sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A opinião dos padres casados sobre o celibato


DESABAFOS DE PADRES CASADOS SOBRE A DOUTRINA DO CELIBATO

Quem são os padres casados?

Os padres casados estão em toda parte. Formam um exército de pelo menos 100 mil homens, 5% deles no Brasil. Não gostam de ser chamados de ex-padres, por causa da tradição de que “uma vez padre, sempre padre”, cuja origem alegam estar na passagem bíblica: “Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 110.4; Hb 5.6 e 7.17, EP). Por terem contraído matrimônio, com ou sem a necessária dispensa do compromisso do celibato concedida unicamente pelo papa, esses homens foram excluídos do ministério sacerdotal, não por vontade própria, mas por imposição de uma disciplina multissecular. São também chamados de egressos, especialmente quando antes vivam em clausura. Setores da Igreja Católica e o povo de um modo geral continuam a chamá-los de ex-padres. Eles abandonaram a batina, como se dizia antigamente, mas não abandonaram a Igreja, salvo raríssimas exceções. Por terem quebrado o voto do celibato, não são de forma alguma necessariamente homens promíscuos. Ao contrário, submeteram-se à disciplina de exclusão do sacerdócio para se relacionarem com uma mulher exclusivamente sob a proteção do matrimônio, o que não acontece com alguns de seus antigos colegas de ministério. “Não posso acreditar que todos os 100 mil sacerdotes casados ao redor do mundo são superficiais e inconseqüentes”, confessa dom Pedro Casaldaliga, bispo de São Félix, aqui no Brasil.
 
Em quase todos os países existem associações de padres casados, inclusive na Índia, onde a porcentagem de todos os cristãos não chega a 5%. Em âmbito mundial há a Federação Internacional de Padres Casados (a Assembléia Geral se reunirá em Madri em setembro deste ano). No âmbito continental, temos a Federação Latino-Americana para a Renovação Sacerdotal, cujo secretário executivo é o psicanalista brasileiro José Ponciano Ribeiro (padre casado).
 
Uma das organizações congêneres no Brasil é conhecida pela sigla MPC – Movimento de Padres Casados (a mesma sigla entre os evangélicos tem outro significado: Mocidade para Cristo). O 14º Congresso Nacional do MPC católico acontecerá em São Luís do Maranhão nos próximos dias 11 a 14 de julho.
 
Por serem muitos, por desejarem ardentemente a abolição do celibato obrigatório e por não terem abdicado, muitos deles, a vocação para servir a Deus, os padres casados estão se organizando cada vez mais. Entre as associações existentes, é possível mencionar: MOCEOP (Movimento Celibato Opcional, na Espanha), CCC (Catholics for a Changing Church), MOMM (Movement for the Ordination of Married Men), CITI Ministries (Celibacy Is The Issue), Parish Watch, Justice For Priests and Deacons, We Are Church, e assim por diante. Dentro do Movimento dos Padres Casados do Brasil está a Associação Rumos, antes denominada Centro de Padres e Religiosos Egressos. Essa organização publica há vinte anos o jornal Rumos.
 
A quantidade de padres casados no Brasil é uma das maiores do mundo. O número de egressos (5 mil) é quase igual à terça parte dos padres no exercício do ministério (16 mil). De acordo com Áureo Kaniski, na capital do Espírito Santo vivem 119 padres – 73 na ativa (61,3%) e 46 casados (38,7%). De uma turma de 29 formandos de 1958 do Seminário Maior São José, de Mariana, Minas Gerais, sete já morreram (24,1%), oito se casaram (27,6%) e 14 continuam no sacerdócio (48,3%).
 
Os padres casados gostam de lembrar que 39 papas foram casados, inclusive (segundo a tradição católica) o primeiro deles, o apóstolo Pedro, cuja sogra Jesus curou (Mt 8.14-15).
 
Não é preciso ser padre casado para enxergar a tremenda injustiça que a Igreja Católica Romana comete contra este numeroso grupo de egressos. Além de ordenar homens casados de outros ritos católicos e de outras denominações cristãs não católicas (como os cem pastores que deixaram recentemente a Igreja Anglicana por discordarem da ordenação de mulheres), as autoridades eclesiásticas excluem do sacerdócio os padres que se casam e mantêm no altar aqueles que têm amantes do sexo oposto ou do mesmo sexo, e aqueles que cometem abuso sexual e o crime da pedofilia. Enquanto estes padres celebram a missa, batizam, ouvem confissões e perdoam pecados alheios em nome de Deus e ainda pregam, aqueles que praticam o sexo dentro do sacramento (no caso da Igreja Católica) do matrimônio não podem oficiar cerimônia nenhuma. E o povo católico, em vez de protestar contra isso, “deplora mais o casamento do padre que o seu pecado”, como denuncia Marcos Noronha, que foi bispo da Diocese de Itabira na segunda metade da década de 60, no livro Marcos Noronha e a Igreja (p. 59). É por isso que o padre casado Aloísio Guerra, hoje com 72 anos e vigário da Paróquia de São Pedro Apóstolo, da Arquidiocese Ortodoxa Antioquina de São Paulo, em Recife, é obrigado a dizer que Roma valoriza mais o celibato (entendido apenas como ato de não casar) do que a castidade. Curiosamente, enquanto a lei do celibato é dos homens, a lei da castidade é de Deus. Aloísio Guerra ordenou-se padre em 1959. Permaneceu no sacerdócio católico apenas cinco anos, casando-se em seguida, aos 34 anos. Tem dois filhos e quatro netos. Autor do livro Celibato, Santo ou Safado?, Aloísio faz uma mistura de verdade com ironia para afirmar: “O único pecado grave, capaz de afastar o padre do ministério é o sacramento do matrimônio” (p. 30).
 
Em seu livro Obstinação Eclesiástica, o professor Áureo Kaniski, também padre casado, mostra-se revoltado ao lembrar-se de um reitor de seminário que, no dia em que comemorava mais um aniversário de ordenação, foi flagrado num motel de Maceió com o propósito de ter relações com uma menina de rua de 14 anos. O arcebispo daquela arquidiocese não encontrou forma de punir o formador de novos padres; mas, se este tivesse contraído matrimônio, seria muito fácil expulsá-lo do ministério.
 
Foram os padres americanos obedientes ao celibato e desobedientes à castidade que fizeram milhares de vítimas nos últimos dez anos nos EUA e obrigaram as dioceses daquele país a gastar entre 300 mil a 1 bilhão de dólares para pagar acordos extrajudiciários nos casos de abusos sexuais.
 
Uma coisa é abraçar o celibato por vontade própria. Outra é submeter-se a ele só por causa da vontade de abraçar a carreira religiosa. O primeiro brasileiro a tornar-se pastor evangélico foi o ex-padre José Manuel da Conceição. Embora desobrigado do celibato por ter se tornado pastor presbiteriano em dezembro de 1865, aos 43 anos, Conceição nunca se casou. A história de Frei Betto, 58 anos, é muito parecida com a história do famoso pastor anglicano John Stott, no que se refere ao estado civil. Ambos tiveram oportunidade de se casar e não se casaram. “Só não me casei”, lembra o dominicano, “porque as mulheres que me interessaram não se interessaram por mim e as que se interessaram por mim, eu não me interessei por elas…” Já o teólogo protestante, na sua juventude, gostou de algumas moças, mas foi protelando de tal maneira o casamento que acabou se envolvendo demais no ministério e não mais achou tempo para o matrimônio. Esse é o celibato que dá certo. Em carta a Ultimato, o cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, 68 anos, professor do Seminário de Mariana e historiador, dá o seu testemunho:Aproximando-me dos 50 anos de sacerdócio só tenho que bendizer a Deus pelo celibato e fico pensando como daria conta, até hoje, do que devo fazer pela evangelização se tivesse mulher e filhos para cuidar. Não me sobraria um momento para preparar homilias, artigos, sermões, aulas, atendimento aos fiéis. É preciso ler e reler 1 Coríntios 7.29-34.
 
Os padres casados alimentam a esperança da revogação do celibato obrigatório e a reintegração deles no ministério. “Ainda veremos padres casados ministrando os sacramentos”, garante Agenor Coldebella. Em Minhas Esperanças para a Igreja, escrito em alemão e publicado no Brasil pela Editora Santuário em parceria com a Paulus, em 1999, o professor emérito de teologia moral Bernhard Häring, morto em 1998, lembra que “não é preciso ser nenhum profeta para prever que isto [a exigência do celibato para a ordenação sacerdotal] vai acabar, logo que o centralismo ceda à constituição subsidiária da Igreja” (p. 153). Outro dia, o padre jesuíta Renato Hevia Rivas, 65 anos, ex-diretor da revista católica Mensaje, que deixou o sacerdócio para casar-se com uma advogada, declarou pela Televisão Nacional do Chile que “não existe nenhuma razão teológica de peso para manter o celibato, para proibir que padres se casem ou que irmãs celebrem missa” (Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação, no noticiário de 11 de junho de 2002). Aliás, de acordo com a pesquisa realizada pela Fundação Futuro, 62% dos católicos chilenos entrevistados entendem que os padres devem se casar.
 
Uma das previsões de Paulo diz respeito ao celibato impingido: “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns… proibirão o casamento” (1 Tm 4.1-5). Em nota de rodapé, a Edição Pastoral da Bíblia, publicada pela Paulus, explica:
Nos últimos tempos, isto é, entre a ressurreição e a segunda vinda de Cristo, multiplicam-se os mestres e doutrinas que adulteram a fé. Alguns desprezam tudo o que se refere ao corpo, condenando o matrimônio, proibindo alimentos e pregando exageradas práticas ascéticas (p. 1.531).
A Bíblia de Jerusalém comenta que “a condenação do casamento será uma das características do gnosticismo” (p. 1.647). A tradução da CNBB chama tal coisa de “ascetismo desvairado” (p. 1.557).
Ora, se é assim, por que não voltar atrás na formulação de uma obrigação que cheira a “exageradas práticas ascéticas” e que chega bem perto do “ascetismo desvairado”?
 
Pesquisa com padres casados (“Não é bom que o homem esteja sozinho…”)
Em abril de 2002, Ultimato enviou um questionário a 1.290 padres casados do Brasil. Até o fechamento desta edição, recebemos 90 respostas (7%). Graças a essa bondosa acolhida, tivemos muita coisa para ler e examinar e fizemos preciosas amizades.
 
O padre casado mais idoso tem 87 anos e o mais jovem, 46. A idade média é de 67 anos.
Dois deles foram ordenados aos 18 anos. O que se ordenou em idade mais avançada tinha 45. A idade média da ordenação é de 29 anos.
 
Apenas três deixaram o sacerdócio antes de completar 30 anos. Antes de completar 40 anos, 34 já haviam renunciado o ministério. A idade média da renúncia sacerdotal é de 40 anos.
A idade média ao contrair matrimônio é um pouco mais alta: 42 anos. Isso significa que nem todos casaram-se na mesma época da renúncia. Apenas 32 sacerdotes deixaram a batina e casaram-se no mesmo no. No ano seguinte à renúncia, foram 30 padres. Exceto um, os demais gastaram de 2 a 7 anos para contrair matrimônio. A única exceção é de um sacerdote que, à semelhança de Jacó, demorou 14 anos para se casar.
 
O matrimônio desses padres casados mostra-se estável. Sessenta e nove deles (77%) vivem com as esposas com as quais se casaram depois da desobrigação do sacerdócio. Cinco estão em segundas núpcias, não se sabe se por morte do cônjuge ou por separação. Apenas dois estão separados de suas esposas. Pelo menos 11 não tiveram filhos. Os demais têm, no total, 177 filhos e 48 netos (221 brasileiros a mais nascidos dentro dos laços matrimoniais, graças à quebra da disciplina do celibato). Um deles tem seis filhos.
 
Quase todos os padres casados entrevistados fizeram outros cursos superiores depois de se afastarem do ministério ativo. Hoje são professores universitários (a maioria), advogados, psicólogos, tradutores e jornalistas. Quase ninguém se afastou da área das ciências humanas. Um deles é massagista.
Com referência aos escândalos envolvendo o clero católico romano no Brasil e no mundo, os padres casados sondados pela revista Ultimato admitem que eles realmente existem (85% das respostas) e sempre existiram (73%). Acham que é bom que os escândalos venham à tona para que os aspirantes ao ministério considerem seriamente a questão antes de abraçar o sacerdócio (73%), para que os sacerdotes busquem mais a Deus em suas devoções particulares (53%), para que os fiéis pressionem a igreja a revogar o celibato obrigatório (64%) e para que a ela reconsidere a lei do celibato (77%). Apenas seis dos entrevistados conhecem o livro Um Espinho na Carne, do padre Gino Nasini, que analisa o problema da má conduta do clero brasileiro.
 
Com referência ao celibato clerical, os padres casados declaram que essa obrigação não foi imposta por Jesus nem pelos apóstolos (89%), que é uma imposição cruel (51%) e que deve ser extinta (78%). Um deles acrescentou o advérbio gradualmente. O fato de ter uma esposa e filhos não atrapalha o exercício do sacerdócio (83%). Acreditam também que é mais fácil manter uma vida casta no matrimônio do que no celibato (63%). Uns poucos entendem que o celibato deve ser obrigatório apenas para a hierarquia (5%) ou para o clero religioso (4%).
 
Dos 90 padres casados, 81 continuam católicos (90%). Quase todos fazem questão de dizer que são bem católicos. Um deles escreveu, “Católico, graças a Deus”. Outro, “Católico, com alegria e fidelidade”.
 
Os três que não se mostram muito entusiasmados com o catolicismo explicaram: “Convicto, mas com restrições a certas infantilidades de padres e bispos”, “Católico à minha maneira” e “Católico, mas não vou à missa”. Aquele que tem restrições fez questão de acrescentar: “A igreja precisa cair na real, ser objetiva, natural e verdadeira, mais ligada ao evangelho e menos jurídica, formalista e exclusivista, com ares de absoluta!” Esse padre casado tem 74 anos e exerceu o sacerdócio de 1957 a 1969. Dos nove restantes, três não deram nenhuma informação, dois não professam nenhuma religião, um tornou-se ateu, um foi para a Igreja Católica Ortodoxa, outro para o protestantismo e o último para o espiritismo.Curiosamente, quase todos têm relacionamento muito bom (73%) ou bom (7%) com a igreja. Mais impressionante ainda é que apenas uns poucos guardam mágoas da igreja, da hierarquia ou do bispo (11%). Ninguém declarou odiar a igreja, mas um deles escreveu com letras maiúsculas: “NÃO DEVO ODIAR A IGREJA”.
 
Um dos questionários foi endereçado a um padre que, não se sabia, já havia morrido. A viúva, de 65 anos, fez questão de preenchê-lo. Ela mesma abandonou o hábito em 1978, aos 41 anos, e casou-se nove meses depois com um padre holandês 17 anos mais velho que ela. Viveram como marido e mulher até que “o Pai o chamou em 17 de junho de 1984″. Ela diz que o Martinus “era um marido, um pai, um irmão, um amigo maravilhoso”. Não tiveram filhos.
 
Carta do Coordenador da Associação dos Padres Casados de Porto Alegre ao Papa João Paulo II

Porto Alegre, 25/04/02
A Sua Santidade o Papa
Joao Paulo II
Cidade do Vaticano
Santidade, nós católicos nos cobrimos de vergonha pelos casos de pedofilia no clero católico. Mas de nada adianta lamentar-se ou denunciar a hipocrisia dos acusadores. São necessárias mudanças efetivas. Esses fatos têm um significado profético, enquanto avisam que alguma coisa no clero católico já não responde aos desígnios divinos e assopra no sentido contrário ao vento do Espírito.
Junto com um grupo de padres casados, todos fervorosos católicos, enviamos-lhe um projeto, surgido das nossas orações e preocupações. Eis o que propomos:
– Difunda-se, com urgência, o diaconato permanente, em toda paróquia e comunidade, com formação diversificada, conforme as características dos candidatos e da comunidade.
– Toda a força e energia sejam usadas para que haja uma Escola Diaconal Diocesana. Cada paróquia tenha um Corpo Diaconal que assessore e ajude o presbítero, de modo que a direção da mesma já não seja pessoal, mas grupal, salvaguardados os direitos da ordem. O tempo e o exercício da liderança colocarão em destaque os diáconos mais aptos a assumir responsabilidades maiores.
– Na falta do presbítero da paróquia por morte ou transferência, o bispo reúna os diáconos da circunscrição, com as lideranças pastorais, e escolha um deles que aceite ser ordenado presbítero.
– Depois de adequada preparação, o diácono escolhido seja ordenado presbítero, o qual será tal de nome e de fato, pois praticamente será quase sempre um “ancião”.
– A ordenação presbiteral de um diácono permanente não deve ser influenciada pelo fato de ele estar casado. O matrimônio dele será considerado uma virtude e uma vantagem, e não um defeito, como entende Paulo Apóstolo na carta a Timóteo, quando fala da esposa e dos filhos da pessoa a ser ordenada (1 Tm 3). No fim das contas, a Sagrada Escritura tem valor ou não? Ninguém tem direito de desprezar uma determinação bíblica!
Nós achamos que a abolição repentina do celibato atual seria impensável e desastrosa. Também não propomos o fim dos seminários. Mas propomos a introdução lenta de um novo tipo de sacerdócio ao lado do tradicional. A reforma proposta, além de resolver o angustiante problema das vocações, causaria uma silenciosa e salutar revolução dentro da Igreja, seria mais benéfica que um novo concílio, pelas suas inumeráveis conseqüências, e fecharia com chave de ouro o seu já extraordinário pontificado.
Santidade, pedimos-lhe a audácia de seguir Paulo Apóstolo, no seu projeto de admitir pagãos na Igreja e de rejeitar a posição preconceituosa de Pedro. Tudo isso lhe pedimos e imploramos em nome de Deus e pelo bem da Igreja. E nós nos declaramos seus admiradores, seus seguidores e seus filhos.
Agostino Giacomini
 
Fala padre! (Depoimentos)
 
Theodorus Adrianus Vreeswijk, 67, ordenado em 1961, casado 11 anos depois, quatro filhos, aposentado, residente em Goiânia, GO: Sou de origem holandesa. A minha vida inteira estimei muito as igrejas protestantes mais tradicionais. Tivemos quatro filhos: Adriano Theodoro é arquiteto e membro ativo de uma igreja evangélica; Ana Maria é estudante de história; Fernando Luís era veterinário, faleceu num acidente de trânsito e se encontra junto com o nosso Pai no céu; e João Alberto é consultor de informática.
 
Gerson da Conceição de Almeida, 65, ordenado em 1965, casado 11 anos depois, filhos e netos, advogado, residente no Rio de Janeiro: A hierarquia católica sempre responde aos períodos de crise debaixo da ótica dos poderosos. Não é de hoje que os escândalos envolvendo sexo “pipocam” nos chamados continentes pobres. O exemplo típico é quando o atual papa reúne os cardeais americanos para analisar e tomar medidas disciplinares contra os chamados padres pedófilos. Por que dá satisfação somente aos americanos do norte? Será porque é de lá que provem grande parte do dinheiro que mantém as despesas da abençoada Santa Sé?
 
Antônio Grangeiro Xavier, 69, ordenado em 1956, casado 12 anos depois, três filhos e dois netos, assessor especial do reitor da Universidade de Pernambuco, (UPE), em Recife: Convivi por 9 anos, no exterior, com comunidades jesuítas, em cerca de dez países, inclusive nos Estados Unidos, onde estudei por quatro anos e onde me ordenei. Nessas comunidades, convivi com pessoas que incluo entre as mais corretas que conheci na vida e as mais extraordinárias por suas virtudes e qualidades. Tive o grande privilégio de não ter detectado, em nenhuma delas, um comportamento religiosamente irregular do tipo a que a mídia se refere agora. Nos Estados Unidos não tomei conhecimento de nada que desabonasse o clero americano, como infelizmente vem acontecendo hoje em setores desse clero.
Cândido A. Sorenzatto, 64, ordenado em 1965, casado dez anos depois, três filhos, psicólogo em Porto Alegre, RS: Todos os anos faço uma breve avaliação de todos os candidatos ao Seminário Menor da Arquidiocese de Porto Alegre e dos que ingressam no Seminário Maior de Viamão. Em 2001 dei 57 palestras a casais e jovens, a maioria a convite de movimentos da Igreja e dos padres. Em novembro, trabalhei dois dias com os padres da Diocese de Frederico Westphalen a pedido do bispo e dos padres, abordando o tema Afetividade e Sexualidade. Mas a questão – celibato obrigatório, sim ou não? – é ainda tema proibido.
 
Júlio Ewino Ritt, 72, ordenado em 1957, casado 18 anos depois, dois filhos, advogado em Passo Fundo, RS: Em vista do escândalo que causa entre os fiéis, o incontinente deve ser excluído, reduzido ao estado laical e julgado conforme o código penal, obrigado a assumir a conseqüência do ato praticado.
 
Vitalino Cesca, 61, ordenado em 1967, casado 9 anos depois, três filhos, professor em Passo Fundo, RS: Sou favorável ao celibato espontâneo, embora reconheça que, uma vez casado e com família, o padre não poderá dedicar todo o seu tempo à pastoral. Acredito que a Igreja Católica esta próxima a abolir a obrigatoriedade do celibato. Agradeço profundamente a Deus por ter me mantido na fé. Trabalho muito na paróquia a qual pertenço.Martinus Johannes van der Horst, 76, ordenado em 1953, casado 23 anos depois, sem filhos, aposentado, residente em Natal, RN: Na Igreja Católica Romana há duas categorias (bem anti-evangélicas): hierarquia e povo. A primeira categoria sofre de uma obediência cega à pequena cúpula central, sufocando sua opinião, consciência, convicção íntima (pessoal), também a respeito da questão do celibato e suas conseqüências. A segunda categoria (povo) expressa a sua opinião de forma mais independente, mas infelizmente não tem voz. Com esta última categoria (igreja-povo), minhas relações são ótimas.
 
Antônio Bonifácio R. de Sousa, 61, ordenado em 1968, casado 13 anos depois, um filho, professor no Rio de Janeiro, RJ: Qualquer abordagem científica bem-intencionada, parta de onde partir, pode ajudar a Igreja Católica a buscar caminhos que mais se adaptem à sua missão no mundo em que vivemos.
 
João R. Lemos, 72, ordenado em 1957, casado 14 anos depois, três filhos e três netos, aposentado, residente em Maceió, AL: Hoje sou historiador com diversos trabalhos publicados sobre História Regional. A Igreja Católica não quer diálogo conosco, o que é lamentável. Mas continuo fiel a Cristo, a quem quero servir.
 
Pedro Antonio de Lima Neto, ordenado em 1967, casado 11 anos depois, consultor, residente em Brasília, DF: Como não recebi a dispensa, então acompanho tudo e não me meto em nada, apesar de saber como as coisas estão acontecendo.
 
Celibato na boca de padres casados
 
Abílio Nardelli, 71 anos, ordenado em 1956, casado 21 anos depois, um filho e dois netos, advogado em Rio do Sul, SC: O celibato é um grande dom que deve ser preservado para aqueles que se sentem capazes de vivê-lo e livre para aqueles que não se sentem capazes para tanto. Isto é, deveria haver opção para o celibato e para o casamento dentro do sacerdócio católico.
 
Luís Guerreiro P. Cacais, 73, ordenado em 1956, casado 19 anos depois, um filho, tradutor, residente em Brasília, DF: O celibato, conquanto deixe a pessoa vulnerável em muitos aspectos, também deixa o clérigo mais livre para o serviço dos homens. Isto é claro. Mas o casamento humanizaria mais o padre católico, tornado-o mais maduro, acercando-o muito mais dos problemas da comunidade a qual serve. Nesse aspecto, a Igreja Católica, presidida e dominada por celibatários, perdeu muito terreno em relação a outras igrejas.
 
Silvino Aluísio Werlang, 71, ordenado em 1957, casado 18 anos depois, um filho (adotivo), professor aposentado em Paverama, RS: Sou a favor do celibato opcional, mas o padre casado deve ter uma profissão para não depender em nada da Igreja, em moeda. Os que estão casados e querem voltar, que seja só nos fins de semana.
 
Guerino Ninim, 65, ordenado em 1964, casado 12 anos depois, sem filhos, professor em Bauru, SP: A ordenação para exercer os ministérios deve ser dada a homens e mulheres, casados ou não, mas que tenham disposição para se oferecerem a Cristo como apóstolos de seu evangelho. Deve ser incentivada a vida de perfeição evangélica a homens e mulheres que queiram se entregar a Cristo para viverem a castidade, a pobreza e a obediência na vida religiosa.
 
Jorge Solano, 55, ordenado em 1973, casado 10 anos depois, três filhos, professor em Vila Velha, ES: A abolição do celibato, parece-me, não aboliria os escândalos. Sabemos que muitos homens casados são homossexuais e pedófilos. Entretanto, embora considere que tais situações nada tenham a ver com o celibato, penso que a manutenção dessa exigência representa uma grande equívoco histórico da hierarquia católica, que, a despeito de todo seu empenho em promover uma evangelização atenta aos desafios da contemporaneidade, emperrou numa tradição exclusivamente canônica, cuja defesa torna-se cada vez menos convincente.
 
Thomas Hallan, 60, ordenado em 1981, casado sete anos depois, um filho, administrador e coordenador pastoral, residente em Estância, SE: O problema do celibato é profundo, complexo e abrangente. Qualquer mudança vai mexer com toda a estrutura da Igreja Romana. Não será tão logo. A abertura para o casamento do clero vai abalar o poder e o controle dos bispos sobre o padre.
 
Mais Depoimentos… 
 
Áureo Kaniski – João Paulo II nunca nos acolheu como pai querido
O capixaba Áureo Kaniski acaba de completar 79 anos. Dedicou um quarto de sua vida ao ministério sacerdotal na Igreja Católica (de 1952 a 1971). Hoje não passa de um padre casado e cassado. Professor aposentado de filosofia, sociologia e psicologia, e casado desde a idade de 52 anos, Áureo não se conforma com a lei da Igreja que amarra o exercício do ministério sacerdotal ao celibato obrigatório. A sua discordância é tão grande que, no início deste ano, publicou o livro Obstinação Eclesiástica e Celibato Sacerdotal pela Editora Ser (Caixa postal 50 – 70359-970 Brasília, DF – Telefax: 61 242-6408).
 
Áureo faz questão de enfatizar que é católico apostólico romano, mas guarda mágoas com a hierarquia eclesial, principalmente com o papa, do qual seus avós eram conterrâneos (daí o sobrenome Kaniski). Teve uma crise de desânimo quando ouviu o grito habemus papam no pátio da escola em que lecionava português, em Vitória, ES, no dia 16 de outubro de 1978. O papa eleito naquele dia era o polonês Karol Wojtyda, representante de uma ala ultraconservadora da Igreja. Casado havia três anos, Áureo perdeu a esperança de ver algum dia rompido o arame farpado que separa o sacerdócio do matrimônio.
 
Segundo Áureo, João Paulo II, por ocasião de uma visita aos EUA em 1987, teria declarado a um grupo de jornalistas: “Acho que vai ser inevitável que se chegue aos padres casados, mas não quero que isso aconteça durante o meu pontificado” (p. 44). O papa, queixa-se o padre casado, “nunca nos acolheu como pai querido” (p. 131).
 
O autor de Obstinação Eclesiástica cita vários dados que mostram o declínio do número de fiéis e sacerdotes da Igreja Católica na África, Alemanha, Bélgica, Espanha, EUA, França, Inglaterra, Irlanda e Polônia. A causa de tudo isso é o celibato não opcional, mas obrigatório. Em vez de seminários cheios de vocações, Áureo prefere dizer “cheios de desistências” (p. 61). Segundo ele, há “aproximadamente 150 mil padres casados em todo o mundo” (p. 47). Pode parecer exagero, mas esse dado foi retirado do livro A Vida Sexual do Clero, de um jornalista espanhol.
 
Áureo chama o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, de “principal guardião da doutrina católica e escudeiro do papa” (p. 118).
 
Para proteger a Igreja, o quase octogenário padre casado Áureo Kaniski explica que “todas as mazelas que partem do corpo místico de Cristo são de inteira responsabilidade de seus membros” (p. 106). Parece esquecer a própria idade quando lembra que Roma nos fala “por intermédio de seus dirigentes septuagenários, sexagenários, que não têm a menor condição de acompanhar a necessidade premente de uma evangelização mais profunda, mais consciente, mais célere, concernente ao clamor do povo de Deus num mundo em transformação, momento por momento” (p. 79). Lá pelas tantas, Áureo dá o seu grito: “Deixemos de colocar nas alturas a Igreja Católica!” (p. 109).Nonato Silva – o celibato (voluntário) foi feito para o homem, e não o homem para o celibato (obrigatório)
 
O ministério sacerdotal de Nonato Silva, 84, durou apenas oito anos e está espremido entre sua ordenação (1945) e seu casamento (1953). Doutor em filologia romântica, Nonato está casado pela segunda vez (a primeira esposa morreu em 1992) e tem um filho e dois netos.
 
Ele enxerga quatro linhas de ação na história do celibato no Brasil. Do século 17 aos primórdios do século 20, a lei do celibato era inócua e os padres faziam sexo a torto e a direito.
 
Na primeira metade do século 20, os padres quebravam o celibato, casavam-se no civil ou viviam maritalmente, mas se afastavam das funções sacerdotais, por vontade própria ou por imposição episcopal. Na segunda metade do século 20, os padres se desincompatibilizavam do múnus sacerdotal e casavam-se, ora no civil ora no religioso. No presente, a tendência é em direção ao homossexualismo, à libidinagem, ao aliciamento de menores, ao atentado ao pudor, à violência sexual, ao estupro, ao lesbianismo entre as monjas. Segundo Nonato, “trata-se de verdade inconcussa e inabalável, aqui e no mundo”.
 
Essas informações estão no pequeno livro Filhos da Batina, escrito por Nonato Silva e publicado pela Editora Ser (Caixa Postal 50 – CEP 70359-790 – Brasília, DF). O autor cita em ordem alfabética e não cronológica o nome de 44 sacerdotes que “filharam sem despir-se da batina, em pleno exercício sacerdotal, bem como seus descendentes”.
 
Dos 44 padres citados, cinco “se casaram” com duas mulheres, um com três e outro com quatro. O quanto se saiba, pelo menos treze desses padres tiveram, cada um, mais de seis filhos, alguns dos quais se tornaram famosos, como o jurista Clóvis Beviláqua (1859-1944), o escritor José de Alencar (1829-1877) e o abolicionista José do Patrocínio (1853-1905). Curiosamente, entre os filhos gerados “por baixo dos panos, com batina e tudo”, cinco tornaram-se padres, inclusive o avô de José de Alencar, o que quer dizer que o autor de O Guarani era filho e neto de padres. Dos nove filhos do padre Simão Estelita Lopes Zeles, quatro tinham nomes bíblicos (Absalão, Salomão, Samuel e Sansão). A mãe dos meninos chamava-se Margarida Gonçalves do Amor Divino e três filhos tinham o sobrenome Lopes do Espírito Santo.
 
Nonato Silva, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, garante que sua “acurada pesquisa histórica” é “sem requinte de alarde nem exibição de escândalo, sem provocação e mal-estar nem eco de vingança”.
 
Geraldo de Moura – a abolição do celibato depende de uma pena, de dois dedos e de três letras
O padre casado Geraldo de Moura, 74 anos, já não é padre, já não é católico, já não é cristão, já não é religioso. Fez-se ateu. Ordenado em 1955 com a idade de 27 anos, deixou a batina e casou-se nove anos depois. Escreveu o livro Como se Faz um Padre Celibatário em 1986, já beirando os 60 anos. Fez mestrado em letras na PUC do Rio de Janeiro e tornou-se professor da Universidade Federal do Espírito Santo, hoje aposentado. Tem dois filhos e um neto.
 
“O celibato é imposição de Roma, do Papa exclusivamente. Sua abolição depende só de uma pena, a papal, de dois dedos e de três letras, as que formam o monossílabo não, que deveria ser colocado entre as palavras “celibato” e “obrigatório”. Assim afirma Geraldo de Moura, para quem o celibato “é uma lei tardia, certamente inspirada na religião pagã”.
 
O livro de Geraldo de Moura “se baseia em fatos aceitos e confirmados pela própria Igreja, hoje condenados em sua maioria, juntamente com os processos geradores”. Ele defende a tese de que a Igreja, no passado, transformava seminaristas em padres celibatários por meio de condicionamentos. A Igreja fazia a biologia ajoelhar-se diante da teologia até transformar “os rugidos do leão no cio em suave coro angelical” ou até convencer o candidato a padre de que os testículos são “um apêndice inútil, como fora o resto da cauda para o homem chegando ao estágio de bicho anuro”.
 
Fazia-se muito uso do dualismo, doutrina pela qual se coloca uma coisa contra outra: a graça ou a carne, o céu ou o inferno, ministro casto e glorioso ou clérigo fraco e enlameado, Deus ou a mulher, amor só a Deus ou amor à mulher, celibato ou sexo, altar imaculado ou leito conspurcado, santuário do Espírito Santo ou prostíbulo. Criou-se também algumas comparações perigosas: o casamento é bom, mas o celibato é melhor; o amor carnal é excelente, mas o amor espiritual é sublime; o lar é uma delícia, mas o altar é um paraíso; a garota é a coisa mais linda, mas a virgem Maria é o esplendor do céu.Procurou-se criar antipatia pela mulher. A mulher é Eva, é Tamar, é Dalila, é Jezabel, é aquela estranha “apaixonada e irrequieta, cujos pés não param em casa”, da qual o jovem precisa se prevenir para não ser levado como “o boi que vai ao matadouro” (Pv 7.10-23). Mulher é veneno, mulher é sereia, mulher é demônio. “A bandeja do regaço feminino oferece ao padre manjar venenoso, temperado por Satanás”. Por isso mesmo, a empregada do padre tem que ser uma mulher solteirona bem tridentina e velha, feiosa e de “três dentes”. O “acautelai-vos dos cães” de Paulo (Fp 3.2) deveria ser “acautelai-vos das mulheres”. O “fora ficam os cães” de Apocalipse (22.15) deveria ser “fora ficam as mulheres”. Tudo isso porque “o canto de uma sereia pode emudecer a campainha do céu”. Por outro lado, “no oceano infinito da divindade afoga-se a paixão carnal, dilui-se o hormônio clerical”.
 
A formação do padre celibatário obrigava-o a ter náuseas do ato sexual. Assim como Abraão estava decidido a sacrificar Isaque, o sacerdote precisa sacrificar o hormônio de sua carne. “A recusa do sexo como algo inferior, baixo, comum com os brutos, desce da mente ao corpo, por efeito das interferências mútuas”. Mulher e sexo, dizia-se então, “são as mais graves ameaças que o mundo apresenta à vocação e à virtude da castidade”.
 
O ex-celibatário Geraldo de Moura explica ainda que o condicionamento não era apenas por meio de palavras, mas também por meio dos mármores brancos, das toalhas brancas, das paredes alvas e da brancura e gelidez das efígies de mármore… É nesse ambiente que o seminarista “começa a ser lavado, purificado, angelificado, seráfico, ressuscitado”.
 
O trabalho do professor Geraldo de Moura é muito sério e responde a duas perguntas que ele mesmo faz na introdução: “Por que seminaristas, sob determinadas condições espirituais e ambientais, obtêm a tranqüila esperança de jamais violarem a castidade? Por que padres, consagrados jubilosamente ao celibato, mudadas as circunstâncias, passam a repudiar os votos de castidade?
 
Para quem não quiser ter o trabalho de ler a resposta toda, ela está resumida no meio do livro: “A Igreja não gerava celibatários com recursos divinos, mas por condicionamentos graves” (p. 45).
 
Publicado pela editora do próprio autor e dedicado à esposa Terezinha e aos filhos Junior e Gete (todos os três nutrem simpatia pela igreja evangélica), o livro de Geraldo de Moura está esgotado. Em compensação, o Dicionário do Novo Testamento em português, grego e latim, também de sua autoria, ainda está à venda (Av. César Hidad, 1.181, apto. 1.906, Praia do Suá – 29050-231 – Vitória, ES).
 

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