sábado, 28 de fevereiro de 2015

Deus não vai nos dar o mal

“Batei e se abrirá, buscai e acharei, pedi e Ele concederá, porque o Senhor só quer o nosso bem.” (cf. Lucas 11)
 
A Quaresma é uma subida para o Calvário, para encontrar Jesus e reconhecer até que ponto Ele foi capaz de ir por nós. Mas não é só isso. É ver que também Cristo chegou lá para ressuscitar.
 
Imagine que a Quaresma seja uma escada e cada dia um degrau. Nós, como Cristo, subimos o Calvário para chegar à Sexta-feira da Paixão, e, no sábado à noite, bradar a Ressurreição do Senhor.
 
Existem práticas externas às quais somos chamados a viver na Quaresma, como caridade, jejum e oração. Hoje, a liturgia nos fala de um deles: a oração. A verdadeira oração não é fruto do nosso querer, mas da nossa necessidade.
 
O Salmo de hoje diz: “Naquele dia em que gritei vós me escutastes, Senhor”. Você já viveu isso? Já teve a certeza de que, mesmo não sendo atendido, foi ouvido por Deus? No meu desespero, gritei a Deus e Ele me escutou.
 
Não precisamos, necessariamente, alcançar o que pedimos para ter a certeza de que o Senhor nos ouve. Ele não nos dá o que queremos, mas o que necessitamos. Quantas pessoas se desesperam, porque, há muito tempo, têm pedido a Deus algo, mas Ele parece não escutar! O ponto principal é saber que a oração não é um querer, mas uma necessidade. É um ato livre, porque sabemos que temos necessidade de estar com o Senhor, que é o único que nos completa.
 
O salmista afirma “Naquele dia em que gritei vós me escutastes, Senhor”, porque reconhece que quem o completa é Deus.
 
Não devemos fazer algo para o Senhor, a fim de recebermos algo em troca, mas fazer o caminho de “subida” da Quaresma por nossa necessidade interior de nos completarmos em Deus. Não há outro sentido de vida que não seja Ele.
 
A primeira leitura conta a oração de Éster. Em determinado momento da história, o rei, seu esposo, queria acabar com o povo Hebreu, que era o povo dela. Essa mulher ficou prostrada do amanhecer ao anoitecer em oração na presença do Senhor. O próprio marido queria destruir o povo de sua esposa, por isso ela rezava. Ester não olhava simplesmente para sua necessidade, mas para as necessidades dos outros.
 
Quantas vezes rezamos com viseiras, olhamos só para nós mesmos sem olhar para os outros! Um exemplo de oração é o desta mulher, que não olhou para si, mas para todo seu povo. Não rezou por ela, mas pelos outros, pelas pessoas que ela nem conhecia. Nós, como cristãos, frente a todos esses martírios, temos orado pelas pessoas?
Se somos verdadeiramente cristãos, fazemos parte da nação da cruz. Precisamos fortalecer uns aos outros na oração. Foi pela cruz de Cristo que fomos salvos.
 
Precisamos fazer a oração de Ester: “Deus de Abraão, Deus de Isaac e de Jacó, tu és bendito. Vem em meu socorro, pois estou só e não tenho outro defensor fora de ti, Senhor, pois eu mesma me expus ao perigo. Senhor, eu ouvi, dos livros de meus antepassados, que tu libertas, Senhor, até o fim, todos os que te são caros.
 
Agora, pois, ajuda-me, a mim que estou sozinha e não tenho mais ninguém senão a ti, Senhor meu Deus. Vem, pois, em auxílio de minha orfandade. Põe em meus lábios um discurso atraente, quando eu estiver diante do leão, e muda o seu coração para que odeie aquele que nos ataca, para que este pereça com todos os seus cúmplices. E livra-nos da mão de nossos inimigos. Transforma nosso luto em alegria e nossas dores em bem-estar”.
 
Será que nós, que somos a nação da cruz, temos coragem de nos expor ao perigo pelos outros?
 
Não podemos apenas “ficar de boca aberta” esperando as coisas caírem do céu. Precisamos lutar por aquilo que queremos.
 
A Quaresma nos ensina a nos colocarmos diante de Deus, de nós mesmos e dos outros. Se estamos subindo degrau por degrau, não podemos ter uma oração egoísta. Quando temos uma oração egoísta, não temos a certeza de que Deus nos ouviu, porque nos encontramos em nosso “mundinho”. Temos o exemplo da princesa Éster, que não ficou em si mesma.
 
Está disposto a não ter uma oração egoísta?
 
A segunda disposição da Quaresma está em ser filho. A nossa relação com Deus deve ser como a de um filho para com seu Pai.
 
“Quem de vós dá ao filho uma pedra, quando ele pede um pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe?” (Lc 11,11)
 
Quando o seu filho lhe pedir um iate ou quiser bater em você, ele terá permissão? Mas quando ele pede um prato de comida você lhe dá? Claro que sim, porque você o ama e quer educá-lo.
 
Ao contrário das leis de hoje, Deus quer nos educar, por isso ele não nos dá tudo o que pedimos.
 
Se você que é pai e mãe, sabe dar o melhor para seu filho, quanto mais Deus! No entanto, precisamos aprender que o Senhor tem um tempo para conceder o necessário a seus filhos.
 
Deus não vai nos dar o mal, Ele vai nos dar o que de bom verdadeiramente necessitamos. Você pode estar pensando que, há muito tempo, tem rezado, feito promessa, calejado o joelho, mas Deus não o está ouvindo. Lembre-se: “Naquele dia em que escutei, vós me escutastes, ó Senhor”.
 
Talvez sua oração seja por uma pessoa que está enferma há muito tempo. Seria muita prepotência nossa acreditar que o melhor para a pessoa seja a recuperação, mas Deus é quem sabe o melhor para cada um.
 
Você, que há tempos pede pela conversão de alguém, será que você não está se convertendo de gotinha em gotinha enquanto reza pela conversão do outro?
 
Precisamos lembrar que nem sempre ouvir será atender. Em muitas situações, podemos não ter respostas, porém é preciso dar sentido às situações que acontecem em nossa vida. Você tem procurado dar sentido à sua vida ou já desistiu de si mesmo, da pessoa pela qual tem rezado e de Deus?

 
Padre Anderson Marçal, Comunidade Canção Nova
Transcrição e adaptação: Rogéria Nair 

http://www.saojudasbh.com.br/Noticia/603

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