domingo, 7 de setembro de 2014

CAFÉS Suspensos

SERÁ QUE UM DIA  PODEREMOS VER NOSSO PAÍS  COM ESSE PATAMAR DE  HONESTIDADE?

LEIA, É DE DAR INVEJA....
 
 


Cafés suspensos"
Entramos num pequeno café na Bélgica com um amigo meu e fizemos o nosso pedido. Enquanto estamos a aproximar-nos da nossa mesa duas pessoas chegam e vão para o balcão:
- "Cinco cafés, por favor. Dois deles para nós e três suspensos."
Eles pagaram a sua conta, pegaram em dois e saíram.
Perguntei ao meu amigo:
- "O que são esses cafés suspensos?"
O meu amigo respondeu-me:
- "Espera e vais ver."
Algumas pessoas mais entraram. Duas meninas pediram um café cada, pagaram e foram embora. A ordem seguinte foi para sete cafés e foi feita por três advogados - três para eles e quatro "suspensos". Enquanto eu ainda me pergunto qual é o significado dos "suspensos" eles saem. De repente, um homem vestido com roupas gastas que parece um mendigo chega na porta e pede cordialmente:
- "Você tem um café suspenso?"
Resumindo, as pessoas pagam com antecedência um café que servirá para quem não pode pagar uma bebida quente. Esta tradição começou em Nápoles, mas espalhou-se por todo o mundo e em alguns lugares é possível encomendar não só cafés "suspensos" mas também um sanduíche ou refeição inteira.
 
 
“Há muita gente a aderir?” A resposta do funcionário da pastelaria Clarinha, em Guimarães, é desarmante: pega na caixa de cartão e coloca sobre a balança. “1,210 kg” marcam os dígitos verdes do dispositivo eletrónico: “Se tirar os 200 gramas da caixa já temos mais de um quilo” de moedas.

É naquela caixa que os clientes têm deixado o seu contributo para a iniciativa “café suspenso” lançada nesta cidade pela Igreja Católica. A ideia nascida em Itália, e que se tem globalizado nos últimos anos, ganha cada vez mais adeptos um pouco por todo o país.
 
O princípio do café suspenso é simples: quando alguém vai tomar um café pode entregar o dinheiro de dois, deixando a bebida paga para que quando uma pessoa necessitada for ao mesmo estabelecimento possa bebê-la de forma gratuita. Esse café fica “suspenso” à espera de quem o peça. Em Guimarães, “não está a ser feito literalmente, mas é o mesmo espírito”, justifica o padre José Silvino, capelão da igreja de S. Pedro do Toural, na maior praça da cidade.

Com dúvidas quanto à forma como operacionalizar a ideia, Silvino optou por uma solução dupla. Se os donos ou funcionários do café conhecerem alguém que “está a pedir um café, mas está a precisar de um galão ou de um pão”, oferece-lhe o pedido. Nos restantes casos – que têm sido a maioria – os estabelecimentos comerciais aderentes têm caixas onde os clientes podem deixar o valor do café suspenso, o arredondamento da conta ou o troco. Esse dinheiro reverte depois para o fundo “Partilhar com esperança” da Diocese de Braga, que é gerido pela Cáritas, que se encarrega de fazer chegar os donativos a famílias com carências identificadas.

A ideia que José Silvino tem posto em prática não é sua. O padre vimaranense seguiu a sugestão da mensagem de Quaresma do Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga. O representante máximo da Igreja Católica na região chamou-lhe “caridade preventiva”. No texto o conceito original era também alargado: “Porque não falar também de um 'pão suspenso', 'refeições suspensas', 'medicamentos suspensos' ou 'roupas suspensas'?”, questionava o arcebispo, convidando os padres e instituições católicas a desenvolverem a ideia nas suas paróquias.

“Mediante este gesto de caridade, ao alcance de todos nós, creio que estaremos a combater de um modo directo a denominada pobreza envergonhada, que já afecta muita gente da classe média”, sublinha o arcebispo. Para o padre de Guimarães, o que mais o marcou na mensagem “foi a ideia de que o jejum da Quaresma não é tanto uma questão de renúncia, quase como um castigo que fazemos a nós próprios, mas de partilha”. E foi a essa mensagem que apelou junto dos proprietários das pastelarias mais próximas da igreja do Toural, e também nos bares do hospital da cidade (onde é capelão).

Apesar de a iniciativa terminar na próxima semana, com a Páscoa, José Silvino promete repetir a ideia nos próximos anos. “Para o ano quero um Toural suspenso”, brinca o padre, ilustrando a intenção de alargar a ideia a, pelo menos, todos os cafés e restaurantes nas imediações da principal praça de Guimarães.


O conceito terá nascido no Sul de Itália, na cidade de Nápoles, há cem anos e tinha força sobretudo na época do Natal. Mas o “caffè sospeso” foi desaparecendo na fase de crescimento económico após a II Guerra Mundial. A recessão dos últimos anos fê-lo recuperar força e globalizar-se, chegando a vários países da Europa, Estados Unidos e América do Sul. Em Portugal começou a dar os primeiros sinais no ano passado. A padaria Pabiru, na Lousã, foi uma das primeiras a aderir à ideia. Pouco tempo depois, a pastelaria Mordido, em Odivelas, também apresentava o seu café suspenso.

“Ouvimos falar através de um cliente e adaptamos o conceito ao nosso café”, conta Pedro Mordido, proprietário deste estabelecimento comercial, que até criou uma ementa especial de “suspensos” que além de café a preço mais reduzido  tem bens essenciais como pão, fruta ou sopa. Os clientes deixam, em média, 20 contributos por semana e “sempre que alguém pede, há dinheiro de lado para pagar o que consumirem”.

O exemplo da pastelaria Mordido levou um grupo de pessoas que tinha tido conhecimento da iniciativa a lançar uma petição online em que é defendido que este devia tornar-se um projeto de âmbito nacional. “Sem gastos excessivos ou mudanças na sua rotina, um simples gesto solidário pode melhorar o dia de um desconhecido e fazê-lo a si, dador, sentir que participa num projeto coletivo de afetos”, sublinhavam os primeiros subscritores de uma ideia que tem tido pouca adesão online (192 subscritores de momento).

http://www.publico.pt/local/noticia/caridade-preventiva-ou-bondade-inesperada-cafes-suspensos-estao-a-entrar-no-pais-1632050
 

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