domingo, 5 de julho de 2015

"Você se alimentou hoje? Agradeça ao produtor rural!"

Agricultor paranaense de Campo Largo exibe uma amostra de sua produção de cenouras orgânicas
 
 O pessimismo chegou ao agro. Vivemos momento de conflagração. Notícias de índices ladeira abaixo ou acima são destacadas em letras garrafais.
 
Em funestas Andanças Capitais percebo o País um “pote até aqui de mágoa”, clima Berlim pós-guerra. Curioso o jorro de lágrimas ser mais forte entre empresários em reuniões, entrevistas e comes-bebes. E olha que nos comedouros frequentados se oferece maravilhas etílicas e gastronômicas a preços acima de Miami, o que talvez justifique os desejos imobiliários que miram a Flórida.
 
O pessimismo chegou ao agro. Em Araçatuba, encontro produtores de quiabos menos preocupados com o preço do produto do que com a possibilidade de alguém escorregar no quiabo e acioná-los na Justiça paranaense. O mesmo temor vem de bananicultor do Vale da Ribeira. As cascas. Na peixaria, o dono me revela escassez, caso todos no Congresso resolvam enfurnar um robalo (saudade de Ivan Lessa).
 
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Vivemos momento de conflagração. Notícias de índices ladeira abaixo ou acima são destacadas em letras garrafais e nos olhares preocupados de William e Renata. Nove por cento pode ser comemorado, se índice de aprovação da presidente, ou lastimado, se projeção da inflação em 2015. Nas redes sociais o que se faz é rir e agredir. Seriedade zero.
 
Procurem manchetes sobre o Brasil ainda ser o quarto destino mundial de investimentos diretos. Respeito aos economistas estrangeiros que não alardeiam o caos. Agulhas no palheiro.
Mas, enfim, há um clamor nacional por mudanças. As ruas, as pesquisas. Oba!
 
Vamos parar com várias crises: sonegação de impostos, aumento de preços baseado em “expectativas”, o fosso social que ameaça patrimônios e integridade física, distração diante de pedidos de benemerência, privilégio do manejo pornográfico financeiro coonestado por taxas de juros ineficazes contra inflação que não é de demanda. Oba!
 
Como? Não? Tudo se resume à corrupção endêmica desde a Colônia, somente agora descoberta por eu Moro na filosofia?
 
Há mudanças tão importantes na sociedade quanto em todas as instâncias de governo. Sem elas, o que se procura é apenas assegurar dominação à taxa de 1% ao século.
Sob alertas dos poucos que já viram no que deu um Brasil assim e têm coragem para dizê-lo, tudo não passa de um ensaio para interromper o desfile da inserção social, mesmo que a escola de samba evolua em passo fascista.
“Pode ser a gota d’água”.
 
Nem Fla nem Flu, mas Botafogo na paciência
 
Parece inevitável. Embora expostas na coluna como complementares e não antagônicas, persistem comentários em nosso “FB Caboclo” opondo as agriculturas empresarial e familiar.
 
Famílias produzem em grandes propriedades culturas para o mercado interno e também commodities exportáveis; há empresas agropecuárias que fazem o mesmo; pequenos e médios agricultores, apoiados em programas como o PRONAF, optam entre culturas de alimentação (mais) e de exportação (menos); assentamentos familiares, bem apoiados e organizados, têm-se mostrado excelentes aparelhos produtivos.
 
Grande parte da gênese agropecuária brasileira vem de núcleos familiares, não importam dimensões ou opções produtivas. As diferenças devem ser procuradas nas exigências básicas de cada cultura agrícola ou atividade pecuária. Já escrevi aqui: boi não é cabrito e soja não é caju.
 
Na coluna anterior, o que sugeri foi aproximar, com maior equilíbrio na oferta de recursos a cada segmento, vetores educacionais, tecnológicos, burocráticos, e de segurança comercial e logística. 
O modo de produção agropecuário no Brasil é inerente ao sistema capitalista e, como tal, deveria valer para todos agentes produtivos. Que não se espere uma revolução socialista a partir da agricultura familiar ou assentamentos, ou um massacre fascista vindo do complexo sojicultor ou sucroalcooleiro.
 
Este assunto deve ser debatido sem viés político. Para tanto recomendo lerem o relatório da FAO intitulado Estado da Alimentação e da Agricultura (em inglês).
 
 Produtores caminham por propriedade rural de agricultura familiar em Capim Branco (MG)

O amanhã de cada um
 
Quantas vezes os caríssimos leitores já foram informados de que grande parte da falta de competitividade da agricultura nacional está nas vias de escoamento da produção, em especial devido ao privilégio dado ao modal rodoviário?
 
Folhas e telas cotidianas que inventaram a roda adversativa (“mas”) anunciam que “faltam grãos para as novas concessões” do governo federal: Ferrogrão, Bioceânica, Ferrovias Norte-Sul e ALL, BR 163 (MT-PA).
 
Segundo a matéria, “a safra de Mato Grosso precisaria quadruplicar” para atender a nova oferta. A primeira bobagem está em restringir a malha logística concessionada apenas ao estado que mais produz. Ela atenderá a todo Centro-Oeste, parte do Sudeste, e suas ramificações bimodais tangenciarão a nova fronteira agrícola (Maranhão, Piauí, Tocantins).
 
Vamos à segunda bobagem: o Mato Grosso levou apenas 15 anos para quadruplicar a produção de grãos. Ainda existem áreas a serem plantadas e níveis de produtividade que podem crescer. Duvideodó que todas essas obras se completem em prazo menor. 
 
Critica-se que não planejamos o futuro. Como seremos competitivos e o “celeiro do mundo” sem investir na matriz logística?
 
Uma Cunha na coluna
 
Veículos em polos rurais importantes do Brasil circulam com o adesivo: “Você se alimentou hoje? Agradeça ao produtor rural”!
 
Em Ribeirão Preto (SP), amigo meu e do agro foi interpelado em frente a uma igreja evangélica:
- Que absurdo você colocou aí? Todo o agradecimento tem que ser dirigido a Deus. Ele que dá ao produtor rural a bênção de poder plantar!
“A Inquisição, versão Terceiro Milênio”.


*Rui Daher é colunista de CartaCapital. Criador e consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola
 

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