segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O tabagismo e suas implicações com o câncer

Por Dr. Adolfo Pentagna Silvestre - geriatra e oncologista clínico da Oncoclínica do Rio de Janeiro Tabaco e câncer

Diferentes trabalhos já comprovaram que o consumo de derivados do tabaco, como cigarro, cigarrilhas, narguilé e cachimbo, está associado ao surgimento de vários tipos de câncer.
 
O uso do tabaco é a maior causa de surgimento de câncer com potencial de prevenção e está implicado com 21% das causas mundiais de morte pela doença neoplásica. Aproximadamente metade dos fumantes morre de doenças relacionadas com o tabaco, e os adultos que fumam perdem em média 13 anos de sua vida devido a esse vício. Atualmente, quase 15% da população brasileira é fumante e 4,3% das pessoas consomem mais de 20 cigarros ao dia.
 
O fumo está muito relacionado com a neoplasia pulmonar e também está implicado como fator causal em leucemias, neoplasias da cavidade oral e nasal, seios paranasais, nasofaringe, laringe, esôfago, pâncreas, fígado, estômago, colo uterino, rim, bexiga, cólon e reto.
 
O tabaco age em múltiplos estágios da carcinogênese, como na entrega direta dos carcinógenos (elementos que podem induzir o câncer) aos tecidos, causando inflamação e interferindo nas barreiras naturais do organismo. O perigo do tabaco está mais comumente relacionado com os cigarros, mas também pode ocorrer com os charutos, cachimbos, tabaco mastigável e no fumante passivo.
 
Benefícios de parar de fumar
 
Diversos benefícios para a saúde acontecem após o fim do tabagismo e mesmo para os fumantes de longa data. Ocorre a diminuição do risco da maior parte das doenças relacionadas com o fumo e uma redução em todas as causas de mortalidade. As vantagens para a saúde ocorrem em todas as idades e podem ser medidas quase que imediatamente após o término do tabagismo.
 
Ao parar de fumar ocorre diminuição do risco de câncer de pulmão da ordem de 20 a 90% com a redução do risco se mostrando mais evidente após cinco anos. Posteriormente, ocorre um declínio progressivo do benefício com o aumento do tempo de abstinência. Ex-fumantes abstêmios por mais de 15 anos apresentam uma redução de 80 a 90% no risco da neoplasia pulmonar em comparação com fumantes. Apesar de tudo, o risco em ex-fumantes nunca será comparável ao daqueles que nunca fumaram, mesmo após períodos prolongados sem o tabaco.
 
Alguns estudos mostraram o benefício do fim do tabagismo, como uma pesquisa com mais de 200 mil participantes em que os adultos que cessaram o vício ganharam de seis a dez anos de expectativa de vida, dependendo da idade em que isso ocorreu.
Mesmo naqueles fumantes que não conseguem parar de fumar, a diminuição do uso do tabaco pode resultar em diminuição do dano, incluindo uma queda no risco de câncer de pulmão. Um estudo observacional com seguimento de 18 anos com quase 20 mil fumantes descobriu que aqueles que reduziam em 50% o uso do cigarro tinham uma redução de 27% no risco da neoplasia pulmonar comparados com aqueles que fumavam 15 cigarros ou mais por dia.
 
O fim do tabagismo pode ser benéfico mesmo naqueles que já trataram câncer de pulmão. Uma revisão de casos mostrou que mesmo aqueles que descobriam a neoplasia pulmonar em estágios iniciais ou limitados, mas que continuavam a fumar apresentavam maior risco de: morte por diversas causas, recorrência do tumor e desenvolvimento de um segundo tumor primário que não o blastoma pulmonar.
 
 
 
Tabaco e o tratamento do câncer
 
A suspensão do tabagismo durante o tratamento do câncer provoca menos complicações, aumenta a eficácia do combate ao tumor, melhora a sobrevida e diminui o risco de uma segunda neoplasia primária. A nicotina, que é a responsável pelo vício do tabaco, aumenta a proliferação celular, inibe a morte celular em várias linhagens celulares (como nas próprias células do câncer) e estimula a liberação de hormônios de estresse pelas células tumorais.
 
Alguns quimioterápicos como erlotinibe têm um aumento de sua depuração pelo organismo do fumante, levando à menor taxa de resposta e eficácia do tratamento e à diminuição da sobrevida naqueles que ainda fumam. Os derivados da platina são amplamente utilizados na neoplasia pulmonar e outros tipos de tumores, e também ocorre redução de sua atividade pelo fumo, pois este bloqueia a indução da apoptose (morte celular) e aumenta a proliferação celular.
 
O fumo também influencia negativamente na radioterapia, que é uma modalidade de tratamento muito empregada em diversos tipos de câncer e nos mais variados estágios. Ex-tabagistas há mais de dois anos ou que nunca fumaram viveram mais que o dobro do tempo daqueles com neoplasia de pulmão inicial que fumavam ou com menor tempo de suspensão do cigarro (27,9 meses vs. 13,7 meses) após a realização de radioterapia em caráter adjuvante (realizada após cirurgia curativa). Esse fenômeno também ocorre naqueles pacientes com neoplasia da cabeça e pescoço durante o tratamento com radioterapia.
 
Conclusão
 
O fumo é um fator independente para menor tempo de vida, maior risco de neoplasias e de morte por outras causas, altera a resposta ao tratamento das neoplasias com quimioterapia e/ou radioterapia, levando a piores desfechos do tratamento quando comparado a indivíduos que pararam de fumar ou que nunca fumaram. A suspensão do tabagismo é benéfica em todas as idades e sempre deve ser encorajada.
 

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