quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Por que a Alemanha reformou seu futebol enquanto o Brasil perde espaço

 Em Gana, em 2002, durante a Copa da Coreia e do Japão: o segundo time de todos eles era o Brasil
por Luiz Carlos Azenha

Muito se falou, especialmente depois da goleada histórica da Alemanha sobre o Brasil, da reforma pela qual passou o futebol alemão desde 2000, quando o país passou por um fiasco na Eurocopa. Resumo de uma reportagem da Deutsche Welle:
Temendo um vexame nacional na Copa do Mundo realizada em casa seis anos depois, os alemães botaram a mão na massa e resolveram tratar do problema pela raiz, criando um programa nacional, inédito no mundo, de formação de jovens craques, que obrigou os 36 clubes profissionais alemães a fundarem escolinhas de futebol. Para montar os centros de formação, a Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla alemã) enviou especialistas para visitar escolas de futebol francesas, holandesas e espanholas. Hoje, o país exibe uma rede de cerca de 390 centros de treinamento, ligados aos clubes, supervisionados pela DFB e distribuídos em diversas cidades alemãs. Desde 2002, mais de meio milhão de euros foram investidos na formação de futuros jogadores. Um detalhe importante é que seleção dos talentos é feita explicitamente sem priorizar “qualidades alemãs”, como força e disciplina, mas observando sobretudo a habilidade das crianças e adolescentes no tratamento da bola.
Mas, os alemães estariam apenas interessados em resgatar o orgulho nacional? Com certeza, mas não apenas isso. Apontamos abaixo cinco outras razões:
 
1. A INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO
 
O entretenimento é uma indústria de ponta, do futuro. Quando cresce a renda, as pessoas tendem a gastar mais com a qualidade — ou o que presumem ser a qualidade — de suas horas livres. O futebol se encaixa nisso tanto quanto o cinema.
 
Os bilhões de dólares recolhidos por Hollywood para a economia americana crescentemente vem de fora dos Estados Unidos, como mostra o gráfico abaixo da revista britânica Economist:


 A linha azul escura mostra o crescimento das vendas de Hollywood fora dos Estados Unidos, em relação ao mercado doméstico. Não estamos falando em trocados, mas na casa dos R$ 80 bilhões de reais anualmente. O entretenimento é uma grande indústria, com a vantagem também de exportar os valores culturais de um país.

No estádio do Kashima Antlers, em Kashima, no Japão, em 2001, com Zico de diretor e Toninho Cerezzo de treinador: eles evoluíram e nós ficamos parados?

2. BOLAS, CAMISETAS E EMPREGOS
 
A Alemanha tem a maior indústria global de material esportivo, com Adidas e Puma empregando cerca de 60 mil pessoas e faturando perto de R$ 50 bilhões anualmente. É uma indústria com altíssima taxa de retorno, já que numa camiseta de futebol ela vende muito mais que tecido, mas identidade com atletas, clubes e nações. A Alemanha tem quatro entre os 20 clubes mais valiosos do mundo, segundo a revista Forbes. Na ponta da lista estão Real Madrid, Barcelona, Manchester United e Bayern de Munich. Estes clubes tem um grande potencial de faturamento no Exterior, como fonte de atração de compradores de suas camisetas, para não falar da valorização da marca para os patrocinadores globais.
 
3. DIREITOS DE TV
 
Os direitos de transmissão de TV são o coração do futebol. São a principal fonte de renda dos clubes, além de bombar o patrocínio da e a venda de camisetas e aumentar o faturamento com o público nos estádios. É esse dinheiro que permite aos clubes manter escolinhas de futebol, bons elencos e competir com adversários. Mas não basta a um clube ter uma boa escolinha de futebol se ele não pode manter os jogadores que desenvolve e é dominado pela praga dos empresários do futebol.
 
Um clube sem acesso à TV é um clube praticamente morto. A venda de direitos domésticos de TV rende aos clubes alemães cerca de R$ 2 bilhões anuais. Na Alemanha tanto as emissoras públicas ARD e ZDF quanto a Sky detém direitos, ou seja, não existe monopólio. Quem define prioridades são a federação e os clubes, exatamente o inverso do Brasil, onde quem tem a faca e o queijo é o conluio Globo-CBF. Quando o clube dos 13 tentou desafiar isso, como descrevemos detalhadamente em O Lado Sujo do Futebol, foi esmagado!
 
Os jogos da Bundesliga, a liga alemã, são transmitidos para 204 países no mundo. Com isso aumenta o faturamento dos clubes alemães com a venda de patrocínios, camisetas e propagandas em placas nos estádios.
 
Existe uma tremenda competição entre as principais ligas europeias pela venda de direitos de TV. As cincos maiores delas — Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha — recolhem o equivalente a R$ 15 bilhões anuais, segundo a Bloomberg.
 
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A lista acima é a dos clubes que mais faturam com a venda de direitos de TV, em euros. Real Madrid e Barcelona lideram porque, dos cinco países acima citados, só na Espanha os direitos não são vendidos coletivamente. Juntos, eles faturam metade dos direitos de todo o futebol espanhol, às custas de um maior desequilíbrio do campeonato. O mesmo acontece hoje no Brasil, com domínio completo de Corinthians e Flamengo.
 
Porém, como disse Sean Hamil, professor do centro de negócios do esporte de uma universidade de Londres, à Bloomberg, uma forma mais equitativa de distribuição garante que qualquer clube possa ganhar de outro no campeonato. A fórmula de sucesso de qualquer competição é o equilíbrio, que traz emoção a cada rodada e evita as disparadas de líderes inalcançáveis. É por isso que todas as ligas dos Estados Unidos, de basquete, futebol americano e beisebol (NBA, NFL e MLB) trabalham pelo equilíbrio entre os clubes e o desenvolvimento de mercados locais onde o clube do coração tenha relação direta, cotidiana, com os moradores da cidade ou região. Um campeonato equilibrado fortalece o conjunto dos clubes.
 
Hoje, a final da Champions League já é vista por cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo. Na África, vi pessoalmente em Freetown, Serra Leoa, em Beira, Moçambique e até na maior favela do mundo, em Kibera, Nairobi, no Quênia: pequenos empresários montando cinemas improvisados para ver os jogos de campeonatos europeus.
 
O futebol tem imenso potencial nos negócios do entretenimento do futuro, especialmente quando Índia e China forem incorporados plenamente a ele, e os alemães estão de olho em uma fatia cada vez maior deste bolo.
 
E há, além de tudo, grande potencial de segmentação. Aguardem: é questão de tempo até que os grandes jogos sejam transmitidos em cinemas de altíssima definição ou pela internet, como se faz hoje com as óperas do Metropolitan de Nova York e da Filarmônica de Berlim.
 
4. TURISMO ESPORTIVO
 
Infelizmente esta pauta escapou à mídia brasileira durante a Copa, talvez por desconhecimento. Existe uma legião dos assim chamados mochileiros do futebol. Não, não são os argentinos acampados no sambódromo de São Paulo. São fãs do bom futebol, não necessariamente desta ou daquela seleção. Vi pessoalmente sete jogos da Copa no Brasil. Poloneses, tunisianos, chineses, malaios, indianos… Na Índia, em 2002, fui à casa do craque Barreto, desconhecido no Brasil mas goleador do campeonato local. Era praticamente um centro de peregrinação de Kolkata, a antiga Calcutá. Fui a uma partida do time dele, o Mohun Bagan, em Goa, um espetáculo inesquecível (para delírio da torcida local, o time de Barreto tomou uma virada inacreditável, vencia por 2 a 0 e perdeu de 4 a 3).
 
E a Índia nunca disputou uma Copa do Mundo… ainda.
Eu não sei se ainda é, mas o Brasil até recentemente era campeão absoluto de torcedores na África, Ásia e Oriente Médio.
 
O chamado “turismo futebolístico” tem imenso potencial de crescimento e independe da Copa do Mundo. O viajante vem ao Rio de Janeiro e inclui ver uma partida no Maracanã no roteiro, assim como o brasileiro que vai a Nova York quer ver pelo menos um show da Broadway. Os alemães também estão correndo atrás disso.

Ronaldo (à direita, atrás do repórter) num blindado, chega ao estádio de Porto Príncipe para um jogo diplomático: foi 6 a 0 para o Brasil, em 2004

5. DIPLOMACIA INTERNACIONAL
 
É óbvio e não é de hoje o esforço da Alemanha para projetar uma nova imagem no mundo. Neues Museum, em Berlim. Minha filha Ana Luisa me leva para ver uma exposição sobre a relação de altos e baixos entre Alemanha e Rússia. Os “baixos” significam uma guerra atroz em que morreram 20 milhões de soviéticos; em que, na sua contra-ofensiva, soldados soviéticos cometeram milhares de estupros. Ou seja, não é nada comparável à rivalidade entre Brasil e Argentina. Mas, de fato, a relação entre alemães e russos é muito mais ampla que uma guerra devastadora.
 
Dou uma olhada no catálogo da exposição. A mostra é promovida por entidades ligadas diretamente ao governo alemão, parte de um esforço diplomático de reaproximação com os russos.
 
Hoje a Alemanha se propõe a ser a ponte entre o ocidente europeu e a Eurásia, através de Moscou. Existem sólidos negócios entre os dois países.
 
Mas, no campo das relações humanas, as memórias associadas a Hitler são impeditivas desta relação.
No livro German Genius, o jornalista Peter Watson descreve em algum detalhe o esforço dos alemães para mudar sua imagem no Reino Unido com o objetivo de atrair turistas, estudantes, investimentos e gente interessada em aprender alemão. Registre-se que, em todo o planeta, os alemães das novas gerações são campeões no conhecimento do inglês: 97% tem conhecimento básico e 25% são fluentes.
 
O futebol dispensa o idioma. É linguagem praticamente universal. É um poderosíssima arma diplomática. Atravessando de automóvel a Jordânia, a caminho do Iraque, minha equipe de televisão correu risco até se identificar: “Ah, brasileiros, o Ronaldinho!”.
 
O diretor de marketing da seleção alemã, que acompanha a delegação ao Brasil, em entrevista à ESPN Brasil, admitiu o que sempre me pareceu óbvio: as atividades de jogadores alemães no Brasil foram programadas para apresentá-los aos brasileiros como pessoas comuns, interessadas em nossa cultura. Ele falou isso com todas as letras.
 
Eu acrescentaria: talvez para desfazer a imagem de alemães frios, calculistas, cruéis e autômatos, que foi espalhada pelo mundo nos filmes de Hollywood durante e depois da Segunda Guerra Mundial.
 
*****
 
Nas minhas viagens mais recentes à África, notei um fenômeno curioso: agora, as camisetas amarelas da seleção brasileira dividem espaço com as do Barcelona e do Manchester United. Estamos perdendo espaço. O campeonato brasileiro, por outro lado, tem mínima expressão internacional: é dominado por jogos sofríveis.
 
Como demonstrado acima, o futebol não é apenas um patrimônio cultural do Brasil. Ainda que mal explorado, é também um importante patrimônio econômico e diplomático, como ficou explícito quando o Brasil levou a seleção para jogar no Haiti. Eu estava lá e vi em Porto Príncipe uma das cenas mais impressionantes de minha carreira jornalística: Ronaldo pendurado em um blindado, acompanhado nas ruas por imensa multidão de torcedores do Brasil.
 
No Mineirão, cercado de turistas estrangeiros cujas seleções nem se classificaram para a Copa, vi gente incrédula que veio ver o Brasil jogar se perguntando: o que está acontecendo? Há alguma briga entre os jogadores? Algum motivo obscuro para tamanho vexame?
 
Talvez a Alemanha perca a final da Copa para a Argentina por 7 a 0. Ou o Brasil goleie a Holanda por 8 a 0. Talvez os 7 a 1 tenham sido apenas um desastre fortuito, coisa do Sobrenatural de Almeida.
 
Mas minha impressão de leigo é de que, enquanto a Alemanha trabalhou para reconstruir seu futebol, o Brasil está a caminho de destruir um patrimônio importante de nossa jovem civilização. Tudo indica que teremos mais do mesmo. Muda-se o treinador, mas permanecerá uma estrutura que favorece cartolas pilantras, uma entidade “sem fins lucrativos” milionária — que comanda clubes majoritariamente falidos — e um grupo midiático que age como dono do futebol brasileiro.
 
PS do Viomundo: Obviamente que a tendência de uma mídia quase tão fraca quanto nosso futebol é de focar no acessório e esquecer do essencial, por motivos políticos, econômicos ou por pura incompetência.

http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/alemanha.html

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