domingo, 30 de novembro de 2014

Relembrando os 5 desafios do Papa Francisco em 2014


O Papa Francisco tem pela frente a reforma da cúria romana, o sínodo mundial sobre a família, a canonização de João Paulo II e João XXIII, a viagem à Terra Santa. Mas a tarefa central com a qual ele está fazendo história é mais profunda ainda: ajudar as pessoas a se aproximarem de Deus.

Passados os primeiros meses da surpresa da sua eleição, o Papa Francisco começa a enfrentar o ano de 2014, sem dúvida um dos mais decisivos e difíceis do seu pontificado. Apresentamos, a seguir, os cinco desafios mais importantes de Francisco para os próximos doze meses.

1. Reforma da cúria romana

A reforma dos organismos da Santa Sé e da Cidade do Vaticano, que assistem o Papa no exercício do seu ministério como sucessor do apóstolo Pedro, é sem dúvida o desafio que gerou mais expectativa.

Como ele mesmo confessou aos jornalistas na volta da sua viagem ao Brasil, o Papa deu prioridade temporal às reformas administrativas e econômicas da cúria romana, devido aos problemas objetivos que surgiram já desde antes de sua eleição.

Em particular, esperam-se passos decisivos na reforma do chamado Banco do Vaticano, por parte da comissão pontifícia para o Instituto para as Obras de Religião (IOR), verdadeiro nome desta instituição.

Por outro lado, começarão a ser vistos os resultados da comissão pontifícia sobre a organização da estrutura econômica e administrativa da Santa Sé, composta por sete especialistas em administração e finanças, de prestígio internacional, assistidos por um sacerdote.

Pessoas próximas a Francisco nos confirmaram que ele está dedicando muito tempo e energia para garantir que a Santa Sé tenha uma organização econômica transparente.

Os resultados desta tarefa do Papa não demoraram em chegar: no mês de dezembro, Moneyval, órgão de controle do Conselho da Europa contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo, reconheceu os “significativos esforços” do Vaticano para incorporar os padrões internacionais e seu compromisso com a transparência financeira.

Mas a comissão consultiva mais importante para a reforma da cúria romana é a conhecida entre os jornalistas como “G-8”, por estar composta por 8 cardeais, coordenados por Óscar Rodríguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa.

Esta comissão, que já se reuniu em outubro (analisando em particular a reforma do Sínodo dos Bispos) e em dezembro (para analisar as instituições que compõem a Santa Sé), tem como tarefa ajudar o Papa a reescrever a constituição apostólica que estabelece o papel da secretaria de Estado, bem como das congregações, tribunais, conselhos e outros organismos da Santa Sé.

A última constituição sobre o tema, “Pastor bonus”, foi redigida por João Paulo II em 1988.

Na última reunião da comissão, foi informado que o Papa decidiu aceitar a proposta dos cardeais de criar uma quarta comissão, que terá como objetivo específico evitar decidida e permanentemente qualquer caso de pedofilia dentro dos ambientes eclesiais.

Segundo explicou o cardeal Maradiaga, devido à grande tarefa confiada, a comissão para a reforma da cúria romana ainda precisará de tempo. O mais provável é que não termine em 2014. Não se trata somente de uma reforma interna da cúria romana, mas também de assegurar os instrumentos de comunhão entre a Sé de Pedro e as igrejas locais, incluindo as conferências episcopais.

A terceira reunião do conselho de cardeais acontecerá de 17 a 19 de fevereiro, antes do consistório dos cardeais do mundo inteiro, previsto para os dias 20 e 21. No dia seguinte, o Papa criará novos cardeais.

Se o Papa se ativer às normas deverá nomear pelo menos 14 novos cardeais, pois, em 22 de fevereiro, os cardeais eleitores (que ainda não cumpriram 80 anos) serão 106, e o número previsto é de 120.

O nome dos cardeais escolhidos será um novo elemento indicativo para compreender a reforma que o Papa está trazendo à Igreja.


2. Sínodo dos bispos sobre a família

Outro grande desafio que o Papa terá este ano é o sínodo dos bispos, representantes de todos os continentes, sobre a família, que se realizará no Vaticano de 5 a 19 de outubro. O Papa considera a metodologia do sínodo muito protocolar e pouco colegial. Por este motivo, ele pretende recuperar o caráter consultivo e operativo do sínodo, como acontecia na Igreja primitiva.

E já tomou as primeiras providências para isso. Antes de tudo, ao contrário do que se fazia até agora, não há encarregado da redação de um documento base que oriente (e implicitamente condicione) os temas a serem tratados; o Papa enviou a todas as dioceses do mundo um questionário de 38 perguntas, para que seja respondido não só pelos bispos, mas por todos: leigos, padres, religiosos, religiosas etc.

A secretaria de Estado reunirá as respostas em um documento tecnicamente chamado de “instrumentumlaboris”, que será a base para as discussões do sínodo.

O questionário já apresenta alguns dos temas de debate do sínodo, como, por exemplo, a situação dos divorciados que voltam a se casar, o aumento dos casais de fato, a atitude da Igreja diante das uniões entre pessoas do mesmo sexo, a educação dos filhos em situações matrimoniais irregulares.

Como explicou na apresentação do questionário o cardeal Peter Erdö, arcebispo de Budapeste e relator geral deste sínodo, a assembleia episcopal “não mudará a doutrina, e sim adotará atitudes pastorais diferentes”.

3. Canonização de João XXIII e João Paulo II

O evento do Papa que convocará o maior número de pessoas (e poderá bater um recorde histórico) já está anotado na agenda há meses: no dia 27 de abril, serão canonizados dois dos papas mais amados da história: João XXIII e João Paulo II.

Será um momento particularmente emotivo para Francisco: KarolWojtyla o nomeou como arcebispo de Buenos Aires e depois como cardeal. Por outro lado, Bergoglio nunca escondeu sua admiração por João XXIII, especialmente pela sua simplicidade e pela abertura que ele trouxe à Igreja Católica com a convocação do Concílio Vaticano II.

Apesar de ainda não estar confirmado, esta cerimônia poderia ser o primeiro ato público do qual participaria o Papa Emérito Bento XVI, um dos colaboradores mais próximos de João Paulo II.

4. Viagem à Terra Santa

Este Papa parece não ter a intenção de fazer muitas viagens internacionais, mas sem dúvida as que ele fizer serão particularmente importantes. Depois de ter reunido 3,5 milhões de pessoas na Jornada Mundial da Juventude, no Brasil, sua segunda viagem fora da Itália como Papa terá como destino a Terra Santa (Israel e os Territórios Palestinos).

O Papa anunciou no último domingo que viajará nos dias 24 a 26 de maio, em três etapas: Amã, Belém e Jerusalém.

Esta viagem é especial por três motivos. Em primeiro lugar, servirá para impulsionar a fraternidade entre cristãos e judeus, uma das tarefas que Bergoglio guarda particularmente no coração, como demonstrou em seus primeiros gestos como papa, bem como quando era arcebispo em Buenos Aires.

A fraternidade entre muçulmanos e cristãos é o segundo objetivo desta viagem e este é um tema central em alguns cantos do planeta, nos quais estas relações se degradaram, como no caso da República Centro-Africana.

Finalmente, a viagem é decisiva para a minoria cristã na Terra Santa e no Oriente Médio, vítima do fogo cruzado dos conflitos sanguinários da região.

5. Ser pastor espiritual da aldeia global

O último desafio do Papa neste ano é confirmar seu papel de pastor espiritual no mundo globalizado. O Bispo de Roma não é um pároco global, pois isso significaria não respeitar as realidades locais (paróquias), tema com o qual Francisco se preocupa especialmente. Não estamos falando disso.

O Papa, em sua tarefa de comunhão da Igreja universal como sucessor de Pedro, pode oferecer um serviço de guia espiritual para todas as pessoas que veem em sua palavra um motivo para aproximar-se de Deus.

Esta talvez seja a missão mais importante e surpreendente que o Papa começou a realizar nestes primeiros meses do seu pontificado, e que explica a sua popularidade. Suas homilias diárias são motivo de meditação cotidiana para milhões de pessoas na internet, particularmente nas redes sociais.

Até agora, os participantes destas missas eram os funcionários da Santa Sé. Mas, a partir deste ano, os convidados das missas do Papa serão fiéis das paróquias, começando pelas de Roma. Dado que a capela é pequena, cada missa terá 25 convidados.

A Eucaristia diária dará ao Papa, portanto, a oportunidade de manter-se em contato com os fiéis comuns, evitando esse isolamento no Vaticano, que ele tem evitado desde o começo do pontificado.

Por outro lado, o enorme impacto que suas palavras e atos tiveram nestes primeiros meses fez deste Papa um grande guia espiritual para milhões de pessoas, inclusive não católicas, na aldeia global.

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