domingo, 27 de julho de 2014

Brasil falha por excesso de governo e povo acomodado

Paulo Rabello - Doutor em Economia pela Universidade de Chicago (EUA), Diretor-presidente da SR Rating, primeira empresa brasileira de classificação de riscos de crédito. Fundador da RC Consultores.
 
Após palestra no Conexão Empresarial, da VB Comunicação, o doutor em economia Paulo Rabello disse, em entrevista a O TEMPO, que o Brasil sofre de um apagão de iniciativas e que o governo fica “como um técnico meio apalermado na beirada do campo”. 
 
Na sua opinião, por que o Brasil falha? O Brasil falha por excesso de governo e povo acomodado com a “canga” de impostos e de incompetência governamental que carrega. Se o Brasil quiser deixar de falhar e começar a triunfar, a gente tem que tirar a canga do lombo do boi, e o boi tem que virar cidadão.
 
Como se faz para tirar essa canga? Tem que votar certo. Não é necessariamente neste ou naquele nome, ele tem que buscar quem repercute um saber, fazer e planejar com um grau razoável de certeza. Esse é o começo. Em seguida, é preciso colocar o povo todo envolvido no processo, e a única maneira de fazer isso é o povo participando dos frutos do progresso, seja por meio da educação – que já seria maravilhoso colocar uma educação padrão Fifa funcionando –, e uma saúde que não deixe ninguém pendurado na fila. Então são medidas inteligentes capazes de dar ao Brasil a chance de um novo começo.
 
Votar certo é votar na manutenção desse governo atual ou mudar a cara do governo? Não é o governo que precisa mudar, o Brasil oficial precisa mudar. Nesse sentido, existe um arco de continuísmo que vem do Fernando Henrique Cardoso e desde antes dele, passando pelo Lula. De uma certa forma, embora oposição hoje, eles fazem parte de uma mesma governança do Brasil antigo. Na medida em que esses governos prometem que vão continuar na antiguidade, na velharia, na mesmice, nós só podemos esperar o mesmo resultado, que éo Brasil crescendo pouco, as máquinas de crescimento não funcionando, enferrujadas, e a gente pagando excesso de manutenção.
 
Por que, para o senhor, é bendita essa derrota do Brasil na Copa? Não poderia ser melhor, e o lugar não poderia ser mais perfeito. Minas Gerais é o centro dos acontecimentos políticos, a derrota por 7x1, do jeito que foi, virou um evento político da maior importância para os próximos cem anos no Brasil.
A seleção brasileira é reflexo do mal-estar da sociedade brasileira. Não é à toa que, entre 1958 e 1970, independentemente de ser democracia com Juscelino Kubitschek ou ditadura fechada, o fato é que o Brasil mostrava desempenho na economia. A seguir, o país perdeu esse desempenho por fatores internacionais, e nuncamais se achou, salvo brevemente no Plano Real.
 
Por que o “Mineirazzo” é uma representação do nosso estado de coisas? Porque o Brasil sofre de um apagão de iniciativas muito semelhante ao da seleção brasileira. O governo fica como um técnico meio apalermado na beirada do campo tentando emitir instruções de última hora, assim como o governo nessas últimas administrações tem vindo com pacotaços, plano Brasil isso, plano Brasil aquilo, que são remendinhos ou remendões, alguns até bem-orientados, mas são remendos, não são pensar novo. Nem a atual estrutura política permite isso, daí a necessidade de haver uma troca de geração, a velharia tem que pular fora.
 
Falando em legislação tributária, o governo é nosso maior sócio? Sócio majoritário porque ele não pergunta se o empresário lucrou, se a família teve um saldo de poupança, ele (o governo) mete a mão na frente, mete a mão na sua renda bruta, na renda bruta empresarial e na renda bruta salarial. Depois, se você pensa que parou de pagar, está iludido, é na hora que você entra no supermercado, no shopping, na casa de material de construção, no serviço público, no acender a luz da casa, no botar combustível no automóvel,é que você vai pagar muito mais.
 
Muito mais do que em qualquer outra sociedade em desenvolvimento? Sim, e por meio dos impostos maus, dos impostos indiretos, já que o pobre paga relativamente mais do que o mais rico porque a alíquota é a mesma para ambos, mas o pobre é mais dependente desses artigos de consumo.
E o que é preciso fazer? Primeiro, reconhecer que a máquina pública está viciada, então qualquer tentativa de agir de modo curto e seco, cortando pela metade essa vasta intromissão tributária, vai dar uma revolução sangrenta, o brasileiro não precisa fazer isso. Existe uma maneira gradual de implementar a mudança, que é pela aglutinação de categorias. Exemplo: juntar numa só categoria o PIS e a Cofins, a Cide e o IPI, junto com o próprio ICMS.
Na segunda etapa, fazer esse novo imposto de circulação de mercadorias e serviços um único tributo, como nos outros países.
 
O senhor diz que o governo virou uma peixaria. Por quê? O governo distribui cerca de 60 milhões de cheques mensalmente dentro dos programas sociais e dos pagamentos regulares, inclusive, de salários e aposentadorias.
O cidadão passa a ficar viciado naquela forma de auxílio, esse é o mal. Claro que quando se trata de uma aposentadoria ou pensão, ela é permanente.
 
Isso garante a manutenção de quem está no poder? Ah, sim, cria-se um mecanismo de controle político, não é voto certo. Espero que não seja, mas cria-se uma dependência, não resta a menor dúvida.
 
O Minha Casa, Minha Vida está sendo um bom negócio? Leva a casa e paga a vida inteira. Foi melhor ter o programa do que não ter, mas ele é cheio de buracos e merece uma reavaliação crítica para melhorar, a começar até da própria disposição físico-urbana, que mais se parece com um campo de concentração. O governo jamais apoiaria no setor privado um loteamento daqueles, que não dispõe de área comercial. Número dois: do ponto de vista financeiro, é difícil viabilizar qualquer coisa num país que pratica a taxa de juros mais elevada do mundo. Mesmo que haja subsídio, o brasileiro vai carregar pagando com a vida. É duro ver a juventude sendo, de certa forma, já aprisionada naquele compromisso financeiro.
 
O senhor utiliza a expressão “manicômio tributário e selva burocrática”. Vamos sair dessas camisas de força algum dia? Sim, e muito rápido, se o próximo governante tiver disposição para tal. Mas é uma guerra sem quartel. Quanto ao manicômio tributário, é enfrentar a questão tributária com a serenidade de quem olha pros lados, constata que o Brasil é um segregado, um excluído no conjunto das nações, porque pratica uma forma de extração de tributos, que em nenhum outro lugar do mundo existe, quer desenvolvido, quer em desenvolvimento, não tem. Só nós.
 
Qual é a sua análise do governo Dilma, o que foi e o que poderia ter sido? Eu diria, numa linha, que, enquanto governo, se caracterizou por estar terminando sem nem ter começado. Ela (Dilma) não começou, está treinando. Seguiu um script que já não era mais para ela. É lamentável, porque é como se fosse um ator que, quando recebeu a parte dele na peça, estava trocada. E quando subiu ao palco, a fala dele não correspondia nem ao momento nem ao personagem e ele ficou ali falando.
 
Da economia mineira, qual análise pode ser feita? Minas tem uma condição singular, porque é mais do que qualquer outro Estado, uma redução do quadro brasileiro, no sentido de que é um extrato, um perfume, um sumário do que nós temos de melhor e das nossas piores contradições. Por aqui, passa uma agropecuária pujante, passa um setor mineral que dispensa maiores apresentações, não incluindo petróleo, porque aí já seria demais. Tem um setor industrial manufatureiro forte.
 
A economia mineira ultrapassou as montanhas ou precisa sair mais? Precisa virar uma plataforma mundial. Acho que a mineirice é o princípio desse novo começo. Minas Gerais tem que estar à altura dessa missão que lhe é historicamente confiada. Daqui surgiu Tiradentes, não foi de outro lugar, daqui surgiu protesto, a busca do novo.
 
iG Minas Gerais | Helenice Laguardia |

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