promotores, advogados e especialistas em relações públicas ganham o palco. Técnicos e pseudotécnicos trocam impressões. Rareiam os fatos, sobram interpretações. Enquanto as vítimas são socorridas e os efeitos ambientais são tratados, densa neblina encobre a causa da tragédia. Em algum momento, os peritos darão seu veredicto.
 
O que, afinal, está por detrás de tais catástrofes? Alguns casos são claro fruto de conduta temerária ou criminosa. Outros se relacionam à chamada incompetência sistêmica, a falta crônica de capacidade para gerir com segurança sistemas organizacionais complexos. Nesses casos, os acidentes são anunciados muito tempo antes de ocorrerem, porque faltam processos, controles e boas práticas.
Organizações mais sofisticadas, de gestão profissional, não estão livres desse tipo de problema. Seus controladores sabem muito bem, entretanto, quanto podem perder com acidentes e são espertos o suficiente para investir em sistemas para proteger seus interesses.
 
Nessas situações, as causas costumam ser outras. A primeira delas refere-se à gestão de riscos. Toda atividade empresarial ou industrial implica riscos, especialmente aquelas de grande impacto sobre o meio ambiente. É inviável evitar totalmente os riscos ou fazer seguros para tudo. Por outro lado, assumir tresloucadamente riscos pode levar à falência. A solução é administrar os riscos e investir em expertise técnica e gerencial. Ocorre que, no limite, se faltar expertise, o cenário para a catástrofe estará montado.
 
A segunda causa relaciona-se com a busca do crescimento. Empresas em fase de expansão, com metas ambiciosas, frequentemente avançam o sinal, submetendo alguns elos de sua cadeia produtiva ao estresse, o que pode gerar rupturas. Novamente, o abismo estará a um passo.
 
A terceira causa relaciona-se à cultura empresarial. Muitas organizações bem-sucedidas, obcecadas com o próprio sucesso e inebriadas com prêmios e honrarias, promovem inadvertidamente atitudes inibidoras da veiculação de más notícias. Tal condição faz com que seus funcionários evitem mostrar suas preocupações e indicar problemas que maculem o estado de euforia realizadora. As consequências do culto do sucesso podem ser nefastas. 
 

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