segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Frei Betto: "PT pode ficar igual ao PMDB"

Por Eder Fonseca _Panorama Mercantil – Adepto da Teologia da Libertação, o escritor, jornalista e religioso dominicano Frei Betto é militante de movimentos pastorais e sociais, tendo ocupado a função de assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2004. Foi coordenador de Mobilização Social do programa Fome Zero. Esteve preso por duas vezes sob a ditadura militar: em 1964, por 15 dias; e entre 1969-1973. Após cumprir quatro anos de prisão, teve sua sentença reduzida pelo STF (Supremo Tribunal Federal) para dois anos.
 
Sua experiência na prisão está relatada nos livros "Cartas da Prisão", "Dário de Fernando - nos cárceres da ditadura militar brasileira" e "Batismo de Sangue". Premiado com o Jabuti de 1983, traduzido na França e na Itália, "A Mosca Azul – Reflexão Sobre o Poder", "Calendário do Poder", "Batismo de Sangue" descreve os bastidores do regime militar, a participação dos frades dominicanos na resistência à ditadura, a morte de Carlos Marighella e as torturas sofridas por Frei Tito.
 
Baseado no livro, o diretor mineiro Helvécio Ratton produziu o filme Batismo de Sangue, lançado em 2007. Frei Betto recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Assessorou vários governos socialistas, em especial Cuba, nas relações Igreja Católica-Estado. Nessa entrevista dada ao portal Panorama Mercantil, ele fala de Lula, da Igreja Católica, da abertura política e econômica em Cuba e de outros assuntos imprescindíveis ao Brasil e ao mundo.
                                                          20 de Junho de 2012 às 19:22
 
 
Para um dos principais nomes da esquerda na América Latina, o Partido dos Trabalhadores hoje é uma legenda em crise de identidade, eivada em contradições, tendo militantes combativos misturados a pessoas que estão simplesmente querendo o poder
 
 
Panorama Mercantil – A experiência de estar muito próximo ao poder como assessor especial lhe trouxe alguma experiência que não gostaria de ter presenciado?
 
Frei Betto – Foi uma experiência muito rica trabalhar como assessor do presidente Lula no programa Fome Zero. Tão rica que me permitiu produzir dois livros a respeito dela: "A Mosca Azul – reflexão sobre o poder" e "Calendário do Poder", ambos editados pela Rocco. Como descrevo em detalhes neste último livro citado, eu não gostaria de ter presenciado a morte do Fome Zero, como aconteceu quando o governo decidiu substituí-lo pelo Bolsa Família. O Fome Zero tinha caráter emancipatório; o Bolsa Família tem caráter compensatório. De qualquer modo, considero os governos Lula e Dilma os melhores de nossa história republicana.
 
Panorama – Muitos adversários do PT dizem que o partido não tem uma visão de país, falando que a única coisa que eles querem é a perpetuação na cadeira presidencial. Como vê essa afirmação?
 
Betto – O PT é, hoje, um partido em crise de identidade. E eivado de contradições. Há nele militantes combativos, comprometidos com os mais pobres, críticos ao sistema capitalista. E há também aqueles que trocaram um projeto de Brasil por um projeto de poder – conquistar espaços de poder ainda que isso exija alianças espúrias. Temo que o futuro do PT seja ficar parecido com o PMDB.
 
Panorama Mercantil – O senhor disse que o aborto é decorrência, na maioria das vezes, das próprias condições sociais de uma parcela considerável da população, ou seja, das pessoas mais pobres. O senhor é favorável então à descriminalização do aborto nesse casos?
 
Betto – Sim, sou favorável à descriminalização. Admiro o sistema francês, que permite à mulher recorrer ao serviço público de saúde quando decidida abortar. Porém, antes que o pedido dela seja atendido, ela é cercada por médicos, psicólogos e ministros de sua confissão religiosa, que tentam demovê-la do intento. E quase sempre o conseguem. Isso reduziu drasticamente o número da abortos na França, além de acabar com os abortos clandestinos, causa de morte de muitas mulheres.
 
Panorama Mercantil – A Igreja Católica vem perdendo fiéis, sobretudo para as igrejas neopentecostais. O senhor acredita que o discurso dela está "batido" e precisa ser reformado urgentemente, ou isso se dá por outras circunstâncias que fogem do controle?
 
Betto – Não é a questão do discurso, e sim da postura. A Igreja Católica precisa reformar sua estrutura ministerial e admitir ordenar sacerdotes homens e mulheres casados. O celibato deveria ser optativo. Não há fundamento bíblico para o celibato obrigatório. Prova disso é que Jesus curou a sogra de Pedro. O que faz concluir que Pedro tinha mulher (Marcos 1). E Jesus ainda escolheu Pedro para primeiro papa.
 
Panorama – A grande mídia faz vistas grossas para os principais problemas do país?
 
Betto – De modo algum. A grande mídia trata, amiúde, de problemas candentes como saúde, educação, pobreza, corrupção etc. O que faz falta é ela ouvir também os movimentos sociais, as vítimas, os excluídos. Em geral, ela é elitista, sobretudo no que concerne à cultura.
 
Panorama – O senhor tem uma visão extremamente crítica em relação aos EUA, dizendo que o país é o que mais desrespeita os direitos humanos no mundo. Acredita que exista uma solução a médio prazo para que esses desmandos não aconteçam mais, como em Guantánamo, por exemplo?
 
Betto – Minha esperança é que a atual crise do capitalismo venha a suscitar outros movimentos como Ocupem Wall Street, mais propositivos que denunciativos. O dinheiro fez a cabeça de Tio Sam e só a falta dele – como ocorre agora na União Europeia – será capaz de mudá-la.
 
Panorama – O senhor acredita que o regime cubano caminha para o capitalismo?
 
Betto – Os cubanos estão muito atentos para evitar esse risco. Não querem copiar o modelo chinês e já sabem que o estatismo total é inoperante. Assim, buscam criar um modelo híbrido, no qual os direitos sociais sejam priorizados e o socialismo não seja afetado pela iniciativa privada.
 
Panorama – Muitos militares afirmam que a Comissão da Verdade será revanchista, poupando os esquerdistas. O senhor vê possibilidades de isso acontecer realmente?
                                                                                                                                                                                                                                                                                
Betto – A Comissão deveria ser da Verdade e da Justiça. Não se justifica o Brasil fazer vista grossa frente aos crimes cometidos pela ditadura em nome do Estado. E isso nada tem de revanchismo. Revanchismo seria querer torturar os algozes ou assassiná-los. Queremos justiça, ou seja, que esclareçam como e por ordem de quem funcionava o aparelho repressivo e que paguem pelos crimes cometidos, como nós, que resistimos à ditadura, fomos dura e injustamente penalizados.
 
Panorama – Muita gente diz que a ideologia esquerda e direita não existe mais. Se não concorda com essa afirmação, então aponte para nós onde podemos encontrar esses dois pólos com clareza em nossa sociedade?
 
Betto – Nada mais ideológico do que supor que alguém prescinde de ideologia. Como assinala Norberto Bobbio, é simples: são de direita todos aqueles que consideram a desigualdade social aceitável. E de esquerda todos aqueles que a consideram uma abominação a ser erradicada.
 
Panorama – Especialistas afirmam que a luta do MST não é legítima, pois custa uma fábula aos cofres públicos. Como o senhor enxerga esse fato?
 
Betto – O MST ajuda o governo a economizar mantendo milhões de famílias sem-terra em acampamentos e assentamentos. Se ele não existisse, essa famílias teriam migrado para as cidades e engrossado o cinturão de favelas. E o governo teria que gastar mais com aparato policial, cadeias, prisões, sistema judiciário etc. Caro para o governo é o Brasil não ter feito, até hoje, a reforma agrária, na contramão do exemplo dos demais países do Continente.
 
Panorama – O presidente do PPS, Roberto Freire, disse que o ex-presidente Lula foi uma fraude política. Lula foi uma fraude política ou o melhor presidente da história desse país, como muitos dizem?
 
Betto – Lula foi o melhor presidente que o Brasil já teve. Fraude política é um comunista se aliar à direita e aos mais notórios corruptos do Brasil.
 
Panorama – O socialismo real falhou?
 
Betto – Como afirma Antonio Candido, de modo algum. Graças a ele, o capitalismo se viu obrigado a fazer inúmeras concessões, como admitir sindicatos, direitos trabalhistas, direito de greve etc. O que fracassou foi um modelo socialista autocrático, governado por uma elite distante dos anseios populares. Felizmente Cuba é uma exceção, e daí sua resistência em mais de 50 anos de revolução.
 
Panorama – Por que mesmo tendo um partido de esquerda no poder há pouco mais de 9 anos o Brasil ainda não conseguiu diminuir a gritante desigualdade social?
 
Betto – Já diminuiu bastante. As políticas sociais dos governos Lula e Dilma já tiraram mais de 20 milhões de brasileiros da miséria absoluta, reduziram o desemprego a níveis insignificantes, aumentaram a circulação de riqueza, permitiram que, hoje, haja mais gente viajando pelo Brasil em avião do que em ônibus... No entanto, falta mexer na estrutura do país, através de reformas como a agrária e a tributária, para que tais conquistas sejam duradouras e a pobreza definitivamente erradicada.
 
 

Leonardo Boff: "Israel usa métodos do nazismo"


Em entrevista ao Sul 21, o teólogo e escritor Leonardo Boff, diz que a grande contradição de Israel é ter sido vítima do nazismo no passado e hoje, no presente, utilizar seus métodos contra os palestinos; segundo ele, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, sem "senso humanitário mínimo", é um dos responsáveis pelo genocídio; "ele e todos os presidentes são vítimas do grande lobby judeu, que tem dois braços: o dos grandes bancos e o da mídia", diz Boff

O intelectual Leonardo Boff, um dos mais conhecidos teólogos do Brasil, concedeu uma importante entrevista à jornalista Débora Fogliatto, do portal Sul 21 (leia aqui a íntegra), em que aborda o massacre na Faixa de Gaza, que já deixou mais de mil mortos desde o seu início, há vinte dias. Segundo ele, embora tenha sido vítima do nazismo, Israel hoje adota os mesmos métodos. E Gaza, diz ele, é um imenso "campo de concentração".
 
Na entrevista, ele responzabiliza diretamente os Estados Unidos pelo conflito. "Eu acho que grande parte da culpa é do Obama, que é um criminoso. Porque nenhum ataque com drones (avião não tripulados) pode ser feito sem licença pessoal dele. Estão usando todo tipo de armas de destruição, fecharam Gaza totalmente, ficou um campo de concentração, e vão destruindo. Então eles têm um país que foi vítima do nazismo e utiliza os métodos do nazismo para criar vítimas. Essa é a grande contradição", diz Boff.
 
O teólogo menciona ainda a força do sionismo nos Estados Unidos. "Os Estados Unidos apoiam, o Obama e todos os presidentes são vítimas do grande lobby judeu, que tem dois braços: o braço dos grandes bancos e o braço da mídia. Eles têm um poder enorme em cima dos presidentes, que não querem se indispor e seguem o que dizem esses judeus radicais, extremistas e que se uniram à direita religiosa cristã. Isso está aliado a um presidente como Obama que não tem senso humanitário mínimo, compaixão para dizer ´acabem a matança´", diz ele
 
Segundo Boff, apenas uma pessoa teria autoridade para conduzir o processo de paz: o papa Francisco. "Esse Papa é absolutamente contemporâneo e necessário. Acho que é o único líder mundial que tem audiência e eventualmente poderia mediar essa guerra de massacre criminosa que Israel está movendo contra Gaza."
 
Ele também falou sobre as eleições presidenciais deste ano no Brasil. "Mesmo com todos os defeitos e violações de ética que houve, erros que o PT cometeu, ainda assim o projeto deles é o mais adequado para levar adiante um avanço. Agora se for ganhar para avançar, porque se for para reproduzir dá no mesmo do que outro ganhar."
 

As cidades não se comunicam com os pedestres

O leitor já deve ter se deparado com a seguinte situação ao caminhar por ruas e avenidas de qualquer cidade brasileira: você precisa chegar a algum lugar, um determinado endereço que sabe estar próximo. Procura uma placa de sinalização, muitas vezes inexistente, mas ao finalmente encontrá-la, ela aponta um caminho, mas... que caminho?
 
Você sabe que essa localidade está à sua esquerda, mas a placa aponta a necessidade de pegar a direita e fazer uma conversão mais à frente. Se você está a pé, que sentido faz isso? Nenhum, claro. O que acontece é que essa sinalização não “fala” com o pedestre. Ela se dirige, exclusivamente, aos seres devidamente motorizados.
 
Esse não é um caso isolado. Cerca de 90% de toda a sinalização existente em nossas cidades são dirigidas para motoristas, ou seja, para um público que, nem ao menos representa a maioria dos deslocamentos nas cidades.
 
 
Uma recente pesquisa divulgada pelo Datafolha em São Paulo constatou que o ônibus é o principal meio de transporte diário das pessoas, com 79% das respostas. Em seguida vem o metrô, com 39%, e só em terceiro lugar aparecem os carros, com 17%, um pouco à frente dos usuários de vans, lotações e peruas, com 13%.  Ainda segundo a pesquisa, 7% dos entrevistados disseram andar apenas a pé.
 
Uma campanha do portal Mobilize especializada em mobilidade urbana e denominada Sinalize quer contribuir para mudar essa realidade.
 
Para os organizadores do movimento, o objetivo não é “encher as cidades de placas” que, obviamente, contribuiriam para uma enorme poluição visual, mas buscar melhor interação e conforto para pedestres, ciclistas e usuários de transporte público.
 
Aliás, outra questão apontada pelo Mobilize é exatamente a atenção que se dá aos passageiros de ônibus que, em geral, é nenhuma! Basta estar em algum ponto de ônibus e tentar descobrir quais linhas passam por ali, os respectivos itinerários e indicação de locais de interesse como hospitais, serviços públicos diversos e pontos turísticos.
 
Também de modo geral os ciclistas não são contemplados com placas específicas para esses usuários, com exceção a locais perigosos nos quais os riscos de acidentes são enormes.
 
Os cuidados, então, com a segurança dos deficientes visuais, como a instalação de sinais sonoros, é praticamente inexistente. Fato que prejudica demais a mobilidade e a independência colocando em risco a própria integridade física dessas pessoas.
 
Várias cidades do mundo, como Londres, Nova York e Paris, já possuem uma série de sinalizações positivas que contribuem para melhorar e facilitar a vida das pessoas. São totens estrategicamente localizados, mapas e indicações de pontos de interesse que ajudam muito os pedestres a se movimentar com rapidez e segurança nessas metrópoles.
 
No Brasil temos um longo caminho pela frente e muitos desafios. São inúmeras as ações necessárias para tornar uma cidade mais humana, amigável e próxima dos cidadãos. E, sem dúvida, aquelas que levem a inclusão e o respeito contribuem muito para uma vida mais feliz e equilibrada.
 

Plano Nacional de Educação é esquecido por candidatos

Passada a comemoração pela aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado pela presidenta Dilma Rousseff no dia 26 de junho depois de longos quatro anos de tramitação, é hora de pensar na viabilidade do programa nos âmbitos estaduais e municipais. Aqui, a ação do governo federal é uma peça-chave e, por tratar-se de ano eleitoral, traz preocupações aos principais articuladores e movimentos ligados à causa da educação.
 
Segundo Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, em nenhum dos planos de governos apresentados por Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos existe uma priorização da implementação do PNE. “Eu fiz uma análise dos três principais candidatos à presidência e o PNE já é citado quase como uma coisa secundária”, afirma.
 
A desconsideração com o Plano Nacional de Educação, de acordo com Cara, pode prejudicar a boa execução da etapa inicial de sua implantação, vista como essencial para o cumprimento das metas. “Na prática, os futuros governadores e o futuro presidente serão responsáveis pela implementação oficial do plano. Isso significa plantar o PNE dentro do novo ciclo orçamentário, que começa em 2015, e significa também um tratamento estratégico de como cada mandato pretende cumprir as metas, naquilo que é possível cumprir em quatro anos. Claro que não dá pra implantar um plano previsto pra dez anos em quatro anos, mas o início será determinante para seu sucesso.”
 
A correta destinação das verbas para educação depende de planos estaduais e municipais, que serão feitos a partir de 2015

Previsto na Constituição, o novo PNE sucede o documento implantado de 2001 a 2010, que teve menos de um terço das metas alcançadas. Com o novo plano, o Brasil almeja erradicar o analfabetismo e aumentar a taxa de escolaridade da população. Atualmente, segundo a última medição do Ministério da Educação (MEC), o brasileiro passa 7,4 anos na escola, uma das menores taxas da América do Sul.
 
No atual plano, enviado ao Congresso em dezembro de 2010, a principal vitória é o comprometimento de 10% do PIB para investimentos em educação, em oposição aos 5%, aproximadamente, que são destinados hoje. O documento enviado ao Congresso ainda no último governo Lula, segundo Cara, era bem mais frágil e não determinava onde deveriam estar os esforços para cumprimento das estratégias. “Seria um PNE mais fácil de ser cumprido, mas sem lançar os desafios centrais da educação. As alterações que foram feitas trazem desafios que têm de ser cumpridos em dez anos caso o País não queira ser completamente atrasado em termos de direito à educação.” afirma.
 
O desafio do governo federal em ajudar a estruturar os planos locais também preocupa o professor da Universidade Federal de Goiás Nelson Cardoso Amaral, especialista em educação. Segundo ele, a construção destes projetos, que deve ser feita em um ano a partir de 2015, viabilizará, ou não, o uso correto do dinheiro. “Se não for possível articular esse processo todo em volta do financiamento, a União pode até repassar o dinheiro, mas não haverá grandes melhorias”, afirma.
 
Ainda há, segundo ele, uma questão delicada que diz respeito à autonomia dos estados. “O que o Fundeb já faz é obrigar com que o estado gaste aquele dinheiro em determinada ação. E, na época, foi apresentada a alegação de que isso feria a Constituição. Foi levada ao Supremo, que decidiu que não. O Brasil vai ter que se preparar pra fazer essa articulação melhor.”
 
O deputado federal Angelo Vanhoni (PT-PR), relator do plano, também enxerga como uma questão importante a estruturação para a execução do PNE. “O plano é audacioso e prevê uma estratégia de 10 anos. Precisamos trazer a luta junto ao Congresso Nacional e aos poderes executivos municipais e estaduais para que ocorram as votações orçamentárias para o cumprimento das metas”.
 
Segundo o deputado, alguns estados têm mais dificuldade do que outros para garantir essa ação. “As realidades dos estados são muito distintas. De alguma forma, o Plano Nacional de Educação é uma forma política de colaboração entre municípios e estadosjunto ao governo federal” afirma, o que reforça a alegação de Cara sobre a necessidade de um posicionamento dos candidatos à presidência em relação à educação.
 
Para fazer essa articulação funcionar, Cara não tem dúvidas de que será necessária, ainda, a atuação da sociedade civil, que tanto ajudou a construir o plano. “A ‘sorte’ é que ninguém respeita plano de governo. Teremos que fazer com que os futuros governantes tenham clareza de que é preciso cumprir uma lei. Se não funcionar, iremos procurar o Ministério Público e as Controladorias Gerais.”
 
Bônus demográfico e universalização das matrículas
 
A tramitação do PNE levou quatro anos, um tempo que, segundo Cara, pode ter custo alto para o País. Isso porque o Brasil se aproxima do final do seu período de bônus demográfico, no qual a população ainda tem a população ativa muito maior do que a população dependente. Cara explica que, neste período economicamente mais aquecido, países como os EUA e a Finlândia aproveitaram para investir fortemente em educação e, assim, tornaram mais sólidas as bases do seu crescimento econômico. “Em uma análise bastante fria das metas, nós não avançamos nada em quatro anos. Nós deixamos de aproveitar o último bônus demográfico que o País tem.”
 
Enquanto discute-se a construção dos planos locais de educação, o Brasil tem até 2016, graças a compromissos firmados pelo governo Dilma em programas como o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa e à determinação da Constituição, para garantir a universalização das matrículas de pré-escola e também de jovens entre 15 e 17, faixa etária na qual são grandes os índices de evasão escolar. “Nós ainda estamos distantes disso e essa é a demanda mais absoluta. Perceba que o Brasil ainda tem um esforço enorme de expansão de matrícula, não se trata apenas da busca de qualidade. Qualidade e acesso são duas coisas indissociáveis no direito à educação. Mas o Brasil não tem tido capacidade de expandir educação com garantia de qualidade.” finaliza Cara.
 

Amor em 'Meteora' pinta retrato metafórico da resistência

A beleza e a crueza convivem no estrito mundo apresentado por Meteora, filme grego de Spiros Stathoulopoulos. Para a primeira noção o diretor vale-se, por exemplo, da tradicional arte dos ícones da religião ortodoxa e dos cantos bizantinos para representar o universo dos jovens protagonistas, um monge e uma freira que habitam monastérios vizinhos e se apaixonam.
 
                                Beleza e sofrimento em retrato metafórico da resistência
 
No entorno ermo e montanhoso, onde são necessários expedientes como usar cordas e cestos para subir pessoas e comida, sobrevivem rituais que contrastam na natureza primitiva e selvagem, já que ali se sugere tratar-se da atualidade. É o caso mais explícito o cabrito morto com o qual o jovem vai montar um banquete e conquistar a amada.
 
Esses são os adereços de um filme, assim como a animação utilizada para representar o imaginário de culpa do casal de noviços, de refinado e lento contar, pois o tempo ali também é outro e se mostra como que suspenso. No centro dramático está a questão de uma paixão proibida e a descoberta da sexualidade transformada em um sentimento de entrega desesperador. Não deixa de ser sintomático vir de um país em crise, cujo cinema tem se valido de uma representação direta das dificuldades, um retrato metafórico da resistência. Nesse sentido talvez o filme alcance o conflito mais belo e elevado.

Ator Robin Williams é encontrado morto nos EUA

O ator e humorista Robin Williams, de 63 anos, foi encontrado morto nesta segunda-feira 11 em sua casa, na Califórnia, nos Estados Unidos. Segundo a polícia do condado de Marin, a causa da morte foi asfixia e a suspeita é que o vencedor do Oscar tenha se suicidado.
 
                                             Ator lutava contra a depressão há algum tempo
 
De acordo com familiares e agentes do ator, ele lutava contra a depressão há algum tempo. O ator voltou a fazer, recentemente, tratamento de reabilitação no mês passado para tentar se manter sóbrio, já que ele havia voltado a ter problemas com álcool.
 
O ator já havia lutado contra o vício em cocaína e o abuso de álcool no início dos anos 1980, mas estava sóbrio há 20 anos, com a exceção de uma temporada na reabilitação, em 2006. A esposa de Robin, Susan Schneider, lamentou a morte do companheiro.
 
"Esta manhã, eu perdi meu marido e meu melhor amigo, enquanto o mundo perdeu um dos de seus mais queridos artistas.. Estou absolutamente de coração partido."
 
 

O que explica a violência contra a mulher?

Todos os dias, a auxiliar de limpeza Jaqueline Teixeira dos Santos, de 35 anos, sai de casa, no bairro de Heliópolis, na capital paulista, para ir à faculdade de Pedagogia. Em uma caminhada de 30 minutos, a passos rápidos, sobressalta-se a cada barulho ou estranho que cruza pelo caminho, mal iluminado e sem policiamento. Troca de calçada quando se depara com grupos de rapazes desconhecidos e evita usar roupas “chamativas”. Embora necessite para seus trabalhos na faculdade, prefere não levar o laptop.
 
A mais de 2 mil quilômetros dali, nas proximidades do Cabo de Santo Agostinho, cidade da região metropolitana do Recife, Madalena Barbosa, de 40 anos, abriu mão de trabalhar fora como técnica de enfermagem por causa da falta de transporte público perto de casa. A única opção a faria caminhar por um longo trecho na escuridão e sem proteção policial.
 
As duas situações ilustram o que uma pesquisa da ONG internacional ActionAid descobriu ao ouvir mulheres de baixa renda no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Segundo as entrevistadas, não é, como sugerem os machistas, a maneira de se vestir, mas a má qualidade dos serviços públicos o principal facilitador para a violência contra a mulher. A falta de iluminação nas ruas é a queixa mais frequente, seguida da falta de policiamento e do transporte precário. Questões banais como o tempo de espera no ponto de ônibus influenciam na sensação de segurança. Se o ônibus vem logo, é tranquilo. Quanto mais a condução tarda e se fica sozinha no ponto, mais aumenta o medo.
 
Falta de iluminação e policiamento, rede de transporte deficiente... Tudo aumenta o risco às mulheres
 
 
A pesquisa recolheu depoimentos dramáticos sobre situações cotidianas. Entre eles o de uma adolescente de 15 anos do Cabo de Santo Agostinho, cidade que viveu, nos últimos anos, um crescimento populacional por conta das obras do Porto de Suape. “Quem me dera se pudesse ser livre, se pudesse viver sem medo, se as ruas fossem todas iluminadas na minha comunidade, se pudesse ir sozinha para o ponto de ônibus a qualquer horário. Quem me dera ter um policiamento bom, e que eu não precisasse ter medo dele. Como seria bom se me sentisse segura no ônibus e pudesse ir nele para a escola ou para qualquer outro lugar sem ter nenhum, nem um pouquinho de medo de nada”, resumiu a menina.
 
Os alarmantes números sobre os casos de estupro explicam o temor feminino ao andar em ruas ermas e mal iluminadas. Apenas no Distrito Federal acontecem, em média, dois estupros por dia, segundo levantamento da Secretaria de Segurança Pública em delegacias da capital em janeiro e fevereiro deste ano. O Ceará, outro estado que realizou idêntica apuração, chegou a número semelhante, com 66 casos entre janeiro e fevereiro. No ano passado, foram 536 estupros, ou dez por semana. Em todo o Brasil, informa o Ipea, estima-se que, a cada ano, 527 mil cidadãos sejam estuprados, 89% são mulheres.
 
“Causa espanto descobrir que muitos desses casos de assaltos e estupros poderiam ter sido evitados se iniciativas tão simples fossem tomadas, como aumentar a iluminação das ruas”, diz Ana Paula Ferreira, coordenadora da Equipe de Direito da Mulher da ActionAid no Brasil. “A precariedade dos serviços públicos aumenta a vulnerabilidade das mulheres e contribui para elas deixarem de estudar ou trabalhar movidas pelo medo.”
 
As pesquisadoras ficaram surpresas ao descobrir que, como as mulheres da zona rural, também aquelas das zonas urbanas levavam lanterna na bolsa para se locomover pela cidade. Ou usavam a lanterna do celular para iluminar o caminho. Em alguns lugares, como Passarinho, bairro de Olinda, Pernambuco, havia vários pontos sem iluminação. Em Upanema, no Rio Grande do Norte, o grupo organizou um “lanternaço” contra a iluminação precária e, no dia seguinte, a companhia de eletricidade apareceu para corrigir os problemas.
 
A falta de policiamento, outra queixa constante, esbarra em uma realidade chocante: segundo as mulheres ouvidas pela pesquisa, a maior parte dos casos de assédio nas ruas é protagonizada pelos próprios policiais. “O despreparo da polícia é enorme, ela não é treinada para acolher a mulher”, diz Ana Paula Ferreira. “É preciso aumentar o policiamento, mas eles têm, principalmente, de ser mais bem preparados. Se não qualificar, não vai adiantar nada.”
 

Papa se encontra com idosa que foi escrava sexual durante guerra

Seul, 18 ago (EFE).- O papa cumprimentou nesta segunda-feira (data local) de maneira muito emotiva uma idosa vítima da escravidão sexual durante a Segunda Guerra Mundial na catedral de Myeongdong, em Seul, onde celebra a última missa de sua visita de cinco dias à Coreia do Sul.


O papa passou vários minutos segurando a mão de Kim Bok-dong, de 89 anos, que foi à missa em cadeira de rodas, e que era uma das sete "escravas sexuais" que participaram da cerimônia,

Kim, conhecida ativista pelos direitos deste grupo, entregou um pin com uma borboleta a Francisco, que o colocou em sua lapela.

A borboleta é o símbolo das meninas e adolescentes que o Império Japonês recrutou nos países colonizados na Ásia como escravas sexuais para seus soldados durante a Segunda Guerra Mundial, conhecidas eufemisticamente como "mulheres de conforto".

Estima-se que até 200 mil mulheres, a maioria coreanas, foram vítimas da escravidão sexual do Japão, embora pouco mais de meia centena delas permaneçam vivas e todas elas têm mais de 80 anos.

Estas, junto a outros seguidores da causa, se manifestam toda quarta-feira há 24 anos para exigir de Tóquio desculpas "sinceras", apesar de o país vizinho já ter se desculpado oficialmente em 1993.

Após o emotivo encontro com a mulher, o pontífice deu início à última missa de sua visita de cinco dias à Coreia do Sul.

A missa pela paz e pela reconciliação procura principalmente promover o entendimento e a unificação na dividida península coreana.

Após a missa em Myeongdong vai acontecer uma cerimônia de despedida e o papa partirá outra vez para Roma após cinco dias na Coreia do Sul, onde fez uma visita considerada histórica ao ser a primeira em 25 anos de um papa a este país que abriga 5,4 milhões de católicos.


http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2014/08/17/papa-se-encontra-com-idosa-que-foi-escrava-sexual.htm

Eduardo Campos é enterrado no Recife sob clima de forte comoção

 
Sob clima de forte comoção, familiares, amigos e milhares de admiradores acompanharam o enterro de Eduardo Campos, às 18h35 deste domingo (17/8). O candidato do PSB à Presidência da República foi sepultado no jazigo da família, no Cemitério de Santo Amaro, em um túmulo vizinho ao do avô, Miguel Arraes, também ex-governador de Pernambuco. Ao longo do dia, mais de 160 mil pessoas participaram das diversas cerimônias fúnebres no Recife.

O corpo de Campos foi levado ao cemitério em um carro do Corpo de Bombeiros. Em cima do veículo, além de familiares, estava a nova candidata do PSB à presidência, Marina Silva. Uma multidão acompanhou o trajeto até o cemitério, saindo do Palácio Campo das Princesas, sede do governo estadual, onde foi realizado o velório, e o cemitério.
 
 

Já no cemitério, algumas pessoas, inclusive os filhos de Campos, usaram chapéus de palha, marca do governo Arraes em Pernambuco. Pouco antes do sepultamento as pessoas entoaram o grito de "Eduardo, guerreiro, do povo brasileiro" e palavras de ordem do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Eduardo Campos, a reforma fiscal e o crescimento do país

Durante debate dos candidatos à Presidência da República na Confederação Nacional da Indústria, uma proposta, em especial, me chamou muito a atenção. Era do candidato recém-falecido, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos. Ele foi enfático ao afirmar que, na sua primeira semana de governo, se pudesse ter sido eleito, iria enviar ao Congresso Nacional uma proposta de reforma fiscal.
 
Campos queria a simplificação e a unificação de tributos, a eliminação ou redução de impostos sobre exportações e investimentos, visando minimizar a burocracia e diminuir a carga fiscal. Pessoalmente, acredito que ele cumpriria a promessa, tal a lucidez e visão de futuro do candidato. Convivi com Eduardo Campos quando ele foi ministro da Ciência e Tecnologia e me convidou para integrar o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. Mostrava-se adepto convicto da inovação e disposto a implantar a temática, de fato, no cenário político e econômico do país.
 
 
À parte a perda irreparável desse jovem e moderno líder político, o fato é que a reforma do modelo tributário nacional permanece na pauta das mudanças imprescindíveis ao Brasil. Atualmente, o sistema tributário é o principal obstáculo à retomada do crescimento econômico. Está obsoleto, ultrapassado e chegou a tal nível de complexidade que é praticamente impossível operar desse jeito sem correr riscos significativos. As regras não são claras e mudam constantemente. As empresas são obrigadas a contratar um exército de profissionais para lidar com as estruturas burocráticas e evitar notificações e multas. As pequenas empresas, mesmo as beneficiadas por regimes especiais, como o do Simples, não escapam da burocracia excessiva e dos riscos das “obrigações acessórias”.
 
A carga tributária elevada e a falta de contrapartida de prestação de serviços do setor público são fatores que agravam a situação, impõem perda de competitividade às empresas e não podem ser compensados por elementos como câmbio e juros. Uma carga tributária elevada retira capital de giro das organizações, reduz a taxa de retorno dos investimentos e inibe o apetite empresarial para a tomada de risco em novos empreendimentos. A falta de retorno em serviços, principalmente em saúde e educação pública de qualidade, ou em transporte público decente, aumenta os custos diretos e indiretos das empresas, impacta na qualidade e na oferta da mão de obra e, em alguns casos, obriga os investidores a arcar com esses custos diretamente.
 
Outro fator fundamental – decorrente do atual sistema fiscal, mas que tem impactos muito mais amplos – é a burocracia. As inúmeras regras e exigências geram efeitos semelhantes em outras áreas de governo, que passam a exigir comprovantes e certidões negativas de débitos tributários para que as empresas possam continuar a operar, participar de licitações, obter financiamentos e incentivos. Ou seja, todo o sistema de incentivos fiscais, que deveria estar voltado a ampliar a competitividade empresarial, fica condicionado ao pagamento de tributos e, o que é pior, ao cumprimento de obrigações menores.
 
Neste contexto, fica evidente que outras medidas no campo econômico, como um ajuste cambial ou uma redução da taxa de juros, apesar de positivas, não terão o mesmo impacto econômico de uma reforma fiscal, porque não resolverão o problema estrutural que afeta a base da competitividade da nossa economia. Ainda mais se compararmos nossa estrutura fiscal com a de países que adotam estratégias agressivas de crescimento, como a China ou a Coreia de Sul.
 
É preciso uma mudança radical na direção da simplificação e unificação de tributos, eliminação ou redução de impostos, para tomarmos o rumo do crescimento e do desenvolvimento econômico. Tal como na proposta do candidato falecido, Eduardo Campos.
Rodrigo da Rocha Loures, empresário, é ex-presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) e presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP).