sábado, 16 de maio de 2015

CBF, clubes, Dilma ou Marco Aurélio Cunha: quem ajudará, de fato, o futebol feminino brasileiro?

Com menos de um mês para o início do Mundial Feminino, a modalidade se agita com a chegada de Marco Aurélio Cunha (foto) para o cargo de coordenador de futebol feminino, na CBF. O ex-dirigente do São Paulo e Santos, abraça um cargo na confederação – mesmo sem nunca ter trabalhado com jogadoras – a convite de Gilmar Rinaldi (mais um, entre tantos outros convites que o ex-goleiro já articulou lá dentro). Você até pode achar que futebol é futebol, é igual para ambos os gêneros e que o fato de estar trabalhando com mulheres não faz diferença, mas, no Brasil, a história é outra.
 
Cunha foi reeleito como vereador em 2012 com 40 mil votos, mas renunciou seu mandato político para assumir a seleção feminina, alegando que sempre teve o sonho de trabalhar com a modalidade. Conselheiro vitalício do São Paulo e fora de um cargo diretivo desde 2008, Marco Aurélio afirmou que tem como objetivo disseminar o esporte nas escolas e espera diminuir a “canibalização” do futebol masculino sobre o feminino.
 
Apesar da boa e extensa bagagem de Cunha no futebol, é difícil acreditar plenamente em mudanças no cenário do futebol feminino do Brasil. Primeiro porque a Fifa obrigou a CBF a utilizar um percentual da verba do legado da Copa do Mundo masculina para fomentar e viabilizar a prática do futebol feminino no Brasil e, além disso, é impossível que a modalidade cresça sem o apoio dos clubes que declaram em alto e bom som que não tem nenhum interesse de investir no jogo das mulheres. Como alinhar tudo isso?
 
A presidente Dilma Roussef assinou a Medida Provisória (MP) para modernização da gestão e responsabilidade fiscal do futebol brasileiro e frisou a obrigatoriedade dos clubes em investir nas categorias de base e no esporte praticado pelas mulheres para terem seus débitos renegociados. Após essa barganha, a bancada da bola e dirigentes de clubes se reuniram para protestar contra as medidas.
Entre os depoimentos, destaco o do senador Zezé Perrela (PSDB-MG): “Essa do futebol feminino é um verdadeiro ‘jabuti’. Se a gente conseguir patrocinador, perfeito. Mas investir só porque a dona Dilma quer? Não sou mais presidente do Cruzeiro, mas se fosse jamais iríamos entrar nisso”, disse o tucano. Daniel Diniz Nepomuceno, presidente do Atlético Mineiro, também deu seu pitaco: “Isso não cabe na MP. Nada contra o futebol feminino, mas o clube tem que decidir. E se eu preferir investir no futebol society?”, ironizou. A MP segue para o Congresso Nacional, onde poderá ser alterada. E alguém duvida que isso aconteça?
 
É complicado acreditar em mudanças quando não se tem boa vontade. Marco Aurélio Cunha pode estar lisonjeado com seu novo cargo e motivado a promover mudanças, mas esse jogo de vai-e-vem, em que a CBF empurra o problema pro governo e ninguém chega a um acordo é desanimador.

Crédito: Roberto Stuckert Filho
 
A Copa do Mundo Feminina começa no dia 6 de junho, no Canadá, e Cunha estará lá capitaneando as atletas. Que seja o início de um trabalho em que possa conhecer os problemas da modalidade e lutar por elas. Mas, se for se render ao sistema, o futebol feminino não irá crescer. Torço para que as meninas não sejam vítimas de um vexame, como aconteceu com os “homens do Brasil”. Elas não merecem nem devem explicar o motivo de suas derrotas e eliminações, afinal, os diversos obstáculos estão escancarados. Enquanto isso, Alemanha, China, França, Coreia do Sul e Estados Unidos continuam anos-luz à nossa frente. Dentro e fora de campo.

* Roberta Nina Cardoso é jornalista, colunista do portal São Paulindas (@spfc1935) e estudante de Gestão e Marketing Esportivo.

http://esportefino.cartacapital.com.br/marco-aurelio-cunha-futebol-feminino-cbf/

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