domingo, 14 de setembro de 2014

Só falta ao Brasil legalizar o racismo

 Aranha durante treino: do goleiro do Santos exige-se o perdão (Foto: Ivan Storti/Santos)
 
Um historiador que pretenda contar como a sociedade brasileira lidava com o racismo após mais de um século da abolição terá no episódio envolvendo a torcida do Grêmio e o goleiro Aranha um alvo certeiro. O caso é revelador do impressionante cinismo que toma conta do país quando é preciso tratar o fato escancarado de que o racismo existe, é amplo e tem uma conexão direta com a escravidão, a condição mais abjeta à qual um ser humano pode submeter outro e que vigorou por quase 400 anos nesta terra de nosso senhor.
 
Vamos recapitular. Em 28 de agosto, Grêmio e Santos jogavam em Porto Alegre pela Copa do Brasil. No fim da partida, torcedores do clube gaúcho passaram a hostilizar Aranha, o goleiro do Santos, com algumas das mais acintosas ofensas racistas da recente história. Os torcedores foram filmados e Patricia Moreira se destacou ao ser flagrada pela ESPN Brasil chamando Aranha de macaco repetidas vezes. Desde então, os caminhos de Patricia e outros gremistas que, deixemos claro, cometeram um crime no estádio, e o de Aranha, que foi vítima deste crime, foram diferentes. Patricia experimentou solidariedade e compreensão. Aranha foi instado a ser generoso.
 
Muitos foram rápidos em avisar ao mundo que o crime não era o de racismo, mas o de injúria racista. É verdade, uma que esconde o fato de a injúria racista ser a face do racismo e estar, portanto, minimizada no Código Penal, um absurdo que o movimento negro luta para corrigir. Outros tentaram justificar o ato de Patricia e demais torcedores racistas. Alguns diretores do Grêmio cumpriram esse papel de forma triste. Outro foi Eduardo Bueno, personagem de Extraordinários, excrescência da Copa do Mundo na SporTV. Para o choque de seus parceiros Xico Sá e Hélio de la Peña, o historiador (que considera o Nordeste uma bosta) afirmou que Aranha, “um merda”, foi um “escroto” ao provocar a torcida. Não espanta que trate-se de argumento idêntico ao de um dos torcedores racistas do Grêmio em depoimento à polícia.
 
 
No programa Encontro com Fátima Bernardes, Patricia Moreira encontrou espaço para se explicar. Um desavisado concluiria que o fato de a palavra macaco ter saído da boca da jovem não foi culpa dela, mas de um “núcleo” da torcida do Grêmio que tentava desestabilizar a “inteligência emocional” de Aranha, e do córtex frontal do cérebro de Patricia, que a impelia a agir por impulso. Nem a comunidade do Facebook Patricia Moreira – Página de Apoio, que promete não deixar a torcedora só, pintaria um quadro tão positivo. Enquanto isso, exigia-se a tal generosidade de Aranha. Após a colega enfatizar o pedido de desculpas de Patricia, um comentarista na Globo do Rio Grande do Sul afirmou: “Ela pediu perdão, pediu desculpas (…) Agora cabe ao Aranha. Acho que o Aranha poderia ter esse gesto [de perdoar]“. Como o goleiro demorou a fazê-lo, configurou um absurdo, a julgar pelo pensamento, novamente, de Eduardo Bueno.
 
A solidariedade a Patricia Moreira e as tentativas de justificar os insultos são fruto óbvio do racismo entranhado na sociedade brasileira – chamar um negro de macaco não é um mero xingamento, mas manifestar a crença de que o negro é menos que um humano. A ofensa está tão incrustada que muitas pessoas nem mais conseguem reconhecer sua gravidade, e é tão comum que muitos se colocam no lugar de Patricia e pensam que poderia ter ocorrido com elas. O xingamento racista, assim, é visto como um arroubo irracional sem gravidade, e não como a face visível de um preconceito arraigado e naturalizado por um país inteiro.
 
Da mesma forma, exigir que Aranha perdoe a ofensa é uma conexão com o passado horrendo do Brasil, um no qual “eles”, os escravos, depois os libertos, depois a massa subempregada não podem ser insolentes a ponto de não aceitarem as “nossas” desculpas quando somos magnânimos e reconhecemos ter “perdido a cabeça”. É também uma forma maldosa de dizer que houve exagero e negar a ofensa. É uma ação que ignora o impacto sentido pela vítima de preconceito. “Você sente vergonha da cor da sua pele, você se sente errado, você se sente feio, você se sente menos. A pessoa vai se esforçar o resto da vida para permanecer invisível (…) pra não ser agredida”, explicou Emicida em uma entrevista um tanto didática para o site A Ponte.
 
 
Mais ainda, é uma visão de mundo que não compreende a posição inferior à qual os negros são submetidos em comparação com os brancos no Brasil – escancarada em empregos piores, salários menores e mortes em quantidade tragicamente desproporcional – e que insiste, com ignorância perturbadora, na teses de instaurar uma meritocracia a partir de condições iniciais desiguais, negando a própria existência do racismo.
 
A não ser que o Brasil esteja planejando aprovar a “Lei Patrícia Moreira” e institucionalizar a legalização do preconceito com base no “não sou racista, tenho até amigos negros”, é preciso uma mudança de rumos, de forma a não tolerar os intolerantes e não dar espaço para justificativas de um comportamento, em todos os sentidos, condenável.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário